“21
DE SETEMBRO DE 1979”
"ELA
É UMA BRUXA..."
A mulher se escondeu atrás do tronco do
jequitibá, enquanto escutava os passos dos homens que gritavam seu nome,
segurando tochas nas mãos. Permaneceu imóvel, com a respiração acelerada,
fazendo uma prece em silêncio, buscando nas memórias lembranças do marido,
Rubens. Rubens sonhava em ter um filho; juntos poderiam viver um sonho,
construindo uma casa que estreitava ainda mais os laços entre eles, até que o
Homem de Olhos Vermelhos tomou posse do corpo de Lúcia, fazendo-a tornar-se a
hospedeira de um filho que jamais desejara gerar. Ela colocou as mãos na
barriga, fazia menos de um mês que descobrira a gestação, mas aparentava estar
com mais de 36 semanas.
Os passos desapareceram na floresta e
Lúcia notou um líquido transparente escorrer pelas suas pernas. Era a primeira
noite de lua cheia, 21 de setembro de 1979. Tudo começara com pesadelos;
depois, acordava de madrugada na mata e, por último, sentiu aquele demônio se
mexer pela primeira vez em seu estômago. A princípio, procurou ajuda apenas do
médico, do Dr. Luiz, e de sua esposa, Dona Mocinha, que conheciam a lenda do
Homem de Olhos Vermelhos — uma lenda que se misturava um pouco com a realidade.
No entanto, ninguém acreditava; achavam que era uma farsa, até que as primeiras
mortes ocorreram e fizeram os moradores de Vale Verde fechar as portas de suas
casas.
"A floresta protege esse homem, ele
protege a floresta..."
Lúcia saiu do esconderijo; a lua cheia
iluminava de maneira majestosa as árvores ao seu redor. Começou a andar,
sentindo-se seguida e uma ponta de angústia que fez suas pernas cederem ao
cansaço, levando-a à beira do rio para jogar um pouco de água no rosto. Através
do reflexo da água, viu sua face se fundir com o de uma expressão vazia. Lúcia
se levantou; precisava chegar à casa do Dr. Luiz e livrar-se daquilo que
habitava em seu útero. O formigamento percorreu cada
parte de seu corpo enquanto Lúcia lutava para se manter de pé à beira do rio. Lúcia
resistiu à tentação das trevas, caminhando com dificuldade até a casa do
médico.
—
Lúcia! — Dr. Luiz trancou a porta e segurou os braços da mulher, incrédulo por
vê-la ainda viva. Ele pediu à esposa para ferver água e ofereceu um pouco de
chá a Lúcia. — É impossível essa criança nascer agora, Lúcia. Faz menos de um
mês que descobrimos essa gestação.
— Doutor, por favor! Tire esse demônio do
meu corpo, não aguento mais sentir tanta dor. Só quero ter um pouco de paz! —
Lúcia disse, lágrimas escorrendo por todo o rosto, observando o médico com um
olhar desesperado. — Quando essa criança nascer, por favor, não hesite em
matá-la. Estou dando à luz a um anticristo.
O médico levou Lúcia para uma clínica
improvisada dentro de casa, onde atendia alguns moradores da cidade quando
estavam doentes, já que o município lutava para construir um posto de saúde.
Lúcia deitou-se na maca e, ao abrir as pernas, soltou um grito que poderia ser
ouvido a quilômetros de distância, enquanto o sangue pulsava violentamente em
suas veias e ela começava a perder forças no corpo. Era uma batalha, uma luta
pela qual ela não sabia como sobreviver.
— Você tem certeza de que agora é a hora?
— perguntou o Dr. Luiz.
O relógio de parede apitou à meia-noite.
Dona Mocinha chegou com água fervida em uma panela velha, enquanto Lúcia
apertava as mãos do doutor, as contrações se intensificando e Dr. Luiz temendo
que alguém lá fora pudesse ouvir e contar aos inquisidores, um grupo de
moradores liderado por Chico.
— Não aguento mais nem um minuto.
Lúcia fez um pouco mais de força, sentindo
sua vagina rasgar enquanto dava à luz ao anticristo. Seus olhos se encheram de
lágrimas quando uma luz invadiu as janelas através de uma pequena fresta: a luz
da lua cheia. Ela empurrava a cada minuto, colocando todo o seu desejo em
expelir aquela abominação de seu corpo.
Finalmente, aconteceu. A placenta saiu
inteira, uma massa grotesca e ensanguentada que parecia pulsar com uma vida
própria. A visão de Lúcia começou a embaçar enquanto o Dr. Luiz colocava aquele
objeto macabro em cima de uma mesa. Um cheiro metálico e nauseante preenchia o
ar, e a sensação de algo inominável tomando forma ao seu redor.
Lúcia então desmaiou, suas últimas imagens
vendo a lua cheia brilhando sinistra através da janela e a sombra do Homem de
Olhos Vermelhos observando de longe, como se estivesse esperando pelo seu
momento.
— Eu nunca tinha visto isso na minha vida,
Mariana — disse Luiz para a esposa, encarando a placenta que ainda desenvolvia
uma vida indefinida. Ele pegou uma pá de um dos quartos e começou a cavar um
buraco com mais de um metro de profundidade, determinado a enterrar e matar o
que ainda estava resguardado naquela massa de pele.
Com nojo, mas também com uma resolução
firme, Luiz pegou a placenta. Com anos de profissão, aquela era a primeira vez
que realizava um parto sobrenatural. Colocou a placenta com cuidado na cova e
começou a jogar terra para tampar o buraco, sentindo cada pá de terra cair
pesadamente sobre aquela abominação.
Assim que a última pá de terra foi jogada,
Luiz ouviu o barulho assustador da porta sendo arrombada. Um grupo de homens
invadiu sua casa, gritando e segurando tochas. Eles correram até o quarto onde
Lúcia estava deitada, ainda adormecida e exausta do parto infernal. Sem
hesitar, os homens a amarraram pelos pés e pulsos, arrastando-a brutalmente
para fora da cama.
— O que estão fazendo? — gritou Luiz,
tentando intervir, mas foi empurrado violentamente contra a parede.
— Essa mulher trouxe o mal para nossa
cidade! — vociferou um dos homens.
Dona Mocinha, chorando, implorava para que
parassem, mas sua voz se perdia em meio à fúria dos invasores. Enquanto Lúcia
era levada para fora, ainda inconsciente, Luiz se ajoelhou no chão, sentindo
uma impotência esmagadora.
Lúcia foi amarrada a uma picape antiga,
sendo brutalmente arrastada pelo chão até a praça central. Seu corpo rasgava a
terra, deixando um rastro de sangue no caminho. Ainda inconsciente, seus olhos
começaram a se abrir lentamente. A visão embaçada revelava as faces sombrias e
sorridentes das pessoas que a cercavam, seus olhos cheios de um fervor insano.
Ela foi levada para um palco improvisado,
montado rapidamente com tábuas de madeira e pregos galvanizados. O padre, com
um semblante grave e uma voz que tremia de emoção, recitava palavras de
exorcismo e condenação enquanto o vento agitava suas vestes.
— Não precisamos ter medo! — bradou o
padre, erguendo uma cruz enquanto o público aplaudia e gritava em aprovação.
As chamas começaram a lamber a base do
palco, crepitando e estalando enquanto o calor subia, intensificando o terror
da cena. Lúcia, ainda amarrada e fraca demais para lutar, olhou em volta com
horror crescente, vendo as chamas se aproximarem cada vez mais.
Ela tentou gritar, mas sua voz estava
fraca. Seus olhos encontraram os de Luiz, que estava de pé, impotente, na
multidão. Ele tentou avançar, mas foi contido por dois homens fortes que o
seguraram pelos ombros.
— Soltem-na! — gritou Luiz, sua voz quase
se perdendo no barulho das chamas e da multidão. — Ela não é culpada! Isso é
loucura!
As chamas consumiam Lúcia por completo e o
cheiro de carne queimada exalava através da fumaça, causando nojo nos rostos
das pessoas que gritavam em tom de comemoração. Era quase meia-noite, e elas
acreditavam que nunca mais teriam que fechar as portas de suas casas devido ao
Homem de Olhos Vermelhos. Ele estava morto, assim como Lúcia.
Rubens chegou à praça e viu apenas o
rescaldo do horror. Ele chorava arrependido por ter ido morar naquela parte do
inferno, percebendo que aquelas pessoas eram os verdadeiros monstros. Ficou ao
lado do Dr. Luiz e Dona Mocinha, que retornaram para casa enquanto a celebração
continuava.
— Eu não acredito que a minha mulher se
foi... — disse Rubens, a voz embargada pela dor.
— Eles estavam cegos de raiva. Eu não fiz
o suficiente para protegê-la — lamentou o Dr. Luiz, com uma tristeza profunda
nos olhos.
Ao chegar em casa, o médico foi esquentar
água no fogão de lenha para fazer chá. Quando passou pelas portas da cozinha,
notou algo estranho: o buraco que ele havia cavado estava novamente aberto, e
não havia mais nenhuma placenta plantada ali.
Um calafrio percorreu sua espinha, e ele
sentiu uma presença sombria se aproximando. A sensação de que algo terrível
estava prestes a acontecer pairava ao redor, e a tranquilidade que todos
acreditavam ter alcançado parecia mais frágil do que nunca. Luiz sabia que o
mal não havia sido derrotado, ele apenas aguardava nas sombras, pronto para
retornar.
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

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