Quase Perfeito - Capítulo 02





CAPÍTULO 2
 
     
 
 
 

CENA 01. AVENIDA VIEIRA SOUTO. EXT. DIA.

CAM abre mostrando partes do corpo de Tânia espalhados pela rua. Dos Anjos corre, se aproxima de um dos braços e o abraça, chorosa. Joanne, Élio e alguns policiais se aproximam.

DOS ANJOS (gritando) – Sai daqui. Deixa eu ficar com a minha menina, sai!

Alguns policiais tentam se aproximar, mas Joanne os impede.

ÉLIO – E agora, doutora?

JOANNE – Liga pra polícia técnica e pede para vir.

Élio sai discando o celular. Joanne olha para Dos Anjos, que chora abraçada ao corpo desfigurado de Tânia.

CENA 02. RIO DE JANEIRO. STOCK SHOTS. EXT. DIA.

SONOPLASTIA: FOR YOU – RITA ORA

Takes rápidos e pontuados dos principais pontos turísticos da cidade.

CENA 03. PRAIA DE COPACABANA. CALÇADÃO. EXT. DIA.

Dos Anjos está caminhando por ali, bastante abalada, quando Edgar e Ayres a interceptam.

EDGAR – Boa tarde, podemos conversar?

DOS ANJOS – Moço, eu não tô bem.

EDGAR – Uma maldade sem tamanho o que fizeram com a moça, a sua filha, né?

DOS ANJOS – Você viu aquilo? Foi horrível.

Edgar, sorrateiramente, dá um beliscão em Ayres, que prontamente pega o celular e começa a filmar.

EDGAR – Primeiramente, qual a sua graça?

DOS ANJOS – Meus nome é Maria dos Anjos, mas todo mundo me chama de Dos Anjos.

EDGAR – Pois bem, dona Dos Anjos, fala pra gente como era sua filha.

DOS ANJOS – A Taninha e eu de uns anos pra cá não nos dávamos muito bem. Sabe como é, né?! A gente toma algumas atitudes para tentar melhorar a vida deles, mas insistem em acharem que sabem mais da vida.

EDGAR – Eu tive a informação de que ela fazia entrega de marmitas de comida. Verdade?

DOS ANJOS – Se arriscava em cima duma moto, tadinha. Queria mesmo era ser advogada, lutar pela causa dos filhos que não tem o nome do pai na certidão. Diz ela que estava juntando dinheiro pra pagar os estudos.

EDGAR – Como a senhora soube?

DOS ANJOS – A Daiana amiga dela. Ela viu a notícia na internet e aí me ligou. Eu tava por aqui no apartamento de uma madame fazendo umas faxinas.

EDGAR – Muito triste, né?

Dos Anjos chora.

DOS ANJOS – Essa não é a lei da vida, moço. O certo é filho enterrar mãe, não ao contrário. Isso tudo é falta de Deus no coração das pessoas. Espero, de coração, que nenhuma mãe no mundo passe pelo que estou passando agora.

Dos Anjos se senta num banco próximo. Ayres para de filmar.

CENA 04. DELEGACIA. GABINETE DA DELEGADA. INT. DIA.

Élio está de pé e de frente para Joanne, que permanece sentada.

JOANNE – E aí, alguma notícia?

ÉLIO – Foi feita perícia no corpo e no local. Agora removeram o corpo pro Instituto Médico Legal e farão uma perícia mais apurada. Creio que em no máximo 12 horas, tenhamos alguma resposta.

JOANNE – Esse caso caiu como uma bomba para o nosso departamento, com perdão do trocadilho infame. Não sei o que fazer. Preciso interrogar pessoas, me mover, mas antes eu quero esse relatório.

ÉLIO – O dono da joalheria tá aí fora. Disse que quer falar o mais urgente com a senhora.

Joanne respira fundo.

JOANNE – Manda entrar.

Élio sai, pouco depois, Kléber ENTRA. Os dois se olham, sérios.

JOANNE – Senta, Kléber.

Kléber fecha a porta e se senta.

JOANNE – Foi um caso muito anormal esse roubo. Estamos estudando estratégias para desvendar esse mistério todo.

