Garotas do Rio - Capítulo 06




CAPÍTULO 06
 
     
 
 
 

VOZ DE FÁBIA – Anteriormente em Garotas do Rio... 

 


ANTÔNIA –
Fiz coisas de que me arrependo.

FÁBIA – E o que isso tem com sua gravidez? Eu juro que não estou conseguindo compreender.

ANTÔNIA – Eu não sei se estou grávida do meu marido ou do meu amante. É isso!

 


FELIPE –
Falei algo demais?

LU (disfarçando) – Não, não é isso. É que eu penso na fidelidade. O que você faria se um dia fosse traído?

FELIPE – Eu já cansei de falar isso pro Tony. (tom sério) Eu o daria um tiro.

 


PIETRO –
Você?

ANTÔNIA – Será que a gente pode conversar?

 


ANUNCIAÇÃO – Marca um dia aqui com a minha secretária pessoal. Hoje a minha agenda tá lotada.

LAURA – E se eu disser que tenho um furo de reportagem muito grande, vai me aceitar?

Nesse instante, Fábia entra e se aproxima.

FÁBIA – De que furo de reportagem você fala, mãezinha?

 


CENA 01. JORNAL GAZETA CARIOCA. REDAÇÃO. INT. DIA.

Laura olha assustada para Fábia, que caminha em sua direção.

FÁBIA – E então, mamãe, não vai falar a novidade? Eu também quero saber que furo de reportagem é esse.

ANUNCIAÇÃO (a Fábia) – Mas ela é sua mãe?

LAURA – É melhor a gente conversar em casa.

Laura vai saindo, Fábia põe-se em sua frente, olhar sério.

FÁBIA – Daqui você não sai até me explicar tudinho.

Mimi se aproxima de Anunciação.

MIMI (cochichando) – Mas essa discussão, esse reaparecimento da mãe de Fábia rende uma bela matéria, não acha?

ANUNCIAÇÃO (cochichando) – Xiu! Deixa as duas duelarem. A gente fica só de camarote.

LAURA – Que isso, minha filha? Você tá desconfiando de mim?

Laura com olhar piedoso. Fábia olha em volta e vê além de Anunciação e Mimi, vários empregados olhando.

FÁBIA – A gente conversa na minha sala.

Closes alternados. Close final em Fábia.

CENA 02. AP PIETRO. SALA. INT. DIA.

Pietro está de pé diante de Antônia.

PIETRO (sério) – Será que você poderia ser breve? Eu tenho um compromisso.

ANTÔNIA – Compromisso com aquela sem sal?

PIETRO – Não começa, Antônia. Deixa a Mimi fora dessa.

Antônia caminha pelo local, olha tudo ao redor. Pietro, visivelmente impaciente, olha as horas em seu relógio de pulso. Antônia percebe.

ANTÔNIA – Acho que não vim numa boa hora, não é?

PIETRO – Vai depender do que você vai dizer?

ANTÔNIA – Eu tô angustiada e com um problema bem sério. O que poderia ser motivo de felicidade, pra mim tem sido motivo de tristeza.

Antônia fica cabisbaixa. Pietro se aproxima e faz menção em acaricia-la, mas desiste.

PIETRO – Mesmo a gente não estando junto e não tendo a menor possibilidade de reatar, eu estou aqui pra ser um ombro amigo, pra tentar te ajudar. Mas eu preciso saber do que se trata.

ANTÔNIA – Não me deixa ainda mais mal.

PIETRO – Eu não tô compreendendo.

Antônia se afasta, ficando de costas para Pietro. Ela passa a mãos sobre os cabelos e respira fundo.

ANTÔNIA – Eu tô grávida, Pietro.

Pietro sente o impacto, mas disfarça.

PIETRO – E isso não é bom? Felicidades ao casal!

Antônia vira-se para ele.

ANTÔNIA – Acontece que eu não sei se esse filho é seu ou do meu marido.

Em Pietro, muito surpreso.

CENA 03. VILLAR DOS TELLES. ESTRADA DE CHÃO. EXT. DIA.

Donna, Marcela e o rapaz caminham pela estrada. Takes deles em vários trajetos da estrada, como: travessia de pontes velhas, enormes ladeiras.

