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Antologia Lua Negra: 2x06 - A Noite da Lua Negra

Conto de Alberto Arecchi
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Sinopse: Um barco parando na noite no alto mar... A aparição de uma cidade misteriosa, deserta... Talvez fosse a legendária Atlântida? 


A Noite da Lua Negra
de Alberto Arecchi


Quando o vento levanta a areia dos desertos, até obscurecer o topo da atmosfera, a luz da lua cheia pode tornar-se vermelha como sangue, e logo desaparecer na escuridão. Um fenômeno que nós, homens modernos céticos, tentamos explicar racionalmente, mas que sempre foi percebido pelos marinheiros como um prenúncio de desgraça. Coisas estranhas acontecem, e podem-se até criar pontes de comunicação com outros mundos. Navios carregados com os homens, embora equipados com instrumentos sofisticados, perdem a rota, enquanto navios antigos, com tripulações de fantasmas, voltam para trás através das névoas do tempo.

Os anciães ainda contam a história antiga de uma faluca que foi vista em uma noite de lua negra, entrando em um porto, deslizando ligeira na água, rodeada por um manto de névoa, como um fantasma doutros tempos. Atravessou a boca do porto, com as velas, negras como breu, todas despregadas. Guinou dentro da grande crescente de areia que protege a bacia interior e caminhou até as docas. O barco estava apontando nas docas em grande velocidade, parecia não querer parar; mas de repente desapareceu na neblina com toda a sua tripulação, alguns momentos antes de tocar no cais.

Desde muitos anos, os transeuntes ainda hoje distraem seus olhos com medo por uma grande mancha negra, presa no cais, e fazem o sinal da cruz, murmurando alguma coisa em voz baixa.

Uma noite de lua negra, eu estava em um navio, navegando ao longo da costa do Brasil. Era um pequeno barco de pesca, que viajava principalmente com velas. Tinha apenas um motor velho que não permitia uma grande autonomia, mas servia nas manobras de atracação ou de saída dos portos.

Naquela noite, o mar estava calmo, coberto por uma névoa irreal. O vento denso de areia, vindo da África, tinha-se transformado em um siroco sufocante, enchendo os pulmões de poeira, com cheiro de amônia. Os marinheiros viram claramente a sombra de uma grande asa negra, como a de um dragão, que passou a obscurecer a lua por um momento. Foi tudo... Quase. As bússolas do navio enlouqueceram. Já não se viam as estrelas, uma poeira avermelhada cobria o céu, e o navio estava perdido em uma névoa intemporal.

Qual foi a surpresa, ao nascer do sol, percebendo que estávamos na boca de uma baía, dominada na direita por uma fortaleza majestosa; na esquerda, como uma visão do conto de fadas, aparecia uma cidade dominada por uma colina, um pouco menos elevada que a fortaleza. A cidade ficava espalhada sobre uma série de círculos concêntricos, culminando em um grande edifício, coberto por uma cúpula de esmeralda. Suas paredes brilhavam sob os raios do sol nascente, como sendo cobertas de metal, com raios de prata, ouro e fogo. Vimos outros navios fundeados no porto, mas nenhum vestígio da atividade humana. Era como se todos os habitantes estivessem dormindo, ou se tivessem movido para outro lugar. Nem uma voz, nem um ruído, nem uma nuvem de fumaça se levantavam dos telhados da cidade fantasma. Instintivamente, alguns dos marinheiros fizeram o sinal da cruz, murmurando encantamentos entre os dentes cerrados. Em resposta, um bronze começou a tilintar, em algum lugar, ritmicamente, como um sino de morte...

O navio não conseguia entrar no porto: o timoneiro regulamentava o leme, os homens equipavam as velas, mas era como se uma força invisível rejeitasse o barco, cada vez que entrava na boca da baía. Nessa região de mar, as correntes, fortes como rios inchados, arrastam os navios por seis horas para o leste e outras seis na direção oposta, mas o nosso navio não se mexia. Parecia que uma vontade sobrenatural nos detivesse. Ainda os marinheiros tentaram arrancar o motor, embora fosse fraco e pudesse ser de pouca ajuda (estávamos em alto-mar, apesar da visão). Nada: o navio nem sequer se despachou. Os equipamentos de bordo estavam mortos, rádio, telefones, outros instrumentos de navegação.

