LAÇOS DE AMIZADE - CAPÍTULO 12




CAPÍTULO 12
 
     
 
     

 

     
 

| CENA 01 | Continuação do capítulo anterior. Noite. República Universitária Laços de Amizade.

Já dentro da casa, Janaína e Darlan tentam convencer seus filhos a conversarem. Os republicamos estão chocados com as visitas, e em silêncio. Janaína, visivelmente emocionada se aproxima da filha, querendo tocá-la.

JANAÍNA: Minha filha... Eu preciso tanto falar com você.

BRUNA: (histérica) Sai daqui! Eu não quero falar com você.

Close em Darlan.

DARLAN: Filho...

MARCELO: Não me chama assim. Você não sabe o que é ser pai!

CELINA: (confusa) Qué pasa?

DARLAN: Por favor, senhora... Deixem-nos conversar a sós. Depois eu faço questão de explicar tudo.

Close em Celina, sem reação.

CORTA PARA.

| CENA 02 | República Universitária Laços de Amizade. Interior. Quarto Maçã.

Bruna e Janaína olham uma no olho da outra. Ambas estão em pé e a tensão é visivelmente percebida nelas.

BRUNA: (ríspida) O que é que você quer comigo?

JANAÍNA: (complacente) Uma chance pra poder me explicar.

BRUNA: Explicar? Não tem nada pra explicar, mãe. Eu vi com meus próprios olhos...

Janaína a interrompe.

JANAÍNA: Você tá me julgando antes de conhecer as minhas razões, filha. Se você soubesse o que eu passei quando cheguei aqui.

BRUNA: Por mais que você tivesse sofrido o pão que o diabo amassou, ainda assim não era motivo suficiente pra se transformar em uma... (hesitante) Uma mulher da vida!

JANAÍNA: Escuta, Bruna. Mesmo que depois de tudo você não consiga me entender, eu preciso me explicar. Nada saiu como eu planejei. Quando eu cheguei aqui em busca de uma vida melhor, pedi ajuda a uma amiga de longa data que disse que poderia me ajudar no que fosse preciso, mas eu acabei me metendo em algumas confusões e indo parar na prisão, por um crime que eu não cometi. Eu passei alguns meses lá, mas consegui minha liberdade condicional graças a um advogado que ela me arranjou.

BRUNA: (horrorizada) Meu Deus, além de tudo você esteve na cadeia? (incrédula) Você não é mais a mesma. Quem é você, afinal? A minha mãe jamais seria capaz de fazer algo de errado a ponto de ser presa.

JANAÍNA: E eu não fiz meu amor. Eu assumi a culpa pela morte do marido da Isabel, porque se ela fosse presa, os danos seriam maiores pra ela. Eu achava que não tinha nada a perder, já ela teria o ódio dos próprios filhos. Talvez esse tenha sido meu maior erro. (pausa) Quando saí da cadeia, eu conheci um homem, o Carlos. Ele me levou ‘pra’ casa dele. No início as coisas iam bem. Ele era outra pessoa, carinhoso até. Mas depois de alguns meses ele me explicou como as coisas funcionariam a partir de então. Em troca de casa e comida, eu teria que trabalhar me prostituindo e satisfazendo aquele cretino quando ele quisesse... (começa a chorar) eu não queria passar por tudo aquilo. Tentei fugir, mas no fundo eu não tinha pra onde ir.

BRUNA: (convicta) Mas você não precisava ter se submetido desse jeito a esse homem.

JANAÍNA: Não? E o que você teria feito no meu lugar? Não responda... Eu só quero que você tente me entender. Se pra uma pessoa sem antecedentes criminais conseguir um trabalho é difícil, imagina pra uma ex-presidiária, filha. As portas se fecharam pra mim, as pessoas me olhavam torto. Eu não tive escolha. Naquele momento achei que o Carlos fosse a luz no fim do túnel...

Bruna fica sem argumentos. Lágrimas escorrem dos seus olhos.

JANAÍNA: Eu não queria que tivesse sido assim. Você acha mesmo que se eu tivesse alternativa eu estaria nessa vida? E se não fossem as circunstâncias em que eu me encontrava, jamais teria me submetido aquele cretino. Eu sou a mesma de antes Bruna, aquela de quem você tinha orgulho.

BRUNA: (hesitante) Eu...

JANAÍNA: Não precisa dizer nada agora. Eu era quem precisava te dar explicações. E quero que saiba que agora que tive essa chance, e que encontrei o Darlan que é um homem de verdade, pretendo recomeçar sem o Carlos na minha vida e principalmente, sem as sujeiras que ele obriga a fazer.

|CENA 03| República Universitária Laços de Amizade. Interior. Quarto Uva.

Darlan e Marcelo estão frente a frente. O clima não é menos tenso.

MARCELO: Eu nunca vou te perdoar.

DARLAN: Isso não é justo, Marcelo. Você tem que entender que sua mãe já estava fragilizada.

MARCELO: (agressivo) Aí pra acabar de vez com a vida dela você resolveu se separar, não foi? Você DESTRUIU a vida da mamãe! Eu te odeio.

DARLAN: Eu não amava sua mãe. Eu não podia continuar vivendo ao lado dela, sem amor.

MARCELO: Claro que não. Você não ama ninguém além de si mesmo.

DARLAN: Isso não é verdade...

MARCELO: Nem sequer fingir você se deu ao trabalho, pra que a saúde dela não piorasse.

DARLAN: Seria pior.

MARCELO: Pior pra quem? Pra você, claro! Com ela viva você jamais poderia ter outras mulheres. Era muito mais fácil tirá-la da jogada. Em nenhum momento você pensou em mim, no que eu tava sentindo diante daquela situação. Só pensou em você como sempre.

DARLAN: Você não sabe o quanto dói ouvir essas palavras vindas de você.

MARCELO: E vai doer muito mais, sabe por quê? Porque essa revolta dentro de mim não vai passar nunca e eu vou te desprezar pelo resto da minha vida. Eu nunca vou te perdoar pelo que você me fez passar naquele dia terrível da morte dela. (voz trêmula) O pior dia da minha vida... Foi como se abrisse um buraco enorme no meu coração. Eu só queria estar com ela... Ao lado dela pra sempre, (muito agressivo) eu queria morrer junto com ela!

DARLAN: Eu te entendo, meu filho. Eu também sofri com a morte da Marli, mesmo que você não acredite. Eu não queria que a vida dela acabasse daquele jeito. Mas eu não fui o culpado por isso Marcelo, os médicos já tinham desacreditado do estado de saúde de sua mãe. Ela sabia que não resistiria. Entendo que você ainda não tenha aceitado a morte dela e queira achar culpados, mas eles não existem meu filho. Não há culpados nessa história.

MARCELO: Tá vendo só? Olha o jeito como você fala! Você não se compadece com nada, não é?! Essa tua frieza matou sim a mamãe dia após dia.

DARLAN: Assim como o seu desprezo vai acabar por me matar também.

Silêncio. Segundos depois, Marcelo meio que sussurra.

MARCELO: Eu quero ficar só.

DARLAN: Não sem antes...

Marcelo corta a fala do pai grosseiramente.

MARCELO: (gritando) Me deixa em paz!

DARLAN: (calmo) Tá. Tudo bem... Mas eu não vou desistir de você.

| CENA 04 | República Universitária Laços de Amizade. Interior. Sala de estar.

Todos os moradores reunidos e sentados no sofá, puffs e poltronas, ainda incrédulos com as visitas.

CLÁUDIO: Que gritaria é essa lá em cima?

LUCIANO: O bicho pegou.

VALESKA: (debochada) Então aquela é a famosa a mãezinha da Bruna? A profissional do sexo?

VANESSA: Pelo visto...

VALESKA: Ai Celina... Você precisa selecionar melhor as visitas que frequentam essa república.

FABIANA: (alterada) Por que você não cala essa sua boca?

CELINA: Ellos que resuelvan los problemas con sus padres y nosotros no vamos a meternos. No quiero un comentário sobre este asunto. [Eles que resolvam os problemas com seus pais e nós não vamos nos meter nisso.]

| CENA 05 | Condomínio Almirante. Apartamento 209. Interior. Sala de estar.

A porta é aberta e por ela entra Igor, com uma sacola de supermercado na mão direita. No mesmo momento Jaqueline aparece vinda do quarto e senta-se no sofá.

IGOR: Cadê a mamãe?

JAQUELINE: Não sei. Deve ter saído. Mas eu não vi.

Igor passa pela irmã indo em direção a cozinha. Mas ela o impede com sua fala.

JAQUELINE: Eu fui visitar o Celso no hospital.

Igor dá meia volta e solta a sacola em cima da mesa.

IGOR: Como é que ele tá?

JAQUELINE: Na mesma. Foi horrível vê-lo deitado naquela cama, praticamente morto.

Igor senta-se ao lado da irmã.

IGOR: (receoso) Também não exagera. Ele não tá morto. Tenho certeza que ele vai sair dessa, Jaque.

JAQUELINE: Em pensar que tudo isso poderia ter sido evitado. Eu me sinto tão culpada!

IGOR: Para com isso, garota. Ninguém teve culpa. Foi um acidente.

