Laços de Amizade - Capítulo 17




CAPÍTULO 17
 
     
 
     

 

     
 

| Cena 01 | Bar Ponto de Encontro. Int. Noite.

Continuação do capítulo anterior. No andar de baixo, em meio às mesas espalhadas pelo ambiente. Muitos clientes no local. 

MARCELO: (para Valeska) Eu sabia que você tava aprontando alguma.

VALESKA: Vai dizer que a culpa é minha agora? Quando um não quer dois não se beijam, meu bem.

Ela vai saindo à francesa.

FABIANA: Você é uma ‘bisca’ mesmo né garota?!

Valeska dá meia volta.

VALESKA: Vê lá como fala comigo ô sua meio metro!

MARCELO: Segura a onda Fabiana.

FABIANA: E você cala a boca seu safado! A Bruna vai ficar sabendo disso agora mesmo.

Fabiana tenta sair, mas é impedida por Luciano.

LUCIANO: Todo mundo viu que ele não teve culpa. Fica quieta aí!

FABIANA: Que é? Vai proteger o amiguinho agora? Faça-me o favor. Todo mundo sabe das intenções dessa loira azeda aí. Se ela fez isso o Marcelo deve ter dado abertura. (à Marcelo) Você não tem vergonha? Minha amiga se matando de trabalhar e você faz isso praticamente debaixo do nariz dela? Mas não se preocupa não que eu não vou dizer nada. Quem tem que falar é você!

MARCELO: Claro que eu vou falar com ela Fabiana. E para de me julgar. A Valeska me pegou desprevenido e todo mundo viu. (para Valeska) Quanto a você garota, valeu a tentativa, mas a cada atitude medíocre sua, mais eu sinto pena de você.

Ele sai, aborrecido. Fabiana e Valeska se encaram, mas Luciano tira a namorada dali.

| Cena 02 | Bela Vista. Casa de Darlan. Int.

Na mesa de jantar, Janaína está sentada à espera de Darlan. A mesa está devidamente organizada. Ouve-se o som de porta batendo. Janaína faz um sinal para a empregada que logo se retira. Segundos depois, Darlan surge afrouxando sua gravata. Ao avistar Janaína sentada à mesa, ele deixa escapar um sorriso bobo.

DARLAN: Isso tudo é maravilhoso demais pra ser verdade.

JANAÍNA: Gostou?

Ele se aproxima de sua mulher, que levanta-se e lhe dá um beijo.

DARLAN: Adorei.

Janaína volta a se sentar, ele faz o mesmo. Os dois começam a se servir.

JANAÍNA: Eu ajudei a Jurema na cozinha. Mas ela fez a maior parte.

DARLAN: E como foi o seu primeiro dia como senhora Rezende?

JANAÍNA: (rindo) Esse “senhora” me deixa muito mais velha do que sou realmente.

DARLAN: Desculpe.

Silêncio. Darlan observa Janaína, calada.

DARLAN: Está tudo bem? Ficou calada tão de repente.

Janaína respira fundo.

JANAÍNA: Olha Darlan. Eu acho maravilhoso tudo isso que você tem feito por mim. Nunca imaginei que a essa altura da minha vida encontraria alguém tão maravilhoso como você, que eu amo de verdade. Mas eu tenho que dizer uma coisa. Eu não sou digna de nada disso...

DARLAN: Por que está dizendo isso meu amor?

JANAÍNA: Tem uma coisa que você não...

Neste momento o celular dele toca, ele faz sinal para Janaína e prontamente atende ao telefone.

DARLAN: Pronto. (pausa) O quê? Mas essa causa já estava ganha. (pausa) Um momento, por favor. (para Janaína) Desculpa meu amor, eu sei que disse que te compensaria a noite, mas é muito importante. Vou atender no meu escritório. Depois nos falamos.

Darlan sai sem cerimônia, deixando Janaína confusa e aliviada ao mesmo tempo.

| Cena 03 | No dia seguinte. Manhã. Condomínio Almirante. Apartamento 209. Interior da sala de estar.

Sentadas, Isabel e Janaína conversam.

ISABEL: Quer dizer então que você já se acomodou na casa do Darlan?

JANAÍNA: Finalmente me libertei daquele inferno que era a casa do Carlos.

ISABEL: E como foi a reação dele?

JANAÍNA: Não fiquei lá pra saber né amiga. Saí bem cedo, antes d’ele acordar.

ISABEL: Pois tome cuidado porque homem apaixonado também é capaz de tudo.

JANAÍNA: É disso que tenho medo, ainda mais sabendo como ele é.

ISABEL: Você já contou a verdade pro Darlan?

Close em Janaína, nervosa.

| CENA 04 | Universidade Campelo Costa. Interior do Campus. Lanchonete.

Bruna, Marcelo, Fabiana e Luciano estão reunidos em uma mesa, lanchando enquanto conversam. Bruna percebe o clima entre Fabiana e Marcelo.

BRUNA: Gente, quê que tá acontecendo hein?

FABIANA: Pergunta ao seu namoradinho.

Marcelo lança-lhe um olhar de reprovação.

LUCIANO: (para Fabiana) Você tinha que se meter nisso né!

BRUNA: Tem alguma coisa acontecendo que eu não saiba?

MARCELO: Eu tenho uma coisa pra te falar meu amor. (respira, e solta a bomba) Ontem a Valeska me beijou.

BRUNA: (incrédula) O quê?

MARCELO: Mas eu juro que não tive culpa. Ela me pegou desprevenido. Você sabe como a Valeska é.

FABIANA: Não teve culpa Marcelo...?!

LUCIANO: (bravo) Fica fora disso, Fabiana.

Fabiana se cala.

BRUNA: (brava) Eu não to acreditando nisso.  E não me vem com essa conversa de que ela te pegou desprevenido. Você poderia ter evitado com certeza. Essa garota nunca vai deixar a gente em paz!

MARCELO: Você sabe que eu não tenho o menor interesse. Eu gosto é de você.

BRUNA: Não é beijando outra que você vai me fazer acreditar nisso.

Bruna levanta-se irritada, e retira-se do local, Marcelo sai atrás dela.

MARCELO: Espera Bruna...

LUCIANO: Tá vendo o que você fez?

FABIANA: Se tem uma coisa que eu não vou admitir é ver minha amiga sendo passada pra trás e não fazer nada.

Fabiana pega o copo com suco e leva até a boca tomando um gole, repõe o copo na mesa. Por um momento, ela se sente mal.

LUCIANO: Que foi?

FABIANA: Não sei... Acho que eu não devia ter comido esse sanduíche.

Ela levanta-se rapidamente, e sai quase correndo. Luciano não entende nada.

Corte rápido de cena.

| CENA 05 | Universidade Campelo Costa. Interior. Banheiro Feminino.

Fabiana adentra apressada ao local. Imediatamente, ela entra em um dos lavabos e ouvimos a moça vomitar. Segundos depois, ela puxa a descarga e sai dali com cara de doente, indo em direção ao espelho. Ela liga uma torneira e molha o rosto com água, passa a mão pelo cabelo.

FABIANA: (tensa) Foi só um sanduíche estragado. Só isso!

| CENA 06 | Universidade Campelo Costa. Interior do campus. Jardim.

Bruna anda apressada, tentando fugir de Marcelo que está logo atrás dela. Eles conversam à medida que andam.

MARCELO: Ah Bruna, por favor, não vamos brigar por essa bobagem...

BRUNA: Bobagem só se for pra você.

MARCELO: Eu já disse que não tive culpa. A Valeska me pegou desprevenido.

BRUNA: Com certeza ela teve chance. Aliás, o que você fazia na companhia dela no bar?

MARCELO: Eu tava sozinho na mesa, já que minha namorada tava ocupada demais pra mim.

Bruna para e vira-se de frente para ele.

BRUNA: Então agora a culpa é minha?!

MARCELO: Não foi isso que eu disse. Só que você tava trabalhando na cozinha. Eu fiquei lá sozinho. A Valeska apareceu do nada e foi me fazer companhia. Mas eu não achei que ela iria tentar alguma coisa.

BRUNA: (irônica) Porque ela não tem interesse nenhum em você, não é?! (séria) Ah Marcelo, essa sensação é horrível.

