O Lado Oculto da Lua: Capítulo 07 - WebTV - Compartilhar leitura está em nosso DNA

O que Procura?

HOT 3!

O Lado Oculto da Lua: Capítulo 07

Novela de Luiz Gustavo
Compartilhe:

 







O LADO OCULTO DA LUA - CAPÍTULO 07: “O QUE REALMENTE ACONTECEU EM 1979”

LUNA PASSAVA O CAFÉ E PREPARAVA A MESA PARA O MARIDO, QUE TOMAVA UM LONGO BANHO, AJEITANDO-SE PARA O TRABALHO. Os acontecimentos da noite passada ainda sobressaltavam em sua imaginação, especialmente as recentes palavras de Mathias, que seguiu sozinho para abrir a delegacia.

Os animais não fizeram muito barulho; o galo nem sequer chegou a cantar. Era um amanhecer escuro e sem esperança, como se a própria luz tivesse abandonado a terra. As árvores pareciam estar cobertas de sangue. Rafael surgiu com os olhos inchados, como se precisasse de mais algumas horas de sono, mas enrijecia a coragem para enfrentar a rotina. Bob continuava ao seu lado, como um pequeno segurança particular.

O silêncio tomou conta do café da manhã, até ser interrompido por Luna.

— Vamos fingir que nada aconteceu? — Luna questionou.

— A cada segundo, me pego pensando no que vi nesta madrugada, tentando esquecer tudo que transcorreu. É estranho, sinto-me enfraquecido, como um menino perdido em busca das palavras de Deus, o Deus a quem nunca fiz questão de rezar — disse Rafael com a voz embargada, segurando as mãos da esposa, que retribuiu com um sorriso. — Por isso, muitos delegados não conseguiram sobreviver neste lugar. A maioria saiu daqui sem ao menos olhar para trás. Eu via o medo das pessoas e zombava delas no início, achando que eram os típicos cidadãos do interior, forjando histórias. Mas é tudo real, Luna! Se eles conseguem sobreviver a este ambiente, nós também conseguiremos.

— É o seu primeiro trabalho, também não temos condições de jogar tudo para o alto. Esta é a nossa casa, que você comprou com o dinheiro suado do seu pai! Como sairíamos daqui e retornaríamos para Teixeira? — Luna observou o olhar do marido, tentando encorajá-lo. — Não teríamos uma explicação plausível. Ninguém acreditaria; na verdade, nem nós mesmos acreditamos. Hoje, vou à igreja, fazer uma oração e pegar um pouco de água benta.

Rafael chegou ao trabalho uma hora atrasado, cumprimentando os colegas que ainda discutiam o mesmo assunto: A Caçada Selvagem. Para cada morador do vilarejo, a experiência parecia ter sido diferente. Aqueles que viviam próximos às matas e à BA-001 relataram visões mais intensas, enquanto os que estavam no centro de Vale Verde ouviram apenas os sons das flechas. Ele não queria trabalhar naquela segunda-feira, preferia ficar em casa ao lado da esposa, no entanto, precisava mostrar força para todos do pequeno distrito, ser uma figura em quem a população pudesse confiar.

— O senhor pode me servir uma coxinha e uma Coca? — perguntou Rafael ao senhor caucasiano que estava sentado atrás do balcão, próximo a uma parede repleta de cachaças de todos os sabores. As bebidas, feitas no alambique local, eram o ponto forte da economia da região, junto com a produção de farinha de mandioca, vendidas para os distritos ao redor. Chico levantou-se com um olhar típico de quem já esperava a presença do delegado. Rafael nem estava com muita fome, eram dez horas da manhã. Ele aproveitou que Mathias teve um problema em casa para conversar melhor com o dono da lanchonete, o Sr. Chico, um dos poucos que não guardava segredos. — Da sua casa, o senhor conseguiu escutar algum barulho nessa madrugada, Sr. Chico?

— Moro perto da pista, "doutor delegado", então é quase impossível não ouvir nada. Na verdade, nem consegui pregar os olhos. Uma flechada bateu na janela do meu quarto e a minha mulher levantou na hora. Da última vez que isso aconteceu dessa forma, foi há cerca de vinte anos, quando um casal morava na sua casa, a família Leite.

— E o que aconteceu com esse casal?

— O senhor quer mesmo saber essa história?

— É claro. — respondeu Rafael, curioso.

— O Mathias tem medo que eu te conte e o senhor vaze de nosso vilarejo.

— Pode contar, Sr. Chico, não vou sair daqui tão cedo. É como diz o ditado, devemos ter medo dos vivos e não dos mortos.

— Quando o mundo dos mortos fica em desordem, é um sinal de que devemos prestar atenção na nossa terra. Hoje amanheceu com essa nuvem negra em cima de nós, como em 1979. — Chico falou observando o horizonte, antes de prosseguir. — A família Leite se mudou para cá nesses meses de julho e agosto. Era um casal muito simpático, assim como o senhor e sua esposa, estavam vindo da capital. A mulher se chamava Lúcia e o marido, Rubens. A lenda do Homem de Olhos Vermelhos começou a aterrorizar a todos, haviam mortes em quase todas as noites de luas cheias.

— Esse ser é um lobisomem? — interrompeu Rafael.