KLÉBER (sério) – Eu tô me lixando para quais meios você e esse bando de macho de farda vão utilizar. Eu exijo indenização pelas valiosas peças que essa macaca roubou, entendeu?

Em Kléber, olhar intimidador.

   

 

     
     
 
QUASE PERFEITO - CAPÍTULO 2
     
 

CENA 05. DELEGACIA. GABINETE DA DELEGADA. INT. DIA.

Joanne se levanta, surpresa.

JOANNE – Vai baixando o tom, cara. Você está falando com autoridade.

KLÉBER – Para com esse teatrinho, Joanne. Eu não brinco em serviço. Fui extremamente lesado e exijo uma compensação.

JOANNE – Acho que você está confundindo as coisas, Kléber. Eu sou delegada desse departamento de polícia e sou a chefe desse caso, portanto, baixa a crista. Aqui, nós desvendaremos o caso, acharemos os culpados e lhes daremos a punição que a justiça impor. Quanto a compensações que não sejam dessa natureza, muito provavelmente você não encontrará aqui.

KLÉBER – Eu preciso de um documento desta delegacia atestando o roubo, para que eu possa entrar com um pedido de indenização ao seguro da joalheria.

JOANNE – Traga para gente as filmagens do dia e uma lista com as joias roubadas e o valor estimado de cada peça.

KLÉBER – Ok! Espero que não demore. É o meu trabalho que está em jogo.

JOANNE – Não depende só de mim. Agora se era só isso, pode sair. Tenho outras tantas coisas para resolver.

Kléber se levanta, a olha e sai. Joanne se senta, irritada.

CENA 06. STOCK SHOTS. EXT. DIA.

SONOPLASTIA: PRA MINHA MINA – BOM GOSTO.

Tomadas de bairros suburbanos do Rio de Janeiro. Trens cortando a cidade. Ônibus lotados parando nos pontos. Camelôs e mototáxis circulando.

Close numa placa na Avenida Brasil com o letreiro: PRAZERES.

MÚSICA CESSA.

CENA 07. BAIRRO PRAZERES. RUA. EXT. DIA.

Rua esburacada, um tanto suja. Logo a frente, um ponto com três moto taxis paradas.

SONOPLASTIA: CORPO SENSUAL – PABLLO VITTAR feat MATEUS CARRILHO.

Tamires (21 anos, morena, cabelo longo e liso, trajando minissaia e cropped) vem passando pela rua, um tanto chorosa, mas sem deixar de rebolar.

SLOW MOTION: Caminha como se estivesse desfilando, os homens a olham embasbacados com sua beleza. Ela para bem em frente ao ponto das motos.

MÚSICA CESSA.

TAMIRES (voz melosa) – Eleandro, será que você pode me deixar em casa?

ELEANDRO (28 anos, negro, magro) sorri para Tamires.

ELEANDRO – Mas é claro, minha gata. Sobe na garupa do papai, vem.

Eleandro entrega um capacete para Tamires, que o coloca e sobe cheia de pose na moto. Que sai acelerada.

CENA 08. CASA DE DOS ANJOS. EXT. DIA.

Tamires está de pé na calçada, próxima ao portão. Eleandro está montado na moto.

ELEANDRO – Poxa, mentira que aconteceu isso com a Taninha?

TAMIRES – Algum infeliz matou a minha irmã, cara.

ELEANDRO – Pode crer. Que vacilão, hein, Tamires.

TAMIRES – Vacilão é pouco. Foi uma covardia sem tamanho. Mas também... A Tânia se arriscava em cima duma moto pra entregar quentinha.

ELEANDRO – Trabalho honesto como qualquer outro.

TAMIRES – Humilhação. Mas essa gente daqui de casa pensa pequeno. Eu não.

Eleandro olha Tamires com tesão e sorri.

ELEANDRO – Sabe que tu é minha mina sonho de consumo, tá ligada?

TAMIRES – Coisa que eu não faço é dá mole pra pé rapado, sem eira nem beira.