RAPAZ – Eu tô com muita sede.

MARCELA – Não podemos parar, temos que aproveitar, antes que aquele homem nojento volte.

DONNA – Meu medo é ele encontrar a gente e tentar fazer alguma coisa.

MARCELA – Fica calma, Donna. A gente já está saindo dessa.

Eles continuam caminhando, até que se deparam com uma ponte.

RAPAZ – Não aguento mais de sede, gente. Eu vou descer esse barranco e beber água.

MARCELA – Mas pode ser suja.

RAPAZ – Nesse fim de mundo? Nesse matagal? Deve ser água limpinha e fresca. Podem ir andando, alcanço vocês já, já!

O rapaz vai descendo o barranco que há bem embaixo da ponte. Donna e Marcela continuam caminhando.

CENA 04. GAZETA CARIOCA. SALA DE FÁBIA. INT. DIA.

Fábia e Laura estão de pé, sérias.

FÁBIA – Tô esperando você me dizer qual furo de reportagem é esse.

LAURA – Tá vendo como você não confia em mim, minha filha? Eu vim aqui pra dizer pra todos que somos mãe e filha. Eu queria que o jornal em que você trabalha fizesse uma matéria carinhosa a seu respeito.

FÁBIA – Como assim?

LAURA – Agora que a gente enfim estava se dando bem, eu queria muito te fazer essa surpresa. Seria para as pessoas verem que você tem uma mãe que te ama.

Laura abre a bolsa, retira algumas fotos e joga em cima da mesa.

LAURA – Era uma homenagem. Trouxe até essas fotos nossas.

Fábia pega as fotos e olha com ternura. CAM mostra as fotos antigas de mãe e filha em diversos momentos: desde o nascimento até a pré-adolescência.

FÁBIA (sem jeito) – Eu não sabia que era isso. Achei que fosse falar da gravidez.

LAURA – E o que eu ganharia com essa história toda? Não adianta, Fábia, mesmo que eu mova céus e terras, mesmo que eu busque forças onde não tem, você vai sempre duvidar de mim, do meu caráter.

FÁBIA – Eu sou uma sobrevivente das injustiças que você foi capaz de cometer. A vida me ensinou a duvidar até da própria sombra.

LAURA – Isso é perseguição.

FÁBIA – Não. Isso é instinto.

LAURA – Eu tô indo pro CopaBar, depois de lá eu vou pra um hotel. Amanhã passo na sua casa e pego minhas coisas.

FÁBIA – Não precisa ser radical assim, Laura.

LAURA – É melhor pra mim. Eu não quero estar numa casa onde estarei à prova em todo instante. E tá na hora deu ter meu canto também.

Laura recolhe as fotos e sai. Fábia se recosta na parede, respira fundo.

CENA 05. GAZETA CARIOCA. CORREDOR. EXT. DIA.

Laura vai saindo, quando passa por Anunciação.

ANUNCIAÇÃO – E qual é o furo de reportagem?

LAURA (andando) – Esse você vai ficar sem, querida.

Laura sai andando. Mimi se aproxima com um copo nas mãos.

MIMI – Pelo jeito a conversa não foi nada boa.

ANUNCIAÇÃO – Conseguiu ouvir a conversa?

MIMI – Nada. Esse truque do copo na parede não funciona não. Pode ter certeza.

 
     

 

     
   
 
TETO DE VIDRO
     
 

CENA 06. GAZETA CARIOCA. RUA. EXT. DIA.

Laura vai saindo do prédio. Ela se põe na calçada, olha pras fotos e sorri.

LAURA – Vocês me salvaram. Agora chega de bancar a boazinha, tá na hora da verdadeira Laura Bueno aparecer.

Laura guarda as fotos e faz sinal pra um táxi.

CENA 07. STOCK SHOTS. EXT. DIA.

SONOPLASTIA: UMA LOUCA TEMPESTADE – ANA CAROLINA.

Imagens do amanhecer do Corcovado, o tempo nublado dando lugar ao sol que desponta. A suavidade das ondas da Praia de Copacabana.

MÚSICA CESSA.

CENA 08. AP PIETRO. SALA. INT. DIA.

Pietro olha surpreso para Antônia.

PIETRO – Você tem certeza do que tá dizendo?

ANTÔNIA – Eu vim aqui porque sei que você é compreensivo, que vai me entender.

SONOPLASTIA: DOIS RIOS – SKANK

No ímpeto, Pietro abraça Antônia e a beija. Tempo no beijo.

PIETRO – Obrigado por enxergar essas qualidades em mim.

ANTÔNIA – Eu não sei mais o que eu tô fazendo da minha vida. Quando essa história explodir, adeus casamento, adeus carreira.

Pietro a abraça forte.

PIETRO – Eu tô com você. Aliás, tô com vocês. Não deixarei que façam mal a vocês.

ANTÔNIA – Mas esse filho pode ser do Affonso também.

PIETRO – E esse detalhe não diminui o tanto que gosto de você e o que vem de você.

Antônia e Pietro se beijam.

MÚSICA CESSA.

CENA 09. VILLAR DOS TELLES. ESTRADA DE CHÃO. EXT. DIA.

Donna e Marcela estão caminhando, quando ouvem barulho de carro.

DONNA – Você ouviu isso?

MARCELA – Vamos nos esconder.

As duas tentam se esconder atrás de uma árvore, mas ouvem o barulho de um tiro.

MARCELA (desesperada) – Vão matar a gente, Donna. E agora?

Elas voltam pra estrada e começam a correr, mas o carro acelera e se aproxima delas. Nenzin no banco do carona com a arma apontada pra elas.

NENZIN – Mais um passo e vocês vão virar jantar de urubu.

MARCELA – Não mata a gente, por favor!

NENZIN – Entrem no carro e me levem até onde está aquele favelado.

DONNA – Você tá falando do.../

NENZIN (por cima) – Desse pivete que tava junto no bando. Onde ele tá?

Donna e Marcela se olham. Nenzin atira pro alto. As duas se assustam.

NENZIN – Entra logo, senão meto bala.

Em Nenzin sério.

CENA 10. MANSÃO QUEIRÓS. SALA DE ESTAR. INT. DIA.

Patrick está sentado no sofá, quando Affonso vem com dois copos de uísque e entrega um a Patrick.

PATRICK – Não sei nem como agradecer por tudo que tá fazendo por mim.

Affonso se senta.

AFFONSO – Fica tranquilo, esses bandidos querem só dinheiro. Vão liberar a sua esposa já, já.

PATRICK – Assim espero.

Patrick toma tudo numa golada só e se levanta.

PATRICK – Não vou mais te incomodar, Affonso. Sei que você é um cara muito atarefado e precisa cuidar das suas coisas também.

AFFONSO – Você não incomoda, cara. Fica tranquilo.

PATRICK – Preciso ir pro meu antigo apartamento. Tomar um banho e tentar descansar até os bandidos fazerem contato.

AFFONSO – Assim que fizerem contato, você me liga, tá?

PATRICK – Pode deixar.

Affonso e Patrick se cumprimentam e o segundo sai. Pouco depois, Wanessa aparece.

WANESSA – O boy da amiga da Antônia tá bem pra baixo, né, tio?

AFFONSO – Tá mesmo, coitado. Também, pudera.

Wanessa se senta.

WANESSA – Esse Rio de Janeiro tá ficando intransitável. Minha vontade é mudar pra uma dessas cidades do interior.

AFFONSO – Gente má e metida a esperta tem em todo lugar, minha querida. O problema do Rio é a alta visibilidade que a cidade tem, mas não deve nada a cidades do interior Brasil a fora.

WANESSA – Pois é. E a gente vive enclausurado dentro de casa. No final das contas, os presos somos nós.

AFFONSO – Mudando o norte da conversa, conseguiu ligar ou passar mensagem pra Antônia?

WANESSA – Consegui, tio. Ela tá vindo pra cá.

AFFONSO – Ah que ótimo.

CENA 11. VILLAR DOS TELES. CASEBRE. QUARTO. INT. DIA.

Nenzin joga Marcela, Dona e o rapaz dentro de outro quarto, que não possui janela.

MARCELA – Eu quero ir embora.

NENZIN – Não aguento mais estresse de dondoca, sabia? Eu quero só a grana do paspalho do seu marido.