Todo o dia durou a tentativa. O sol nasceu, subiu alto no céu e teve tempo para cair, entre a névoa do siroco e do Simum do deserto. Distinguiam-se os telhados e as muralhas da cidade misteriosa, em que mudavam lentamente sombras e reflexos deslumbrantes, mas nem uma alma apareceu. Eu tinha comigo um aparelho fotográfico e pensei bem para levar algumas fotografias da misteriosa cidade, com os efeitos da mudança da luz. Pois no entanto o navio permanecia imóvel, cansei-me rapidamente de tirar fotos que se tornavam repetitivas. Decidi matar o tempo deixando cair uma linha de pesca no mar, com a ilusão de procurar peixe, enquanto refletia sobre tudo e nada. Preferia-me isolar, para não comparar o meu nervosismo e alimentá-lo com o da tripulação.

Sentíamo-nos suspensos no tempo e no espaço, tínhamos a sensação de que a vida de todos os outros homens no mundo continuasse sem incômodos, enquanto permanecíamos paralisados naquele braço de mar. Não foi nem meia hora, nem metade de um dia: parecia ser uma eternidade, entremetendo-se entre o navio e seu destino. Eu podia-me ver, como Ulisses, lutando contra uma vontade poderosa, e esperava ouvir o canto das sereias: teria preferido isso àquela calma fantasmagórica.

Era como se a miragem silenciosa saísse dos recessos de nosso inconsciente: sonhos de marinheiros, ou de pessoas que estudaram. Uma ilha flutuando sobre as vagas profundas. Uma Atlântida com telhados de Oricalco, em que cada um de nós poderia sonhar de uma bela rainha, exclusiva e cruel, que o aguardava. O estranho silêncio parecia anunciar uma terrível emboscada. A calma superficial não diminuía a tensão, porque estávamos conscientes de que esse mar era em um dos mais traiçoeiros e perigosos, tanto pelas mudanças climáticas, às vezes abruptas, como pela presença dos nossos semelhantes, nem sempre recomendáveis.

Nosso próprio navio parecia transformado em um barco fantasma. Apenas alguns dos tripulantes mexiam na borda, com atitude furtiva, de fingida indiferença. Eu estava certo de que o capitão, com a equipe de sua confiança, estava armado, preparado para qualquer eventualidade. Nada interveio para quebrar o silêncio: nem uma trombeta, nem o chilrear de um pássaro ou alguma explosão, que nos despertasse do pesadelo angustiado... Estávamos envolvidos numa calma silenciosa e leitosa, que tinha transformado um dos braços de mar mais insidiosos do mundo em um pântano.

Um jovem marinheiro, incapaz de permanecer inativo, quis mergulhar na água. Tentei segurá-lo. A água parecia calma, tínhamos a impressão de estar perto de um porto e de uma cidade, mas a razão repetia: não. Pelo contrário, estávamos à mercê de um mar instável, com centenas de metros de profundidade. Se a miragem tivesse dissolvido e se o vento subisse de repente, como é habitual nestas partes, a recuperação do jovem seria difícil. Outros marinheiros tentaram parar seu companheiro na dúvida de que pudesse haver um perigo oculto... Mas foi em vão.

O rapaz mergulhou em uma espécie de névoa evanescente, foi como se uma nuvem de vapor o tivesse envolvido, e desapareceu de vista. Pensávamos de perdê-lo. Em vez disso, ele voltou, mas apenas depois de várias horas, cansado e com tonturas. Aparecia estranhamente velho. Seus olhos arregalados viram eventos muito fortes. Desde aquela época, ele andou dizendo coisas estranhas: já não estava com a cabeça no lugar.

O sol já não era visível, escondido pela névoa, e o brilho ia diminuindo. As sombras espessavam-se entre a neblina subindo e a paisagem ao redor esmaecia, como se a cidade queria ir se aposentar longe de nós... Antes que nunca tínhamos sido capazes de atingi-la ou tocá-la.

Estava aproximando-se o pôr-do-sol, quando uma densa rajada escondeu tudo. Uma rajada de vento intenso, carregado com picadas de areia, que durou cerca de meia hora. A areia rodou no cabelo, no cordame e no revestimento dos botes salva-vidas, enquanto a escuridão caiu rapidamente, como breu, no ar espesso. Voltei às pressas no convés, com todas as minhas coisas.

Durante a noite, finalmente, o tempo clareou. Um trecho de olho, sob a luz da lua voltada de prata, nenhuma terra atingia o olhar. A água estava calma e escura, a corrente estava arrastando-nos. Somente vagas e bandos de gaivotas, em busca de alimento. As caudas de uma família de golfinhos (ou talvez sirenes?) pareciam voar para fora da água, como se para dizer adeus. Os instrumentos de bordo foram devolvidos na própria função.

