“O
AMANHÃ NÃO ME PERTENCE MAIS...”
LUNA ADENTROU PELA PORTA DA FRENTE DO
PALACETE COM UM SORRISO DESCONFORTÁVEL. Nunca imaginara que
haveria um casarão daqueles escondido em meio à floresta, inteiramente murado e
com alguns funcionários. A casa da família Castro tinha uma magnitude que
transparecia em sua arquitetura rustica. Uma música de Roberto Carlos tocava na
vitrola, enquanto a senhora folheava no estofado, um livro de Raquel de
Queiroz.
Luna se sentiu em casa na presença de dona
Nassiara, ou simplesmente Nassy, para os mais íntimos. O café fora servido em
uma xícara de porcelana e, nos minutos seguintes, não havia mais segredos do
passado de Luna.
— Eu acompanhei a história de Lúcia —
disse Nassy, fazendo uma pequena pausa e observando pela janela o filho
conversando com o delegado. — Murei minha casa muito antes do meu pequeno
Mathias nascer, Luna. Meu marido sempre estranhou o motivo, mas eu nasci nessas
terras. Sei muito bem do que o Homem de Olhos Vermelhos é capaz. Não medi
esforços para manter meu filho e minha vida longe de toda essa barbárie.
Alertei o Rubens no início, assim que ele se mudou. Todo mundo acha que os
moradores daqui são loucos e, de fato, somos um pouquinho... Lúcia era uma
mulher doce, adorável. O Mathias até a chamava de tia. Todo mundo sentiu quando
ela foi queimada viva.
— Não escolhi ser a hospedeira, Dona
Nassy. Simplesmente aconteceu, de uma hora para outra. Parecia que meu corpo
pertencia a esse ser. Ele entrou dentro de mim através dos meus sonhos e, numa
madrugada qualquer, fui levada para a floresta. Se não fosse pelo Rafael,
certamente teria acontecido o pior comigo — Luna limpou algumas lágrimas que
lutavam para descer de seus olhos. — Não sei o que irá acontecer. Não consigo
vislumbrar o amanhã. O amanhã não me pertence mais! Nunca pensei que iria
engravidar, e muito menos de um demônio. Um ser que se alastra como uma
bactéria, vitimando diversas pessoas.
— Luna, você deve
estar muito cansada. O Rafael me disse que o Doutor Luiz lhe passou alguns
medicamentos. Por que você não tenta dormir um pouco? — Nassy tirou do
guarda-roupa um cobertor, entregando para Luna, que se alinhava no colchão,
retirando um pouco do peso dos ombros. A senhora tratou logo de trancar as
janelas e fechar as cortinas, impedindo que a luz do sol entrasse na
acomodação. — Qualquer coisa, pode nos chamar, estaremos no primeiro andar,
querida.
Nassy deixou Luna
mais à vontade sozinha no quarto. A senhora trancou a porta, levando o terço de
Nossa Senhora ao peito, pedindo a Deus que tudo fosse resolvido de uma maneira
mais diplomática. Porém, conhecendo as pessoas do vilarejo, ela sabia que tudo
poderia acontecer de forma radical. Ela caminhou pelos corredores, divisando
uma das diversas fotografias presas nos quadrados na parede. Uma chamou a
atenção, onde Mathias aparecia ao lado de Lúcia.
— Minha querida
amiga... — falou Nassy. Sua visão desdobrou no tempo. Ela não chegou a
visualizar a imagem da amiga sendo queimada na fogueira. No entanto, nos dias
posteriores ao ocorrido, um funcionário encontrou um corpo empalidecido próximo
ao rio, como se estivesse morto há semanas. A polícia foi logo acionada, mas o
caso sempre foi mantido como um mistério e pouco falado em Vale Verde. Para
muitos, aquele era o Homem de Olhos Vermelhos ou, pelo menos, a sua antiga
versão. O vilarejo passou alguns anos sem resquícios do ser da lua cheia.
Nassy, no entanto, imaginava que um dia ele retornaria. Por isso, investiu na
segurança da morada, principalmente depois de ter conversado com Doutor Luiz.
No começo, os moradores chamavam o senhor de lunático e diziam que ele estava
protegendo uma bruxa. Se eles tivessem dado o mínimo de atenção, a história
poderia ser outra.
A lembrança de
Lúcia e os horrores passados faziam Nassy se sentir ainda mais determinada a
proteger Luna. Ela não tinha medo dos moradores do vilarejo, principalmente de
Chico e de seu filho, Ademilson. Ademilson, um homem formado em direito, sabia
como influenciar a população conservadora, usando o evangelho para fortalecer
sua voz. Apesar de parecer um bom moço, não conseguia esconder a maldade nos
olhos. Ele não era como Chico, que ainda parecia sentir um pouco de compaixão
pelo próximo.
— Ele é o próprio
demônio — disse Nassy a Rafael. — Ademilson fará de tudo para prejudicar sua
imagem, delegado. Ele tentará acabar com a Luna, assim como o pai fez no
passado com Lúcia. Mas sabemos como isso pode terminar, e é com essa verdade
que vamos lutar para manter Luna viva. Precisamos estudar alguma forma de fazer
com que o Homem de Olhos Vermelhos não exista mais.
Rafael deixou Luna
na casa da família Castro com o coração apertado. Era a primeira vez que
estariam separados desde que começaram a morar juntos, e a situação ainda
parecia irreal, como um pesadelo ou um filme de terror mal feito. Ele abraçou
Nassy, sentindo que a vida de sua esposa estava segura nas mãos daquela mulher,
assim como nas mãos de Mathias. Voltou para casa rapidamente, aliviado ao ver
que não havia nenhum estranho por perto. Mathias havia instruído os peões a
monitorar a saída, garantindo que o refúgio de Luna permanecesse protegido.
— O que devemos
fazer agora? — perguntou Cássio.
— Vocês devem
voltar para Medeiros Neto. Imediatamente! — respondeu Rafael, encarando o sogro
com firmeza. — Os moradores precisam acreditar que Luna deixou o vilarejo. Se
não, eles vão persegui-la.
Cássio assentiu,
embora a preocupação fosse evidente em seu rosto. Odete, ao lado dele, apertou
sua mão, tentando buscar conforto.
— E você? O que
vai fazer? — perguntou Odete, a voz trêmula.
Rafael suspirou,
sentindo o peso da responsabilidade.
— Vou garantir que
Luna fique segura.
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

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