LUNA PASSAVA O CAFÉ E PREPARAVA A MESA
PARA O MARIDO, QUE TOMAVA UM LONGO BANHO, AJEITANDO-SE PARA O TRABALHO.
Os acontecimentos da noite passada ainda sobressaltavam em sua imaginação,
especialmente as recentes palavras de Mathias, que seguiu sozinho para abrir a
delegacia.
Os animais não fizeram muito barulho; o
galo nem sequer chegou a cantar. Era um amanhecer escuro e sem esperança, como
se a própria luz tivesse abandonado a terra. As árvores pareciam estar cobertas
de sangue. Rafael surgiu com os olhos inchados, como se precisasse de mais
algumas horas de sono, mas enrijecia a coragem para enfrentar a rotina. Bob
continuava ao seu lado, como um pequeno segurança particular.
O silêncio tomou conta do café da manhã,
até ser interrompido por Luna.
— Vamos fingir que nada aconteceu? — Luna
questionou.
— A cada segundo, me pego pensando no que
vi nesta madrugada, tentando esquecer tudo que transcorreu. É estranho,
sinto-me enfraquecido, como um menino perdido em busca das palavras de Deus, o
Deus a quem nunca fiz questão de rezar — disse Rafael com a voz embargada,
segurando as mãos da esposa, que retribuiu com um sorriso. — Por isso, muitos
delegados não conseguiram sobreviver neste lugar. A maioria saiu daqui sem ao
menos olhar para trás. Eu via o medo das pessoas e zombava delas no início,
achando que eram os típicos cidadãos do interior, forjando histórias. Mas é
tudo real, Luna! Se eles conseguem sobreviver a este ambiente, nós também
conseguiremos.
—
É o seu primeiro trabalho, também não temos condições de jogar tudo para o alto.
Esta é a nossa casa, que você comprou com o dinheiro suado do seu pai! Como
sairíamos daqui e retornaríamos para Teixeira? — Luna observou o olhar do
marido, tentando encorajá-lo. — Não teríamos uma explicação plausível. Ninguém
acreditaria; na verdade, nem nós mesmos acreditamos. Hoje, vou à igreja, fazer
uma oração e pegar um pouco de água benta.
Rafael chegou ao trabalho uma hora
atrasado, cumprimentando os colegas que ainda discutiam o mesmo assunto: A
Caçada Selvagem. Para cada morador do vilarejo, a experiência parecia ter sido
diferente. Aqueles que viviam próximos às matas e à BA-001 relataram visões
mais intensas, enquanto os que estavam no centro de Vale Verde ouviram apenas
os sons das flechas. Ele não queria trabalhar naquela segunda-feira, preferia ficar
em casa ao lado da esposa, no entanto, precisava mostrar força para todos do
pequeno distrito, ser uma figura em quem a população pudesse confiar.
— O senhor pode me servir uma coxinha e
uma Coca? — perguntou Rafael ao senhor caucasiano que estava sentado atrás do
balcão, próximo a uma parede repleta de cachaças de todos os sabores. As bebidas,
feitas no alambique local, eram o ponto forte da economia da região, junto com
a produção de farinha de mandioca, vendidas para os distritos ao redor. Chico
levantou-se com um olhar típico de quem já esperava a presença do delegado.
Rafael nem estava com muita fome, eram dez horas da manhã. Ele aproveitou que
Mathias teve um problema em casa para conversar melhor com o dono da
lanchonete, o Sr. Chico, um dos poucos que não guardava segredos. — Da sua
casa, o senhor conseguiu escutar algum barulho nessa madrugada, Sr. Chico?
— Moro perto da pista, "doutor
delegado", então é quase impossível não ouvir nada. Na verdade, nem
consegui pregar os olhos. Uma flechada bateu na janela do meu quarto e a minha
mulher levantou na hora. Da última vez que isso aconteceu dessa forma, foi há
cerca de vinte anos, quando um casal morava na sua casa, a família Leite.
— E o que aconteceu com esse casal?
— O senhor quer mesmo saber essa história?
— É claro. — respondeu Rafael, curioso.
— O Mathias tem medo que eu te conte e o
senhor vaze de nosso vilarejo.
— Pode contar, Sr. Chico, não vou sair
daqui tão cedo. É como diz o ditado, devemos ter medo dos vivos e não dos
mortos.
— Quando o mundo dos mortos fica em desordem,
é um sinal de que devemos prestar atenção na nossa terra. Hoje amanheceu com
essa nuvem negra em cima de nós, como em 1979. — Chico falou observando o
horizonte, antes de prosseguir. — A família Leite se mudou para cá nesses meses
de julho e agosto. Era um casal muito simpático, assim como o senhor e sua
esposa, estavam vindo da capital. A mulher se chamava Lúcia e o marido, Rubens.
A lenda do Homem de Olhos Vermelhos começou a aterrorizar a todos, haviam
mortes em quase todas as noites de luas cheias.
— Esse ser é um lobisomem? — interrompeu
Rafael.
