ATENÇÃO: As imagens de artistas utilizadas no vídeo de abertura e na arte de divulgação deste episódio possuem caráter meramente ilustrativo, sendo usadas apenas para representar os personagens e a narrativa, sem fins lucrativos ou vínculo oficial com os artistas citados.

FADE IN
CENA 1 RUAS DA CIDADE [EXT./NOITE]
A cena mostra ao
longe, Raíza, João Batista e Dcr caminhando numa calçada. Dcr carrega um pacote
com muito cuidado, pois seu braço está enfaixado. Raíza está com uma nova bolsa
azul xadrez e o primo tem uma sacola em mãos.
JOÃO (olhos arregalados): Caraca, Dc!
‘cê’ esqueceu do presente do seu pai!
Dcr olha para os dois e esboça um
sorriso sem graça.
DCR: É que...O meu pai está viajando e
como ele viaja de um lado pro outro, nem tem endereço fixo...
RAÍZA: Ah é verdade! Eu tinha me esquecido
que seu pai é representante de vendas ‘né’?
Bate um silêncio de repente.
Continuam andando até que João quebra o silêncio.
JOÃO: O que vou escrever no cartão?...
RAÍZA: Um Feliz 2009 será um bom começo
(sorri).
JOÃO: Mas isso já...
Dcr recebe um estalo divino.
DCR (espantado): Meu Deus! O cartão!
Esqueci o cartão! Como fui esquecer de comprar? ...Preciso voltar lá no
shopping!
JOÃO: Calma aí, cara...Por que você não
faz um? Entende pra caramba de computador...
DCR: É João, mas não vou ter tempo...
Quero entregar hoje, na virada...
João coça a testa, olha o relógio.
Marca 20:00 hs.
JOÃO: Olha só gente, já tá tarde...Se
vocês quiserem ir vão, mas eu vou pra casa, falou?
DCR (para Raíza): Você vem comigo ‘né’?
(ele faz um gesto com a cabeça) Não é?
Raíza olha adiante o caminho de onde
vieram e suspira.
RAÍZA: Ai Senhor...Tudo bem, eu vou.
Dcr sorri.
JOÃO: Bom, então tchau. E boa sorte pra
vocês.
João segue a estrada, Raíza e Dcr
andam no sentido oposto em passos largos. A garota está nitidamente ofegante.
RAÍZA: Ás vezes... Eu acho que se eu olhar
pra trás vou ver meu corpo estirado na estrada...
DCR: Credo! Meu Deus! Você me assusta,
sabia? Você me assusta...
Atravessam a rua e Dcr olha à
direita, puxa a amiga em seguida.
DCR: Vamos por aqui! Essa viela vai sair
nos fundos do shopping.
RAÍZA: Tá maluco, Dc? Essa viela é
perigosa!
A garota é puxada pelo amigo, correm
e passam ao lado de um muro decadente.
Ouvem um som de algo queimando. Dcr
pára.
RAÍZA: O que é agora, Dc? Vamos embora
daqui!
DCR: Você não tá ouvindo isso?
Raíza pára, olha para o alto
aparentemente captando o som.
RAÍZA: Não! (é a vez dela puxar o amigo)
‘vambora’!
Dcr estaca, mira em um vão no muro e
vai até ele.
RAÍZA: Minha Nossa! É hoje!
Dcr olha pelo vão e volta-se
assustado.
DCR: Tem um carro pegando fogo, Raíza!
RAÍZA: Ai meu Deus! Vamos dar o fora, Dc!
Eles devem ter roubado as peças e resolveram queimar o que restou da lata...
Dcr olha novamente e vê um braço
batendo na janela do carro.
DCR: Tem gente viva lá dentro!
Dcr se prepara para passar pelo vão e
Raíza o puxa pela cintura.
RAÍZA: Vai fazer o quê?
DCR: Ora! Salvar uma vida.
RAÍZA: Tá doido? Você pode se machucar
também!
Dcr está com o pé do outro lado.
DCR: Você não pensou nisso quando salvou
a vida de Marco...Pensou?
Dcr passa para o outro lado deixando
a amiga sem reação.
Em seguida, ela também passa pelo
vão.
DCR: Vamos, Raíza! Vamos pedir ajuda!
Sei lá...(ele mira em alguma coisa no chão) Olha! Um pedaço de ferro!
Raíza avança e pisa em falso em
alguma coisa.
RAÍZA: Ai droga!
A garota pula com uma perna só até o
pedaço de ferro enquanto tenta tirar o caco de vidro de seu pé.