MARCELO: Seria pior se eu fizesse de conta que nada aconteceu e não falasse nada.

BRUNA: Você só tá me contando porque a Fabi praticamente te obrigou.

MARCELO: (segurando-a) Eu to te contando porque te amo e não quero segredos entre nós dois. Será que dá pra você entender isso?

Bruna fica sem argumentos e abaixa a cabeça. Marcelo se aproxima ainda mais dela levantando seu rosto pelo queixo, beijando-a em seguida.

BRUNA: Eu também te amo.

| CENA 07 | Hospital Regional. Interior. Quarto de Celso.

Suzana está sentada em uma poltrona com uma revista nas mãos, distraída na leitura. Alguém abre a porta lentamente.

CLÁUDIO: Desculpa. Eu não sabia que você tava aqui. Volto outra hora.

SUZANA: (debochada) Você tem medo de mim garoto? Eu não mordo não.

CLÁUDIO: (entrando) Antes fosse medo.

Cláudio se posiciona de frente para Celso, imóvel como sempre. Suzana deixa a revista na mesinha e caminha até o rapaz, ficando atrás dele.

SUZANA: Não vamos exaltar os ânimos como da última vez. Começamos do jeito errado... (ela sussurra na orelha dele) Cláudio. É esse seu nome, não é?

Ele vira-se e afasta-se dela.

CLÁUDIO: Qual é o seu problema? Não tem respeito pelo seu filho não? Olha o estado dele, entrevado nessa cama, praticamente morto.

SUZANA: Quanto drama!

CLÁUDIO: Você é muito desnaturada...

Ela o corta.

SUZANA: E você se sente culpado por ele está aqui, não é?! O tom da sua fala revela sua culpa.

Baque em Cláudio, que fica nervoso.

CLÁUDIO: Você não sabe de nada...

SUZANA: (sondando) Você tava com ele no dia do acidente. Provavelmente estava ao volante...

CLÁUDIO: (desorientado) Você não sabe de nada!

Ela se aproxima novamente dele.

SUZANA: Calma meu rapaz. Não estou aqui procurando culpados. O que está feito está feito. O importante é a recuperação dele.

Cláudio volta a se aproximar da cama do amigo, penalizado.

CLÁUDIO: Eu disse que ele não precisava ir se não quisesse. Mas ele insistiu. 

SUZANA: Meu filho sempre foi muito teimoso. Eu não era a favor da vinda dele pra São Paulo, mas ele queria porque queria fazer faculdade aqui, como se em Floripa não tivessem universidades tão boas quanto às daqui. 

CLÁUDIO: Ele veio pra cá porque não te suportava. Você nunca se importou com ele.

SUZANA: Acho que meu filho pintou a imagem de uma Suzana não muito agradável pra você. Precisamos nos falar mais vezes, bonitão. Olha, eu vou te dar meu endereço ‘pra’ quando sentir a necessidade de me conhecer melhor, ou mesmo quando quiser saber mais sobre o Celso. Precisamos desfazer essa má impressão que você tem de mim.

Ela se afasta novamente indo em direção a poltrona, mexendo em sua bolsa. Close em Cláudio olhando o amigo. Close na mão de Celso, e seu dedo indicador que faz um leve movimento. Cláudio não acredita no que vê.

CLÁUDIO: Ele... Ele mexeu!

Close em Suzana, surpresa.

SUZANA: O quê?

| CENA 08 | Universidade Campelo Costa. Fim da aula. Exterior.

O enorme portão do campus é aberto e os estudantes começam a sair de suas salas em direção ao lado de fora da universidade. Entre a multidão de estudantes a câmera dá um close na turma da república. Fabiana e Luciano estão um pouco mais a frente, seguidos por Bruna e Marcelo. As irmãs Valeska e Vanessa estão logo atrás.

LUCIANO: Tá tudo bem contigo? Hoje na hora do lanche me deixou falando só.

FABIANA: Tá tudo bem. Só me senti mal, mas passou.

LUCIANO: Ah bom!

Close em Bruna e Marcelo trocando um selinho, e em seguida, em Valeska e Vanessa.

VANESSA: Parece que sua tentativa de semear a discórdia entre o casal foi por água abaixo.

