O Lado Oculto da Lua: Capítulo 23 - WebTV - Compartilhar leitura está em nosso DNA

O que Procura?

HOT 3!

O Lado Oculto da Lua: Capítulo 23

Novela de Luiz Gustavo
Compartilhe:

 







O LADO OCULTO DA LUA - CAPÍTULO 23

CARNIFICINA

O AMANHECER CHEGOU COM UMA LUZ SEM VIDA E DOENTIA. A neblina rasteira se dissipava pausadamente, revelando os corpos dos dez bois dispostos em um círculo. O sangue seco molhava o chão de terra, formando uma crosta escura que emitia um cheiro metálico. Suas peles estavam rasgadas em listras precisas, expondo músculos e ossos que reluziam sob a luz fria da manhã. Os olhos dos animais, antes cheios de vida, agora eram poços vazios, virados para o céu como se tivesse suplicado por misericórdia até o último minuto.

O fazendeiro não tirava a cena de seus pensamentos, cada detalhe o remetia a escuridão que o vilarejo passava nos últimos dias. Sentado na cadeira da delegacia, Geraldo tomava um pouco de café, entregue por Dona Mocinha, ainda aguardando a presença do delegado, que raramente chegava atrasado. Ele bebericou um pouco da bebida, enquanto a sua mente vislumbrava as últimas horas, as pegadas ao redor de sua propriedade, não esse tratava de um ser humano. 

— Meus bois morreram delegado! — disse o senhor.

Aquela não era a primeira vez. Geraldo sempre se manteve atento a qualquer ruído durante as madrugadas, porém, a última noite fora diferente. Maldito vício, ele chegou a secar uma garrafa de cachaça, enquanto escutava um disco de Zezé de Camargo e Luciano, acompanhado da esposa. Os últimos dias estavam sendo difíceis, o álcool os chamara para uma noite livre de dores. 

— Sei muito bem o que está acontecendo delegado. Eu me mudei para cá, um pouco antes da morte de Lúcia, o Rubens é um grande amigo, está morando com os familiares em Eunápolis, a vida dele nunca mais foi a mesma, ele não conseguiu seguir adiante. O Homem de Olhos Vermelhos em 1979, atacou as minhas terras e a do meu irmão, foram mais de vinte animais mortos. Dai por diante, permanecemos com os olhos abertos durante as noites. Mesmo com a população acreditando que ele tinha desaparecido. Eu sempre soube que ele se escondia através das sombras da floresta. — Geraldo encarou o rosto do delegado, antes de finalizar a bebida da xicara. — Quando íamos pescar, dava para notar a presença daquele ser, deixando o ambiente com o abraço da morte. Ele não estava forte na época, não o que se tornou atualmente. O senhor sabe muito bem do que estou falando.

Rafael refletiu em silêncio sobre as palavras de Geraldo, mas, enquanto seus olhos encaravam o rosto marcado pelo tempo do fazendeiro, sua mente vagava para a imagem de Luna. O desejo de sentir o cheiro dela em seus lençóis, por pelo menos mais uma noite, o corroía por dentro. Era difícil concentrar-se no que Geraldo dizia, com a mente sendo puxada insistentemente para as lembranças e preocupações com sua esposa. Ainda assim, ele forçou-se a manter uma expressão de atenção, lutando para focar no assunto sombrio que estava sendo discutido.

—  Essa monstruosidade apresenta o que existe de pior em cada um de nós. Antes de vir para a delegacia, eu encontrei com o Ademilson e o Chico, eles querem dar conta da sua mulher, eles acham que repetindo o passado, terão chances de terminar com os Olhos Vermelhos. Delegado, os animais mortos não foram nada prestes do revés que está a ser encaminhado. Eles irão caçar a sua mulher!

— A minha mulher está em Teixeira de Freitas — respondeu Rafael, tentando manter a compostura, embora a mentira fosse frágil.

Geraldo balançou a cabeça, ciente da verdade que Rafael tentava ocultar.

— Sei que o senhor está tentando proteger a Luna, mas se ela realmente estivesse em Teixeira, já teria sido encontrada morta. Todos nós sabemos que o hospedeiro não pode deixar o vilarejo. Rubens tentou fazer o mesmo com Lúcia, e ela acabou perecendo antes de sequer chegar a Eunápolis. Existe um laço que une o hospedeiro e o parasita, delegado. — A voz de Geraldo carregava uma urgência que não podia ser ignorada. — O que a Luna está gerando precisa ser destruído antes da próxima lua cheia, ou o vilarejo inteiro estará em risco. Sou um homem de bem delegado, porém, não quero mais ter prejuízo por causa desse mísero, está na hora de encontrarmos um caminho, que não haja mais nenhum derramamento de sangue.

Rafael respirou fundo, tentando afastar o medo que se infiltrava em cada pensamento. Ele não conhecia muito bem Geraldo, não sabia se ele era um homem de confiança, apesar de suas palavras estarem carregadas de preocupação.

— A minha esposa está bem, até o momento. — respondeu Rafael, com determinação. — Precisamos estudar melhor o que está acontecendo.

Rafael mal percebeu quando o senhor saiu da sala, absorto como estava em uma pilha de anotações sobre a mesa. As notas eram fruto do trabalho meticuloso de Henrique e Mathias, que haviam conversado com quase toda a população do vilarejo, buscando por respostas e conexões entre o passado e o presente. Cada folha representava um pedaço do quebra-cabeça sombrio que envolvia o vilarejo, contudo, ao analisá-las, Rafael sentia que as peças ainda não se encaixavam.

A angústia se instalava em seu peito enquanto ele folheava os relatórios, relendo as observações que destacavam as crenças e os medos dos moradores. Henrique e Mathias haviam feito um trabalho exaustivo, mas, no fundo, todos os esforços pareciam convergir para uma única e terrível verdade: havia pouco que eles podiam fazer, além de esperar o momento certo para remover o parasita do corpo de Luna. E mesmo essa ação, desesperada e incerta, estava envolta em dúvidas e temores sobre o que poderia acontecer com a hospedeira.

— Delegado! — Vicente entrou na sala com o rosto tenso. — O que aconteceu nas terras do Geraldo está causando um rebuliço. Os moradores estão exigindo uma resposta da polícia, especialmente o pessoal do bar do Chico.

— O Henrique precisou voltar para Porto Seguro — respondeu Rafael, tentando manter a calma. — Não temos muito o que dizer ao povo, muito menos aos jornalistas. Estamos recebendo ligações o dia todo, tentando jogar a culpa pela morte da Aline sobre nós. Avisamos sobre o risco que ela corria ao ficar acordada nas madrugadas, mas agora tem jornal sensacionalista nos acusando de proteger um serial killer canibal. E o pior é que não podemos revelar a verdade. Eu só queria sumir daqui, voltar para minha casa em Teixeira e estar com minha mulher. Mas parece que estou falhando em todas as minhas decisões. Eu só aceitei esse trabalho por causa do salário, nunca pensei que enfrentaria algo assim. Devia ter pedido demissão no meu primeiro confronto com essa criatura.

— Não adianta se culpar, Rafael — disse Vicente, em um tom de compreensão. — Isso podia acontecer com qualquer um. Se não fosse você, seria com outro delegado no seu lugar. O importante é que Luna está segura agora, não é?

— Sim, está. Mas os pais dela não param de ligar.

— Eles estão preocupados, e parece que não acreditam totalmente que ela está a salvo.

Rafael sentiu o peso das palavras de Vicente enquanto tentava encontrar algum conforto na lógica do que seu amigo dizia. A verdade era que o fardo que carregava parecia maior a cada dia. Ele olhou para os papéis espalhados sobre a mesa, as anotações rabiscadas de Henrique e Mathias, e não pôde evitar o sentimento de impotência que o tomava. Cada linha daqueles documentos parecia apenas reforçar a sensação de que o tempo estava se esgotando, e que todas as suas tentativas de proteger Luna poderiam ser em vão.

O olhar fixo de Chico durante sua visita à lanchonete ainda o incomodava. Havia algo no sorriso dele, algo sombrio e perturbador, como se soubesse de algo que Rafael não sabia. Ele não conseguiu engolir a refeição, mas tomou o guaraná por pura necessidade, tentando não pensar muito nas intenções de Chico. Aquela expressão persistia em sua mente como uma marca, um lembrete de que havia algo mais, algo que ele ainda não compreendia.

Quando o sol começou a se pôr, tingindo o céu com um vermelho sangrento, Rafael decidiu que era hora de voltar para casa. Ele entrou na picape e, enquanto o vento balançava seus cabelos, a lua cheia surgiu no horizonte, como se o seguisse até sua morada.

Ao estacionar e sair do carro, Rafael notou os latidos intensos de Bob, que pareciam vir de dentro da casa. Estranhamente, o cachorro estava agitado, como se estivesse preso. Rafael sempre deixava Bob solto, então a situação era um tanto estranha.

Ele entrou na casa com a arma em mãos, pronto para enfrentar qualquer intruso. As portas estavam abertas, sinal claro de que alguém havia arrombado a entrada. Ele verificou cada cômodo cuidadosamente, mas não encontrou ninguém. O silêncio da casa era perturbador. Ao ir ao quarto, encontrou Bob, que se acalmou ao ver o dono, contudo, parecia nervoso.

Foi então que Rafael notou algo inquietante: um texto escrito com batom vermelho no espelho. As palavras formavam uma ameaça clara e fria: "Nós vamos encontrá-la."

— FILHOS DA PUTA!

Rafael escutou um pequeno barulho do lado externo da residência, o som de um graveto quebrando sob um passo. A tensão no ar era perceptível enquanto ele continuava a avançar pela casa, a arma ainda em punho. Bob, permaneceu em silêncio, como se pressentisse a gravidade da situação.

Ao apontar a arma para a porta de entrada, Rafael viu a silhueta de Mathias se aproximando, a expressão confusa e preocupada no rosto do amigo. Rafael imediatamente baixou a arma, reconhecendo Mathias.

— Isso é invasão de domicílio — disse Mathias, com um tom de firmeza.

— Eu tenho certeza de que foi o Chico ou o Ademilson — respondeu Rafael, a frustração evidente em sua voz. — O Chico estava me olhando de um jeito estranho quando fui à lanchonete. Eu nem consegui comer a coxinha que ele me deu. Tudo parecia uma emboscada. Mathias, eu preciso ver a minha mulher esta noite! Não consigo ficar longe dela, pelo menos, não hoje.

Mathias suspirou, um misto de preocupação e ceticismo em seu olhar.

— Você sabe que é arriscado, especialmente com a lua cheia.

— E eles teriam coragem de sair à noite? — Rafael questionou, sua voz carregada de desespero.

— Você não tem medo do Homem de Olhos Vermelhos? — Mathias perguntou, seu tom grave refletindo a seriedade da situação.

— Eu já enfrentei aquele desgraçado uma vez — respondeu Rafael, com uma determinação feroz. — E se precisar, descarregaria um cartucho de bala na cara dele de novo.

Rafael trancou a casa pontualmente às oito horas da noite, um frio na espinha o acompanhava enquanto deixava a segurança do lar e se dirigia para a picape. Ele não conseguia se livrar da sensação desconfortável de estar sendo observado, um olhar invisível que parecia seguir seus movimentos. Quando entrou no veículo e deu partida, Mathias, ao seu lado, mantinha a arma pronta, vigilante e atento a qualquer sinal de perigo.

A estrada estava limpa e a lua cheia iluminava o caminho, proporcionando uma visibilidade surpreendente. O silêncio da noite foi abruptamente quebrado pelo som dos cascos de cavalo e pelo barulho de espingardas sendo preparadas. Rafael olhou pelo retrovisor e viu dois homens a cavalo se aproximando, suas silhuetas projetadas contra a escuridão, com espingardas apontadas para o carro.

— NÃO VAMOS PARAR! — Rafael gritou, o medo e a adrenalina misturando-se em sua voz.

Ele pisou no acelerador com força, sentindo o carro ganhar velocidade. O som de um tiro rasgou a noite, e um dos projéteis atingiu o pneu traseiro do veículo, causando um estrondo surdo. Rafael manteve o foco na estrada, ignorando o impacto e o estrondo, enquanto os tiros continuavam a estourar ao seu redor.

No retrovisor, Rafael viu um vulto branco saindo da floresta: o Homem de Olhos Vermelhos. O ser maligno pairava sobre a cena, sua presença sombria e ameaçadora dominando a escuridão. Os cavalos dos capangas se agitaram descontroladamente, e os homens caíram do cavalo, seus gritos de terror preenchendo o ar.

O Homem de Olhos Vermelhos atacou com uma ferocidade implacável. Um dos capangas estava com o pescoço ensanguentado, a pele dilacerada enquanto as garras do ser o penetravam. O sangue jorrava em uma fonte grotesca, pintando a terra e os cavalos ao redor com manchas de vermelho escuro. O outro capanga tentava desesperadamente alcançar a espingarda caída, mas o ser maligno avançou, suas garras cortando o ar e desmembrando o homem em uma cena horrenda de carnificina. O sangue espirrou, manchando o chão e os cascos dos cavalos, enquanto o capanga restante se contorcia em agonia, o horror estampado em seu rosto.

autor
Luiz Gustavo

elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz

Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro

participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique

Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem

trilha sonora
Birth - 30 Seconds to Mars

direção
Carlos Mota
 
produção
Bruno Olsen


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO



Copyright 
© 2026 - WebTV
www.redewtv.com
Todos os direitos reservados
Proibida a cópia ou a reprodução
Compartilhe:

Capítulos de O Lado Oculto da Lua

No Ar

Novela

O Lado Oculto da Lua

Comentários:

0 comentários: