CARNE
CRUA
A visão de Luna era um caleidoscópio de
memórias, misturando momentos de sua vida com visões de cada instante marcante.
A primeira lembrança positiva que teve foi ao lado de seu pai, Cássio,
ensinando-a a andar de bicicleta em um campo de Medeiros Netos. Ele sempre fez
de tudo por ela, ensinando sobre o sistema solar, passeando juntos para cada
lugar. Luna era sua fiel escudeira, no entanto, não tinha muitas amizades, já
que sua mãe, Odete, nunca a permitiu sair ou sorrir para estranhos, o que a
afastou do restante do mundo.
Na universidade, Luna se sentiu um pouco
mais liberta das correntes da matriarca, encontrando um caminho a seguir.
Rafael apareceu nos primeiros anos de faculdade. Ela não se lembrava como o
conheceu, já que cursavam disciplinas diferentes em campus separados. Porém, Rafael
atravessou seus trilhos, um trem desgovernado. Lá estava ele, com seus belos
olhos castanhos, conquistando-a dia após dia. Ele foi o escolhido para livrá-la
da solidão e ajudá-la a sair de sua cidade natal.
A lua de mel não foi encantadora, era sua
primeira vez. Rafael soube como tocar seu corpo e conquistar seu coração. A
cada dia, a cada segundo, enquanto moravam juntos na fazenda, ele permanecia ao
seu lado, segurando suas mãos.
O carro corria em alta velocidade rumo ao
hospital. Luna sentia a presença de Rafael, seu porto seguro. Cada batida do
coração dela parecia ecoar as memórias de amor e proteção que ele lhe
proporcionara. O silêncio dentro do
veículo era perturbador, apenas quebrado pelo som da sirene e do monitor
cardíaco.
Luna, mesmo em um estado de
semi-consciência, podia sentir a luta interna de Rafael. Ela sabia que ele
faria qualquer coisa para protegê-la, para mantê-la segura. As memórias de seu
pai e de Rafael se misturavam, formando uma rede de segurança emocional que a
mantinha ligada à vida.
— Eu nunca vou te abandonar, meu amor! —
disse Rafael em seus ouvidos.
Luna queria responder à altura, mas a
única coisa que conseguiu fazer naquele instante foi esboçar um sorriso,
seguido de um desmaio. Quando acordou, estava em uma sala do hospital, onde os
médicos a examinavam, sem entender exatamente o que estava acontecendo. Pressão
baixa, hipotermia, e uma grande pancada na cabeça eram os principais sinais.
Inicialmente, temeram que Rafael pudesse ser responsável pelos ferimentos, em
seguida, descartaram a ideia ao conversar com ele.
— O que aconteceu com sua esposa, Rafael?
— perguntou o médico, franzindo a testa.
— Eu estava na delegacia, um colega de
trabalho me chamou às três horas da manhã para usar o telefone devido a um
homicídio em Vale Verde. Quando regressei, minha mulher não estava mais em
casa, havia desaparecido. — Rafael não conseguiu segurar as lágrimas,
sentindo-se arrependido por ter deixado Luna desacompanhada. — Eu a procurei em
toda a floresta, em cada hectare daquele maldito matagal, e finalmente a
encontrei. Havia um homem, o Homem de Olhos Vermelhos, tentando matá-la.
Naquele momento, Rafael percebeu um bocejo
do médico, um gesto de depreciação.
— Isso não é mentira! — Rafael insistiu,
com veemência. — Minha mulher foi atacada.
— Delegado, está convivendo muito com essa
gente do vilarejo. Muitos chegam aqui contando essas histórias e superstições.
Não é saudável para alguém com seu grau de estudo. Se eu fosse você, me
afastaria daquele lugar, pelo bem de sua sanidade mental.
Rafael olhou para o médico, sua frustração
evidente.
— Eu sei o que vi, doutor. — Rafael
respondeu, tentando controlar sua raiva. — E farei tudo o que for preciso para
proteger minha esposa.
O médico desapareceu pelos corredores sem
se despedir, deixando Rafael sozinho na sala de espera com um copo de água
gelada. Ele observava uma tempestade se formar ao redor do Hospital Luiz
Eduardo Magalhães. A água caía torrencialmente, e Rafael tentava conter o
pranto, uma tentativa frustrada de se manter forte. Sentia-se impotente sem
Luna ao seu lado. Olhando pela janela, viu a chuva castigando o pé de
pau-brasil. Foi então que notou um homem de moletom observando-o. Não podia
ser, pensou. Aquele filho da puta não teria o direito de sair do vilarejo.
Rafael teria sido capaz de jogar uma granada contra o Homem de Olhos Vermelhos,
porém quando piscou, o ser havia desaparecido.
— Eu só posso estar ficando louco —
murmurou para si mesmo.
Caminhou até a máquina de café, precisando
se manter alerta. A bebida estava quente e amarga, bem diferente do café doce e
perfeito que Luna costumava fazer. Enquanto bebia, viu um amigo se aproximando:
Mathias, com um sorriso amigável, com um olhar de medo e arrependimento.
— Eu vim com meu pai e trouxe a sua picape
— disse Mathias, entregando as chaves a Rafael. — O Homem de Olhos Vermelhos...
Eu te disse que não acreditava, mas deveria ter te alertado desde o primeiro
dia. Você poderia ter saído de Vale Verde antes que Luna passasse por tudo
isso. As pessoas no vilarejo estão dizendo que ela é a nova hospedeira, que
está carregando o anticristo.
— Não se martirize, Mathias. Não carregue
um fardo que não é seu, meu amigo — Rafael bateu no ombro de Mathias. — Nada
vai acontecer com minha mulher. Luna não é a hospedeira. Se for, os médicos
dirão, e então tomaremos as medidas necessárias. As pessoas sempre vão falar. A
história de Lúcia não vai se repetir, não com minha Luna.
Uma trovoada assustou os funcionários do
hospital, porém não abalou Rafael, que aguardava ansioso pelo retorno do
médico. Quando ele finalmente regressou, trazia o papel da alta de Luna. Ela
estava saudável, no entanto, suas lembranças da madrugada ainda eram vagas e
fragmentadas.
Rafael entrou no quarto e viu Luna
acordada, olhando ao redor com um misto de confusão e alívio. Ele se aproximou,
segurando a mão dela com força.
— Você está bem, meu amor. Vamos para casa
— disse ele, tentando conter a emoção.
Luna esboçou um sorriso fraco, ainda
tentando processar tudo o que havia acontecido. Ela não conseguiu dizer muitas
palavras enquanto retornava para casa, sentindo um tipo de fome que nunca havia
experimentado antes. Era uma fome intensa, quase primal, por sangue, carne mal
passada, quase crua, ou um fígado de boi. Ao chegar em casa, a urgência de
saciar essa fome a dominou.
Rafael, exausto e precisando de um momento
para se recompor, foi direto para o banheiro tomar um longo banho quente.
Enquanto a água quente relaxava seus músculos tensos, Luna agiu rapidamente.
Ela pegou um quilo de carne vermelha da geladeira e devorou com uma voracidade
que a assustou. O sangue da carne crua parecia saciar uma necessidade profunda
dentro dela.
Assim que terminou, limpou os lábios
rapidamente com um guardanapo, escondendo qualquer evidência do que havia
feito. Quando Rafael saiu do banheiro, ele a encontrou sentada à mesa, com um
olhar de calma forçada.
— Você está bem, amor? — perguntou ele,
preocupado, enquanto secava o cabelo com uma toalha.
— Estou, só um pouco cansada — respondeu
Luna, tentando parecer normal. — Acho que preciso de um pouco de descanso.
Rafael assentiu, ainda preocupado, sem
querer pressioná-la. Ele se sentou ao lado dela, segurando sua mão com carinho.
— Isso não irá acontecer novamente.
Luna apenas sorriu, por dentro, lutava
contra a nova e assustadora sensação que a dominava. Ela não sabia o que estava
acontecendo com ela. Uma coisa era certa: nada seria como antes.
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

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