LUNA ANDAVA COM OS PÉS DESCALÇOS, SEM AO
MENOS LEMBRAR COMO HAVIA CHEGADO NAQUELE LUGAR.
Seus olhos, assustados, divisavam a ponta do penhasco próxima ao pé de jequitibá,
metros acima. A luz da lua iluminava seu trajeto, enquanto o frio da floresta
se alinhava com sua pele, dificultando até mesmo ouvir sua própria respiração.
Seu vestido branco, o mesmo usado no sábado durante a discussão com Odete,
parecia estranhamente limpo, embora ela não se lembrasse de tê-lo lavado. O
coração dela gelou, acompanhando o vento que fez sua alma estremecer. Ela
continuou a andar, procurando uma saída. Luna sentia que estava sendo observada
a cada passo, a cada minuto.
—
RAFAEL! RAFAEL! RAFAEL! — brandou Luna.
Ela enxergou ao longe uma figura
masculina, a silhueta lembrando o corpo de seu marido. Luna correu em direção a
ele, porém seus passos pareciam não levá-la a lugar algum, como se estivesse
presa em um pesadelo lúcido. Desesperada, suas unhas rasgavam a pele dos braços
numa tentativa falha de acordar. A figura distante começou a se aproximar
lentamente, e ela ainda não podia ver seu rosto. De repente, o corpo se
aproximou com uma velocidade assustadora, trazendo consigo uma aura de terror.
Luna ouviu a respiração pesada ao seu lado, um som gutural e inumano que gelava
seu sangue. Tremendo, ela manteve os olhos fechados, aterrorizada pelo que
poderia ver se os abrisse.
— ABRA OS SEUS OLHOS CASTANHOS! — A voz
era rouca e sem vida, um timbre singular e masculino que reverberava na
escuridão. Luna temeu o que seu campo de visão poderia constatar, lembrando-se
desesperadamente que deveria acordar a qualquer segundo. Aquela criatura não
podia ser real.
Quando finalmente levantou o olhar, ela
divisou as chamas nos olhos do homem, uma mistura de lava e fragmentos do
inferno. O homem era alto e esguio, com cabelos negros como a noite sem lua e a
pele empalidecida, quase cadavérica. Seus traços eram angulosos, exalando uma
frieza sobrenatural. Os olhos, profundos e vermelhos como sangue, brilhavam com
uma malícia inquietante, como se pudessem perfurar sua alma.
O medo paralisava Luna, cada fibra de seu
ser gritava para que ela fugisse, mas seus pés estavam presos ao chão como se
raízes invisíveis a segurassem.
— VOCÊ SERÁ A MINHA HOSPEDEIRA.
※※※※
Luna despertou com muita sede, secando
quase um litro de água que estava em uma garrafa ao lado da cama, ao mesmo
tempo que o marido se mexia nos cobertores, era quase quatro horas da manhã. Os
dois foram dormir cedo, antes do Jornal Nacional. A sua libido estava flor da
pele, ela deitou-se ao lado de Rafael, passando a mão nos seus cabelos,
descendo para suas costas até chegar nas suas nádegas, acariciando por longos
cinco minutos e tocando no próprio corpo, sentindo calor de sua vulva. Rafael
se virou repentinamente e não teve muito tempo para falar muitas palavras,
ganhando um beijo de língua da mulher e os dois começaram a se entregar ao
máximo na cama. Luna parecia uma leoa, totalmente insaciável aos olhos do
marido, fazendo movimentos que nunca planejara antes, estava entregue ao suor,
era como um perfume, antes de chegarem ao ápice, escutaram o despertador.
— Com o que você sonhou essa noite? —
perguntou Rafael.
— Não me lembro bem, mas acho que foi com
você.
— Você foi incrível hoje.