Na manhã seguinte, o navio desembarcou em um pequeno porto e logo nossa aventura passou a fazer parte das lendas locais. Buscou-se identificar o local onde o nosso barco estava preso durante aquele longo dia. Mas ninguém foi capaz de identificar a localização precisa do misterioso evento, dada a longa paralisia sofrida pelos instrumentos.

Apesar de todos meus esforços, não consegui rastrear nenhum dos objetos pescados fora do mar. Também não havia memória de visões, nem de cidade fantasma emergindo das ondas.

A quilha de nosso navio aparecia riscada por arranhões profundos, longos, como as garras de um ser gigante tentando segurá-la de volta.

O jovem que tinha mergulhado, e que voltou com os olhos para sempre esvaziados na distância, repetia frases incompletas. Ele foi vítima de pesadelos, parecia que iria continuar a assistir a um enorme cataclismo, com homens, mulheres e crianças que, sob seus olhos, sucumbiram vítimas de um massacre que ultrapassava qualquer compreensão humana. Depois de um curto período de tempo, seu cabelo ficou todo branco.

Eu não poderia explicar se toda a tripulação tinha sido vítima de uma alucinação, ou se a noite de lua negra tinha realmente criado condições favoráveis para uma "ponte" entre dois mundos, fazendo ressurgir das profundezas do mar uma cidade que quem sabe quantos milhares de anos atrás poderia ter permanecido submersa naquele lugar. Ali ou em outro lugar, quem saberia dizê-lo? A memória coletiva dos marinheiros, que ao longo dos séculos têm viajado pelos mares, pode dar substância aos fantasmas, pesadelos, medos, mas também aos sonhos mais maravilhosos que têm assombrado a vida do homem.

No princípio da tarde, fiquei apanhado por um sono profundo. Eu não dormia desde mais de quarenta horas e acordei só no dia seguinte, de manhã bem encaminhada. Eu estava suando e eu estava animado, eu ainda estava de cabeça muito pesada e um sonho estranho, ou melhor, um pesadelo cumprido e torcido, rodeava na minha memória.

Aparecia-me, por um momento mais, a visão da cidade misteriosa. Já não era uma cidade fantasma, tinha-se tornado cheia de vida. Comerciantes, mulheres e crianças foram em movimento turbulento nas ruas. A animação agitada parecia querer vingar-se do resto da imobilidade, que a cidade tinha experimentado no dia anterior. Eu estava movendo-me em meu sonho pelas ruas, totalmente à vontade, como se esse ambiente me fosse familiar, um pouco como o meu berço natural. Em seguida, a visão ficava turva e tudo estava tremendo, sob o choque repentino de um terremoto. Vários choques, longos e terríveis, que pareciam quebrar em pedaços todo o globo. Uma pausa, um longo silêncio não natural, como a imagem "congelada" de uma película... E então ouviu-se um rugido ameaçador, para baixo da montanha. O vale verde com as culturas e a vegetação, atravessado pelo rio que deu vida à cidade e suas terras, foi se transformando em uma imensa cascata de terra e lama. Em uma longa hora de pânico, a cidade inteira sabia que não havia salvação. Nem na direção da terra, que desaparecera sob uma vaga de lama suja, nem para o mar, ferido pelas ondas longas de um maremoto que haviam criado o caos na frota. A catástrofe era inevitável. Em meu pesadelo revivi todo o drama, como se uma memória ancestral fosse emergindo das brumas do tempo, depois de milhares de gerações.

Era como se um turbilhão rodeasse em torno de mim e tentasse me arrastar, mesmo quando me levantei e tentei voltar para a vida quotidiana: senti-me esmagado por um turbilhão de água, vento, espuma barrenta. Depois da calma não natural, a inatividade forçada do dia anterior, agora um paroxismo de movimento e de torção havia tomado posse da minha mente. Como um furacão, ou melhor, uma banheira de hidromassagem que me abraçasse, para me arrastar no fundo preto. Sentia-me instável e percebia uma vocação ancestral, uma presença viva que estava empurrando-me para fechar meus olhos, para redescobrir as sensações, imagens, sons e vozes do sonho. Apesar de essas experiências serem angustiosas, animava-me a necessidade de revivê-las; mas eu não conseguia lembrar a seqüência dos fatos. Mantinha apenas o vago sentimento de presenças, de fantasmas em torno de mim, que me sugeriam memórias, sensações, avisos. Da escuridão subiam repetidos, angustiados, os soluços de uma criança.

Em minhas fotografias de um longo dia de calma, quando as revelei, não apareceu nada, a não ser uma extensão vazia, uma planície de mar. Nenhum vestígio do porto, da ilha, da baía misteriosa, nem dos telhados da cidade misteriosa.

Muitos anos se passaram. Outras vezes tenho visto fenômenos estranhos no céu ou no horizonte. Aconteceu-me de ver outras noites de “lua negra”. A experiência dessa viagem, no entanto, manteve-se única. Nunca mais me senti envolvido, como protagonista, em acontecimentos tão inexplicáveis.

Cada vez que pensei de volta para a imagem daquela cidade, revivi a sensação de total desamparo daquele dia. Era como se sob os telhados, por trás das fachadas das casas desertas, legiões de fantasmas estivessem nos espionando, como se aí fosse escondida a grande revelação, o que poderia ter mudado a minha vida inteira ou, talvez, o destino do mundo todo. Uma oportunidade perdida... Ou talvez adiada? Quando penso sobre isso, “sinto” que terá que acontecer comigo de novo. Percebo a experiência daquele dia como uma premonição escura.

Ainda tenho dois ardis, com os quais eu pesquei, para tentar passar o tempo, naquele dia de calma. De acordo com os mapas, tínhamos de encontrar uma profundidade de cerca de duas centenas de metros, mas eu via lá, frente de mim, a boca do porto misterioso. Naquele dia, o primeiro ardil permaneceu preso. Eu consegui recuperá-lo com grandes esforços: estava deformado. Pensei que ele tinha enganchado alguns destroços submersos. O secundo ardil reemergiu com uma surpresa. Se você alguma vez vir a minha casa, vou mostrar-lhe o brinquedo de uma criança da Atlântida: uma estatueta dourada, de bronze, descrevendo um carro de combate ou de caça, com rodas capazes de mexer e uma cadeia para arrastá-lo. O cocheiro levanta um chicote. Uma inscrição misteriosa correndo ao longo de todos os lados do vagão. Ninguém jamais foi capaz de decifrá-la, mas cada vez que eu toco no carro, parece-me que me conte uma história triste e remota. Uma história tão angustiante, que as meras palavras não seriam capazes de contá-la.

Naquele pequeno objeto ficou presa a projeção da tragédia de um povo desprovido de herdeiros, todo um povo enterrado no abismo, sob uma espessa camada de água e lama. Ninguém irá se lembrar deles, porque as suas memórias se foram, perdidas para sempre, quando foram afogados por uma onda de proporções bíblicas. Na mesma altura, uma série de terremotos fez rachar algumas barragens rochosas que continham as águas. Um enorme reservatório ficou esvaziado em cima de uma nação de infelizes e arrastou para o abismo uma civilização antiga, que tinha sobrevivido ao deserto, tinha sido capaz de prevalecer sobre os povos vizinhos e de impor a sua supremacia sobre os mares.

Os herdeiros dos que haviam erguido túmulos e sepulcros quando a terra - então fértil - tinha sido conquistada a partir do deserto, se estabeleceram em uma planície fértil, cercada pelos mares mais bonitos do mundo. Tinham erguido grandes monumentos de pedra, folheados ou chapeados de metais preciosos; tinham construído navios de grande porte e criado um império, estendido para além dos mares. Sua cidade capital, em uma ilha, dominava a entrada da baía mais bonita do mundo. Mais uma vez, no entanto, a natureza encarniçou-se contra eles. Desta vez, foram mesmo os mares, aqueles mares que haviam ajudado a criar a sua sorte: um deles os varreu para longe, o outro enterrou-os para sempre. As águas ficaram fechadas, em cima da cova profunda em que fora enterrada aquela criança, que brincava com um carrinho de bronze, e com ela todo o seu povo. Eles já não tiveram herdeiros, nem houve Homero nenhum, para cantar as suas memórias. Seus traços misteriosos teriam permanecido mudos, mesmo para os arqueólogos que os estudavam.

O mar entrega a vida, o mar a leva; o mar cria e destrói, sempre. O mar, em certas circunstâncias, também é capaz do milagre da criação de uma ponte através do tempo, para nos trazer pedaços de conhecimento do passado. Só o mar e a terra, os ventres criadores da vida primordial, podem conseguir alcançar tal milagre, como nenhum arquivo artificial nunca poderia fazer. O mar, a terra... Ou talvez a lua negra?



Conto escrito por
Alberto Arecchi

CAL - Comissão de Autores Literários
Agnes Izumi Nagashima
Alex Xela Lima
Eliane Rodrigues
Francisco Caetano 
Gisela Lopes Peçanha
Lígia Diniz Donega
Márcio André Silva Garcia
Paulo Luís Ferreira
Pedro Panhoca
Rosside Rodrigues Machado

Produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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