ELEANDRO – Ê, Tamires, eu sou gente boa. Tenho meu barraco aqui no bairro, meu ponto de moto. Tiro uma graninha legal pra viver. Te deixo faltar nada não.

TAMIRES – Eu não nasci pra esquentar barriga no fogão e esfriar no tanque. Olha pra mim, sou bonita, inteligente. (faz sinal da cruz) Deus me dibre de morrer nessa pocilga que chamam de bairro.

ELEANDRO – Tu é muito marrentinha.

TAMIRES – Eu não vou viver a vida miserável que a minha mãe viveu. Eu nasci pra ser da alta sociedade. Tu ainda vai me ver nas capas de revistas.

Eleandro reprova com a cabeça, liga a moto e sai.

TAMIRES (pra si) – Eleandro até que é bonitinho. Mas pobre, realmente não é pra mim.

CENA 09. MANSÃO MAGALHÃES. SALA DE ESTAR. INT. DIA.

Marta está terminando de falar ao telefone, quando Consuelo desce as escadas.

MARTA (tel.) – Tá bem, querido. Obrigado pela informação. Achei de uma falta de respeito imensa. Pode deixar que vou resolver essa situação. Tchau.

Marta desliga o telefone e se senta no sofá, sorridente. Consuelo se aproxima.

CONSUELO – Qual o motivo de tamanha alegria? Vai me dizer que a Lei Áurea foi revogada?

MARTA – Senta aqui, mamãe. Eu recebi uma ótima notícia.

Consuelo se senta ao lado de Marta.

MARTA – Sabe a mulher que assaltou a nossa joalheria e explodiu?

CONSUELO – Sei. Noticiário só dá isso.

MARTA – A senhora não sabe quem foi que cantou pra subir.

CONSUELO – Eu vi que foi uma neguinha.

MARTA – Foi a Tânia! A Tânia filha da Dos Anjos.

CONSUELO – A Dos Anjos nossa ex-empregada?

MARTA – A própria. Acredita?

Consuelo fica estarrecida.

CONSUELO – Aquela velha deve estar desorientada.

MARTA – E a polícia juntou os restos da filha dela e levou pra fazer perícia. Sei que vão demorar de 24 a 48 horas pra devolver o corpo.

CONSUELO – E o que tem isso?

MARTA – Tem que a filha da empregadinha, depois de morta, me será uma peça muito útil. Aguarde e verá!

Marta sai. Consuelo fica por ali, sentada.

CENA 11. RESTAURANTE RANGO BOM. SALÃO. INT. DIA.

Teodoro está sentado em uma das mesas tomando chá e fazendo a contabilidade, quando Daiana vem acompanhada de Joanne e Élio.

DAIANA – Teodoro, temos visita.

Teodoro fica surpreso ao ver Joanne.

JOANNE – Achei que o restaurante estaria fechado depois da misteriosa morte de uma de suas funcionárias. Pelo jeito teremos que conversar bastante.

Em Teodoro, tenso.

CENA 12. CASA DE DOS ANJOS. QUARTINHO DE SANTO. INT. DIA.

Local bem simples, paredes em chapisco. Uma grande mesa com toalha branca e em cima várias imagens de santos da igreja católica e entidades da umbanda.

Sabine (32 anos, morena, olhos verdes, cabelo longo) acende uma vela próxima a imagem de Nossa Senhora Aparecida e reza com fervor, deixando escapar algumas lágrimas, até que Tamires aparece.

TAMIRES – Sabine, sabe onde a mãe tá?

Sabine faz o sinal da cruz e volta-se para Tamires.

SABINE – Acho que ela deve estar na Zona Sul. Onde tudo aconteceu.

Sabine abraça Tamires e ambas choram.

CENA 13. RESTAURANTE RANGO BOM. SALÃO. INT. DIA.

Joanne e Élio estão sentados de frente para Teodoro e Daiana.

JOANNE – Isso daqui é um interrogatório informal, mas que pode ajudar muito a polícia. Estejam cientes que se mentirem, podem ser presos.

TEODORO – Eu não tenho nada a declarar, doutora.

ÉLIO – Mas você nem sabe o que a doutora vai perguntar.

