“O
PASSADO ESTÁ PRESTES A SE REPETIR...”
O SENHOR COLOCOU A XÍCARA DE CHÁ DE
CAMOMILA SOBRE A MESA, OBSERVANDO A IMAGEM DO DELEGADO QUE AGUARDAVA
ANSIOSAMENTE O DESFECHO DA HISTÓRIA. Luiz conhecia o pormenor
de cada morador do vilarejo, porém suas principais lembranças se concentravam
no dia 22 de setembro de 1979. A data que revelou até onde a crueldade humana
poderia chegar. Desde então, ele pensou muitas vezes em deixar o lugar e seguir
adiante ao lado da esposa, recomeçando do zero em qualquer canto do país. No
entanto, suas raízes estavam profundamente fincadas em Vale Verde.
— O passado está prestes a se repetir,
delegado — disse Luiz. — O Homem de Olhos Vermelhos está escolhendo a próxima
vítima para passar a maldição. Eu deveria ter atirado duas vezes naquela
placenta, impedindo que o pior se abatesse sobre nossas terras, em vez de
enterrá-la como uma raiz de jequitibá. A criatura nasceu da terra, no útero de
um homem venenoso, nutrindo-se do sangue de inocentes e protegida pelas sombras
da lua na floresta. As pessoas daqui não aprenderam com a última tragédia. Elas
vão se acostumar com a tranquilidade nos primeiros anos, mas depois, vamos nos
entregar à maldição. É um ciclo hereditário. Não tem como se esconder, Rafael.
Luiz mexeu na xícara, escutando o crepitar
da lenha enquanto sua esposa preparava o jantar no fogão. Sua mente vagou pelo
tempo, levando-o de volta à sua infância, quando conheceu Vale Verde pela
primeira vez. Seus pais moravam em Salvador, e seus avós eram descendentes da
região. Luiz estudou até a quarta série em uma escola muito conhecida na
capital, até que seus pais decidiram retornar para a costa do descobrimento.
As lendas do vilarejo sempre foram muito
reconhecidas. Vale Verde era considerado um lugar pacato, preso no tempo, que
nunca mudava ao longo das épocas. Seu avô contava que, certa noite, viu o Homem
de Olhos Vermelhos e sentiu-se a pessoa mais vazia do mundo. Ele também disse
que aquele ser sempre percorria o silêncio da mata, sendo visto por alguns como
um protetor e por outros como um demônio que se fortalecia com o sangue de
animais.
Por muitos anos, as pessoas não temeram as
noites de lua cheia. Tudo mudou em 1980, com a chegada de mais imigrantes e
hotéis de luxo, que começaram a ocupar o espaço das árvores. As mudanças
trouxeram uma nova era de inquietação e medo, e as lendas que antes pareciam
meras histórias começaram a se materializar em pesadelos reais.
※※※※
Rafael levantou da cama antes mesmo da
esposa, ainda imerso nos pensamentos sobre a conversa que tivera com o médico
na tarde do dia anterior. Ele estava gostando de passar aqueles dias na casa do
Dr. Luiz e de Dona Mocinha, sentindo que estava criando uma conexão mais
profunda com as pessoas do vilarejo. No entanto, estava se habituando à própria
casa, embora fosse um pouco estranho estar hospedado em um ambiente de
terceiros.
Bob, passou a madrugada amarrado no
quintal, o que preocupava Rafael. Ao escutar o latido do cão, ele correu pelos
corredores, a preocupação crescendo a cada passo. Não demorou muitos minutos
até chegar ao amiguinho, que latia intensamente em direção à luz da lua.
— Calma, Bob! — falou Rafael, abaixo para
acariciar o cachorro, que abandonava o rabo, animado ao ver o tutor. — É
temporário. Logo, retornamos para a nossa casa e tudo voltará ao normal.
O amanhecer estava prestes a acontecer a
qualquer momento. Rafael permaneceu as últimas horas sentado ao lado do
cachorro, sem temer as sombras em volta das árvores e muito menos as mitologias
associadas à lua crescente. Ele se deixou envolver pela névoa que cobria a
grama enquanto os minutos passavam. As primeiras frestas de luz do sol
começaram a inundar a floresta através das árvores.
Rafael levantou-se, sentindo a umidade da
neblina em sua pele, e caminhou até o fogão de lenha. Com cuidado, arranjou
alguns pedaços de madeira e acendeu o fogo. Enquanto o calor começava a
espalhar-se pela cozinha rústica, ele pegou a chaleira e encheu-a com água da
torneira. Assim que as chamas estavam estáveis, colocou a chaleira sobre a
chama, observando o vapor começar a subir.
O aroma do café recém passado encheu o ar,
trazendo um conforto familiar. Enquanto esperava a água ferver, Rafael olhou
para o quintal e viu sua esposa, Luna, emergindo da casa principal. Seus passos
eram suaves na grama úmida, e ela sorriu ao ver Rafael no fogão.
— Nunca vi isso em nossa casa! — Luna deu
um sorriso, abraçando o marido. — Acordou antes de mim e ainda preparou o café.
O que será que a Dona Mocinha e o Sr. Luiz gostam de comer logo cedo? Eles têm
feito tanto por nós; gostaria de retribuir ao menos um pouco.
O café da manhã na casa de Dr. Luiz e Dona
Mocinha., foi breve para Rafael, que logo teve que seguir para o banheiro e
tomar um longo banho, preparando-se para mais um dia de trabalho após a folga,
dando um beijo de despedida em Luna. Ele passou primeiro pelo bar de Chico para
cumprimentar o senhor, que ofereceu um salgado recém-assado, numa tentativa
certeira de puxar assunto com o delegado:
— O senhor passou a noite na casa do Dr.
Luiz Alvarenga? — questionou Chico, colocando os molhos em cima do balcão.
Rafael já esperava por aquele diálogo, ciente de que o padre Miguel não era
digno de confiança, especialmente conhecendo a história do que ocorreu com
Lúcia. — O padre comentou conosco que vocês estão com um pouco de medo da casa
de vocês.
— Chico, fomos pedir exílio a eles. São
praticamente nossos únicos amigos aqui no vilarejo. — Rafael mordeu um pedaço
do pastel assado de presunto e queijo. — Chamamos o padre para fazer uma
limpeza em nossa morada. Ficamos um pouco amedrontados com o que descobrimos
sobre o passado de nossa fazenda. Não podemos iniciar uma nova etapa sem antes
nos sentirmos limpos
— O senhor agora acredita em tudo o que
conversamos?
— Nunca deveria ter desconfiado — afirmou
Rafael.
— A próxima lua é o prenúncio da tormenta
que está por vir, delegado.
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

Copyright © 2026 - WebTV
www.redewtv.com





Comentários:
0 comentários: