BESTA
O portão rangeu nos trilhos de ferro
enquanto Mathias pressionava o botão do controle remoto. O som ecoou pela
escuridão crescente, misturando-se ao zumbido dos insetos e ao sussurro das
árvores agitadas pelo vento. No carro, Mathias ainda tentava entender o que
haviam testemunhado. Seu coração pulsava na garganta, o suor frio escorrendo
pelas têmporas, enquanto uma parte de sua mente recusava-se a acreditar no que
seus olhos haviam visto.
Rafael, ao seu lado, ainda sentia o sabor
metálico do medo na boca. A lua cheia os observava do alto, envolta em uma
neblina fantasmagórica, como um olho onisciente testemunhando sua fuga
desesperada. Ele jamais admitiria, mas a visão do Homem de Olhos Vermelhos o
deixou abalado. Por mais que tentasse, não conseguia afastar o pensamento de
que haviam sido poupados não por sorte, mas por um motivo sinistro e
desconhecido.
— Conseguimos fugir das garras da besta —
murmurou Rafael, a voz embargada pelo cansaço e pelo horror mal contido.
Mathias apenas assentiu, guardando a arma com mãos trêmulas. Quando pisou no
chão, suas pernas fraquejaram, e ele precisou apoiar-se na porta do carro para
não desabar. O ar estava denso, carregado de umidade, e trazia consigo o cheiro
de terra molhada e folhas apodrecidas. A chuva não tardaria a cair, lavando o
sangue e os horrores daquela noite.
A questão martelava na mente de Rafael,
mais intensa a cada batida do coração. Ele se afastou do veículo e deixou a
brisa fresca da noite aliviar, ainda que ligeiramente, o peso sufocante no
peito. Cada passo parecia levar-lhe mais fundo na escuridão, tanto externa
quanto interna. Quando finalmente parou, encarou Mathias como quem busca
respostas que talvez nunca venham.
— O que vamos fazer agora? — questionou,
sabendo que nenhuma resposta seria suficiente para aplacar a ansiedade.
— Amanhã, devemos informar o vilarejo
sobre a morte dos homens — respondeu Mathias, a voz um pouco mais firme, porém
carregada de preocupação. — Gilberto e Willis eram pilares na confiança de
Ademilson. A notícia vai se espalhar como fogo em palha seca. O vilarejo vai
exigir respostas, e Chico... Ele colocou dois dos seus homens na linha de fogo
e perdeu. Agora, ele e o filho vão afundar, mas só até a lua cheia acabar.
A chuva começou a cair, tímida, como se
hesitasse em tocar a terra manchada de sangue. Rafael, imóvel, sentiu cada gota
como um presságio, uma contagem regressiva para algo que ele sabia ser
inevitável.
Luna desceu as
escadas da casa da família Castro com um sorriso no rosto e uma faixa delicada
no cabelo, que emoldurava seu semblante radiante. Para Rafael, que acabara de
entrar, molhado pela combinação da maresia e da fina garoa, a visão dela era
como um bálsamo, dissipando as sombras que o seguiam desde o amanhecer. Por um
momento, tudo parecia normal, como se o mundo lá fora não estivesse
desmoronando. A paixão de Luna pela vida ainda brilhava em seus olhos, alheia
aos horrores que cercavam o vilarejo. Ela se aproximou, hesitando por um
instante em beijá-lo diante de Mathias, que percebeu a atmosfera íntima e
rapidamente se retirou, deixando-os sozinhos na sala.
— Eu pensei que
você não viria tão cedo — disse Luna, sua voz suave, com uma ponta de
preocupação disfarçada.
— Não consigo
ficar longe de você, Luna — Rafael respondeu, seu tom carregado de um misto de
alívio e ansiedade. — Parece que estamos conectados de uma maneira que não
consigo explicar. Não sei se você sente o mesmo agora. Preciso desses momentos
ao seu lado, porque aquela casa... — ele fez uma pausa, apertando suavemente os
braços dela, absorvendo o perfume de amêndoas que emanava de sua pele. — A casa
é grande demais quando estou sozinho. Nem mesmo o Bob consegue me fazer
companhia. Sinto falta dos nossos momentos na cama, de acordar com você ao meu
lado.
Luna sorriu,
embora a sombra de suas palavras permanecesse no ar. O trovão ribombou à
distância, arrancando Rafael de seus pensamentos. O som trouxe de volta as
memórias recentes, vívidas e perturbadoras.
— Assim que
entramos no carro, senti uma sensação estranha — ele continuou, a expressão
grave. — Como se algo estivesse errado, sabe?
— Como se
estivesse sendo seguido? — Luna perguntou, suas sobrancelhas franzidas.
— Exatamente — ele
confirmou. — E nós estávamos. Os homens do Chico nos emboscaram, mas...
— Não precisa
continuar, querido — Luna interrompeu, tocando seu rosto com delicadeza. — Eu
não quero ouvir os detalhes, pelo menos não agora.
Ela sabia que o
mundo lá fora estava se desmoronando, por um instante, ela queria fingir que
tudo estava bem. Rafael podia ver a dor oculta em seus olhos, a luta silenciosa
para manter a normalidade em meio ao caos. Ele a puxou para perto, envolvendo-a
em um abraço apertado, como se isso pudesse afastar a escuridão que os cercava.
O cheiro de amêndoas era reconfortante, um lembrete de tempos mais simples, e
por alguns segundos, eles se permitiram esquecer o que estava à espreita lá
fora.
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

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