DCR: Anda logo, menina! (ele se
estressa) me dá isso aqui! (Dcr acaba pegando o ferro mesmo com dificuldade).
VOZ MASCULINA: EI! O QUE PENSAM QUE VÃO FAZER?
Há um aglomerado de gente na porta do
terreno do outro lado.
RAÍZA (põe a mão na cabeça): Ai
não...Estamos fritos!
O homem é um policial. Raíza e o
amigo recuam o passo.
DCR: Seu polícia, tem alguém vivo nesse
carro! Faça alguma coisa!
O policial arranca o ferro de suas
mãos e os surpreende.
POLICIAL: Vocês foram pegos em flagrante.
Agora querem dar uma de bons samaritanos?
Raíza e Dcr se entreolham.
RAÍZA: Como é que é? A gente ouviu um
barulho e viemos ver o que era.
POLICIAL (tom desconfiado): E o que vocês
fazem por essa viela?...Não sabem que é perigoso?
DCR (nervoso): A gente tá perdendo
tempo! Quebra logo a porra dessa janela!
Raíza arregala os olhos por aquele
palavrão.
POLICIAL: Olha como você fala, moleque!
DCR: QUEBRA LOGO ESSA JANELA!
O policial, nervoso, dá um soco com o
ferro na janela, quebrando-a.
Há um homem inconsciente, mas Raíza
não consegue ver direito quem é por causa da fumaça.
O policial olha para eles,
desconfiado.
DCR: Tá vendo? Aposto como tá morto! A
culpa é sua!
POLICIAL: Isso é desacato! (ele apanha um
rádio-transmissor do bolso da farda).
Dcr muda o semblante.
DCR: O que vai fazer?
POLICIAL: Vou ligar pra viatura. Você tá preso
por desacato a autoridade e...(ele olha para o carro) quem sabe, homicídio
culposo.
DCR: Isso é um absurdo! Eu não fiz nada!
O senhor que deixou esse cara morrer!
POLICIAL: Tá me desacatando de novo?
DCR: Seu polícia...Meu pai tá doente, eu
tô levando uns remédios pra ele (ele abre a bolsa) ele não pode ficar sem
tomar.
O policial estica o olho e vê pacotes
de remédios com tarja preta. Raíza olha, sem entender.
POLICIAL: Eu mando alguém levar pra você, mas
vocês dois virão comigo.
Ele liga o rádio-transmissor.
Raíza e Dcr se entreolham e, em
seguida, olham para a saída do terreno e dão uma corrida.
POLICIAL: EI! (ele saca a arma).
Os dois fugitivos correm pela alta
estrada. Raíza está mais a frente, olha para o lado e rapidamente para trás.
Nem sinal de Dcr.
RAÍZA: Dc?
Quando se volta, o ambiente muda.
RUAS DA CIDADE [EXT./MANHÃ]
Ela vai freando os passos e uma
buzina soa muito perto. Ela se volta e um carro pára bruscamente rente ao seu
joelho.
A moça apóia as mãos sobre o Toyota e
o motorista abre a porta do carro assustado.
Raíza olha pra Cael com o mesmo olhar
de quando se esbarraram pela primeira vez há quatro anos...
A tela se fecha num baque.
FADE IN
CENA 2 RUAS DA CIDADE [EXT./MANHÃ]
CAEL: Raíza?...(tom preocupado) Você
precisa prestar mais atenção...Eu quase...
RAÍZA (olhar fixo): De novo...
CAEL: Como?
RAÍZA: Isso já aconteceu antes. Agora
lembro...Eu estava indo pra escola quando você quase me atropelou (ela põe a
mão na cabeça) Meu Deus...tô lembrando... (de repente, ela o olha
estranhamente) você não parece surpreso.
Cael titubeia e mostra-se
impressionado com a cena.
CAEL: Ahn...
Ele faz que vai dizer algo, mas
desiste ao percebê-la inquieta demais para quem acabou de se lembrar do
passado.
Ela anda até a calçada com as mãos na
cabeça, confusa. Cael a observa.
CAEL: Mas de onde você vinha ou para onde
você vai tão apressada?
RAÍZA: Eu estava agora mesmo...
VOZ MASCULINA: Raíza!
A garota se volta e dá com Dcr atrás
dela, de braço são e sem sacola. Aquela cena a deixa mais confusa ainda.
RAÍZA: Dc?...(Ela passa as mãos nos braços
dele) Tudo bem contigo?
DCR: Eu é que te pergunto, ‘né’?
RAÍZA: Comigo tá tudo bem, mas...Onde você
estava?
DCR (estranha a pergunta): ...No mesmo
lugar onde você deixou a mim e o João plantado quando disse que ia ao banheiro
lá no shopping...Não voltou mais.
Raíza vira para Cael que a olha com a
mesma cara de quem não entende nada.
DCR: Eu sei por que você resolveu sair à
francesa...O João debochou de seus sonhos e você ficou chateada.
RAÍZA: Eu?
DCR: Não...Minha vó (ele ergue o braço e
olha pra cima) que Deus a tenha em sua Santa Glória...Claro que é você!
Cael se põe a rir.
CAEL: Eu não estou entendendo nada, mas
não podemos ficar aqui parados. Aceitam uma carona?
DCR: Ah como não...(ele se dirige à
porta do carro).
Cael observa e sorri para Raíza.
CAEL: Vamos?
A garota sorri um sorriso fechado e
incômodo. Seu rosto sua, o sol de quase meio-dia a cansa.
FADE OUT
FADE IN
CENA 3 APTº 403 – SALA [INT./INÍCIO DA
TARDE]
João está sentado no sofá com o
telefone nas mãos. A porta é aberta e quando Raíza entra, João larga o telefone
e dá um pulo do sofá.
JOÃO: Pombas, Raíza! Onde é que você se
meteu? Já ‘tava’ quase ligando pro seu pai.
A garota nem dá ouvidos.
RAÍZA (afobada): João, diz pra mim: você
veio embora do shopping e eu e o Dcr voltamos lá pra comprar um cartão, não
foi?
JOÃO: Quando foi isso?
RAÍZA (gagueja): Ahn...Ho...On-ontem...
JOÃO: Que eu lembre você foi ao banheiro
e não deu mais notícias...
A garota suspira.
JOÃO: Você deve ter sonhado...Tá uma
pilha por que ainda não comprou o presente pro seu pai ‘né’?
RAÍZA: (Pausa)...É...É isso...
JOÃO: Mas por onde esteve? Por que não
esperou a gente?
Raíza desvia o olhar, inquieta-o.
RAÍZA: Eu me perdi...
JOÃO (dá as costas): Isso que dá não ter
um celular...
A garota, confusa, caminha até o...
QUARTO...
Joga a bolsa sobre a cama e se a joga
nela.
Mantém o olhar parado, totalmente
absorta.
RAÍZA (Em OFF): Não dá pra
acreditar...Isso não pode tá acontecendo de novo, não pode!...Primeiro foi a
formatura do meu pai, depois a suposta morte de Marco, agora...(assim como Dcr
ela recebe um estalo divino) É isso!...
FLASHBACK:
SHOPPING [INT.]
Raíza sai do banheiro e não encontra
nem Dcr e nem João. Anda de um lado e de outro os procurando. Olha para a porta
e vê que é noite. Sai do shopping, avista um telefone público e alguém toca seu
ombro.
DCR: ‘Cê’ sai do banheiro e nem dá
satisfação, ‘né’? Quando vi você já estava aqui.
JOÃO: Vamos, gente! Tá tarde.
FLASHS RÁPIDOS:
Raíza e Dcr diante do carro em
chamas, o policial arrebentando a janela, alguém dentro do carro inconsciente e
ela e Dcr fugindo.
FIM DO FLASHBACK
Raíza senta na cama com olhar
assustado.
RAÍZA: Eu fui ao futuro de novo!
CENA 4 APTº 403 – SALA [INT./TARDE]
Bruno está entrando em casa com
sacolas de supermercados, João ajuda-o a levar para a cozinha.
Raíza surge do corredor e atravessa a
sala rumo à...
COZINHA...
O armário é branco e verde. Tem uma
galinha de porcelana no balcão de granito e é possível ver as xícaras através
da porta transparente do armário.
Bruno coloca as sacolas em cima da
tampa de vidro da mesa verde.
BRUNO: Ela já chegou do shopping? Nossa,
pensei que ia demorar mais...
JOÃO: Ela se perdeu, acredita? Daqui a pouco
vou ter que ir com ela até no quintal...
A garota surge à soleira da porta e
entra.
RAÍZA (olha enviesado para o primo): Oi,
pai...Comprou tudo que precisava?
Bruno abre todas as sacolas e pára
com ar de desolado.
BRUNO: Eu não acredito!...Esqueci o vinho.
RAÍZA: Vou ali na esquina comprar uma
sidra e aí tá tudo...
BRUNO: ...Sidra? Não faça uma coisa
dessas! Eu não trabalho todo santo dia pra chegar no reveillon e tomar sidra.
João ri com o peito de peru nas mãos,
abre a geladeira e o guarda.
RAÍZA: Mas vinho é caro! E a gente não vai
receber visitas.
BRUNO: Sabe se lá...Já pensou se o Cael
aparece aqui? Vou servir sidra pro homem?
JOÃO (risos): Imagine só! O cara deve tá
acostumado com Scotch da vida e tem que engolir uma sidra (risos).
Raíza esboça vontade de rir.
RAÍZA: E quem disse que ele virá?...O cara
tem a família dele...Que motivo o faria vir?
João vira o pescoço.
JOÃO: Desejar pessoalmente um feliz ano novo?
Bruno ri e Raíza abaixa a cabeça.
RAÍZA: Vou comprar o vinho...
JOÃO: ‘Peraí’ que vou junto!...Vá que
você se perde...
Raíza bate com a mão na soleira da
porta e sai. João acha graça e o tio também.
CORTA PARA
CENA 5 PONTO DE ÔNIBUS [EXT./TARDE]
Assim que Raíza e o primo chegam no
ponto, o ônibus aponta da esquina e eles fazem sinal. O ônibus pára.
ÔNIBUS [INT.]
...Eles entram e Raíza paga ao
motorista. Passa pela roleta e vê Dcr ao fundo.
RAÍZA: Dc!...(ela pára de falar ao vê-lo
de braço enfaixado)...Ma-mas o que houve? Até a pouco...
DCR: Caí da escada...Não foi nada de
mais, mas sabe como é minha mãe, ‘né’?
Raíza senta ao seu lado e João ao
lado da prima.
JOÃO: Eu não sei como é sua mãe...Nunca a
vi...
Dcr e a amiga olham pra João com um
sorriso.
RAÍZA (preocupada): Hoje em dia temos que
ter cuidado com tudo...
JOÃO: Viver é perigoso, prima...
A garota olha para frente, pensativa.
CORTA PARA
CENA 6 MANSÃO – SALA [INT.]
Cael está de frente pro bar, coloca
whisky em seu copo e duas pedras de gelo. Pára com o copo na mão e olhar
perdido.
MARCO (O.S): Pensando naquela louca que
atravessou seu caminho de novo?
Cael se volta e vê Marco, com as mãos
nos bolsos da calça caminhando em sua direção.
MARCO (pega uma bebida): Essa garota está
muito próxima de você...Daqui a pouco você a colocará pra dentro da boate como
fez com o Paulo...Que Deus o tenha...
CAEL: Será que nem no último dia do ano
você deixa de me azucrinar?
Marco se serve, põe uma pedra de gelo
e o olha de lado.
MARCO: Vou pensar no seu caso ano que
vem...E quem sabe você presta mais atenção nas amizades que faz...
Marco dá as costas e Cael põe o copo
com força no balcão e o olha, tentando manter a calma.
CAEL: Você devia estar preocupado com a
nossa mãe que ainda não chegou.
Marco se senta, coloca a perna por
cima da outra e tomba o corpo para o lado.
MARCO: Você ainda acha que ela virá? Se eu
bem a conheço deixará pra vir no dia dos Reis. Você sabe que ela odeia viradas
de ano. Ela sempre diz...
VALENTINA (O.S): ‘Todo mundo fazendo de conta
que o ano novo será melhor’. (eles vêem Valentina adentrar a sala) A mãe de
vocês é hilária.
Valentina beija seu namorado e Marco
se levanta com cara de insatisfeito.
MARCO: Com licença...Vou tomar meu whisky
em outro lugar...
Assim que ele sobe as escadas,
Valentina abraça Cael pelo pescoço.
VALENTINA: Vamos passar o reveillon na minha
casa?
CAEL: Acho que o Marco não vai se sentir
muito à vontade...
VALENTINA (desvia o olhar): Isso que dá ele
não ter uma namorada...
CAEL: Não se incomoda de passar com a
gente aqui, não ‘né’?
Valentina esboça um sorriso sem
graça.
VALENTINA: Uma reunião somente eu, você e seu
irmão?...Bom, espero que no próximo reveillon o Marco já tenha uma namorada...
CAEL: Acho pouco provável, mas se isso
fizer parte de um de seus pedidos pro novo ano...
Valentina abre um sorriso falso.