JOANNE – Como era a Tânia aqui no trabalho? Quanto tempo ela era motogirl aqui?

Teodoro olha meio reticente para Daiana, pouco depois, volta a olhar para Joanne.

TEODORO – Tinha uns dois anos que ela tava aqui com a gente. Era uma boa entregadora de comida. Não faltava, era ágil e muito carismática. Os fregueses sempre elogiavam muito ela.

Élio vai anotando tudo.

JOANNE – A última entrega dela, para onde foi?

TEODORO – Foi para a Floresta da Tijuca.

JOANNE – Esse endereço costumava pedir comida sempre?

TEODORO – Não...Nunca pediram.

DAIANA – Todo mundo estranhou esse pedido. A Floresta da Tijuca fica meio fora de mão daqui.

JOANNE – E depois da saída dela para a entrega, houve algum contato com ela?

TEODORO – Nenhum.

DAIANA – A gente estranhou foi que ela demorou demais.

Joanne olha insatisfeita para Élio.

CENA 14. APARTAMENTO DE EDGAR. SALA. INT. DIA.

Ayres está sentada no sofá mexendo no celular, quando Edgar vem com dois copos de suco e dois sanduíches numa bandeja e deposita na mesa de centro.

EDGAR – A gente precisa se alimentar. Foram emoções fortes demais.

AYRES – Cara, você ganhou mais de cinquenta mil seguidores só com a cobertura e o depoimento da mãe da bombardeada lá.

Edgar começa a pular de alegria.

EDGAR – Hugo Gloss que me aguarde, querida. Eu vou me tornar o maior Digital influencer do Brasil. Nem que para isso eu precise de alguns meios ilícitos.

Edgar e Ayres se servem do lanche.

EDGAR (boca cheia) – Come rápido, porque a gente vai dar plantão naquela delegacia.

Ayres arregala os olhos e toma o copo de suco todo numa golada.

CENA 15. RIO DE JANEIRO. STOCK SHOTS. EXT. NOITE.

SONOPLASTIA: VOCÊ PRECISA DE ALGUÉM – JOTA QUEST FEAT. MARCELO FALCÃO.

Um giro pela Zona Sul, mostrando seus principais pontos, desde a Praia de Copacabana até o Morro do Vidigal. Take final na fachada da delegacia.

MÚSICA CESSA.

CENA 16. DELEGACIA. PÁTIO. EXT. NOITE.

Joanne e Élio descem de uma viatura e começam a caminhar em direção ao interior da delegacia.

ÉLIO – A doutora não pareceu muito satisfeita com o interrogatório feito no restaurante.

JOANNE – E não fiquei mesmo, Élio. A mulher eu até achei bem sincera, mas aquele tal de Teodoro... Aquele cara parece estar escondendo alguma coisa. E algo me diz que não é coisa boa, não.

Joanne e Élio entram na delegacia.

CENA 17. DELEGACIA. REPARTIÇÃO. INT. NOITE.

Joanne vai passando pelos corredores acompanhada de Élio, até que dá de cara com Marta.

MARTA – Que bom lhe encontrar, Joanne.

JOANNE – Algum problema?

MARTA – A gente precisa conversar.

Em Marta e Joanne se olhando. Tensão.

CENA 18. CASA DE DOS ANJOS. COZINHA. INT. NOITE.

Dos Anjos, Sabine e Tamires estão sentadas em volta de uma pequena mesa, jantando.

DOS ANJOS – Onde tá Yago, Sabine?

SABINE – Deixei dormir na casa de um amigo. Achei melhor que ele não soubesse por agora.

DOS ANJOS – Eu preciso estar forte para enfrentar o velório da minha filha.

Sabine segura a mão de Dos Anjos.

SABINE – Nós estamos com a senhora, mãe.

TAMIRES – A Tânia tinha algum seguro de vida?

DOS ANJOS – Eu não tô acreditando que você tá pensando nisso, Tamires.

SABINE ( repreendendo) – Tamires, por favor!

