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O Lado Oculto da Lua: Capítulo 24

Novela de Luiz Gustavo
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O LADO OCULTO DA LUA - CAPÍTULO 24

BESTA

O portão rangeu nos trilhos de ferro enquanto Mathias pressionava o botão do controle remoto. O som ecoou pela escuridão crescente, misturando-se ao zumbido dos insetos e ao sussurro das árvores agitadas pelo vento. No carro, Mathias ainda tentava entender o que haviam testemunhado. Seu coração pulsava na garganta, o suor frio escorrendo pelas têmporas, enquanto uma parte de sua mente recusava-se a acreditar no que seus olhos haviam visto.

Rafael, ao seu lado, ainda sentia o sabor metálico do medo na boca. A lua cheia os observava do alto, envolta em uma neblina fantasmagórica, como um olho onisciente testemunhando sua fuga desesperada. Ele jamais admitiria, mas a visão do Homem de Olhos Vermelhos o deixou abalado. Por mais que tentasse, não conseguia afastar o pensamento de que haviam sido poupados não por sorte, mas por um motivo sinistro e desconhecido.

— Conseguimos fugir das garras da besta — murmurou Rafael, a voz embargada pelo cansaço e pelo horror mal contido. Mathias apenas assentiu, guardando a arma com mãos trêmulas. Quando pisou no chão, suas pernas fraquejaram, e ele precisou apoiar-se na porta do carro para não desabar. O ar estava denso, carregado de umidade, e trazia consigo o cheiro de terra molhada e folhas apodrecidas. A chuva não tardaria a cair, lavando o sangue e os horrores daquela noite.

A questão martelava na mente de Rafael, mais intensa a cada batida do coração. Ele se afastou do veículo e deixou a brisa fresca da noite aliviar, ainda que ligeiramente, o peso sufocante no peito. Cada passo parecia levar-lhe mais fundo na escuridão, tanto externa quanto interna. Quando finalmente parou, encarou Mathias como quem busca respostas que talvez nunca venham.

— O que vamos fazer agora? — questionou, sabendo que nenhuma resposta seria suficiente para aplacar a ansiedade.

— Amanhã, devemos informar o vilarejo sobre a morte dos homens — respondeu Mathias, a voz um pouco mais firme, porém carregada de preocupação. — Gilberto e Willis eram pilares na confiança de Ademilson. A notícia vai se espalhar como fogo em palha seca. O vilarejo vai exigir respostas, e Chico... Ele colocou dois dos seus homens na linha de fogo e perdeu. Agora, ele e o filho vão afundar, mas só até a lua cheia acabar.

A chuva começou a cair, tímida, como se hesitasse em tocar a terra manchada de sangue. Rafael, imóvel, sentiu cada gota como um presságio, uma contagem regressiva para algo que ele sabia ser inevitável.

Luna desceu as escadas da casa da família Castro com um sorriso no rosto e uma faixa delicada no cabelo, que emoldurava seu semblante radiante. Para Rafael, que acabara de entrar, molhado pela combinação da maresia e da fina garoa, a visão dela era como um bálsamo, dissipando as sombras que o seguiam desde o amanhecer. Por um momento, tudo parecia normal, como se o mundo lá fora não estivesse desmoronando. A paixão de Luna pela vida ainda brilhava em seus olhos, alheia aos horrores que cercavam o vilarejo. Ela se aproximou, hesitando por um instante em beijá-lo diante de Mathias, que percebeu a atmosfera íntima e rapidamente se retirou, deixando-os sozinhos na sala.

— Eu pensei que você não viria tão cedo — disse Luna, sua voz suave, com uma ponta de preocupação disfarçada.

— Não consigo ficar longe de você, Luna — Rafael respondeu, seu tom carregado de um misto de alívio e ansiedade. — Parece que estamos conectados de uma maneira que não consigo explicar. Não sei se você sente o mesmo agora. Preciso desses momentos ao seu lado, porque aquela casa... — ele fez uma pausa, apertando suavemente os braços dela, absorvendo o perfume de amêndoas que emanava de sua pele. — A casa é grande demais quando estou sozinho. Nem mesmo o Bob consegue me fazer companhia. Sinto falta dos nossos momentos na cama, de acordar com você ao meu lado.

Luna sorriu, embora a sombra de suas palavras permanecesse no ar. O trovão ribombou à distância, arrancando Rafael de seus pensamentos. O som trouxe de volta as memórias recentes, vívidas e perturbadoras.

— Assim que entramos no carro, senti uma sensação estranha — ele continuou, a expressão grave. — Como se algo estivesse errado, sabe?

— Como se estivesse sendo seguido? — Luna perguntou, suas sobrancelhas franzidas.

— Exatamente — ele confirmou. — E nós estávamos. Os homens do Chico nos emboscaram, mas...

— Não precisa continuar, querido — Luna interrompeu, tocando seu rosto com delicadeza. — Eu não quero ouvir os detalhes, pelo menos não agora.

Ela sabia que o mundo lá fora estava se desmoronando, por um instante, ela queria fingir que tudo estava bem. Rafael podia ver a dor oculta em seus olhos, a luta silenciosa para manter a normalidade em meio ao caos. Ele a puxou para perto, envolvendo-a em um abraço apertado, como se isso pudesse afastar a escuridão que os cercava. O cheiro de amêndoas era reconfortante, um lembrete de tempos mais simples, e por alguns segundos, eles se permitiram esquecer o que estava à espreita lá fora.

autor
Luiz Gustavo

elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz

Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro

participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique

Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem

trilha sonora
Birth - 30 Seconds to Mars

direção
Carlos Mota
 
produção
Bruno Olsen


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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