— É pior que um lobisomem, ele tem parte
com o "demo". Naquela mesma casa, a mulher foi escolhida para ser a
hospedeira, ela era a única com o sangue puro capaz de conceber o filho daquele
ser. Ela contou para o marido que estava sentindo sensações estranhas e, então,
repentinamente surgiu grávida, assim como mais outras cinco mulheres. Apenas
Lúcia apresentou sintomas que nem os médicos conseguiam identificar. Segundo o
marido, ela comia carne crua com sangue e passava as noites acordada, ainda
mais na lua cheia. Reza a lenda que a maldição iria passar para o filho, que
ainda estava sendo gerado. Nove meses depois, nasceram as cinco crianças.
— E o filho da Lúcia?
— Ele não nasceu, ela morreu antes de dar
à luz ao fi do demo.
— Então, quem continua atacando é o antigo
ser de Olhos Vermelhos?
— Ao que tudo indica, sim! Ele passou anos
morando na floresta. A mata era maior, haviam relatos desse homem até em
Trancoso. Nos últimos anos, voltou para cá. Somos a terra amaldiçoada. Por
muito tempo, aquela fazenda estava parada e ninguém aqui queria comprar, até o
pessoal da imobiliária vender para o senhor.
Chico pegou uma cachaça de canela da
prateleira, servindo uma dose e virando de vez, fazendo uma leve cara feia.
— O senhor aceita? — ofereceu o senhor
para o delegado.
— Não, muito obrigado.
— E o Rubens, partiu pelo mundo, com medo
do que aconteceu com a esposa.
Ao sair da lanchonete, ainda digerindo o
assunto e o lanche, Rafael esbarrou em Vicente. Por ironia do destino, os dois
sempre se encontravam dessa maneira, em momentos inesperados. Vicente, com seu
jeito peculiar, cumprimentou o delegado com um aceno de cabeça e um sorriso
cordial, seguindo caminhando como se quisesse sair de perto do estabelecimento
de Chico. Logo, o assunto foi diretamente para a Caçada e, de maneira
assertiva, Vicente tirou da boca do delegado a conversa da lanchonete.
— O Chico sempre conta a parte limpa da
história, nunca a verdade. Não trabalho com mitos e lendas, Dr. Rafael. Se o
senhor quiser, posso te levar até a biblioteca da cidade e te mostrar o que
realmente aconteceu em 1979.
Rafael deixou-se levar pela curiosidade,
seguindo pela praça até chegar à biblioteca, onde Vicente trabalhava. A entrada
continha grades de ferro e folhas secas, certamente não limpavam com muita
frequência. Vicente pegou um molho de chaves no bolso, adentrando na pequena
casa que mais parecia um museu. O local continha milhares de prêmios dados ao
time da cidade e fileiras e mais fileiras de livros. No fundo da sala, havia um
arquivo gigantesco; o ano de 1979 era o único trancado com cadeado. Rafael logo
entendeu o motivo quando Vicente tirou uma pasta do mês de setembro, onde
continha um jornal impresso apenas do vilarejo, com a seguinte notícia:
MULHER É QUEIMADA VIVA NA PRAÇA DE VALE
VERDE: Lúcia estava escondida na casa do médico do vilarejo,
doutor Luiz, acompanhada de seu marido, Rubens Costa. A casa foi invadida após
uma denúncia anônima por um grupo de moradores enfurecidos, que carregavam
tochas. Relatos indicam que Lúcia foi puxada à força e arrastada por uma corda
ao redor da praça central. No centro, um pequeno palco de madeira improvisado a
aguardava. Ela foi amarrada enquanto o padre fazia uma oração com a Bíblia e os
habitantes seguravam terços. O fogo se alastrou rapidamente, levando à morte da
mulher acusada de bruxaria e de trazer ao mundo o filho do homem de olhos
vermelhos.
— E durante anos, o Homem De Olhos Vermelhos
ficou sem atacar nas noites de lua cheia. Tenho a teoria de que ele conseguiu
transferir a maldição para o filho. Mas não era necessário queimar uma mulher
inocente. Eu sou uma das crianças que nasceram nos nove meses seguintes, porém,
não sou esse demônio, não ataco ninguém e muito menos fico avultando pela
floresta... Por muito tempo, não consegui viver aqui nesse lugar. Sempre fui
tratado como uma poeira, olhado com desconfiança desde que era bebê — confessou
Vicente a Rafael, deixando as lágrimas tomarem conta de seus olhos. — Uma vez,
apanhei de dez colegas de escola quando tinha apenas sete anos de idade e nunca
compreendi o motivo. Minha mãe pediu para minha tia de Arraial tomar conta de
mim. Todas as crianças que nasceram no início dos anos 80 tiveram a
oportunidade e o dinheiro de morar em um ambiente tranquilo, bem longe desse
inferno.
— E por que você acha que ele conseguiu
passar a maldição?
— Delegado, ninguém sabe o que aconteceu
na casa do médico. A barriga da mulher estava muito grande, segundo minha mãe,
parecia que estava com nove meses, sendo que tinha acabado de descobrir a
gestação. Se esse menino nasceu, apenas o médico e a Dona Mocinha sabem.
— Dona Mocinha?
— Sim, ela é a esposa do médico.
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

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