6x07 - Violência Urbana em um Conto Fragmentado (Season Finale)
de Manoel Penido
“Nenhum homem é uma ilha inteiramente isolado: todo homem é um pedaço de um continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas do mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de seus amigos ou o seu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. É por isso que não perguntei: Por que os sinos dobram; eles dobram por vós” (John Donne – Meditações).
Os sinos das igrejas da bucólica capital de V repicavam frenéticos ao sol do meio-dia. Em meio à algazarra, as crianças saíam correndo da escola. Em suas casas, suas mães aguardavam ansiosas os filhos para o almoço. Porém, uma dessas crianças não voltaria a ser abraçada por sua zelosa mãe nunca mais. A menina de dez anos, A, cheia de alegria, sonhos e esperança, apesar da pouca idade, era responsável o suficiente para que sua mãe confiasse em deixá-la retornar sozinha, no horário de todos os dias, para casa. Nunca retornou, e sua mãe jamais se perdoaria por isso.
Em seu uniforme de saia azul, camiseta branca, meias até os joelhos e sapatos pretos, A menina da cidade de V saiu da escola, caminhou um quarteirão e atravessou uma avenida movimentada. Parou no ponto de ônibus, à frente de um bar. Seis olhos luxuriosos a fitavam à distância, cobiçando o corpo infantil. Um ônibus freou abruptamente para evitar um gatinho perdido; A pensava no filé de frango à milanesa com batatas fritas que sua mãe prometera para o almoço daquele dia. Pegou o gatinho assustado no colo e começou a acariciar seu pelo cinzento. A cidade, aparentemente tranquila, parecia despertar e pulsar vida, mas a marca da violência estava à espreita. Um dos três homens — o mais velho, proprietário do bar — foi até a porta e atraiu a atenção da criança, oferecendo-lhe um refrigerante. Indecisa, A entrou no bar e foi sequestrada e amordaçada por seus algozes, sendo arrastada para um quarto escuro, onde foi estuprada e assassinada. Eram dois irmãos e o filho do proprietário do estabelecimento. Testemunhas presenciaram a menina em poder de seus algozes. No inquérito e no processo criminal, houve intimidações e ameaças dos criminosos às testemunhas. Quando o corpo foi encontrado em um matagal distante, vários dias após o desaparecimento ter sido comunicado à polícia, a tristeza se alastrou pela pacata cidade de V. E nada aconteceu para a punição dos criminosos. Influentes na política local — o nome do pai e do avô dos acusados era também o da avenida onde a criança foi sequestrada — esses indivíduos influenciaram todo o processo para evitar a punição. No inquérito policial, conduzido por delegado parente dos criminosos, estes participaram ativamente das investigações, influenciando ostensivamente seu resultado. Contudo, as testemunhas confirmaram as autorias, e o Promotor de Justiça ofereceu denúncia, aceita pelo juiz responsável pelo processo. Este, desde o início até a conclusão, trouxe mais de setecentas páginas, além de mais uma centena acrescida à sentença — mas nada disso serviu diante do desfecho triste e melancólico, que apenas adicionou angústia e sentimento de injustiça à população. Nenhum dos réus foi condenado: todos foram absolvidos por falta de provas, segundo o entendimento do juiz criminal.
Justiça falha em eficácia: está a serviço de quem? Da Justiça ou da injustiça? Quem pratica a violência contra a vítima — o criminoso, a Justiça que não o pune, ou ambos?
Uma moça de dezessete anos (V) sai do trabalho no fim da noite de sábado. Ela havia interrompido a faculdade de Psicologia porque não conseguia pagar as mensalidades. Iniciou esse trabalho há três meses, sempre com intenção de retomar os estudos assim que conseguisse algum dinheiro. Despediu-se dos colegas, seguiu ao ponto de ônibus que a levava para casa. Morava na periferia extrema de uma grande metrópole e não chegou ao destino. Foi assassinada brutalmente: esfaqueada diversas vezes, teve os cabelos raspados e as unhas arrancadas. Seu corpo, totalmente mutilado, foi encontrado nu e enterrado em uma cova rasa, após uma semana de buscas, em um matagal a alguns quilômetros da casa onde vivia com a família. As investigações preliminares apontaram dois suspeitos, ex-namorados, dez anos mais velhos. Provavelmente foi morta por vingança ou despeito, após rejeitá-los. A última vez que V foi vista com vida, caminhava numa rua escura, já no início da madrugada de domingo, a cerca de um quilômetro de casa, próximo a uma favela. Pressentia algo sinistro naquela noite escura: telefonou duas vezes para uma amiga, relatando a presença de homens suspeitos no ponto de ônibus e depois, durante a caminhada. Cenas do noticiário mostraram dezenas de entrevistas, inclusive familiares em busca de exposição midiática. E a vítima foi, silenciosamente, esquecida, logo após seu enterro, amplamente noticiado. Papéis, papéis, uma imensidão de páginas! E os sinos dobram por nós!
Vítima da violência do desamor e abandono familiar, morando em habitação precária e clandestina, erguida em área de preservação ambiental, vedada à construção de moradias. Vítima de políticas públicas ineficientes ou ausentes, da especulação imobiliária, da falta de infraestrutura básica, saneamento e segurança, vítima da polícia e da justiça, que não punem em tempo e modo adequados, negando ao cidadão a resposta que merece.
Um potente e caro carro amarelo transita por uma avenida da metrópole a 140 km/h, na madrugada de sexta-feira, incompatível com o limite de 60 km/h. Não se distingue homem de máquina: confundem-se na arrogância, soberba e vaidade. Não há respeito pela vida.
No mesmo local e horário, o motorista de aplicativo B retorna para casa, após um dia exaustivo de trabalho. Pensa na esposa e nos dois filhos pequenos, de dois e quatro anos, dormindo. Prometera passar o próximo domingo em casa, apesar da necessidade financeira — o carro, seu único bem de valor, não o levaria de volta para casa. Foi violentamente atingido pelo carro amarelo, lançado contra um poste e morreu no local, vítima de traumatismo cranioencefálico, antes mesmo da chegada do socorro.
O motorista agressor não se feriu e tentou evadir-se sem prestar socorro à vítima. Felizmente, a polícia o deteve. Os pais do agressor tentaram resgatá-lo de forma violenta: tentaram suborno, frustrado pelas câmeras usadas pelos policiais; depois, alegaram necessidade de hospitalização do filho.
Uma dona de casa, à espera do sinal verde para atravessar a avenida, dirige-se, como de costume, à escola do filho de cinco anos, sempre às 17h. A seu lado, um homem moreno, magro, bem-vestido, cerca de trinta anos, também aguarda o sinal. No início da travessia, as câmeras registram o homem segurando a mão esquerda da mulher, simulando conhecê-la. Trata-se de um estuprador, que a arrasta para um terreno baldio, repleto de lixo e árvores. Estupra e agride violentamente a indefesa mulher, deixando-a machucada. Dias depois, após exames preventivos, descobre estar grávida do agressor. Utilizava métodos contraceptivos à espera do segundo filho, conforme orientação médica. A religião do casal proíbe o aborto. Marcados pela violência urbana, conviverão com o estigma e cuidarão do filho de um criminoso.
Um idoso, prestes a se aposentar, aos setenta e cinco anos, parado na calçada próxima ao meio-fio, aguarda o sinal dos pedestres para atravessar a avenida de mão dupla. Era um domingo chuvoso, por volta do meio-dia. Em sua mão direita, segura a chave do carro estacionado a poucos metros. Não conseguirá atravessar inteiro a avenida.
