CARNIFICINA
O AMANHECER CHEGOU COM UMA LUZ SEM VIDA E
DOENTIA. A neblina rasteira se dissipava pausadamente,
revelando os corpos dos dez bois dispostos em um círculo. O sangue seco molhava
o chão de terra, formando uma crosta escura que emitia um cheiro metálico. Suas
peles estavam rasgadas em listras precisas, expondo músculos e ossos que
reluziam sob a luz fria da manhã. Os olhos dos animais, antes cheios de vida,
agora eram poços vazios, virados para o céu como se tivesse suplicado por
misericórdia até o último minuto.
O fazendeiro não tirava a cena de seus
pensamentos, cada detalhe o remetia a escuridão que o vilarejo passava nos
últimos dias. Sentado na cadeira da delegacia, Geraldo tomava um pouco de café,
entregue por Dona Mocinha, ainda aguardando a presença do delegado, que
raramente chegava atrasado. Ele bebericou um pouco da bebida, enquanto a sua
mente vislumbrava as últimas horas, as pegadas ao redor de sua propriedade, não
esse tratava de um ser humano.
— Meus bois morreram delegado! — disse o
senhor.
Aquela não era a primeira vez. Geraldo
sempre se manteve atento a qualquer ruído durante as madrugadas, porém, a
última noite fora diferente. Maldito vício, ele chegou a secar uma garrafa de
cachaça, enquanto escutava um disco de Zezé de Camargo e Luciano, acompanhado
da esposa. Os últimos dias estavam sendo difíceis, o álcool os chamara para uma
noite livre de dores.
— Sei muito bem o que está acontecendo
delegado. Eu me mudei para cá, um pouco antes da morte de Lúcia, o Rubens é um
grande amigo, está morando com os familiares em Eunápolis, a vida dele nunca
mais foi a mesma, ele não conseguiu seguir adiante. O Homem de Olhos Vermelhos
em 1979, atacou as minhas terras e a do meu irmão, foram mais de vinte animais
mortos. Dai por diante, permanecemos com os olhos abertos durante as noites.
Mesmo com a população acreditando que ele tinha desaparecido. Eu sempre soube que
ele se escondia através das sombras da floresta. — Geraldo encarou o rosto do
delegado, antes de finalizar a bebida da xicara. — Quando íamos pescar, dava
para notar a presença daquele ser, deixando o ambiente com o abraço da morte.
Ele não estava forte na época, não o que se tornou atualmente. O senhor sabe
muito bem do que estou falando.
Rafael refletiu em silêncio sobre as
palavras de Geraldo, mas, enquanto seus olhos encaravam o rosto marcado pelo
tempo do fazendeiro, sua mente vagava para a imagem de Luna. O desejo de sentir
o cheiro dela em seus lençóis, por pelo menos mais uma noite, o corroía por
dentro. Era difícil concentrar-se no que Geraldo dizia, com a mente sendo
puxada insistentemente para as lembranças e preocupações com sua esposa. Ainda
assim, ele forçou-se a manter uma expressão de atenção, lutando para focar no
assunto sombrio que estava sendo discutido.
—
Essa monstruosidade apresenta o que existe de pior em cada um de nós.
Antes de vir para a delegacia, eu encontrei com o Ademilson e o Chico, eles
querem dar conta da sua mulher, eles acham que repetindo o passado, terão
chances de terminar com os Olhos Vermelhos. Delegado, os animais mortos não
foram nada prestes do revés que está a ser encaminhado. Eles irão caçar a sua
mulher!
— A minha mulher está em Teixeira de
Freitas — respondeu Rafael, tentando manter a compostura, embora a mentira
fosse frágil.
Geraldo balançou a cabeça, ciente da
verdade que Rafael tentava ocultar.
— Sei que o senhor está tentando proteger
a Luna, mas se ela realmente estivesse em Teixeira, já teria sido encontrada
morta. Todos nós sabemos que o hospedeiro não pode deixar o vilarejo. Rubens
tentou fazer o mesmo com Lúcia, e ela acabou perecendo antes de sequer chegar a
Eunápolis. Existe um laço que une o hospedeiro e o parasita, delegado. — A voz
de Geraldo carregava uma urgência que não podia ser ignorada. — O que a Luna
está gerando precisa ser destruído antes da próxima lua cheia, ou o vilarejo
inteiro estará em risco. Sou um homem de bem delegado, porém, não quero mais
ter prejuízo por causa desse mísero, está na hora de encontrarmos um caminho,
que não haja mais nenhum derramamento de sangue.
Rafael respirou fundo, tentando afastar o
medo que se infiltrava em cada pensamento. Ele não conhecia muito bem Geraldo,
não sabia se ele era um homem de confiança, apesar de suas palavras estarem
carregadas de preocupação.
— A minha esposa está bem, até o momento.
— respondeu Rafael, com determinação. — Precisamos estudar melhor o que está
acontecendo.
Rafael mal percebeu quando o senhor saiu
da sala, absorto como estava em uma pilha de anotações sobre a mesa. As notas
eram fruto do trabalho meticuloso de Henrique e Mathias, que haviam conversado
com quase toda a população do vilarejo, buscando por respostas e conexões entre
o passado e o presente. Cada folha representava um pedaço do quebra-cabeça
sombrio que envolvia o vilarejo, contudo, ao analisá-las, Rafael sentia que as
peças ainda não se encaixavam.
A angústia se instalava em seu peito
enquanto ele folheava os relatórios, relendo as observações que destacavam as
crenças e os medos dos moradores. Henrique e Mathias haviam feito um trabalho
exaustivo, mas, no fundo, todos os esforços pareciam convergir para uma única e
terrível verdade: havia pouco que eles podiam fazer, além de esperar o momento
certo para remover o parasita do corpo de Luna. E mesmo essa ação, desesperada
e incerta, estava envolta em dúvidas e temores sobre o que poderia acontecer com
a hospedeira.
— Delegado! — Vicente entrou na sala com o
rosto tenso. — O que aconteceu nas terras do Geraldo está causando um rebuliço.
Os moradores estão exigindo uma resposta da polícia, especialmente o pessoal do
bar do Chico.
— O Henrique precisou voltar para Porto
Seguro — respondeu Rafael, tentando manter a calma. — Não temos muito o que
dizer ao povo, muito menos aos jornalistas. Estamos recebendo ligações o dia
todo, tentando jogar a culpa pela morte da Aline sobre nós. Avisamos sobre o
risco que ela corria ao ficar acordada nas madrugadas, mas agora tem jornal
sensacionalista nos acusando de proteger um serial killer canibal. E o pior é
que não podemos revelar a verdade. Eu só queria sumir daqui, voltar para minha
casa em Teixeira e estar com minha mulher. Mas parece que estou falhando em
todas as minhas decisões. Eu só aceitei esse trabalho por causa do salário,
nunca pensei que enfrentaria algo assim. Devia ter pedido demissão no meu
primeiro confronto com essa criatura.
— Não adianta se culpar, Rafael — disse
Vicente, em um tom de compreensão. — Isso podia acontecer com qualquer um. Se
não fosse você, seria com outro delegado no seu lugar. O importante é que Luna
está segura agora, não é?
— Sim, está. Mas os pais dela não param de
ligar.
— Eles estão preocupados, e parece que não
acreditam totalmente que ela está a salvo.
Rafael sentiu o peso das palavras de
Vicente enquanto tentava encontrar algum conforto na lógica do que seu amigo
dizia. A verdade era que o fardo que carregava parecia maior a cada dia. Ele
olhou para os papéis espalhados sobre a mesa, as anotações rabiscadas de
Henrique e Mathias, e não pôde evitar o sentimento de impotência que o tomava.
Cada linha daqueles documentos parecia apenas reforçar a sensação de que o
tempo estava se esgotando, e que todas as suas tentativas de proteger Luna
poderiam ser em vão.
O olhar fixo de Chico durante sua visita à
lanchonete ainda o incomodava. Havia algo no sorriso dele, algo sombrio e
perturbador, como se soubesse de algo que Rafael não sabia. Ele não conseguiu
engolir a refeição, mas tomou o guaraná por pura necessidade, tentando não
pensar muito nas intenções de Chico. Aquela expressão persistia em sua mente
como uma marca, um lembrete de que havia algo mais, algo que ele ainda não
compreendia.
Quando o sol começou a se pôr, tingindo o
céu com um vermelho sangrento, Rafael decidiu que era hora de voltar para casa.
Ele entrou na picape e, enquanto o vento balançava seus cabelos, a lua cheia
surgiu no horizonte, como se o seguisse até sua morada.
Ao estacionar e sair do carro, Rafael notou
os latidos intensos de Bob, que pareciam vir de dentro da casa. Estranhamente,
o cachorro estava agitado, como se estivesse preso. Rafael sempre deixava Bob
solto, então a situação era um tanto estranha.
Ele entrou na casa com a arma em mãos,
pronto para enfrentar qualquer intruso. As portas estavam abertas, sinal claro
de que alguém havia arrombado a entrada. Ele verificou cada cômodo
cuidadosamente, mas não encontrou ninguém. O silêncio da casa era perturbador. Ao
ir ao quarto, encontrou Bob, que se acalmou ao ver o dono, contudo, parecia
nervoso.
Foi então que Rafael notou algo
inquietante: um texto escrito com batom vermelho no espelho. As palavras
formavam uma ameaça clara e fria: "Nós vamos encontrá-la."
— FILHOS DA PUTA!
Rafael escutou um pequeno barulho do lado
externo da residência, o som de um graveto quebrando sob um passo. A tensão no
ar era perceptível enquanto ele continuava a avançar pela casa, a arma ainda em
punho. Bob, permaneceu em silêncio, como se pressentisse a gravidade da
situação.
Ao apontar a arma para a porta de entrada,
Rafael viu a silhueta de Mathias se aproximando, a expressão confusa e
preocupada no rosto do amigo. Rafael imediatamente baixou a arma, reconhecendo
Mathias.
— Isso é invasão de domicílio — disse
Mathias, com um tom de firmeza.
— Eu tenho certeza de que foi o Chico ou o
Ademilson — respondeu Rafael, a frustração evidente em sua voz. — O Chico
estava me olhando de um jeito estranho quando fui à lanchonete. Eu nem consegui
comer a coxinha que ele me deu. Tudo parecia uma emboscada. Mathias, eu preciso
ver a minha mulher esta noite! Não consigo ficar longe dela, pelo menos, não
hoje.
Mathias suspirou, um misto de preocupação
e ceticismo em seu olhar.
— Você sabe que é arriscado, especialmente
com a lua cheia.
— E eles teriam coragem de sair à noite? —
Rafael questionou, sua voz carregada de desespero.
— Você não tem medo do Homem de Olhos
Vermelhos? — Mathias perguntou, seu tom grave refletindo a seriedade da
situação.
— Eu já enfrentei aquele desgraçado uma
vez — respondeu Rafael, com uma determinação feroz. — E se precisar,
descarregaria um cartucho de bala na cara dele de novo.
Rafael trancou a casa pontualmente às oito
horas da noite, um frio na espinha o acompanhava enquanto deixava a segurança
do lar e se dirigia para a picape. Ele não conseguia se livrar da sensação
desconfortável de estar sendo observado, um olhar invisível que parecia seguir
seus movimentos. Quando entrou no veículo e deu partida, Mathias, ao seu lado,
mantinha a arma pronta, vigilante e atento a qualquer sinal de perigo.
A estrada estava limpa e a lua cheia
iluminava o caminho, proporcionando uma visibilidade surpreendente. O silêncio
da noite foi abruptamente quebrado pelo som dos cascos de cavalo e pelo barulho
de espingardas sendo preparadas. Rafael olhou pelo retrovisor e viu dois homens
a cavalo se aproximando, suas silhuetas projetadas contra a escuridão, com
espingardas apontadas para o carro.
— NÃO VAMOS PARAR! — Rafael gritou, o medo
e a adrenalina misturando-se em sua voz.
Ele pisou no acelerador com força,
sentindo o carro ganhar velocidade. O som de um tiro rasgou a noite, e um dos
projéteis atingiu o pneu traseiro do veículo, causando um estrondo surdo.
Rafael manteve o foco na estrada, ignorando o impacto e o estrondo, enquanto os
tiros continuavam a estourar ao seu redor.
No retrovisor, Rafael viu um vulto branco
saindo da floresta: o Homem de Olhos Vermelhos. O ser maligno pairava sobre a
cena, sua presença sombria e ameaçadora dominando a escuridão. Os cavalos dos
capangas se agitaram descontroladamente, e os homens caíram do cavalo, seus
gritos de terror preenchendo o ar.
O Homem de Olhos Vermelhos atacou com uma
ferocidade implacável. Um dos capangas estava com o pescoço ensanguentado, a
pele dilacerada enquanto as garras do ser o penetravam. O sangue jorrava em uma
fonte grotesca, pintando a terra e os cavalos ao redor com manchas de vermelho
escuro. O outro capanga tentava desesperadamente alcançar a espingarda caída,
mas o ser maligno avançou, suas garras cortando o ar e desmembrando o homem em
uma cena horrenda de carnificina. O sangue espirrou, manchando o chão e os cascos
dos cavalos, enquanto o capanga restante se contorcia em agonia, o horror
estampado em seu rosto.
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

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