TAMIRES – Ei, gente, foi só uma pergunta. Eu sei que o momento é difícil, mas vai ficar ainda pior com a morte da Tânia. Ela gerava boa renda aqui pra casa. É aluguel, luz, água, compra. A aposentadoria da mamãe e o salarinho mixo que você recebe no salão, Sabine, não vão dar. Já não dava antes.

Dos Anjos se levanta, sai irritada.

SABINE – Você é bem insensível, Tamires. Tá vendo que a mamãe tá mal, machucada mesmo e só pensa nessa porcaria de dinheiro.

TAMIRES – Eu sou realista, Sabine. É dinheiro que resolve a nossa vida. Tô triste, tô chateada, mas tô pensando lá na frente. Aliás, eu sempre penso lá na frente. Vocês aqui que nunca pensam.

Sabine se levanta.

TAMIRES – Vai onde? Vai me deixar terminar de jantar sozinha, é?

SABINE – Perdi a fome. Aproveita que você pensa tão lá na frente e lava a louça do jantar, porque ela é sua hoje.

Sabine sai. Tamires volta a jantar calmamente.

CENA 19. DELEGACIA. GABINETE DA DELEGADA. INT. NOITE.

Joanne e Marta estão sentadas, uma de frente para a outra.

JOANNE – Pode começar. Qual o problema?

MARTA – Eu não vim aqui para falar do Kléber, como você deve estar achando.

JOANNE – Eu sou uma delegada, Marta. Eu não trabalho com suposições, trabalho com fatos. E meu plantão tá quase no fim, será que você poderia ser um pouquinho mais breve, por gentileza?

MARTA – Eu sou a presidente de uma ONG sobre os Direitos Humanos. E não gostei nada de saber como o corpo da Tânia está sendo tratado por vocês.

JOANNE – Houve uma morte, um assalto, tudo de maneira inédita e muito peculiar. A polícia técnica, a qual eu não me envolvo, é que está cuidando dos trâmites dessa parte. Eu não libero e nem prendo corpo morto. Eu apenas uso as informações que a polícia técnica encontra nele.

Marta se levanta, meio a contragosto.

JOANNE – Consegui te explicar direitinho, Marta? Era só isso? Passar bem.

MARTA – Tem troco.

Marta sai, Joanne ri em tom de deboche.

CENA 20. DELEGACIA. SALA DE ESPERA. INT. NOITE.

Ayres e Edgar estão por ali sentados.

AYRES – Melhor a gente ir embora, chefinho. O caso esfriou.

EDGAR – Que esfriou o quê. É na calada da noite que os babados mais fortes se arranjam. Aguarde e verás.

Nesse instante, Marta passa por ali. Edgar se levanta e se põe a sua frente.

EDGAR – Marta Beatriz Castelo Branco de Magalhães. Que honra encontrá-la aqui.

Marta sorri forçadamente.

MARTA – Sabe duma coisa, Edgar Zampari, acho que podemos formar uma ótima aliança.

EDGAR – Mas eu ficaria imensamente honrado com isso. Em que posso lhe ser útil?

MARTA – Faz uma live aí. Tenho um podre bafônico pra você alimentar sua rede social.

Edgar sorri e entrega o celular para Ayres.

EDGAR – Grava aí, Ayres. Quero live em todas as redes.

AYRES – Deixa comigo, chefinho.

Ayres começa a gravar.

AYRES – Prontinho!

Edgar sorri e se ajeita de frente para o celular.

EDGAR – Boa noite, amores e amoras. Estamos aqui com a ilustre figura da alta roda da sociedade carioca, a socialite Marta Beatriz Castelo Branco de Magalhães.

Ayres filma Marta, que sorri.

EDGAR – A Marta disse que tem um podre bafonérrimo pra gente. O que será, queridos? Tem palpites? Vai digitando aí na minha time. (a Marta) A palavra é toda sua.

Marta se aproxima do celular, sorriso malicioso.

MARTA – Eu tenho uma coisa terrível a contar. A Joanne e toda a sua equipe estão proibindo a mãe da menina da bomba de enterrá-la decentemente. Cadê a galera dos direitos humanos? Quem tá comigo, aí? Vamos forçar essa polícia de merda a tratar uma mulher negra, pobre, trabalhadora a poder ter dignidade, mesmo depois de morta. Eu tô aqui na delegacia, vem pra cá, meu povo!