MARCELA – Liga pra ele, vai.

NENZIN – Mas é isso mesmo que eu vou fazer. Antes eu só preciso disso daqui.

Nenzin segura Marcela firme pelo braço e a coloca próxima a uma parede. Um home traz um jornal e dá para Marcela segurar.

MARCELA – Pra quê isso?

NENZIN – Prova que você tá viva, florzinha.

Nenzin pega seu celular e tira várias fotos de Marcela.

CENA 12. STOCK SHOTS. EXT. NOITE.

SONOPLASTIA: PÉS CANSADOS – SANDY. Imagens da Lagoa Rodrigo de Freitas, o Corcovado todo iluminado. Último take na fachada CopaBar.

Música cessa.

CENA 13. COPABAR. SALÃO. INT. NOITE.

SONOPLASTIA: HOW DEEP IS YOUR LOVE – Calvin Harris.

Local movimentado. Vozerio, muita animação. Diego e Lu passam com bandejas cheias de bebidas e servem as mesas. Tony vem por ali e se aproxima de Lu.

TONY – Bonitinha, onde tá a Laura.

LU – Tava separando toalhas no almoxarifado.

Lu se afasta.

TONY (pra si) – Isso não é hora. Essa mulher tá enrolando no serviço, só pode.

CENA 14. COPABAR. ALMOXARIFADO. INT. NOITE.

Laura está em cima de uma cadeira retirando a câmera escondida, quando seu celular toca. Ela termina de retirar a câmera e atende o celular.

Closes alternados entre Laura no almoxarifado e Nenzin no alto de um morro.

LAURA (CEL.) – Fala comigo, Nenzin.

NENZIN (CEL.) – Eu vou negociar o resgate da menina aqui.

LAURA (CEL.) – Melhor deixar pra amanhã de dia, não acha?

NENZIN (CEL.) – É porque você tá aí no bem bom. Hoje essas merdas tentaram fugir, achei tudo na estrada. Não podemos dar mais mole não. A garota te conhece.

LAURA (CEL.) – Fica calmo. Eu acabei de achar nossa galinha dos ovos de ouro. Pode terminar com esse sequestro aí.

Laura desliga o celular e liga a filmadora e começa a ver os vídeos de Tony e Diego transando.

LAURA – Galinha não, galo gay dos ovos de ouro.

Laura começa a rir.

CENA 15. AP PATRICK. QUARTO. INT. NOITE.

Patrick vem vindo só de toalha e cabelos molhados do banheiro, quando seu celular toca. Ele atende.

PATRICK (CEL.) – Alô!

NENZIN (OFF.) – Presta atenção, mermão, vou liberar a sua dona. Tá com o dinheiro aí?

PATRICK (CEL./ SURPRESO) – Tá na minha conta. Só sacar.

NENZIN (OFF.) – Você é um burro, mermão. Onde você acha que vai sacar sessenta mil conto a essa hora?

PATRICK (CEL./ NERVOSO) – Eu dou meu jeito. Só me diz onde te encontrar.

NENZIN (OFF.) – Olha só: eu vou te esperar lá na Lagoa. Vou ficar toda hora te ligando. Tu vai deixar a grana onde eu mandar, depois vai sumir por uns minutos. Volta e vai estar o endereço de onde tua mina tá. Já adianto que não é longe.

PATRICK (CEL.) – É muito arriscado. Vai que você tá mentindo pra mim?

NENZIN (OFF.) – Ou confia assim, parceiro, ou então eu dou cabo da neguinha. Tu escolhe.

PATRICK (CEL.) – Não, não, por favor! Farei como tu mandou.

NENZIN (OFF.) – Daqui uma hora na Lagoa, ouviu?

Patrick desliga o celular. Close em sua expressão de aflito.

CENA 16. AVENIDA ATLÂNTICA. EXT. NOITE.

SONOPLASTIA: Empire State of Mind (Part II) Broken Down Alicia Keys.

Imagens aéreas do fluxo pelo local. CAM começa a acompanhar um belíssimo carro importado.

CORTA RAPIDAMENTE PARA:

CENA 17. CARRO. INT. NOITE.

A música da cena anterior continua como som ambiente. Affonso está dirigindo e Antônia está no banco do carona.

AFFONSO – Você não me disse onde passou à tarde.

Antônia arregala os olhos e engole em seco.

ANTÔNIA (sem jeito) – Ah... Afonso, eu passeei por aí. Dei uma circulada. Não aguentava mais ficar enclausurada.

AFFONSO – Acho que hoje ou amanhã os bandidos devem fazer contato. Fico com pena do Patrick. Tá que não se aguenta de tristeza.

ANTÔNIA – Eu imagino o quanto a Marcela não deve estar sofrendo. Ela, a Donna e um dos meninos da ONG.

Em Antônia, pensativa. Música Cessa.

CENA 18. CONDOMÍNIO DE LUXO. PORTARIA. EXT. NOITE.

Affonso para seu carro próximo a cabine da segurança. Tempo ali. A cancela se ergue e ele entra com o carro pelo local.

CENA 19. APARTAMENTO ANUNCIAÇÃO. SALA DE ESTAR. INT. NOITE.

Um enorme ambiente, muito bem decorado com móveis e objetos modernos. Paredes com pinturas bem feitas e emolduradas. Anunciação está por ali com o telefone em mãos.

ANUNCIAÇÃO (TEL.) – Mimi, preciso de um favor seu. Volta lá no jornal e vê se esqueci meu celular na minha sala. Se tiver lá, depois você manda por um moto táxi.

A campainha toca. Anunciação desliga o telefone e vai atender a porta.

ANUNCIAÇÃO (surpresa) – Você?

CAM revela a pessoa: Affonso.

AFFONSO – Você esqueceu uma coisa comigo.

ANUNCIAÇÃO – Provavelmente a dignidade.

Anunciação entra. Affonso entra em seguida e fecha a porta.

AFFONSO – Seu apartamento continua lindo. Aliás, o condomínio todo continua lindo.

Anunciação olha para Affonso e sorri sem vontade.

ANUNCIAÇÃO – Queria que você dissesse logo o que te trouxe aqui. Que seja breve, pois tenho coisas pra fazer.

Affonso tira um celular do bolso.

AFFONSO – No momento da caminhada você acabou deixando cair.

ANUNCIAÇÃO – Só dei falta dele agora.

Affonso estende a mão, Anunciação vai pegar o celular, mas ele segura sua mão. Tempo nos dois se olhando.

CENA 20. AP DE FÁBIA. QUARTO DE FÁBIA. INT. NOITE.

Fábia e Antônia estão sentadas na cama. Conversa em andamento.

FÁBIA – Tô chocada que ele reagiu bem.

ANTÔNIA – Eu não esperava isso dele, menina. Foi uma atitude tão impensada que fiquei desarmada.

FÁBIA – Desarmada como?

ANTÔNIA – Eu não tinha o que discutir. Vários sentimentos vieram a tona no momento. Ali eu vi o Pietro de verdade, aquele por quem eu... (interrompe a própria fala).

FÁBIA – Aquele por quem você se apaixonou? É isso?

ANTÔNIA – Antes do rompimento, eu juro pra você que tinha controle da situação. Não vou negar que sempre gostei dele. Mas era um gostar sem tanta importância. Era um gostar mais sexual. Era só sexo.

FÁBIA – Sem compromisso?

ANTÔNIA – Era. Eu acho que era. Aí, de repente, eu vi o quanto estar longe dele era desesperador. O quanto vê-lo com outra mexia comigo.

FÁBIA – E ainda veio a situação do bebê, né?!

Antônia se levanta, anda de um lado para o outro. Para de frente para Fábia.

ANTÔNIA – A gente transou. Se reconciliou.

Fábia a olha surpresa.

ANTÔNIA – Minha cabeça tá uma zona. Meus sentimentos tão embaralhados. Gosto dele, mas gosto do Affonso, do nosso casamento.

FÁBIA – Odeio esse papo de psicologia, mas você gosta mesmo do Affonso ou gosta da vida que você estabeleceu com ele? Gosta desse amante ou da aventura de ser desejada por alguém e correr riscos?

Antônia põe as duas mãos sobre a face.

ANTÔNIA – Eu não sei, Fábia.

Em Antônia.

CENA 21. APARTAMENTO ANUNCIAÇÃO. SALA DE ESTAR. INT. NOITE.

Affonso segura a mão de Anunciação. Os dois se olhando.

ANUNCIAÇÃO – Vai me largar ou vou ter de ser deselegante?

Affonso larga a mão de Anunciação, que pega seu celular e se afasta.

AFFONSO – Eu sou um idiota de marca maior, sabia? Traí a confiança de duas mulheres incríveis.

ANUNCIAÇÃO – Se vai me comparar aquela pseudo atriz, pode parar por aí. Já chega ter divido e perdido um homem pra ela.

AFFONSO – Você gostava de mim ou da rivalidade, da competição com a Antônia?

ANUNCIAÇÃO – Uma rivalidade velada serve pra quê? Se eu aceitei aqueles anos todos ser sua amante, te encontrar escondido, pode ter certeza que não foi por rivalidade. Eu me anulei como mulher.

Sonoplastia (“Meu primeiro amor – Roberta Miranda”)

AFFONSO – Você sabia da condição.

ANUNCIAÇÃO – Sabia. Hoje me arrependo muito disso.

Música cessa. Affonso se aproxima. Ambos se olham, respiração contida.

AFFONSO – Se arrepende mesmo?

Anunciação desvia o olhar.

ANUNCIAÇÃO – Para de graça. Sai daqui.

Affonso a segura, fazendo-a o olhar.

AFFONSO – Olha nos meus olhos e diz que se arrepende. Olha nos meus olhos e diz que não gosta de mim.

Tempo neles se olhando. Anunciação deixa escorrer uma lágrima.

ANUNCIAÇÃO – Por que tudo isso? Do que adianta?

No ímpeto, Affonso beija Anunciação, que se solta.

ANUNCIAÇÃO – Eu te odeio.

Affonso a agarra e a beija calorosamente.

CENA 22. RIO DE JANEIRO. STOCK SHOTS. EXT. NOITE.

SONOPLASTIA: How Deep Is your Love – Calvin Harris & Disciples.

Takes de pessoas correndo pela orla iluminada. Bares agitados com jovens, muito riso.

CENA 23. LAGOA RODRIGO DE FREITAS. EXT. NOITE.

Imagens do local todo iluminado. Pouco movimento por ali.

MÚSICA CESSA.

CAM vem buscar Patrick, sentado num banco próximo. Expressão de tensão. De repente, um farol alto pisca na direção dele, que levanta as mãos e acena.

PATRICK (pra si) – Agora seja o que Deus quiser.

Patrick se levanta e retira de debaixo do banco uma mala de couro preta. Pouco depois, Nenzin aparece com uma touca ninja sobre o rosto e uma pistola nas mãos.

NENZIN – Não falei que era pra deixar só a grana, porra!

PATRICK – Manda o endereço, cara.

NENZIN – Villar dos Teles, conhece? Rua que dá no lixão desativado.

PATRICK – Aquela rua de chão batido?

NENZIN – Exato, moleque. Única casa no caminho. Tem erro não. Daqui duas horas tu tá lá.

PATRICK – Tô ligado.

Patrick entrega a mala e sai disparado. Nenzin senta no banco, retira a máscara e abre a maleta.

NENZIN (sorridente) – Verdinhas. Nossa, como amo vocês!

CENA 24. COPABAR. SALÃO. INT. NOITE.

MÚSICA AMBIENTE: K.O (PABLLO VITTAR).

Ambiente movimentado. Vozerio. Pessoas circulando pelo local.

Fábia vem entrando e acaba esbarrando em Lu. Ambas se olham.

LU (séria) – Quer uma mesa?

FÁBIA – Tô procurando a minha mãe. Ela tá por aí?

LU – Disse que precisava falar com o Tony. Tá na sala dele.

FÁBIA – Vou aguardar lá no balcão. Depois você pede pra ela me encontrar lá?

LU – Peço sim.

Lu se afasta e Fábia vai em direção ao bar.

CENA 25. COPABAR. SALA DE TONY. INT. NOITE.

Tony entra, seguido por Laura, que fecha a porta.

TONY – Fala logo o que você quer, Laura. Hoje o bar tá bombando. Tem aniversário acontecendo lá.

