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O Lado Oculto da Lua: Capítulo 29

Novela de Luiz Gustavo
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O LADO OCULTO DA LUA - CAPÍTULO 29

LUA MINGUANTE

A lua minguante surgiu no céu, sucedendo o pôr-do-sol alaranjado. A floresta, antes viva, silenciou com a chegada da noite, como se inquieta, guardando segredos nas sombras. Rafael pegou o revólver da mesa de cabeceira antes de sair de casa. Não conseguia comer nem beber, atormentado pelas palavras de Ademilson. Aquele filho da puta era capaz de qualquer coisa para acumular mais poder e manipular o vilarejo.

Ao sair, notou um homem à distância, observando-o. Não havia mais disfarces, nem tentativas de esconder os risos maliciosos. Rafael reconheceu o homem. Mais cedo, o vira com o futuro candidato a vereador, com um olhar vazio, como se soubesse que a morte estava próxima. Rafael entrou no carro, o coração pesado pela dor de ter perdido Bob. Se a morte de seu fiel amigo fora devastadora, o que diria das ameaças contra sua esposa?

Seu coração queimava de raiva. Ele abaixou a cabeça antes de ligar o motor, tentando conter a fúria, mas quando levantou o olhar, viu o mesmo homem parado na frente da picape, segurando uma espingarda. Logo depois, Nilton se aproximou, imponente, fazendo o jovem delegado sentir um arrepio de medo. Mas Rafael enfrentaria um exército de inquisidores, se isso significasse proteger Luna.

Nilton bateu na porta do carro com força, inclinou-se até a janela e sussurrou no ouvido de Rafael:

— Espero que o senhor leve sua esposa para a reunião! — Nilton sibilou, com um sorriso torto no rosto. — Não tem como fugir, Doutor Delegado, você sabe muito bem que Luna não vai sair do vilarejo. O demônio já a prendeu, eles estão amarrados um ao outro.

Ele fez uma pausa, mastigando os lábios como se estivesse saboreando cada palavra antes de continuar.

— Não tente ser esperto. Eu não quero que ninguém saia machucado… — a voz dele ganhou um tom mais grave, quase ameaçador — ...apenas os culpados por toda essa desgraça.

Culpa?

Luna não tinha culpa nenhuma de estar naquela maldita situação. O olhar de Rafael se encheu de raiva. Se seguisse seu instinto, teria descarregado o pente da arma na cabeça daquele miserável. Com um esforço tremendo, conteve-se e seguiu em direção à casa da família Castro. Para sua surpresa, não foi seguido.

Quando o carro se aproximou do portão, ele se abriu automaticamente, como por magia. Mathias o aguardava no quintal, ao lado de um de seus rottweilers, que o observava atentamente.

— Eu vou tirar minha mulher daqui! — disparou Rafael, encarando o amigo, que logo se aproximou.

— Eles não vão fazer nada, Rafael! Você é o delegado! — tentou acalmá-lo Mathias.

— O inferno que não vão! — explodiu Rafael, deixando escapar um pedaço da raiva acumulada. — O Ademilson colocou seus homens para me ameaçar! E nem sequer tentam se esconder nas sombras, Mathias! Eles vão atrás de Luna, nem que precisem ir até o inferno! Estão tentando destruí-la, acabar com o meu amor… com o meu grande amor!

A voz de Rafael falhou no final, misturando raiva e desespero. Ele sabia que não estava mais lidando apenas com homens, mas com forças que pareciam determinadas a levar tudo que ele mais prezava.

Rafael mal prestou atenção ao vento, que ficava cada vez mais forte, enquanto atravessava o quintal até a casa dos Castro, onde Luna estava sendo protegida nos últimos dias. O cheiro da erva fresca foi a primeira coisa que o atingiu , capim-santo, fervendo em algum canto da cozinha. Quando Nassy avistou o delegado se aproximando, com o peso do desespero estampado no rosto, ela se adiantou.

— A Luna está lá em cima — disse a senhora, sem rodeios.

Rafael hesitou por um momento, com os olhos fixos no chão.

— Eu quero fugir, Nassy.

— Rafael, você sabe que isso é impossível.

— Você tem certeza? — Sua voz vacilou, carregada de impotência.

Nassy suspirou, a expressão grave.

— O Rubens tentou o mesmo há vinte anos. Lúcia não conseguiu ir muito longe. Era como se algo a prendesse a estas terras, raízes invisíveis. E, no fim, ela não saiu viva. Luna... ela precisa gerar esse... anticristo. Só assim vamos ter as respostas que esperamos há tantos anos. Não podem repetir a mesma história. Vale Verde não pode mergulhar na escuridão de novo. Se isso continuar, daqui a vinte anos, será outra mulher inocente, outra família.