Na satisfação de Marta.

CENA 21. APARTAMENTO DE JOANNE. ENTRADA. EXT. NOITE.

Joanne para o carro de frente para o portão, que começa a se abrir. Pouco depois, Kléber surge na frente do carro.

KLÉBER – A gente precisa conversar, Joanne.

Joanne acelera o carro, mas depois desliga. Bufa de ódio.

KLÉBER – Eu não vou desistir. Vai me deixar entrar?

Em Joanne.

CENA 22. CASA DE DOS ANJOS. QUARTO DE DOS ANJOS. INT. NOITE.

Ambiente simples, poucos móveis, mas impecavelmente limpo.

Dos Anjos acende uma vela para uma imagem de Iemanjá e se ajoelha de frente para ela.

DOS ANJOS  (rezando) – Salve, Estrela do Mar, deusa poderosíssima, mãe e advogada de todos os que navegam no mar agitado da vida! Peço justiça a alma da minha filha e proteção a nós que aqui ficamos. Salve, Mãe! Salve, Deusa! Salve!

Dos Anjos faz o sinal da cruz e se levanta. Nesse instante, Sabine entra com um baralho de tarô nas mãos.

SABINE (entrando) – Licença, minha mãe. Incomodo?

DOS ANJOS – Jamais, filha. Senta aqui na beirada da cama comigo.

Sabine e Dos Anjos se sentam.

DOS ANJOS – Tava fazendo o que? Jogando?

SABINE – Depois do jantar me deu uma vontade de jogar. Peguei meu baralho e fui pro quartinho de santo.

DOS ANJOS – E pensou em algo específico?

SABINE – Não, não. Eu só joguei e mentalizei essa onda de emoções que pegou a gente de surpresa. Essa partida tão misteriosa da Taninha.

Nesse instante, CAM filma Tamires que para diante da porta sem ser vista.

Corta para Sabine e Dos Anjos.

DOS ANJOS – Eu não me conformo.

Sabine se levanta, caminha pelo quarto, até que vira-se para Dos ANJOS.

SABINE – Algo não bateu, minha mãe. A matemática dessa história tá errada.

DOS ANJOS – O que você tá querendo dizer com isso? Que foi que você viu nessas cartas aí?

SABINE – Eu joguei duas vezes. E duas vezes as cartas me disseram que a senhora tá escondendo algo da gente, mãe. O que é?

Em Tamires surpresa. Dos Anjos se levanta, meio sem jeito.

DOS ANJOS (atarantada)- Sabine...Não, você deve ter visto errado. Só pode! Eu iria esconder o que?

SABINE – Realmente eu espero estar errada, minha mãe. Porque eu acho que a senhora jamais me esconderia algo dessa natureza, não é?

Dos Anjos olha séria para Sabine.

CENA 23. CASA DE DOS ANJOS. COZINHA. INT. NOITE.

Tamires lava a louça, um tanto pensativa.

TAMIRES (pra si) – O que será que a mãe tá escondendo?

Nesse instante Dos Anjos aparece.

DOS ANJOS – Falando sozinha, Tamires?

Tamires se assusta e grita.

DOS ANJOS – Te assustei?

TAMIRES – Eu tava aqui reclamando, aí esqueci da vida.

DOS ANJOS – Reclamando de que, garota?

TAMIRES – De ter que lavar louça, de contar moeda. Eu não aguento essa vida.

DOS ANJOS – Agradeça aos orixás que você tem um teto e uma comida na mesa.

TAMIRES – Vocês aqui de casa são muito mente pequena mesmo. Se conformam com o mínimo. Credo!

Tamires sai pisando duro. Dos anjos se senta, meio aérea.

CENA 24. APARTAMENTO DE JOANNE. SALA. INT. NOITE.

Kléber está sentado no sofá. Joanne vem trazendo dois copos de uísque e entrega um a ele.

JOANNE – E então, Kléber, qual foi?

KLÉBER – Vim te pedir desculpas pelas burradas que eu fiz hoje.