LAURA – Fica calmo. Há coisas muito maiores pra você se preocupar.

TONY – O que você tá dizendo?

Laura sorri e anda de um lado para o outro.

LAURA – Felipe deve amar você, não é?

TONY – Eu vou descer e te deixarei falando sozinha.

Laura debocha.

TONY – Eu não tô entendendo aonde você quer chegar com essa conversa.

Laura retira o celular do bolso.

LAURA – Eu tenho uma coisa muito importante pra te mostrar.

TONY – Não poderia ser outra hora?

LAURA – Assista e depois você me diz. (entregando o celular) Tá aqui. É só dar play.

Tony pega o celular e começa a assistir ao vídeo, ficando muito amedrontado.

LAURA – Achei que era melhor te mostrar.

TONY (em desespero) – Onde tá isso? Como é que você recebeu isso? Fala logo! É esses vídeos virais? Tá na internet?

LAURA – Calma, chefinho! Só eu tenho esse vídeo. Eu que gravei.

Tony pega o celular e joga dentro de um aquário.

TONY – Resolvido. Não tem mais vídeo nenhum.

LAURA (séria) – Você acha que eu sou estúpida, Tony? Eu tenho cópias desse vídeo. Salvei na nuvem, em alguns e-mails. Dispositivos móveis. Além da minha câmera.

TONY – O que você quer? Quer o meu fim?

LAURA – Tô cansada de limpar chão pra essa gentinha desprezível. Tô cansada de ser tratada como uma qualquer. Você vai me dar tudo que eu sempre sonhei, Entendeu?

Closes alternados.

CENA 26. VILLAR DOS TELLES. ESTRADA DE CHÃO. EXT. NOITE.

O carro de Patrick vai cortando a estrada a todo vapor.

CORTA PARA: INTERIOR DO CARRO.

Patrick dirige muito concentrado, olhos arregalados, respiração ofegante.

CENA 27. COPABAR. SALA DE TONY. INT. NOITE.

Tony olha para Laura em estado de choque.

LAURA – Você e aquele garçonzinho de lesco-lesco. Que nojo. Só não via quem não queria. Você se insinuando, olhares maliciosos, caronas altas horas da noite, fala adocicada.

TONY – Você não tinha o direito de fazer isso.

LAURA – Nem pra ir prum motel. Transavam naquele pardieiro do almoxarifado. Entre roupas sujas, poeira. Você dá pinta de elegante, mas desce o nível por qualquer par de calças.

TONY – Você foi longe demais, sua nojenta.

LAURA – Você é um burro e eu sou inteligente.

TONY – Você é vil. Eu não vou me rebaixar a você, as suas chantagens.

LAURA – Acontece que pra tratar comigo você não desce, você sobe. Inteligência é um dom, meu filho, e eu não tenho culpa se a natureza não te premiou.

Tony dá um tapa e, Laura, que revida no mesmo instante.

LAURA – Quero hospedagem num hotel fino, quero 10 mil reais na minha conta e a preparação da festa do meu aniversário.

TONY – Você tá ficando maluca.

LAURA – Tô sim. Experimenta tentar me contrariar, sua gazela no cio.

Tony começa a chorar e se ajoelha aos pés de Laura.

TONY (tom de súplica) – Por favor, Laura, apaga esses vídeos. Esquece isso tudo. Eu te dou uma boa grana.

LAURA – Se você fizer o que mandei, no momento eu não vou mostrar para ninguém. Mas isso depende de você. Quero minha festa de aniversário aqui no CopaBar. Como estou brigada com a Fábia, quero um apartamento chique para eu me hospedar. Minhas malas estão lá no almoxarifado.

Tony seca as lágrimas e se levanta.

TONY – Eu vou fazer o que você quer. Vou fazer um depósito de dez mil reais na sua conta.

LAURA – Mudei de ideia. Agora eu quero vinte mil.

TONY – Vou depositar os vinte mil. Por favor, não mostre a ninguém essa filmagem minha com o Diego.

LAURA – Tudo vai continuar como está. Eu continuo aqui no CopaBar trabalhando e você continua seguindo sua vida.

Laura se aproxima, alisa o rosto de Tony.

LAURA – Não quero o seu mal, Tony. Eu só vi na sua burrada um jeito de me dar bem na vida. Não nasci pra limpar chão e fazer chá pra filha.

Laura se vira e sai. Tony senta no chão, arrasado.

CENA 28. VILLAR DOS TELES. CASEBRE. INT. NOITE.

SONOPLASTIA – SUSPENSE

Patrick para o carro bem em frente a casa. Ele desce do carro segurando uma barra de ferro. Ele se encaminha para a entrada.

CENA 29. CASEBRE. SALA. INT. NOITE.

Patrick acende a luz e percebe tudo vazio. Ela vasculha os cômodos, até encontrar uma porta trancada.

PATRICK (pra si) – Eu vou arrombar.

Música cessa.

CORTA RÁPIDO PARA:

CENA 30. CASEBRE. QUARTO. INT. NOITE.

Patrick arromba a porta, que se abre. Donna e Marcela acordam assustadas.

SONOPLASTIA: DEIXO (IVETE SANGALO).

Patrick e Marcela se olham e sorriem.

MARCELA – Meu amor!

Marcela corre e abraça Patrick. Os dois se beijam.

CENA 31. COPABAR. SALÃO. INT. NOITE.

Fábia vai saindo, quando Tony a alcança.

TONY – Sua mãe já foi, né?!

FÁBIA – Supliquei pra ela voltar lá pra casa, mas ela não quis. Disse que arrumou um cantinho pra ela.

TONY – Melhor deixar sua mãe no canto dela, Fábia.

FÁBIA – Ela me contou da festança que tu vai fazer pra ela. Contratar DJ, shows, muita música e bebida. Pra que tudo isso?

TONY (sem jeito) – Ah, ela te contou tudo isso?

FÁBIA – Contou. Saiu empolgadíssima. Por que você vai fazer tudo isso?

TONY – Sua mãe é uma mulher sofrida. Ela merece ter uma alegria.

Fábia abraça Tony e lhe dá um beijo no rosto.

FÁBIA – Esse gesto foi mais importante pra mim do que pra ela. Pode ter certeza!

CENA 32. STOCK-SHOTS. RIO DE JANEIRO. EXT. NOITE.

SONOPLASTIA: ELA É CARIOCA – ADRIANA CALCANHOTO.

Imagens da praia de Copacabana.

LETREIRO: ALGUMAS SEMANAS DEPOIS...

Música Cessa.

CENA 33. COPABAR. SALÃO. INT. NOITE.

MÚSICA AMBIENTE: How Deep Is your Love – Calvin Harris & Disciples.

PLANO GERAL. Local cheio de pessoas em trajes esporte fino. Garçons circulando com bandejas de champanhe, uísque e canapés; muito vozerio entre os convidados, todos aparentando felicidade.

Laura sendo fotografada. Ela faz poses, sorri.

LAURA – Agora, só um minuto que eu vou ao toalete retocar minha maquiagem. Não demoro.

Laura vai até uma mesa e pega sua bolsa e se encaminha em direção ao banheiro.

CENA 34. COPABAR. ÁREA DOS BANHEIROS. INT. NOITE.

Laura entra no banheiro. Pouco depois, Donna se aproxima com uma plaquinha de interditado e coloca na porta do banheiro.

Duas moças saem do banheiro sorrindo e se afastam. Marcela se aproxima.

MARCELA – Como tá lá dentro?

DONNA – As duas últimas acabaram de sair. Ela tá sozinha lá dentro.

MARCELA – ótimo. Não deixa ninguém entrar.

Donna faz que sim com a cabeça.

CENA 35. COPABAR. BANHEIRO FEMININO. INT. NOITE.

Laura está de frente para o espelho retocando a maquiagem, quando o reflexo de Marcela aparece no espelho. Laura se assusta e vira-se para ela.

LAURA – O que você tá fazendo aqui?

MARCELA – Eu acho que sessenta mil reais não foi o suficiente. Você precisa ser recompensada a altura. É pra isso que eu tô aqui.

Closes alternados nas duas se olhando, tensas.  A tela junta metade da face de Laura e Marcela, formando um novo rosto. A imagem congela.
 
     

 

     

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