LUA
MINGUANTE
A lua minguante surgiu no céu, sucedendo o
pôr-do-sol alaranjado. A floresta, antes viva, silenciou com a chegada da
noite, como se inquieta, guardando segredos nas sombras. Rafael pegou o
revólver da mesa de cabeceira antes de sair de casa. Não conseguia comer nem
beber, atormentado pelas palavras de Ademilson. Aquele filho da puta era capaz
de qualquer coisa para acumular mais poder e manipular o vilarejo.
Ao sair, notou um homem à distância,
observando-o. Não havia mais disfarces, nem tentativas de esconder os risos
maliciosos. Rafael reconheceu o homem. Mais cedo, o vira com o futuro candidato
a vereador, com um olhar vazio, como se soubesse que a morte estava próxima.
Rafael entrou no carro, o coração pesado pela dor de ter perdido Bob. Se a
morte de seu fiel amigo fora devastadora, o que diria das ameaças contra sua
esposa?
Seu coração queimava de raiva. Ele abaixou
a cabeça antes de ligar o motor, tentando conter a fúria, mas quando levantou o
olhar, viu o mesmo homem parado na frente da picape, segurando uma espingarda.
Logo depois, Nilton se aproximou, imponente, fazendo o jovem delegado sentir um
arrepio de medo. Mas Rafael enfrentaria um exército de inquisidores, se isso
significasse proteger Luna.
Nilton bateu na porta do carro com força,
inclinou-se até a janela e sussurrou no ouvido de Rafael:
— Espero que o senhor leve sua esposa para
a reunião! — Nilton sibilou, com um sorriso torto no rosto. — Não tem como
fugir, Doutor Delegado, você sabe muito bem que Luna não vai sair do vilarejo.
O demônio já a prendeu, eles estão amarrados um ao outro.
Ele fez uma pausa, mastigando os lábios
como se estivesse saboreando cada palavra antes de continuar.
— Não tente ser esperto. Eu não quero que
ninguém saia machucado… — a voz dele ganhou um tom mais grave, quase ameaçador
— ...apenas os culpados por toda essa desgraça.
Culpa?
Luna não tinha culpa nenhuma de estar
naquela maldita situação. O olhar de Rafael se encheu de raiva. Se seguisse seu
instinto, teria descarregado o pente da arma na cabeça daquele miserável. Com um
esforço tremendo, conteve-se e seguiu em direção à casa da família Castro. Para
sua surpresa, não foi seguido.
Quando o carro se aproximou do portão, ele
se abriu automaticamente, como por magia. Mathias o aguardava no quintal, ao
lado de um de seus rottweilers, que o observava atentamente.
— Eu vou tirar minha mulher daqui! —
disparou Rafael, encarando o amigo, que logo se aproximou.
— Eles não vão fazer nada, Rafael! Você é
o delegado! — tentou acalmá-lo Mathias.
— O inferno que não vão! — explodiu
Rafael, deixando escapar um pedaço da raiva acumulada. — O Ademilson colocou
seus homens para me ameaçar! E nem sequer tentam se esconder nas sombras,
Mathias! Eles vão atrás de Luna, nem que precisem ir até o inferno! Estão
tentando destruí-la, acabar com o meu amor… com o meu grande amor!
A voz de Rafael falhou no final,
misturando raiva e desespero. Ele sabia que não estava mais lidando apenas com
homens, mas com forças que pareciam determinadas a levar tudo que ele mais
prezava.
Rafael mal prestou atenção ao vento, que
ficava cada vez mais forte, enquanto atravessava o quintal até a casa dos
Castro, onde Luna estava sendo protegida nos últimos dias. O cheiro da erva
fresca foi a primeira coisa que o atingiu , capim-santo, fervendo em algum
canto da cozinha. Quando Nassy avistou o delegado se aproximando, com o peso do
desespero estampado no rosto, ela se adiantou.
— A Luna está lá em cima — disse a
senhora, sem rodeios.
Rafael hesitou por um momento, com os
olhos fixos no chão.
— Eu quero fugir, Nassy.
— Rafael, você sabe que isso é impossível.
— Você tem certeza? — Sua voz vacilou,
carregada de impotência.
Nassy suspirou, a expressão grave.
— O Rubens tentou o mesmo há vinte anos.
Lúcia não conseguiu ir muito longe. Era como se algo a prendesse a estas
terras, raízes invisíveis. E, no fim, ela não saiu viva. Luna... ela precisa
gerar esse... anticristo. Só assim vamos ter as respostas que esperamos há
tantos anos. Não podem repetir a mesma história. Vale Verde não pode mergulhar
na escuridão de novo. Se isso continuar, daqui a vinte anos, será outra mulher
inocente, outra família.
Rafael sentiu o peso dessas palavras
desmoronar sobre ele.
— E a Luna? — perguntou, a voz quase um
sussurro.
— Faremos o impossível para mantê-la viva.
Rafael só conseguiu respirar quando viu o
rosto de Luna. Ela estava linda, com um vestido branco florido que parecia
iluminar sua pele. Mas a beleza inocente do vestido contrastava com a verdade
brutal que ele não conseguia negar. A barriga de Luna, agora visivelmente
grávida, não era fruto de amor... mas do mal.
Ele não conseguiu tocar sua barriga, o
pavor o consumia. Em vez disso, seus dedos apenas roçaram os lábios dela,
enquanto os olhos castanhos de Luna, os mais belos e profundos que ele já
conhecera, o encaravam com uma ternura que não fazia sentido naquele cenário.
Ela acariciou suas mãos, como se, por um breve momento, os dois estivessem
sozinhos no mundo, longe do caos.
— Eu vou à reunião de moradores — Luna
disse, quebrando o silêncio.
— Não! — A resposta de Rafael foi
imediata, quase desesperada. — É muito perigoso para você.
Luna segurou suas mãos com mais firmeza.
— Eles precisam me ouvir, Rafael. Todos
precisam me escutar.
※※※※
O púlpito de madeira da igreja foi
improvisado no campo em frente ao Colégio Municipal Manuel Ribeiro Carneiro. Os
moradores de Vale Verde estavam sentados em fileiras de cadeiras brancas, com
expressões tensas e preocupadas, enquanto escutavam os discursos dos principais
membros da comunidade. Chico, sentado na primeira fila, recusava repetidamente
os convites para ir até o microfone, seu olhar fixo no chão, como se quisesse
desaparecer.
Antes de o relógio marcar oito horas,
Ademilson finalmente se aproximou. Vestia uma camisa social e uma calça jeans,
seus passos firmes no sapato coturno ecoando no silêncio nervoso da plateia.
Seu ego inchava a cada palavra que preparava para lançar. Ele já se via como o
prefeito de Vale Verde, a autoridade máxima do vilarejo.
Com o peito inflado de arrogância,
Ademilson começou:
— ...Sabemos que a família tradicional
está sendo deixada de lado, principalmente com a chegada dessas... pessoas.
Nosso Arraial está se tornando outro mundo, cercado de turistas, drogas, sexo!
Homem com homem, mulher com mulher! Onde o nosso mundo vai parar?
Ele fez uma pausa dramática, os olhos
escaneando a multidão que o encarava com atenção.
— Mas eu não vou deixar que nada de mal
aconteça com o nosso vilarejo, o nosso velho Vale Verde! Eles dizem que estamos
perdidos no tempo. Não! Não estamos! Estamos seguindo o que Deus nos mandou
seguir, seguindo o que está na Bíblia! O mundo é um lugar obscuro... e o Homem
de Olhos Vermelhos é a nossa maior tormenta!
A tensão no ar era palpável. As palavras
de Ademilson se impregnavam na multidão como veneno.
— Precisamos acabar com ele, de novo.
Precisamos destruir a hospedeira e o ser que está crescendo dentro dela! — Seu
tom se elevou, inflamado, enquanto erguia as mãos para o céu, como se estivesse
sendo guiado por uma força divina. — Deus está comigo! Deus está com todos nós!
A multidão começou a murmurar em
concordância, alguns aplaudindo, outros apenas observando com o mesmo olhar de
medo e conformidade. Ademilson terminava seu discurso com a certeza de que o
vilarejo estava ao seu lado.
Um timbre feminino, firme e carregado de
emoção, ecoou do fundo da pequena multidão:
— Deus está comigo também.
Luna surgiu, acompanhada pelo marido,
Rafael, ao seu lado. O silêncio caiu sobre a multidão, todos os olhares fixos
na mulher que caminhava com determinação. Ao seu redor, estavam as pessoas que
tinham a coragem de ficar ao seu lado: Dona Mocinha, Dr. Luiz, Nassy, Mathias e
Vicente. Ninguém esperava a força daquela mulher, que avançava com uma calma
quase sobrenatural em direção ao púlpito. A presença imponente de Ademilson
pareceu se dissipar, como uma sombra fugindo da luz. O ar pesava com tensão e
expectativa.
Luna subiu ao púlpito, tomou o microfone
com firmeza, e seus olhos brilharam com uma intensidade que abalava os
presentes. Ademilson, que momentos antes parecia invencível, foi silenciado,
sua confiança evaporando diante daquela mulher que carregava não só sua dor,
mas também a história de um vilarejo manchado pelo sangue do passado.
— Há vinte anos, vocês cometeram um grande
erro — sua voz soou firme, cortando o ar. — Vocês mataram uma mulher inocente.
Uma mulher que só queria viver! Lúcia era cheia de sorrisos, cheia de vida, e
morou na mesma casa onde eu vivo agora. Vocês a assassinaram, como se fosse uma
bruxa.
Luna respirou fundo, as palavras
carregando o peso de décadas de injustiça.
— O sangue de Lúcia está nas mãos de cada
um de vocês! Está nas mãos de todos que invadiram a casa do Dr. Luiz, que
permitiram que uma atrocidade fosse cometida e que fizeram de tudo para
esconder a verdade. Mas a verdade não pode ser enterrada. Ela sempre volta,
mais forte do que nunca.
A multidão permaneceu em silêncio
absoluto. O peso de suas palavras atingia o coração de cada morador. Ademilson,
outrora o centro das atenções, agora parecia uma sombra insignificante perto da
verdade que Luna revelava. O que ela dizia não era apenas um confronto; era um
acerto de contas com o passado, uma chance de mudar o futuro de Vale Verde.
Um silêncio pesado tomou conta do campo
quando um carro parou próximo ao estacionamento, fazendo Luna interromper seu
discurso. Todos os olhares se voltaram para o veículo. De dentro, saiu um homem
alto e corpulento, que, com cuidado, abriu a porta do passageiro. De lá, desceu
um senhor que muitos acreditavam estar morto ou enlouquecido pela dor. Rubens
caminhava ao lado de um rapaz jovem, seu sobrinho. A surpresa era palpável.
Murmúrios corriam pela multidão, enquanto outros apenas permaneciam em choque.
Rubens avançou até Luna, e, sem hesitar, a
envolveu em um abraço apertado. O peso de sua presença ali era esmagador.
— Não sei como tive coragem de vir até
aqui e olhar na cara de vocês — sua voz carregava o peso dos anos de luto e
dor. — Alguns de vocês continuam carregando o sangue da minha mulher nas
mãos... viveram uma vida inteira como se nada tivesse acontecido. Tiveram a
chance de destruir o Homem de Olhos Vermelhos!
Seu olhar afiado se fixou em Chico, que
continuava sentado, incapaz de encarar o homem à sua frente. Rubens, então,
voltou-se para a multidão, erguendo a voz com uma convicção que gelava a
espinha.
— O Homem de Olhos Vermelhos escolheu a
minha Lúcia, a minha amada, assim como escolheu Luna. Elas não têm culpa! Não
sabemos por que, mas ele as escolheu. Agora, vocês têm a única chance de
impedir que essa maldição continue. Vocês precisam tirar o hospedeiro do corpo
de Luna... e o matar. Somente assim, Vale Verde estará livre do mal que nos
assola. Somos uma terra amaldiçoada, construída sobre o sangue dos nossos
índios na Caçada Selvagem. Não podemos permitir que mais uma mulher inocente
seja sacrificada.
O murmúrio se espalhou entre a multidão
assim que Rubens terminou seu discurso. Os olhares, as expressões de choque e
indignação, deixavam claro que muitos não concordavam com a ideia de que Luna
deveria ser morta. Ela era vista como uma vítima, assim como Lúcia havia sido,
queimada viva por um erro monstruoso. O peso da culpa recaía sobre Chico, que
permanecia imóvel, os olhos perdidos, como se estivesse à beira do abismo,
carregando o fardo de suas ações passadas.
Luna abaixou a cabeça, um sorriso fraco
nos lábios, fruto de uma coragem que parecia infinita. Mesmo diante de tudo
aquilo, ela havia se mantido firme. Mas Ademilson, cercado por seus homens,
continuava a observá-la com olhos frios, esperando o momento certo.
— Temos uma cela para você, Luna! — sua
voz ecoou pelo campo, rompendo o silêncio com uma arrogância que fez algumas
pessoas vaiarem. Ele ignorou, e sua voz subiu ao microfone em tom de comando. —
Esta mulher ainda carrega o filho do mal! Ela precisa ser detida, precisa ser
presa! Precisamos vigiar de perto, ou vocês querem que Vale Verde continue
envolta nessa nuvem escura? Não podemos permitir isso!
Antes que mais palavras pudessem ser
ditas, uma nova voz rompeu o tumulto. Chico, com um semblante grave,
levantou-se de sua cadeira. Seus passos firmes o levaram até Luna, que o
encarava com surpresa.
— Eu também quero ser preso. — Sua voz era firme, carregada de arrependimento. — Se Luna for para a prisão, eu preciso ir junto. Fui o grande culpado pela morte de uma mulher inocente. Eu criei você, Ademilson! — disse, virando-se para o homem. — E você, que não consegue mais distinguir o certo do errado, está jogando outra inocente atrás das grades! Se existe alguém que merece a pena de morte... sou eu.
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

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