VALESKA: É. Parece que ser corna é algo natural ‘pra’ ruralzinha.

VANESSA: Aff! Foi só um beijinho de nada Val. Além disso, nós mulheres temos muito mais facilidade em perdoar um deslize que os homens.

Valeska olha a irmã, surpresa com a declaração dela.

VALESKA: Você tem toda razão.

VANESSA: Tenho?

Valeska ri maquiavélica, como se acabasse de ter uma ideia.

| CENA 09 | Hospital Regional. Interior. Quarto de Celso.

CLÁUDIO: Eu tenho certeza doutor. Ele mexeu o dedo.

DR. HUMBERTO: Não nos precipitemos, Cláudio. Isso pode ser um sinal de melhora sim, no entanto, o paciente em coma pode realizar alguns movimentos, mas involuntariamente. Então precisamos ter muita cautela. No caso do Celso especificamente, essa possibilidade é maior, pois ele já demonstra uma melhora no estado de consciência, mesmo que quase imperceptível. Além do que ele se encontra em estado vegetativo persistente.

SUZANA: Isso quer dizer que ele pode acordar a qualquer momento?

DR. HUMBERTO: Isso quer dizer que as chances dele estão aumentando. Estamos evoluindo no tratamento e agora com essa possível reação do Celso, podemos ficar muito mais otimistas.

CLÁUDIO: Graças a Deus! (para Celso) Você vai sair dessa, moleque!

| CENA 10 | Condomínio Almirante. Interior. Corredor do terceiro andar.

Suzana e Cláudio surgem caminhando no local em direção a porta do apartamento 210.

SUZANA: Obrigada pela carona. Hoje em dia é muito difícil encontrar um jovem cavalheiro.

CLÁUDIO: Não foi nada.

Eles param em frente à porta. Suzana mexe em sua bolsa procurando as chaves. Ao encontrá-las deixa-as caírem no chão. Ela abaixa em seguida para pegá-las. Cláudio, que estava atrás dela solta um sorriso sacana, balançando a cabeça negativamente.

CLÁUDIO: Bem. Está entregue. Agora tenho que ir.

Antes que o rapaz pudesse sair, ela coloca a mão em seu peito, contendo-o.

SUZANA: Mas já tão cedo? Não quer tomar um suco ou um café? Quem sabe... comer alguma coisa?

Ele solta um sorriso de canto de boca.

CLÁUDIO: Que tipo de mãe é você?

SUZANA: Uma mãe que antes de ser mãe é uma mulher que precisa de carinho. E eu acho que isso você pode me dá.

CLÁUDIO: (desconversando) Você é mãe do meu melhor amigo...

Ela o corta.

SUZANA: Ele não precisa saber de nada. (sussurrando no ouvido dele) Será nosso segredinho.

Cláudio deixa escapar mais um sorrisinho sacana.

CLÁUDIO: Tem cerveja?

É a vez de Suzana sorrir. Cláudio está esparramado no sofá da sala com uma garrafa de cerveja na mão, trajando apenas uma cueca box preta. Na mesinha de centro há uma pizza pela metade. Ele pega um pedaço com a mão que estava livre. Suzana surge na sala vestida com um roupão branco e uma toalha que envolve seus cabelos, na cabeça.

CLÁUDIO: (comendo) Não vai comer a pizza? Tá muito boa.

SUZANA: (ríspida) Não. E acho que já está na sua hora.

CLÁUDIO: (de boca cheia) Como é que é?

SUZANA: Está na hora de você ir.

CLÁUDIO: Mas já? Eu pensei que...

Ela o corta.

SUZANA: Pensou que eu fosse ficar te bajulando até você se cansar de mim. Pensou que eu me apaixonaria perdidamente por você como uma adolescente e que me teria nas mãos a partir de agora... Pensou errado garoto. O que eu queria de você já tive, por sinal, foi ótimo. Mas não pense que vou ficar bancando a vida boa de um universitário pé-rapado. Anda, veste logo tuas roupas. Tenho coisas a resolver.

Cláudio levantando-se joga o pedaço de pizza na mesa, de qualquer jeito, põe também a garrafa de cerveja. Começa a catar a roupa pela sala e a se vestir.

CLÁUDIO: Você é completamente maluca sabia?

Ao terminar de se vestir, Cláudio vai em direção a saída. Suzana já o esperava lá com a porta aberta.

CLÁUDIO: Até logo?

SUZANA: Quem sabe...!

| CENA 11 | Bairro Santa Felícia. Casa de Carlos. Interior.

Carlos se encontra sentado no sofá como de costume, com uma cerveja a tira colo. Alguém entra pela porta, de repente.

CARLOS: Pow, até que enfim hein!

LUCIANO: Diz logo o que você quer que eu tenho mais o que fazer.

CARLOS: Isso é jeito de falar com teu pai?

LUCIANO: Sem essa beleza?! Fala logo o que você quer comigo.

CARLOS: Quero saber o endereço da casa do ricaço que a Janaína tá morando. Eu sei que tu sabe.

LUCIANO: E por que eu te diria se sempre fui contra essas sujeiras que você fazia com ela?

CARLOS: Eu preciso falar com a Janaína.

LUCIANO: Falar com as pessoas não faz muito seu perfil. Você deve tá é armando alguma pra cima da coitada. Mas por mim você não vai saber de nada. A Janaína tá muito mais feliz agora, longe da vida de cão que ela levava aqui dentro.

CARLOS: Tu tem que me dizer. Eu sou teu pai moleque!

LUCIANO: Eu não tenho pai. E faz um grande favor pra todos nós. Esquece que a gente existe.

Luciano sai sem dá direito de resposta ao pai, que se altera.

CARLOS: Droga! Isso ‘num’ vai ficar assim... Eu vou te achar Janaína. Eu vou te achar!

| CENA 12 | São Paulo. Exterior.

Música: “Senhor do tempo - Charlie Brown Jr”.

Close no céu azul-cinzento da grande São Paulo. Cai a noite. A câmera dá um close na fachada da república e um táxi parando em frente ao local. Interior. República Universitária Laços de Amizade. Todos estão reunidos à mesa de jantar fazendo a refeição com direito ao barulho de sempre.

VANESSA: ‘Me passa’ o suco aí Cláudio, por favor.

CLÁUDIO: Tem mão não, garota? Vem pegar!

MARCELO: Deixa de ser grosso cara. Quê que custa?

Marcelo que estava sentado ao lado de Cláudio, pega a jarra de suco e passa para Vanessa.

VANESSA: (encarando Cláudio) Brigada Marcelo.

BRUNA: O que estão achando do meu “Camarão à Grega”?

FABIANA: Camarão? Isso aqui é camarão?

Close na face de Fabiana, enjoada.

FABIANA: Ai gente. Dá licença.

Fabiana levanta-se da mesa apressada e sobe as escadas mais apressada ainda.

MARCELO: Quê que deu nela?

VALESKA: Essa comidinha de boteco disfarçada de prato chique deve ter feito mal.

BRUNA: (ignorando a fala de Valeska) Será que ela não gostou gente?

LUCIANO: Nem esquenta com isso Bruna. Essa aí anda muito esquisita pra comer ultimamente.

CELINA: La comida está muy exquisita chica!

VALEKSA: Não falei? Até a Celina estranhou.

MARCELO: “Exquisita” em espanhol quer dizer saborosa Valeska.

CELINA: Exactamente chico! Está muy sabrosa la comida Bruna. No te preocupes.

BRUNA: Ufa! Que bom.

CLÁUDIO: Valeu a tentativa Valeska.

Todos riem dela.

| CENA 13 | Hospital Regional. Interior. Quarto de Celso.

O ambiente está pouco iluminado. Os aparelhos que ajudam o rapaz a respirar produzem um bip constante. Close nos pés de Celso, coberto por um lençol verde. A câmera passeia devagar pelo seu corpo até chegar ao rosto do rapaz que lentamente abre os olhos, assustado, não reconhecendo o local onde se encontra. Ele permanece imóvel. Neste momento, uma enfermeira entra no quarto e segue em direção a uma janela aberta, fechando-a em seguida. Ao virar-se na direção ao paciente, quase sofre um desmaio ao vê-lo de olhos abertos. A enfermeira sai nervosa do local.

| CENA 14 | República Universitária Laços de Amizade. Interior.