JAQUELINE: Acidente que qualquer um poderia prever diante do exposto. Eu não devia ter deixado você ir adiante com essa história de racha. Aquele Cláudio também hein! Agora vocês dois estão aí mais ilesos do que nunca, (voz embargada) já o coitado do Celso...

IGOR: Por que você se importa tanto com esse cara, afinal?

Jaqueline olha o irmão com impaciência.

JAQUELINE: Não é óbvio? Eu tô apaixonada Igor!

Close em Isabel que aparece de repente na sala.

ISABEL: E eu posso saber por quem, filhota?

| Cena 06 | República Universitária Laços de Amizade. Interior. Sala de estar.

Darlan, abraçado por Janaína, vêm descendo as escadas que dão acesso à sala. Todos continuam reunidos no local, e sentados. A expressão tanto no rosto de Darlan quanto no de Janaína é de tristeza. O casal se dirige ao centro da sala, mas atrás do sofá. Ninguém fala nada, até que:

CELINA: (forçando o Português) Y entoces? hablaron con sus filhos? [E então? Falaram com seus filhos?]

DARLAN: Conversamos sim, dona...

Celina estende a mão para Darlan, que a aperta.

CELINA: Celina Bustamente. Encantada.

DARLAN: Darlan Rezende. Muito prazer.

JANAÍNA (estendendo a mão para Celina): Janaína Coelho.

CELINA: Encantada!

DARLAN: Respondendo a sua pergunta. A conversa não foi nada boa.

JANAÍNA: Tão pouco a minha com a Bruna.

CELINA: Lo siento, por los dos. De verdad! [Sinto muito, pelos dois. De verdade.]

DARLAN: Eles estão irredutíveis, Celina.

CELINA: Pero no desistan, sí?

DARLAN: Sim, não vamos desistir. (para Janaína) Mas por hora, só nos resta ir pra casa não é meu amor?

Janaína assente com a cabeça. Os republicanos não dão um piu e respeitam o clima fúnebre, apenas observam. O casal começa a se encaminhar para a porta de saída. Celina os acompanha para abrir a porta. Ouvimos passos rápidos descendo as escadas. Bruna aparece na sala com os olhos marejados.

BRUNA: (voz trêmula) Mãe...

Janaína volta-se para a filha, esperançosa.

BRUNA: Não vai embora de novo...

MÚSICA: “Algo mudou – Liah”.

Bruna corre para os braços de Janaína que abre um sorriso, abraçando sua filha logo em seguida. Ambas choram emocionadas. Os republicanos, com exceção de Valeska, comemoram a reconciliação fazendo o fuzuê de sempre. Até Vanessa comemora. Depois do abraço, Janaína e Bruna se olham.

JANAÍNA: Nunca mais desapareça assim, hein.

BRUNA: Eu te amo, mãe.

Elas voltam a se emocionar. Fim da sonoplastia.

| Cena 07 | Condomínio Almirante. Apartamento 209. Interior. Sala de estar.

Isabel caminha até o centro da sala para sentar no sofá, ao lado de Jaqueline e Igor.

ISABEL: E então filha? Quem é o sortudo?

Igor e Jaqueline se olham em cumplicidade.

ISABEL: Ih...! Quê que foi? Que olhares são esses?

JAQUELINE: Ah mãe. Não é nada. Não é ninguém.

ISABEL: Como não? Eu ouvi muito bem quando você disse em alto e bom tom que está apaixonada. Quem é ele? É bonito? De boa família?

JAQUELINE: Aff mãe. Para de fazer tantas perguntas. É um carinha da minha escola.

ISABEL: (curiosa) E ele está interessado em você? A que família ele pertence? Veja lá hein Jaqueline, não vá arranjar um pobre coitado sem eira, nem beira.

IGOR: Esse papo tá ficando chato. Tô me mandando daqui.

Igor se levanta, saindo à francesa.

JAQUELINE: Que interrogatório é esse hein dona Isabel? Chega por hoje, né. Tô indo dormir que amanhã cedo tem aula. Beijo.

Jaqueline se levanta apressadamente. Deixando Isabel insatisfeita.

| Cena 08 | República Universitária Laços de Amizade. Interior. Sala de estar.

Mãe e filha continuam abraçadas, sob os olhares de satisfação de Celina, Darlan e todos os republicanos, com exceção de Valeska, que está indiferente.

JANAÍNA: Como é bom sentir esse alívio Bruna.

BRUNA: Me perdoa. Eu não tinha o direito de te julgar daquela maneira.

JANAÍNA: Esqueça. Você tinha suas razões. O importante é que agora nós poderemos viver juntas todo esse tempo que a vida nos separou, como mãe e filha de verdade.

VALEKSA: É nessa hora que entra a trilha sonora dramática? Que patético!

Todos olham Valeska com ar de reprovação. Ela ignora a todos.

BRUNA: Bom pessoal. Essa aqui é Janaína Coelho. Minha mãe, com muito orgulho.

VALESKA: Diz isso agora né, queridinha.

FABIANA: Não se mete, garota.

BRUNA: Sim, Valeska. Todo mundo tem direito a uma segunda chance.

VALESKA: (gritando da sala para Marcelo) Ouviu isso né, amore? A minha você ainda não deu não.

FABIANA: Mas é muito descaramento pra uma pessoa só.

Todos riem. Janaína e Bruna voltam a se abraçar em meio a sorrisos. Os republicanos aplaudem e fazem aquele barulho. Celina chora emocionada. Darlan está feliz por sua namorada. Valeska sai da sala, inconformada.

JANAÍNA: É um prazer conhecer vocês, gente.

BRUNA: E o Marcelo?

DARLAN: Ele ficou no quarto. Infelizmente nós não conseguimos nos acertar como você e sua mãe. Fica pra próxima.

BRUNA: É uma pena. Eu vou falar com ele depois. O Marcelo é cabeça dura, mas tem bom coração.

JANAÍNA: Esse é o Darlan filha, meu namorado.

Os moradores estranham a revelação de Janaína.

BRUNA: Muito prazer, seu Darlan.

DARLAN: O prazer é meu.

| CENA 09 | República Universitária Laços de Amizade. Quarto Uva. Interior.

Valeska entra no local sem cerimônia. Marcelo está sentado, encostado a parede e com as mãos na cabeça, tentando esconder o choro.

VALESKA: Você e essa sua mania de querer ser fazer de forte.

Ele segue de cabeça baixa, mas reconhece a voz.

MARCELO: Me deixa em paz, Valeska. Eu quero ficar só.

VALESKA: Sabe Marcelo, você julga demais o seu pai. Mas no fundo, você é igual.

Marcelo se levanta, bravo.

MARCELO: Como é que é garota? Você não sabe de nada. Nem de longe eu sou parecido com aquele homem. Eu jamais trataria uma pessoa com tanto desprezo ao ponto de fazê-la morrer. Sem dó e piedade! Você tem noção do que é isso? (risada nervosa) Claro que você não tem né. Você é incapaz de enxergar o sofrimento dos outros. Se for preciso, até prejudica alguém pra conseguir o que quer! Parece até que é você a filha dele, e não eu!

VALESKA: E o que você que tá fazendo com ele Marcelo? Não está tratando com desprezo e indiferença? Que bonito hein... Grita pra quem quiser ouvir o quanto seu pai é o pior homem da face da Terra, ao mesmo tempo que tem muito dele em você. Está no DNA bebê.

MARCELO: Ele só tá colhendo o que plantou.

VALESKA: Olha. Eu já sei tudo que você pensa ao meu respeito agora. Que me acha a futilidade em pessoa. E que eu sou a última pessoa no mundo, depois do seu pai claro, a quem você daria ouvidos. Mas eu to sendo sincera contigo amore, porque eu gosto de você, mesmo que você não acredite. E por todo esse tempo que nos conhecemos eu sinto que tenho a obrigação... Obrigação não que eu detesto obrigações você sabe, mas digamos que eu preciso te dizer que você tá sendo muito injusto com o Darlan.

MARCELO: Você não é ninguém pra me falar isso. Ninguém!

Valeska sorri.

VALESKA: Não tenho mesmo mais nenhum valor pra você, não é?! Hoje não sou mais nada. Mas eu sei que já fui muito na sua vida. E isso você nunca vai poder negar, baby. Eu já disse o que tinha pra dizer.

Valeska sai do quarto, desfilando. Marcelo fica pensativo.

| CENA 10 | República Universitária Laços de Amizade. Exterior.

Darlan fecha a porta do carro com Janaína dentro, dá a volta e entra no lado do motorista. Ela acaricia o rosto do namorado.

JANAÍNA: Não fica assim, meu amor. O Marcelo vai te perdoar um dia.

DARLAN: Dói tanto ser desprezado por um filho, Janaína.

JANAÍNA: Sei perfeitamente o que você tá sentindo. Eles nem imaginam o quanto nos fazem mal com isso. Mas você tem que ter fé. Tenha fé que ele vai perceber que está sendo injusto com você.

DARLAN: Espero que sim. Quero que saiba eu estou muito feliz por você e pela Bruna. Bom, eu vou te deixar em casa. Aproveito pra conhecer seu lar.

Close em Janaína, apavorada.

JANAÍNA: (nervosa) Na minha casa?!

 
     

 

     
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