— É pior que um lobisomem, ele tem parte com o "demo". Naquela mesma casa, a mulher foi escolhida para ser a hospedeira, ela era a única com o sangue puro capaz de conceber o filho daquele ser. Ela contou para o marido que estava sentindo sensações estranhas e, então, repentinamente surgiu grávida, assim como mais outras cinco mulheres. Apenas Lúcia apresentou sintomas que nem os médicos conseguiam identificar. Segundo o marido, ela comia carne crua com sangue e passava as noites acordada, ainda mais na lua cheia. Reza a lenda que a maldição iria passar para o filho, que ainda estava sendo gerado. Nove meses depois, nasceram as cinco crianças.

— E o filho da Lúcia?

— Ele não nasceu, ela morreu antes de dar à luz ao fi do demo.

— Então, quem continua atacando é o antigo ser de Olhos Vermelhos?

— Ao que tudo indica, sim! Ele passou anos morando na floresta. A mata era maior, haviam relatos desse homem até em Trancoso. Nos últimos anos, voltou para cá. Somos a terra amaldiçoada. Por muito tempo, aquela fazenda estava parada e ninguém aqui queria comprar, até o pessoal da imobiliária vender para o senhor.

Chico pegou uma cachaça de canela da prateleira, servindo uma dose e virando de vez, fazendo uma leve cara feia.

— O senhor aceita? — ofereceu o senhor para o delegado.

— Não, muito obrigado.

— E o Rubens, partiu pelo mundo, com medo do que aconteceu com a esposa.

Ao sair da lanchonete, ainda digerindo o assunto e o lanche, Rafael esbarrou em Vicente. Por ironia do destino, os dois sempre se encontravam dessa maneira, em momentos inesperados. Vicente, com seu jeito peculiar, cumprimentou o delegado com um aceno de cabeça e um sorriso cordial, seguindo caminhando como se quisesse sair de perto do estabelecimento de Chico. Logo, o assunto foi diretamente para a Caçada e, de maneira assertiva, Vicente tirou da boca do delegado a conversa da lanchonete.

— O Chico sempre conta a parte limpa da história, nunca a verdade. Não trabalho com mitos e lendas, Dr. Rafael. Se o senhor quiser, posso te levar até a biblioteca da cidade e te mostrar o que realmente aconteceu em 1979.

Rafael deixou-se levar pela curiosidade, seguindo pela praça até chegar à biblioteca, onde Vicente trabalhava. A entrada continha grades de ferro e folhas secas, certamente não limpavam com muita frequência. Vicente pegou um molho de chaves no bolso, adentrando na pequena casa que mais parecia um museu. O local continha milhares de prêmios dados ao time da cidade e fileiras e mais fileiras de livros. No fundo da sala, havia um arquivo gigantesco; o ano de 1979 era o único trancado com cadeado. Rafael logo entendeu o motivo quando Vicente tirou uma pasta do mês de setembro, onde continha um jornal impresso apenas do vilarejo, com a seguinte notícia:

MULHER É QUEIMADA VIVA NA PRAÇA DE VALE VERDE: Lúcia estava escondida na casa do médico do vilarejo, doutor Luiz, acompanhada de seu marido, Rubens Costa. A casa foi invadida após uma denúncia anônima por um grupo de moradores enfurecidos, que carregavam tochas. Relatos indicam que Lúcia foi puxada à força e arrastada por uma corda ao redor da praça central. No centro, um pequeno palco de madeira improvisado a aguardava. Ela foi amarrada enquanto o padre fazia uma oração com a Bíblia e os habitantes seguravam terços. O fogo se alastrou rapidamente, levando à morte da mulher acusada de bruxaria e de trazer ao mundo o filho do homem de olhos vermelhos.

— E durante anos, o Homem De Olhos Vermelhos ficou sem atacar nas noites de lua cheia. Tenho a teoria de que ele conseguiu transferir a maldição para o filho. Mas não era necessário queimar uma mulher inocente. Eu sou uma das crianças que nasceram nos nove meses seguintes, porém, não sou esse demônio, não ataco ninguém e muito menos fico avultando pela floresta... Por muito tempo, não consegui viver aqui nesse lugar. Sempre fui tratado como uma poeira, olhado com desconfiança desde que era bebê — confessou Vicente a Rafael, deixando as lágrimas tomarem conta de seus olhos. — Uma vez, apanhei de dez colegas de escola quando tinha apenas sete anos de idade e nunca compreendi o motivo. Minha mãe pediu para minha tia de Arraial tomar conta de mim. Todas as crianças que nasceram no início dos anos 80 tiveram a oportunidade e o dinheiro de morar em um ambiente tranquilo, bem longe desse inferno.

— E por que você acha que ele conseguiu passar a maldição?

— Delegado, ninguém sabe o que aconteceu na casa do médico. A barriga da mulher estava muito grande, segundo minha mãe, parecia que estava com nove meses, sendo que tinha acabado de descobrir a gestação. Se esse menino nasceu, apenas o médico e a Dona Mocinha sabem.

— Dona Mocinha?

— Sim, ela é a esposa do médico.

autor
Luiz Gustavo

elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz

Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro

participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique

Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem

trilha sonora
Birth - 30 Seconds to Mars

direção
Carlos Mota
 
produção
Bruno Olsen


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO



Copyright 
© 2026 - WebTV
www.redewtv.com
Todos os direitos reservados
Proibida a cópia ou a reprodução
Compartilhe:

Capítulos de O Lado Oculto da Lua

No Ar

Novela

O Lado Oculto da Lua

Comentários:

0 comentários: