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Antologia Lendas Urbanas: E se forem reais? - 3x02

Conto de Izanagui
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Sinopse: Em uma noite nebulosa nas estradas de Minas Gerais, um homem é guiado por caminhos desconhecidos enquanto a realidade começa a se distorcer ao seu redor. Envolto por uma atmosfera de mistério e presságios sombrios, ele se vê diante de uma revelação que desafia a lógica, o tempo e a própria razão.

3x02 - Do Outro Lado do Abismo
de Izanagui

Jamais esquecerei aquela noite nebulosa em que deixei os confins de Minas Gerais, retornando por uma estrada que — juro por tudo que me resta de sanidade — jamais constou em qualquer mapa mundano. Seguia as instruções frias e impessoais de um GPS, enquanto minha mente era embalada por uma trilha sonora que eu próprio nomeara de "Alternativa" — composições dissonantes, revestidas por ecos, reverberações e lentidões antinaturais, como se o tempo ali se arrastasse com o som. Tocavam melodias de artistas como Mr. Kitty e Tame Impala, mas em versões que pareciam ter sido desaceleradas por entidades insondáveis, evocando uma nostalgia que não era minha e um terror que ainda estava por vir.

Não percebi de imediato, mas a estrada pela qual retornava não era a mesma que tomara na ida. A constatação veio com um calafrio, não físico, mas ancestral. A via era de faixa única, desfigurada, onde o mato — virulento, quase consciente — invadia o acostamento como garras vegetais. As curvas surgiam como armadilhas naturais, cada uma escondendo o que poderia ser o fim.

Era um final de semana qualquer, ou assim pensei. Voltava com um artefato tecnológico — um computador, adquirido por um preço irrisório em um leilão que, em retrospecto, talvez jamais devesse ter acontecido. O valor era trivial, três mil reais; o lucro, promissor. Pretendia revendê-lo por cinco vezes mais e, com isso, sustentar minha nascente empreitada comercial. Oh, tolice humana, crer que os deuses do acaso não cobram caro por suas ofertas generosas!

O céu, embora não completamente noturno, estava encoberto por uma espessa camada de nuvens. O frio era cortante, mas não era apenas físico — ele parecia vir de dentro da estrada, como se a própria terra estivesse gelada por um segredo enterrado há milênios. Dirigia lentamente, abaixo dos 60 quilômetros por hora, com os olhos fixos na estrada e os dedos tensos sobre o volante. Foi então, numa curva traiçoeira, que o tempo pareceu se dobrar.

A aparição surgiu — ou melhor, foi revelada — como se o mundo simplesmente a deixasse existir ali, de súbito. Uma mulher, vestida inteiramente de branco, com a pele pálida como a lua morta e os cabelos negros escorrendo pelos ombros como sombras líquidas. Seus olhos, se os tinha, não consegui ver; mas ela apontava, com um gesto lento e solene, para a ribanceira coberta de matagal espesso.

Jurei por um momento que a morte me chamava com o dedo — e que, caso eu não tivesse girado o volante com força desesperada, eu seria agora parte daquela vegetação úmida e espectral. Não sei se gritei. Não sei sequer se respirei.

Tudo o que posso afirmar, com um terror que me visita ainda hoje, é que aquela estrada... de uma maneira natural jamais teria sido trilhada.

Tão logo meu veículo foi contido com uma destreza que nem mesmo sei de onde extraí, fui acometido por uma urgência sobrenatural — um impulso primitivo que transcendia a lógica e que me levou, com mãos trêmulas e mente ofuscada, a arrancar o telefone do suporte e clamar às autoridades. O gesto da aparição — aquela mulher espectral de branco, cujos olhos jamais se esqueceriam dos confins da minha mente — era de um desespero absoluto, quase inumano. Seus lábios permaneceram imóveis, selados como os de um cadáver submerso, mas suas mãos... aquelas mãos... elas falavam com o desespero de eras perdidas.

Não sei como soube, mas soube — algo terrível jazia na direção para a qual ela apontava com tamanha insistência. Não era apenas um acidente. Era uma súplica da própria existência, um grito vindo de entre mundos, e eu fui seu único ouvinte naquela noite amaldiçoada.

Atravessei a vegetação espessa como um náufrago que desafia o mar, e ali, escondido sob o manto do abandono e das trevas, encontrei o que restava de um automóvel tombado, devorado pela ribanceira e deformado como um cadáver engolido pelo tempo. Já havia transmitido às autoridades todas as coordenadas possíveis, como se isso bastasse para conter a profanação ali presente. Contudo, ao fitar o carro, compreendi minha impotência com o horror dos fracos perante o abismo: o aço estava retorcido como os ossos de um titã esmagado, e meus dedos inúteis apenas sangraram ao tentar, em vão, abrir caminho até a mulher encarcerada no ventre da máquina.

Meu celular caiu ao chão e ali permaneceu — inerte, silencioso, quase cúmplice — enquanto eu me ajoelhava entre cipós e folhas úmidas, murmurando súplicas a deuses que nunca responderam. Meus olhos se fixaram no semblante desfigurado da vítima. Não sei quanto tempo passou — horas, talvez milênios — antes que um som quebrasse o transe.

Não foi um grito. Nem uma voz humana. Foi um murmúrio... um balbucio infantil, tão puro e frágil que desafiava a realidade ao seu redor. Girei lentamente o pescoço, com a lentidão de quem teme ver o que não deve, e ali, no banco traseiro, preso ao bebê conforto como um náufrago a uma tábua à deriva, repousava uma criaturinha viva — um infante de não mais que doze meses.

Havia algo ao mesmo tempo sagrado e profano naquele momento. A criança estava viva, contra todas as probabilidades da matéria e do tempo. Era como se uma força maior — e terrível — houvesse intervindo para manter aquele pequeno ser entre os vivos. 

As autoridades enfim chegaram — trazendo consigo o peso do mundo real, aquele mundo de sirenes, lanternas ofuscantes e vozes práticas que, em contraste com o horror que eu presenciara, soava estranhamente acolhedor. Como uma névoa seca e cinzenta, a normalidade recobria lentamente minha percepção, já devastada por tudo que meus olhos — e talvez minha alma — haviam suportado.

E, no entanto, mesmo em meio à correria dos paramédicos e ao estalar das pinças hidráulicas, o tempo se dilatava ao meu redor. Não posso, com palavras humanas, descrever como aqueles poucos minutos sugaram minha essência, diluindo o presente em uma eternidade abismal.

Foi quando vi. Entre o turbilhão de movimentos, enquanto os bombeiros erguiam cuidadosamente a maca com o corpo ensanguentado da mulher — envolta até o pescoço naquela manta térmica prateada, semelhante ao sudário de um ser entre a vida e a morte — eu a reconheci. Aquele rosto.

Mesmo por um breve instante, vi com clareza cruel: era ela. A mesma mulher que surgira diante do meu carro, que me guiara com olhos suplicantes até o precipício. Aquela que deveria estar presa entre as ferragens — e estava.

Me aproximei dela no hospital, dias depois, já fora de risco imediato, embora ainda frágil, como se a alma estivesse tentando reassumir um corpo que quase perdera. Quando me atrevi a perguntar — “Como? Como você fez aquilo?” — ela demorou a responder. Seus olhos, opacos e distantes, vagavam por horizontes que eu não podia alcançar.

— Eu não me lembro de nada, — disse ela, enfim, com a voz baixa, quase infantil. — Só sei que, enquanto eu desfalecia… ouvindo o choro do meu bebezinho… comecei a alucinar. Era como se eu saísse de mim mesma. Como se tudo ficasse embaçado, sem forma, mas com um propósito: salvar ele.

Foi naquele instante que compreendi o que nenhuma ciência, nenhum credo e nenhuma lógica jamais explicaria: a mulher que me apareceu na estrada não buscava ser salva... ela queria salvar o filho.

E agora — agora eu entendo. Existem ocasiões onde o tempo não corre como deveria, onde a mente humana, em sua forma mais pura e desesperada, é capaz de tocar o impensável. Lugares onde o amor, nutrida pela vontade absoluto, ultrapassa os limites da carne e da morte. Onde os quase mortos ainda clamam — não por si mesmos, mas por aquilo que deixaram para trás.

E quando essa força se manifesta, nem o tempo, nem a matéria, nem a própria razão permanecem intactos.



Conto escrito por
Izanagui

CAL - Comissão de Autores Literários
Agnes Izumi Nagashima
Gisela Lopes Peçanha
Paulo Mendes Guerreiro Filho
Pedro Panhoca
Rossidê Rodrigues Machado
Telma Marya

Produção
Bruno Olsen


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO



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