PROTEÇÃO
A IMAGEM DO
ROSTO PÁLIDO DE LUNA NO BANCO DOS PASSAGEIROS DO CARRO NÃO SAÍA DOS PENSAMENTOS
DE VICENTE. Eles chegaram em
menos de quinze minutos à fazenda, numa tentativa desesperada de reanimá-la.
Jogaram um pouco de água benta sobre ela. Agora, Luna estava deitada nos
aposentos, tomando um chá de erva-cidreira, aguardando a chegada dos médicos,
sob os cuidados de seus pais. Não era surpresa para ninguém o veredito do
Doutor Luiz: Luna fora escolhida para ser a hospedeira. Não havia como fugir ou
regressar para Medeiros Neto; uma linha de prata a ligava ao arvoredo do
vilarejo.
— O que será que
irá acontecer com a Luna? — perguntou Vicente a Dona Mocinha, que se aproximava
da mesa com um café recém-coado e alguns biscoitos. — Pensei que ela fosse
morrer nos meus braços. Talvez a morte fosse um suspiro de liberdade. O Rafael
não merece isso. Não sei muito sobre o que aconteceu da primeira vez, não sei
como descobriram, mas há pessoas no vilarejo que começaram a suspeitar que o
Homem de Olhos Vermelhos escolheu uma nova hospedeira, especialmente depois dos
últimos ataques, quando o corpo de Lúcia foi escolhido. O Ademilson começou a
espalhar milhares de mentiras. O filho do Chico herdou o pior do pai, ele
consegue ser ainda mais sádico.
— Ele brinca com o
poder — respondeu Dona Mocinha, bebendo um pouco da bebida quente. — Chico deve
estar muito orgulhoso de ter criado sua pequena cópia. Ainda mais agora que há
relatos de que ele pretende se candidatar a vereador nas próximas eleições. Com
tudo o que está acontecendo, Ademilson pode tomar o controle das pessoas,
principalmente dos mais pobres, e conseguir um bom número de votos. A essa
altura, todos desconfiam de Luna, especialmente depois que o padre Miguel
esteve aqui no ritual. Chico começou a ligar certos pontos. Por mais que Rafael
tenha feito uma excelente política de boa vizinhança, essas pessoas são cobras
criadas. A qualquer momento, podem invadir esta casa em busca de respostas. As
perguntas estão começando a ecoar por cada beco, por cada campo de Vale Verde.
A história não pode se repetir, Vicente.
Vicente assentiu,
sentindo o peso das palavras de Dona Mocinha. Ele sabia que precisavam agir
rapidamente, não apenas para proteger Luna, mas para impedir que o caos se
espalhasse por Vale Verde. A situação era delicada, e qualquer passo em falso
poderia ser desastroso.
O Doutor Luiz
chegou nos minutos seguintes, acompanhado de Rafael. Usando seu velho jaleco,
ele se aproximou de Luna, que permanecia deitada na cama. Luiz não precisava
fazer muitos exames para saber o que estava acontecendo. A barriga de Luna
estava mais inchada que o normal, assim como seus seios. Em questão de quinze
minutos, a resposta ecoou como um tiro no pescoço de cada um que permanecia na
morada: Luna estava guardando no ventre o filho do demônio.
— Isso não pode
ser verdade! — disse Rafael, encarando a imagem dos sogros sentados na cadeira
da cozinha, ao lado de Vicente e Dona Mocinha. A esposa permanecia deitada,
adormecida, depois de tomar um medicamento. — Tirem essa coisa do corpo da minha mulher. A Luna não pode correr
risco de vida.
— Rafael,
infelizmente isso não é possível. Eu cuidei de Lúcia da última vez. Assim como
você, Rubens tentou tirar a mulher da cidade, com medo do que poderia
acontecer. Lúcia não conseguiu ir muito longe, senão teria morrido. Não podemos
tirar o feto do ventre de Luna — ponderou Luiz.
Rafael sentiu um
aperto no peito, um misto de desespero e impotência. Ele olhou ao redor, vendo
os rostos preocupados de seus sogros, de Vicente e de Dona Mocinha. Todos ali
compartilhavam do mesmo temor.
— Então, o que
podemos fazer? — Rafael perguntou, a voz tremendo levemente.
— Precisamos
protegê-la e tentar entender como interromper esse ciclo. Talvez haja algo que
não sabemos, uma maneira de quebrar essa maldição — respondeu Luiz, colocando
uma mão tranquilizadora no ombro de Rafael.
— Eu vou lutar por
ela — declarou Rafael, a determinação em seus olhos refletindo a intensidade de
seu amor por Luna.
— E nós estaremos
ao seu lado, Rafael — disse Vicente, com firmeza. — Vamos encontrar uma maneira
de salvar Luna e proteger Vale Verde.
Rafael pegou um
copo em um dos armários e foi até a sala de estar, onde serviu-se de um pouco
de uísque do rack. A bebida desceu rasgando sua garganta, mas era a única coisa
que o acalmava naquele instante. Bob, o cachorro da família, permanecia sentado
próximo aos seus pés, como se conseguisse sentir o peso do que estava
ocorrendo. Seus minutos de solitude foram interrompidos quando Odete se juntou
a ele.
— Eu consigo ver o
seu amor pela Luna — disse Odete, sentando-se ao lado do genro. — Eu consigo
enxergar sua determinação, a sua força, a sua garra. Ela foi presenteada com o
seu carinho, Rafael. Ainda bem que você nunca falhou com a minha filha. Eu
queria ter uma máquina para voltar no tempo e tirar a minha Luna dessa
situação. Foi culpa minha que ela se casou tão cedo.
As lágrimas de
arrependimento escorreram pelo rosto da senhora. Rafael, sentindo a dor de
Odete, colocou a mão sobre a dela, tentando oferecer algum consolo.
— Ninguém consegue
prever o futuro, Odete. Ninguém consegue...
Mathias chegou sem
ao menos bater na porta, com o coração palpitando. O rosto do colega de
trabalho de Rafael mostrava completa preocupação. No bar de Chico, a informação
já circulava: Luna teria sido escolhida para ser a nova hospedeira do Homem de
Olhos Vermelhos. Ninguém na casa conseguia entender como o que foi dito na
cozinha chegou tão rápido aos outros moradores do vilarejo, mas parecia que
estavam sendo espionados por alguém.
— Quem chegou
contando isso? — perguntou Vicente.
— Parece que o
Chico mandou um dos amigos até aqui. A pessoa ficou ouvindo tudo do lado de
fora. A Luna não está mais segura aqui, Rafael! Podemos levá-la para a casa da
minha família. É murada e distante, não terão como entrar.
Era a única opção,
pensou Rafael. Luna fora acordada rapidamente pelo marido. Ela tentava
compreender o motivo de ser colocada no carro, sem ao menos ser questionada. A
mulher sentou no banco dos passageiros, observando Rafael à frente com Mathias,
enquanto o veículo entrava por uma pequena pista, seguindo à caminho para o
final da floresta. Contemplando o portão de ferro, que correu sobre os trilhos,
ao ser aberto pelo controle de Mathias.
— É o ambiente
mais seguro nesse momento, Rafael.
Era a única opção,
pensou Rafael. Ele acordou Luna rapidamente, sem dar muitas explicações. Ela
estava confusa, porém confiava no marido. Sentada no banco do passageiro, Luna
observava Rafael e Mathias à frente, enquanto o carro seguia por uma pequena estrada
que levava ao final da floresta. Quando chegaram a um portão de ferro, Mathias
o abriu com um controle remoto, e o veículo entrou na propriedade segura.
Luna olhou para
Rafael, ainda tentando entender o que estava acontecendo.
— Por que estamos
aqui, Rafael? O que está acontecendo?
— Estamos aqui para te proteger, Luna. A situação no vilarejo está fora de controle. Não sabemos o que está porvir nos próximos dias. A tranquilidade pode ser a nossa maior inimiga. Isso é uma prevenção, vamos aguardar para que nada ocorra com você, querida. Principalmente com a sua saúde.
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

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