Na mesa de jantar. Todos, exceto Fabiana, seguem fazendo a refeição. Alguém bate na porta.

VANESSA: Quem será?

CLÁUDIO: Mais um pra filar boia de graça!

MARCELO: O cheiro da comida deve ter chegado ao vizinho.

VALESKA: (revirando os olhos) Eu mereço.

CELINA: Voy a abrir la puerta.

Celina levanta-se da cadeira em que estava sentada e dirige-se até a porta. A câmera acompanha seu trajeto e focaliza a porta de entrada, quando ela é aberta close no homem velho, baixo, quase careca, tem um bigode volumoso, barba por fazer e poucos cabelos, ambos quase brancos; olhos cor de mel e vestindo um traje tipicamente mexicano, cuja cor base é o branco, mas enfeitado com muitas outras cores. Ele calça uma bota preta, na cabeça leva um sombrero marrom e nas costas uma viola. Baque em Celina, surpresa e incrédula.

CELINA: No... No puede ser... [Não pode ser]

HOMEM: He dicho que viña Celina. [Eu disse que vinha]

CELINA: (emocionada, olhos marejados) José...!

JOSÉ: Celina!

MÚSICA: “Paso doble – Agustin Lara”

Eles se abraçam emocionados. Os moradores da república correm para a sala para ver o que estava acontecendo. O abraço se desfaz e eles trocam um beijo longo. Fim da sonoplastia.

CELINA: Te extrañé tanto! [Senti tanto sua falta]

| CENA 15 | No dia seguinte. República Universitária Laços de Amizade.

Música: “Tantinho – Carlinhos Brown”.

Interior. Na mesa do café da manhã, todos estão reunidos, exceto o homem que chegara à noite anterior.

CELINA: Chicos y chicas, ayer las emociones no me permitieron explicar como me gustaria, pero ahora es la oportunidad perfecta. [Meninos e meninas, ontem as emoções não me permitiram explicar como gostaria, mas agora é a oportunidade perfeita.]

FABIANA: Acho que nem precisa Celina...

VANESSA: Tá na cara que o carequinha é o grande amor mexicano da sua vida.

CELINA: Verdad, muchachas. Es verdad! José es y será siempre mi amor. El gran amor de mi vida. Pero ella nos separó. [Verdade, garotas. É verdade! José é e sempre será meu amor. O grande amor da minha vida. Mas ela nos separou.]

MARCELO: Até ontem a noite né.

LUCIANO: Falando nisso, cadê o dito cujo?

Celina levanta-se da mesa, orgulhosa. O tom da sua voz é exageradamente alto.

CELINA: Pero, mas allá de la razón de mi vida, José es el mejor mariachi de México! [Mas, além da razão da minha vida, José é o melhor mariachi do México!]

Neste momento, José, vestido com um traje de charro (roupa típica de mariachi), desce as escadas indo em direção à mesa onde todos estão reunidos. Ele começa a tocar com sua viola e a cantar a música “Cancion del mariachi – Los locos”. Celina começa a bailar ao som da canção. Os republicanos assistem a cena contendo o riso. O casal se empolga e José começa a acelerar o ritmo. Os dois cantam e dançam freneticamente. Os republicanos caem na risada.

VALESKA: Para o mundo que eu quero descer.

CLÁUDIO: Se com uma já era complicado, imagina dois mexicanos sob o mesmo teto!

No ápice da interpretação de Celina e José, o telefone toca. Todos os republicanos levantam-se ao mesmo tempo querendo chegar primeiro no aparelho e se livrar da tortura do casal de mexicanos. Cláudio é o mais rápido e consegue atender.

CLÁUDIO: Alô.

Silêncio. Todos estão em volta do rapaz, que por um momento gagueja alguma coisa. Nervoso, ele afirma algo com a cabeça inutilmente e desliga logo em seguida.

BRUNA: Quem era?

CLÁUDIO: (afobado) O Celso acordou!

Close no rosto de surpresa de cada um. Mais silêncio. Segundos depois, a gritaria é geral entre os moradores que comemoram a notícia. Felizes da vida.

