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O Lado Oculto da Lua: Capítulo 12

Novela de Luiz Gustavo
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O LADO OCULTO DA LUA - CAPÍTULO 12

“O PASSADO ESTÁ PRESTES A SE REPETIR...”

O SENHOR COLOCOU A XÍCARA DE CHÁ DE CAMOMILA SOBRE A MESA, OBSERVANDO A IMAGEM DO DELEGADO QUE AGUARDAVA ANSIOSAMENTE O DESFECHO DA HISTÓRIA. Luiz conhecia o pormenor de cada morador do vilarejo, porém suas principais lembranças se concentravam no dia 22 de setembro de 1979. A data que revelou até onde a crueldade humana poderia chegar. Desde então, ele pensou muitas vezes em deixar o lugar e seguir adiante ao lado da esposa, recomeçando do zero em qualquer canto do país. No entanto, suas raízes estavam profundamente fincadas em Vale Verde.

— O passado está prestes a se repetir, delegado — disse Luiz. — O Homem de Olhos Vermelhos está escolhendo a próxima vítima para passar a maldição. Eu deveria ter atirado duas vezes naquela placenta, impedindo que o pior se abatesse sobre nossas terras, em vez de enterrá-la como uma raiz de jequitibá. A criatura nasceu da terra, no útero de um homem venenoso, nutrindo-se do sangue de inocentes e protegida pelas sombras da lua na floresta. As pessoas daqui não aprenderam com a última tragédia. Elas vão se acostumar com a tranquilidade nos primeiros anos, mas depois, vamos nos entregar à maldição. É um ciclo hereditário. Não tem como se esconder, Rafael.

Luiz mexeu na xícara, escutando o crepitar da lenha enquanto sua esposa preparava o jantar no fogão. Sua mente vagou pelo tempo, levando-o de volta à sua infância, quando conheceu Vale Verde pela primeira vez. Seus pais moravam em Salvador, e seus avós eram descendentes da região. Luiz estudou até a quarta série em uma escola muito conhecida na capital, até que seus pais decidiram retornar para a costa do descobrimento.

As lendas do vilarejo sempre foram muito reconhecidas. Vale Verde era considerado um lugar pacato, preso no tempo, que nunca mudava ao longo das épocas. Seu avô contava que, certa noite, viu o Homem de Olhos Vermelhos e sentiu-se a pessoa mais vazia do mundo. Ele também disse que aquele ser sempre percorria o silêncio da mata, sendo visto por alguns como um protetor e por outros como um demônio que se fortalecia com o sangue de animais.

Por muitos anos, as pessoas não temeram as noites de lua cheia. Tudo mudou em 1980, com a chegada de mais imigrantes e hotéis de luxo, que começaram a ocupar o espaço das árvores. As mudanças trouxeram uma nova era de inquietação e medo, e as lendas que antes pareciam meras histórias começaram a se materializar em pesadelos reais.

※※※※

Rafael levantou da cama antes mesmo da esposa, ainda imerso nos pensamentos sobre a conversa que tivera com o médico na tarde do dia anterior. Ele estava gostando de passar aqueles dias na casa do Dr. Luiz e de Dona Mocinha, sentindo que estava criando uma conexão mais profunda com as pessoas do vilarejo. No entanto, estava se habituando à própria casa, embora fosse um pouco estranho estar hospedado em um ambiente de terceiros.

Bob, passou a madrugada amarrado no quintal, o que preocupava Rafael. Ao escutar o latido do cão, ele correu pelos corredores, a preocupação crescendo a cada passo. Não demorou muitos minutos até chegar ao amiguinho, que latia intensamente em direção à luz da lua.

— Calma, Bob! — falou Rafael, abaixo para acariciar o cachorro, que abandonava o rabo, animado ao ver o tutor. — É temporário. Logo, retornamos para a nossa casa e tudo voltará ao normal. 

O amanhecer estava prestes a acontecer a qualquer momento. Rafael permaneceu as últimas horas sentado ao lado do cachorro, sem temer as sombras em volta das árvores e muito menos as mitologias associadas à lua crescente. Ele se deixou envolver pela névoa que cobria a grama enquanto os minutos passavam. As primeiras frestas de luz do sol começaram a inundar a floresta através das árvores.

Rafael levantou-se, sentindo a umidade da neblina em sua pele, e caminhou até o fogão de lenha. Com cuidado, arranjou alguns pedaços de madeira e acendeu o fogo. Enquanto o calor começava a espalhar-se pela cozinha rústica, ele pegou a chaleira e encheu-a com água da torneira. Assim que as chamas estavam estáveis, colocou a chaleira sobre a chama, observando o vapor começar a subir.

O aroma do café recém passado encheu o ar, trazendo um conforto familiar. Enquanto esperava a água ferver, Rafael olhou para o quintal e viu sua esposa, Luna, emergindo da casa principal. Seus passos eram suaves na grama úmida, e ela sorriu ao ver Rafael no fogão.

— Nunca vi isso em nossa casa! — Luna deu um sorriso, abraçando o marido. — Acordou antes de mim e ainda preparou o café. O que será que a Dona Mocinha e o Sr. Luiz gostam de comer logo cedo? Eles têm feito tanto por nós; gostaria de retribuir ao menos um pouco.

O café da manhã na casa de Dr. Luiz e Dona Mocinha., foi breve para Rafael, que logo teve que seguir para o banheiro e tomar um longo banho, preparando-se para mais um dia de trabalho após a folga, dando um beijo de despedida em Luna. Ele passou primeiro pelo bar de Chico para cumprimentar o senhor, que ofereceu um salgado recém-assado, numa tentativa certeira de puxar assunto com o delegado:

— O senhor passou a noite na casa do Dr. Luiz Alvarenga? — questionou Chico, colocando os molhos em cima do balcão. Rafael já esperava por aquele diálogo, ciente de que o padre Miguel não era digno de confiança, especialmente conhecendo a história do que ocorreu com Lúcia. — O padre comentou conosco que vocês estão com um pouco de medo da casa de vocês.

— Chico, fomos pedir exílio a eles. São praticamente nossos únicos amigos aqui no vilarejo. — Rafael mordeu um pedaço do pastel assado de presunto e queijo. — Chamamos o padre para fazer uma limpeza em nossa morada. Ficamos um pouco amedrontados com o que descobrimos sobre o passado de nossa fazenda. Não podemos iniciar uma nova etapa sem antes nos sentirmos limpos

— O senhor agora acredita em tudo o que conversamos?

— Nunca deveria ter desconfiado — afirmou Rafael.

— A próxima lua é o prenúncio da tormenta que está por vir, delegado.

autor
Luiz Gustavo

elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz

Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro

participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique

Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem

trilha sonora
Birth - 30 Seconds to Mars

direção
Carlos Mota
 
produção
Bruno Olsen


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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