Joanne toma o uísque numa golada só e deposita o copo sobre a mesa.

JOANNE – Era só isso? Poderia ter mandado uma mensagem.

Kléber se levanta, deposita o copo na mesa e olha fixamente para Joanne.

KLÉBER – Não era só isso. Eu fui um babaca, um estúpido, mas eu te amo.

JOANNE – Ama? Você tá se divertindo comigo e posando de bom marido pra sociedade com a Marta. Você brinca com nós duas, não é?

KLÉBER – Eu quero terminar o meu relacionamento com ela. Mas eu preciso de tempo, tem muita coisa em jogo.

JOANNE – Dinheiro, né?

KLÉBER – Também. Mas é de você que eu gosto. É com você que eu pretendo ficar. Entende?

Joanne debocha, vai saindo. Kléber a segura forte, os dois se olham.

SONOPLASTIA: SÓ PRO MEU PRAZER – LEONI

JOANNE – Eu te odeio.

KLÉBER – Você me ama.

Kléber e Joanne se beijam.

CENA 25. STOCK SHOTS. EXT. DIA.

Sonoplastia da cena anterior continua. Imagens dos pontos turísticos do Rio amanhecendo. Último take na fachada da Confeitaria Colombo.

MÚSICA CESSA.

CENA 26. CONFEITARIA COLOMBO. INT. DIA.

Consuelo está sentada em uma mesa tomando café com Esther (55 anos, loira, muito elegante).

ESTHER – Como eu estava sentindo falta de você, amiga.

CONSUELO – Eu também. Viver no exterior é uma maravilha, mas a gente fica longe de quem a gente gosta. (dá uma golada no café) Desses prazeres aqui.

ESTHER – O nosso café é divino, né?

CONSUELO – Ainda não vi melhor. Imagino que na época dos escravos deveria ser melhor.

Esther gargalha.

CONSUELO – Essa gente negra é safada, mas é boa pro trabalho braçal. Mas os tempos são outros, né. Marta diz que eu devo moderar meu linguajar.

ESTHER – Por falar em Marta, como ela está?

CONSUELO – A mesma coisa de sempre. Não puxou nada a mim. É fraca, dependente de marido.

ESTHER – Eu, depois que enviuvei, vi que a gente vive muito bem sem homem.

CONSUELO – Sem homem, sim. Mas anda difícil eu viver sem uma dama de companhia. Lá na Inglaterra eu tive uma muito competente. Jovem, bonita e muito inteligente. Eu sentia que a Hanna era mais minha filha que a Marta.

ESTHER – Aqui no Brasil a gente não tem esse costume de ter dama de companhia, não.

CONSUELO – Eu sigo o tradicional, Esther. Gente de classe inferior tem que nos servir. Aliás, você que é frequentadora de salões de beleza, clínicas, não sabe de nenhuma jovem que queira?

ESTHER – Posso ver isso para você, Consuelo. Não prometo êxito, mas posso tentar.

CONSUELO – Ficarei eternamente grata.

Em Esther.

CENA 27. DELEGACIA. PÁTIO. EXT. DIA.

Local lotado de manifestantes com placas dos direitos humanos, rostos pintados. Joanne estaciona seu carro e logo junta uma multidão em volta.

POVO (gritando) – Queremos respeito! Queremos respeito!

Joanne tenta sair, mas não consegue. A multidão continua a gritar.

CENA 28. DELEGACIA. SALA DA DELEGADA. INT. DIA.

Joanne entra, seguida por Élio.

JOANNE (assustada) – Você viu aquilo lá fora?

ÉLIO – Quase que fizeram picadinho da senhora.

JOANNE – Foi aquela infeliz da Marta que manipulou essas pessoas.

ÉLIO – Marta é aquela moça de ontem?

Joanne faz que sim com a cabeça.

JOANNE – E o grupo que eu mandei ontem vasculhar o último endereço que a Tânia esteve, obteve alguma resposta?

Élio entrega um envelope a Joanne.

JOANNE – O que é isso?

ÉLIO – Abra!

Joanne abre e retira um papel cheio de símbolos.