MÚSICA: “Caiu na Babilônia - Strike”.

| CENA 16 | São Paulo. Exterior.

Imagens da cidade de São Paulo tomam conta da tela. São mostrados monumentos históricos, os aranhas-céu, o trânsito caótico, as pessoas trafegando pelo centro. Corte de cena. Exterior. Fachada do Hospital Regional. Corte de cena. Interior do quarto de Celso. Os moradores da república, exceto Fabiana, estão todos reunidos no quarto que se torna pequeno pra tanta gente. Fim da sonoplastia.

DR. HUMBERTO: Foi realmente surpreendente a melhora no estado de consciência do Celso. O tratamento caminhou bem, mas ele não apresentava grande progresso, não nos dava muitas esperanças. Em todos esses anos de profissão, eu nunca vi nada igual.

CLÁUDIO: Mas ele não fala, doutor!

VANESSA: Nem se mexe...

MARCELO: Será que ele tá escutando a gente?

BRUNA: Ele tá bem mesmo doutor?!

DR. HUMBERTO: Calma pessoal. Ele ainda não fala, mas se move com alguma dificuldade. Essas são consequências normais provocadas devido ao tempo em que o paciente esteve em coma. A fisioterapia deve resolver. O Celso terá de reaprender as habilidades básicas como andar, comer, falar, mas tenho esperanças que isso seja o mais rápido possível, dada as surpresas que ele nos proporcionou até então.

LUCIANO: Ele vai ficar bem galera. O Celso é forte.

CELINA: Gracias a la virgen de Guadalupe, y a usted doctor, nuestro Celso volvió a la vida. Muchas gracias. [Graças a Virgem de Guadalupe, e a você doutor, nosso Celso voltou a vida. Muito obrigado.]

Celina, emocionada, dá um abraço em Humberto.

DR. HUMBERTO: Não há o que agradecer dona Celina. É o meu trabalho. Não há gratificação maior do que a sensação de ter salvado a vida de alguém.

MARCELO: Mas a Celina tem razão, doutor. Você foi um anjo na vida do nosso amigo. Obrigado.

Marcelo aperta a mão do médico. Silêncio momentâneo. Alguém entra pela porta sem cerimônia, é Suzana, que se surpreende ao ver a multidão de gente no quarto do filho.

SUZANA: (esnobe) Mas o que significa isso?

DR. HUMBERTO: Seu filho acordou, dona Suzana.

Suzana está em choque, mas contida. Ela se aproxima da cama do filho, e o observa em silêncio.

DR. HUMBERTO: É melhor deixá-la a sós com ele, pessoal.

CELINA: Es verdad muchachos. Además ustedes tienen que ir la universidad. Y mi José se ha quedado solo em casa. Vamos! [É verdade, garotos. Além disso, vocês têm que ir a universidade. E meu José ficou sozinho em casa.]

Todos concordam sem dizer uma palavra e saem do quarto, inclusive o médico. Close em Suzana que nada diz, apenas observa Celso, imóvel, mas de olhos abertos.

| CENA 17 | Fachada de um consultório médico. Interior da sala de consultas.

Fabiana, aflita, está sentada de frente para o médico que segura um envelope. Em silêncio, ele abre o envelope e retira de dentro um papel, o qual examina por um instante.

FABIANA: (aflita) E então doutor? Acaba logo com isso.

O médico lança-lhe um olhar sério.

MÉDICO: Como já imaginava. Deu positivo.

FABIANA: Isso quer dizer que...

MÉDICO: Isso quer dizer que você está grávida, Fabiana.

Close em Fabiana, em pânico com a notícia.

| CENA 18 | Bairro Santa Felícia. Interior da casa de Carlos.

Ele entra pela porta deixando-a aberta para que outro homem, logo atrás, entrasse em seguida. Este segundo homem é alto, razoavelmente forte, cabelo preto, assim como seus olhos fundos e de barba feita. Ele veste uma blusa regata listrada, azul e branca; e uma calça jeans azul desbotada. Carlos passa direto pela sala e vai até a geladeira, tirando uma cerveja de dentro dela e entregando ao outro homem.

CARLOS: Tu consegue fazer isso pra mim?

HOMEM: Deixa comigo Carlos. Alguma vez eu já te deixei na mão?

CARLOS: Não. E é por isso que eu conto contigo.

Carlos vai até uma cômoda ao lado da sua cama e abre uma gaveta em seguida, tirando um bloco de anotação e uma caneta de dentro dela. Ele volta para sala a e escreve alguma coisa no bloco.

CARLOS: Vou te passar o endereço da casa do cara.

HOMEM: O cliente que tinha fetiches depravados. O safado gostava de tirar foto de tudo!

Ele ri. Carlos continua sério e entrega o papel com o endereço ao homem.

CARLOS: Procura o ricaço e consegue essas fotos cara. Inventa alguma coisa. Dá teu jeito. Mas consegue essas fotos custe o que custar!

HOMEM: Deixa comigo, Carlos. Mas se me permite a pergunta, o que é que tu vai fazer com essas fotos?

CARLOS: Mostrar ao granfino que tá bancando a Janaína com quem ele tá se deitando toda noite. Aquela vaca vai se arrepender de ter saído dessa casa.

HOMEM: (debochado) Ih já entendi. Isso tudo é dor de corno cara? Esquece essa mulher. A Janaína já se mandou daqui faz tempo, procura outras meninas, de preferência novinhas, cara.

CARLOS: (bravo) Qual foi Ronaldo?! Quê que tu tá querendo?! Isso né ciúme não parceiro. É raiva. A Janaína vai me pagar pelo que ela me fez.

RONALDO: Beleza então. Não tá mais aqui quem falou.

| CENA 19 | República Universitária Laços de Amizade. Interior da sala.

Celina e José estão sentados no sofá verde-limão.

CELINA: La casa se queda tan vacia sin mis pupilos. [A casa fica tão vazia sem meus pupilos.]

JOSÉ: Es verdad mi amor! Todavia podemos tomar ventaja hasta la fecha. Aprovechar para namorar mientras tus pupilos no llegan. [É verdade meu amor! Mas podemos aproveitar para namorar enquanto eles não chegam.]

CELINA: (envergonhada) Ay José! No sea tan desvergonzado! [Não seja tão sem vergonha]

JOSÉ: Es que aun te echo de menos Celina. Fue tanto tiempo lejos de ti... [É que ainda estou com saudades Celina. Foi tanto tempo longe de você.]

CELINA: Lo sé mi amor! Lo sé... Pero lo que importa es que estamos juntos outra vez.

JOSÉ: Y desta vez es para siempre.

CELINA: Sí! Para siempre vida mía.

O casal troca uma bitoca apaixonada.

| CENA 20 | Universidade Campelo Costa. Interior. Primeiro andar. Sala do curso de Educação Física.

O ambiente está totalmente ocupado pelos alunos, atentos à explicação do professor. No meio da sala, entre as filas de carteiras estão Luciano e Cláudio. Luciano atento, Cláudio disperso como sempre. O toque de um celular desconcentra o professor e todo resto da sala. Todos encaram Luciano entendendo que o celular que tocou é o dele. Cláudio ri da situação.

LUCIANO: Foi mal pessoal. ‘Esqueci de’ por no silencioso novamente.

PROFESSOR: Pela milésima vez. Que isso não se repita, Luciano.

LUCIANO: Desculpa professor.

Luciano percebe que recebeu um sms e verifica seu conteúdo. O professor retoma sua aula.

CLÁUDIO: Quem é?

LUCIANO: Fabiana. Vou lá ver o que ela quer.

Luciano levanta-se da cadeira, ignorando o professor, que faz o mesmo com o rapaz. Ele se retira da sala.

CORTA PARA,

Lanchonete do Campus. Fabiana está sentada em uma das mesas, seu semblante é transparente de preocupação excessiva. Luciano se aproxima apressado.

LUCIANO: Espero que seja urgente mesmo, como você disse na mensagem, pra que pelo menos tenha valido a pena a chamada que levei do professor.

Fabiana dispara a notícia.

FABIANA: (nervosa) Eu to grávida!

Baque em Luciano que titubeia e cai sentado na cadeira, como se levara um tiro.

 
     

 

     
REALIZAÇÃO


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