Quando o semáforo abre, inicia sua travessia pela faixa de pedestres. Consegue avançar até a metade da avenida. Inesperadamente, um entregador de moto, em alta velocidade, o atropela pelo lado esquerdo, projetando-o ao asfalto. Estendido sob a chuva, não consegue levantar-se. A água mistura-se ao sangue que verte de seu braço e do ferimento exposto no cotovelo esquerdo. Um grande hematoma toma forma na coxa. Ao lado, o motoqueiro, ainda de capacete, levanta-se junto de sua moto. Homem e máquina tornam-se mais um elemento da violência urbana. Um veículo veloz, nas mãos de alguém irresponsável, transforma-se em arma de agressão e destruição. Os sinos dobram por mais essa violência.
Ao se erguer, o motoqueiro estende a mão à vítima, devolve-lhe a chave do carro recolhida no asfalto. O idoso caminha com dificuldade, mancando e com ferimentos visíveis. Os motoristas nos carros, fechados em seus veículos, observam apáticos. Nenhuma solidariedade se manifesta. O sinal abre novamente para o tráfego. Uma mulher grita de uma janela: — “O motoqueiro avançou o sinal vermelho!” — sugerindo que denuncie o agressor. O idoso responde calmamente: — “Eu sei, minha senhora, estava vermelho para ele.”
Dirige-se para casa e, com dificuldade, chega. Cuida das feridas, vai ao médico na segunda-feira. Ele, felizmente, constata não haver lesões graves. Além do hematoma na coxa e das escoriações no braço, nada mais sério. Por precaução, renova a vacina antitetânica. No trabalho, uma colega pergunta por que não denunciou o agressor. Ele responde lacônico: era também um trabalhador desesperado, vítima da violência urbana.
Reflete sobre o episódio. Tantos outros ocorrem diariamente, nas grandes, médias e pequenas cidades. Pensamentos profundos justificam sua resiliência.
O mundo moderno transformou-se velozmente com as tecnologias digitais e a informação midiática. Em poucas décadas — especialmente as iniciais do Terceiro Milênio — tornamo-nos seres acorrentados aos dispositivos, zumbis de olhares petrificados diante da tela, sem reflexão coerente. Algoritmos criados por poucos enriquecem ainda mais uma elite, que se alia aos interesses dos Senhores do Mercado. Transformaram a maioria em hedonistas, ávidos por consumo. Nessa cadeia sutil de violência e exploração, unindo tempo e espaço aos interesses econômicos, explorados são muitos, exploradores, poucos. Estes enriquecem-se indefinidamente, movidos por uma ganância insaciável e pela corrida ao espaço sideral. Governos perderam protagonismo. Alguns totalitários aliaram-se aos senhores digitais, manipulando eleitores para perpetuar-se no poder. Os destinos das pessoas são conduzidos nessa perigosa simbiose, e os perdedores serão todos que dependem do planeta para sobreviver. Reiteram o negacionismo das agressões à natureza e ao ambiente vital. Por isso, nosso planeta perde, cada vez mais, a capacidade regenerativa para a vida saudável, presente e futura.
Quem seria o agressor? — indaga o idoso: o motociclista? Ou seria ele apenas instrumento dessa agressividade latente? Entregador autônomo, exposto diariamente a riscos, não deve ser visto como o vilão, mas como alguém que compartilha a mesma luta. Divide o espaço reduzido com veículos maiores e pedestres, realiza entregas em curto intervalo — especialmente nos horários de almoço e jantar — para trabalhadores presos diante das telas, atendendo aos algoritmos de chefes digitais. Ambos, motociclistas e usuários, são prisioneiros de suas cavernas alegóricas, enquanto poucos acumulam cada vez mais. Talvez, pai de duas crianças, este entregador correrá como um louco, de domingo a domingo, enquanto sua moto funcionar. Sua identidade, entre tantas, não pode ser a de um agressor inconsequente, mas de um ser humano que compartilha nossa única casa, que devemos proteger. Dela dependem nossa sobrevivência e das demais espécies.
E todos os sinos dobrarão por nós, ecoando séculos de ausência e dos gritos não ouvidos de todas as vítimas da violência urbana.
Bruno Olsen
Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.
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