JOANNE – Uma carta criptografada?

ÉLIO – Foi a única coisa encontrada lá. Sem digitais, sem móveis. Aliás, era um barraco.

JOANNE – Foi proposital terem deixado isso aqui lá.

ÉLIO – Essa daí é uma cópia. A original está com a polícia especializada.

Nesse instante alguém bate à porta.

JOANNE – Atende para mim, Élio.

Élio abre a porta. Daiana entra muito nervosa.

JOANNE – Daiana? O que você faz aqui?

DAIANA – Eu tenho uma coisa muito importante pra falar com a senhora, doutora.

JOANNE – Mas então senta. Aceita uma água?

Daiana se senta, meio confusa. Passa a mão pelos cabelos.

Élio fecha a porta, fica de pé atrás de Daiana.

JOANNE (se sentando) – Mas o que houve? Você parece desorientada.

DAIANA – Eu não sei se deveria estar aqui. Acho que não deveria.

JOANNE – É algo sobre o caso da sua amiga de trabalho, a Tânia?

Daiana olha para os lados, inquieta. Respira fundo.

JOANNE – Pode falar.

DAIANA – Eu tenho certeza que o Teodoro sabe quem armou aquilo tudo para a Tânia. E eu acho que ele pretende fugir.

Em Joanne, surpresa.

CENA 29. CEMITÉRIO. INT. DIA.

SONOPLASTIA: EPITÁFIO – TITÃS.

O caixão é carregado por quatro homens. Dos Anjos, Sabine, Tamires e Eleandro o seguem, bastante emocionados.

Corta para o caixão sendo colocado na cova. Todos ao redor choram. CLOSE em Edgar, ao longe, filmando tudo com uma câmera profissional.

EDGAR – Essa filmagem vai me render muito. Ah, mas vai.

MÚSICA CESSA.

CENA 30. RESTAURANTE RANGO BOM. ENTRADA. EXT. DIA.

Joanne estaciona a viatura com rapidez. Ela e Élio desce, seguidos por Daiana.

JOANNE – Daiana, você sabe se o Teodoro está aqui?

DAIANA – Quando eu saí daqui, ele estava.

JOANNE – Então é melhor você esperar aqui fora. Élio e eu iremos entrar.

Daiana assente com a cabeça, meio amedrontada.

Quando Joanne e Élio estão prestes a entrar, ouve-se barulho de um tiro.

ÉLIO – Foi um tiro.

DAIANA – E veio de dentro do restaurante.

JOANNE (em desespero) – Teodoro!

   

 

     

Autor:

Wesley Alcântara

Elenco:

Carolina Ferraz como Joanne Andrade
Dalton Vigh como Kléber de Magalhães
Deborah Evelyn como Marta Beatriz Castelo Branco de Magalhães
Marco Pigossi como Edgar Zampari
Letícia Persiles como Sabine dos Anjos Souza
Rômulo Estrela como Élio Fiúza
Marcello Melo Jr. como Eleandro Silva
Caio Paduan como Lucas D’Ávila
Narjara Turetta como Daiana Oliveira
Gabriella Mustafá como Tamires dos Anjos Souza
Luka como Ayres Costa
Cauã Reymond como Valeska Moretti
Ângela Vieira como Esther D’Ávila

Atores Convidados:

Stenio Garcia como Orestes Blumenau
Francisco Cuoco como Bastião Souza

Atrizes Convidadas:

Eva Wilma como Consuelo Castelo Branco
Zezé Motta como Dos Anjos

Participações Especiais:

Cris Vianna como Tânia dos Anjos
Carmo Dalla Vecchia como Teodoro Malta

Trilha Sonora:

Martelo Bigorna – Lenine (abertura)
For You – Rita Ora
Pra Minha Mina – Bom Gosto
Corpo Sensual – Pabllo Vittar feat Mateus Carrilho
Você precisa de alguém – Jota Quest feat. Marcelo Falcão
Só pro meu prazer – Leoni
Epitáfio – Titãs

Produção:


Bruno Olsen
Cristina Ravela
Rafael Oliveira


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO


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