Rafael chegou pontualmente à delegacia às
oito horas da manhã, com um sorriso encantador no rosto. No entanto, sentiu
falta de Dona Mocinha, que teve alguns compromissos em Porto Seguro e precisou
faltar ao trabalho. Poucas coisas aconteciam em Vale Verde pela manhã; as horas
eram tranquilas, sem sinais de roubos ou arrombamentos nas casas. As pessoas
conversavam, as crianças brincavam nas ruas e os pais se divertiam nos bares. O
dia contrastava nitidamente com a noite. Quando o sol se punha, o vilarejo se
transformava em um lugar fantasma, e as pessoas temiam sair de casa depois das
oito da noite.
— O Chico comentou comigo que conversou
com você. — disse Mathias, sentando na poltrona à frente do delegado, com um
olhar vazio, antes de continuar o diálogo.
— O Vicente me mostrou uma matéria de um
jornal antigo. Inclusive conheci a biblioteca da cidade.
— Foi o Chico quem foi responsável pela
morte daquela mulher em 1979, espalhando diversas mentiras. Minha família
durante anos não conversava com ele, voltaram a se falar recentemente. Minha
mãe era uma das melhores amigas da Lúcia; eu lembro que a chamava de tia. E o
Rubens, coitado, praticamente enlouqueceu ao ver a mulher ser queimada viva. —
Mathias observou o delegado mexendo com a caneta; o sorriso antes presente no
rosto de Rafael havia desaparecido. — Eu tive medo de contar para o senhor.
Sempre tentamos nos dar bem com todos os delegados, é muito difícil encontrar
alguém fixo para ficar aqui. E você, de todos que passaram por essa poltrona
desde o fazendeiro, foi a pessoa mais especial. A gente queria que não
abandonasse esse papel.
— Quanto a esse assunto, pode ficar
tranquilo, Mathias. Só exijo que não haja mais nenhum segredo, que não fiquem
mais assuntos jogados para debaixo do tapete.
— O Chico é um velho manipulador, ele sabe
muito bem como agir com as pessoas e, principalmente, como amedrontá-las.
Conhece os pormenores e o passado de cada um que aqui vive. Finge ser uma boa
pessoa, mas é uma cobra criada. Eu te contei essa história para que tome
cuidado e também para que não se afaste dele. Pessoas assim, em tempos de
guerra, são melhores aliados do que inimigos. Se quiser um conselho, delegado,
siga em frente e finja que nada foi dito.
Rafael admirou a transparência de Mathias.
O jovem rapaz aos poucos transmitia ainda mais confiança em seus gestos, numa
tentativa de criar uma conexão de amizade, que para Rafael parecia genuína.
Considerando que era sozinho no vilarejo, contando apenas com o suporte da
esposa, essa conexão era reconfortante. Ele agradeceu pelas informações,
deixando a responsabilidade da delegacia nas mãos de Mathias, enquanto saía
para comer um lanche, já que tinha tomado apenas um café preto e sem açúcar,
tendo em vista ele e Luna tiveram um amanhecer caloroso. Chico havia acabado de
colocar os salgados na estufa. Rafael pensou na conversa anterior com o colega,
todavia gostava de ouvir as histórias do velho senhor, mesmo sabendo que
algumas eram mentiras.
O delegado escolheu uma das mesas para se
alimentar, com sua lata de refrigerante e um pastel de carne moída. As crianças
voltavam para a escola após o intervalo entre as aulas, enquanto o Senhor Chico
se sentava na calçada para conversar com alguns amigos: “Essa noite não
escutamos A Caçada. Está começando a ficar tranquilo novamente; não houve
barulho na floresta — comentou Chico, com sua voz carregada de inquietação. —
Isso indica que o demo está procurando uma nova hospedeira. Durante essa fase
da lua, a mulher começa a ficar estranha, os pesadelos se tornam mais fortes,
mais vívidos. Ela começa a se cortar dormindo, mostrando para ele o seu sangue.
A escolhida acaba conhecendo-o nos pesadelos. Ela fica mais faminta, com
desejos que um homem comum não é capaz de apagar.”
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

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