Rafael sentiu o peso dessas palavras desmoronar sobre ele.

— E a Luna? — perguntou, a voz quase um sussurro.

— Faremos o impossível para mantê-la viva.

Rafael só conseguiu respirar quando viu o rosto de Luna. Ela estava linda, com um vestido branco florido que parecia iluminar sua pele. Mas a beleza inocente do vestido contrastava com a verdade brutal que ele não conseguia negar. A barriga de Luna, agora visivelmente grávida, não era fruto de amor... mas do mal.

Ele não conseguiu tocar sua barriga, o pavor o consumia. Em vez disso, seus dedos apenas roçaram os lábios dela, enquanto os olhos castanhos de Luna, os mais belos e profundos que ele já conhecera, o encaravam com uma ternura que não fazia sentido naquele cenário. Ela acariciou suas mãos, como se, por um breve momento, os dois estivessem sozinhos no mundo, longe do caos.

— Eu vou à reunião de moradores — Luna disse, quebrando o silêncio.

— Não! — A resposta de Rafael foi imediata, quase desesperada. — É muito perigoso para você.

Luna segurou suas mãos com mais firmeza.

— Eles precisam me ouvir, Rafael. Todos precisam me escutar.


※※※※

 

O púlpito de madeira da igreja foi improvisado no campo em frente ao Colégio Municipal Manuel Ribeiro Carneiro. Os moradores de Vale Verde estavam sentados em fileiras de cadeiras brancas, com expressões tensas e preocupadas, enquanto escutavam os discursos dos principais membros da comunidade. Chico, sentado na primeira fila, recusava repetidamente os convites para ir até o microfone, seu olhar fixo no chão, como se quisesse desaparecer.

Antes de o relógio marcar oito horas, Ademilson finalmente se aproximou. Vestia uma camisa social e uma calça jeans, seus passos firmes no sapato coturno ecoando no silêncio nervoso da plateia. Seu ego inchava a cada palavra que preparava para lançar. Ele já se via como o prefeito de Vale Verde, a autoridade máxima do vilarejo.

Com o peito inflado de arrogância, Ademilson começou:

— ...Sabemos que a família tradicional está sendo deixada de lado, principalmente com a chegada dessas... pessoas. Nosso Arraial está se tornando outro mundo, cercado de turistas, drogas, sexo! Homem com homem, mulher com mulher! Onde o nosso mundo vai parar?

Ele fez uma pausa dramática, os olhos escaneando a multidão que o encarava com atenção.

— Mas eu não vou deixar que nada de mal aconteça com o nosso vilarejo, o nosso velho Vale Verde! Eles dizem que estamos perdidos no tempo. Não! Não estamos! Estamos seguindo o que Deus nos mandou seguir, seguindo o que está na Bíblia! O mundo é um lugar obscuro... e o Homem de Olhos Vermelhos é a nossa maior tormenta!

A tensão no ar era palpável. As palavras de Ademilson se impregnavam na multidão como veneno.

— Precisamos acabar com ele, de novo. Precisamos destruir a hospedeira e o ser que está crescendo dentro dela! — Seu tom se elevou, inflamado, enquanto erguia as mãos para o céu, como se estivesse sendo guiado por uma força divina. — Deus está comigo! Deus está com todos nós!

A multidão começou a murmurar em concordância, alguns aplaudindo, outros apenas observando com o mesmo olhar de medo e conformidade. Ademilson terminava seu discurso com a certeza de que o vilarejo estava ao seu lado.

Um timbre feminino, firme e carregado de emoção, ecoou do fundo da pequena multidão:

— Deus está comigo também.

Luna surgiu, acompanhada pelo marido, Rafael, ao seu lado. O silêncio caiu sobre a multidão, todos os olhares fixos na mulher que caminhava com determinação. Ao seu redor, estavam as pessoas que tinham a coragem de ficar ao seu lado: Dona Mocinha, Dr. Luiz, Nassy, Mathias e Vicente. Ninguém esperava a força daquela mulher, que avançava com uma calma quase sobrenatural em direção ao púlpito. A presença imponente de Ademilson pareceu se dissipar, como uma sombra fugindo da luz. O ar pesava com tensão e expectativa.

Luna subiu ao púlpito, tomou o microfone com firmeza, e seus olhos brilharam com uma intensidade que abalava os presentes. Ademilson, que momentos antes parecia invencível, foi silenciado, sua confiança evaporando diante daquela mulher que carregava não só sua dor, mas também a história de um vilarejo manchado pelo sangue do passado.

— Há vinte anos, vocês cometeram um grande erro — sua voz soou firme, cortando o ar. — Vocês mataram uma mulher inocente. Uma mulher que só queria viver! Lúcia era cheia de sorrisos, cheia de vida, e morou na mesma casa onde eu vivo agora. Vocês a assassinaram, como se fosse uma bruxa.

Luna respirou fundo, as palavras carregando o peso de décadas de injustiça.

— O sangue de Lúcia está nas mãos de cada um de vocês! Está nas mãos de todos que invadiram a casa do Dr. Luiz, que permitiram que uma atrocidade fosse cometida e que fizeram de tudo para esconder a verdade. Mas a verdade não pode ser enterrada. Ela sempre volta, mais forte do que nunca.

A multidão permaneceu em silêncio absoluto. O peso de suas palavras atingia o coração de cada morador. Ademilson, outrora o centro das atenções, agora parecia uma sombra insignificante perto da verdade que Luna revelava. O que ela dizia não era apenas um confronto; era um acerto de contas com o passado, uma chance de mudar o futuro de Vale Verde.

Um silêncio pesado tomou conta do campo quando um carro parou próximo ao estacionamento, fazendo Luna interromper seu discurso. Todos os olhares se voltaram para o veículo. De dentro, saiu um homem alto e corpulento, que, com cuidado, abriu a porta do passageiro. De lá, desceu um senhor que muitos acreditavam estar morto ou enlouquecido pela dor. Rubens caminhava ao lado de um rapaz jovem, seu sobrinho. A surpresa era palpável. Murmúrios corriam pela multidão, enquanto outros apenas permaneciam em choque.

Rubens avançou até Luna, e, sem hesitar, a envolveu em um abraço apertado. O peso de sua presença ali era esmagador.

— Não sei como tive coragem de vir até aqui e olhar na cara de vocês — sua voz carregava o peso dos anos de luto e dor. — Alguns de vocês continuam carregando o sangue da minha mulher nas mãos... viveram uma vida inteira como se nada tivesse acontecido. Tiveram a chance de destruir o Homem de Olhos Vermelhos!

Seu olhar afiado se fixou em Chico, que continuava sentado, incapaz de encarar o homem à sua frente. Rubens, então, voltou-se para a multidão, erguendo a voz com uma convicção que gelava a espinha.

— O Homem de Olhos Vermelhos escolheu a minha Lúcia, a minha amada, assim como escolheu Luna. Elas não têm culpa! Não sabemos por que, mas ele as escolheu. Agora, vocês têm a única chance de impedir que essa maldição continue. Vocês precisam tirar o hospedeiro do corpo de Luna... e o matar. Somente assim, Vale Verde estará livre do mal que nos assola. Somos uma terra amaldiçoada, construída sobre o sangue dos nossos índios na Caçada Selvagem. Não podemos permitir que mais uma mulher inocente seja sacrificada.

O murmúrio se espalhou entre a multidão assim que Rubens terminou seu discurso. Os olhares, as expressões de choque e indignação, deixavam claro que muitos não concordavam com a ideia de que Luna deveria ser morta. Ela era vista como uma vítima, assim como Lúcia havia sido, queimada viva por um erro monstruoso. O peso da culpa recaía sobre Chico, que permanecia imóvel, os olhos perdidos, como se estivesse à beira do abismo, carregando o fardo de suas ações passadas.

Luna abaixou a cabeça, um sorriso fraco nos lábios, fruto de uma coragem que parecia infinita. Mesmo diante de tudo aquilo, ela havia se mantido firme. Mas Ademilson, cercado por seus homens, continuava a observá-la com olhos frios, esperando o momento certo.

— Temos uma cela para você, Luna! — sua voz ecoou pelo campo, rompendo o silêncio com uma arrogância que fez algumas pessoas vaiarem. Ele ignorou, e sua voz subiu ao microfone em tom de comando. — Esta mulher ainda carrega o filho do mal! Ela precisa ser detida, precisa ser presa! Precisamos vigiar de perto, ou vocês querem que Vale Verde continue envolta nessa nuvem escura? Não podemos permitir isso!

Antes que mais palavras pudessem ser ditas, uma nova voz rompeu o tumulto. Chico, com um semblante grave, levantou-se de sua cadeira. Seus passos firmes o levaram até Luna, que o encarava com surpresa.

— Eu também quero ser preso. — Sua voz era firme, carregada de arrependimento. — Se Luna for para a prisão, eu preciso ir junto. Fui o grande culpado pela morte de uma mulher inocente. Eu criei você, Ademilson! — disse, virando-se para o homem. — E você, que não consegue mais distinguir o certo do errado, está jogando outra inocente atrás das grades! Se existe alguém que merece a pena de morte... sou eu.

autor
Luiz Gustavo

elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz

Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro

participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique

Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem

trilha sonora
Birth - 30 Seconds to Mars

direção
Carlos Mota
 
produção
Bruno Olsen


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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