CORTA PARA
CENA 7 SHOPPING [EXT./TARDE]
Raíza, João e Dcr estão na calçada e
Dcr sobe um degrau da escada.
RAÍZA: A gente tem que entrar aí mesmo?
JOÃO: Como assim ‘a gente tem que entrar
aí mesmo?’
RAÍZA (apreensiva): A gente pode encontrar
o vinho em outro lugar, não?
DCR: A gente já rodou tudo. O
shopping é a única salvação.
João e Dcr sobem as escadas e lá no
alto, olham para baixo.
JOÃO e DCR: Você não vem?
Os dois se olham por terem perguntado
junto.
Raíza solta os ombros e sobe.
RAÍZA: Bom, já que tô aqui vou comprar as
canetas pro meu pai e pro meu tio...
DCR: ...Canetas?
JOÃO: Com nome gravado, é claro.(ele se
dirige a prima em tom debochado) ‘cê’ já havia dito isso...Imagine se você não
lembra? Seu sonho não teria valido de nada...
Raíza o olha de mau humor, mas se
contém.
RAÍZA: Ainda bem que lembrei ‘né’? Não é
incrível?
DCR: Foi uma piada? (indaga, totalmente
por fora).
RAÍZA: Ahn...Aproveita Dc e compra o
cartão.
DCR: Caraca, Raíza! Se ‘tu’ não
lembra...Parece até que adivinhou que eu ia esquecer...
A moça olha pro primo em tom
sarcástico, enquanto se dirige ao amigo Dcr:
RAÍZA: Sonhei, acredita?
CORTA PARA
CENA 8 LUGAR DESCONHECIDO [INT./FIM DE
TARDE]
O ambiente é mal iluminado, janela de
vidro sujo, piso de cimento colorido. Poucos móveis e desses poucos eram velhos
e sujos também.
Ouve-se a voz de um homem vindo de
alguma parte da casa.
No quarto há uma cama de solteiro no
canto e um homem de costas para uma cômoda. Ele está ao telefone.
HOMEM: Pra hoje ainda ‘né’? Pena que assim
você detona com meu reveillon (O cara rir).
Sua voz é meio arrastada, densa.
Apenas sua boca é mostrada com seu cavanhaque mal aparado e logo alterna para
os óculos. Notamos que se parece com o mesmo cara que atentou contra Bruno.
HOMEM: Eu sei como fazer...Sem armas, nem
sangue...Vou dar uma chegada nele e...Tudo bem, cara! Não darei detalhes,
não...Vou esperar sua ligação...Espero que ainda hoje pra que me deseje um
feliz ano novo. (Ele desliga com um sorrisinho de sacana).
A tela se fecha num baque.
FADE IN
CENA 9 SHOPPING [EXT./NOITE]
Raíza, João e Dcr, de sacolas nas
mãos, descem as escadas, apressados. Dcr dá um pulo e faz sinal para o ônibus,
mas acaba perdendo-o.
DCR: Pior que só tem 1 que vai pra onde
a gente mora.
RAÍZA: Decadência viu...
Dcr ri e olha o relógio. Marca 19:40
hs.
JOÃO: Se a gente for a pé...
RAÍZA: Nem pensar!
Tanto João quanto Dcr arregalam os
olhos.
JOÃO: Calma, foi só uma sugestão...
João olha fixo para a condução que se
aproxima e faz sinal.
RAÍZA: Ah que bom! Espero que tenha vaga.
JOÃO: Isso se for a condução que
queremos...
RAÍZA: Mas...
JOÃO (cont.): Não tô enxergando nada...
A van pára e a placa a frente marca o
bairro onde eles moram: Jardim Santo Graal.
COBRADOR: Só tem uma vaga!
Os três se entreolham.
RAÍZA, JOÃO e DCR (um para o
outro): Se você quiser...
JOÃO: ...Vai você Dc.
DCR: Que falta de cavalheirismo, João. É
ela quem deve ir.
RAÍZA: Ih gente! Melhor o João ir viu; meu
tio já ligou não sei quantas vezes pra ele hoje...Daqui a pouco ele está...
O celular dele toca.
RAÍZA: Não disse?...Vai logo vai João!
João entra na van, acena e parte, em
seguida.
CORTA PARA
CENA 10 CASA Nº 1210 - SALA [INT./NOITE]
De costas, um homem fala ao telefone
de forma alterada.
HOMEM: Como?...Meu irmão sofreu um
acidente?...Em que hospital ele tá?...(ele alcança uma caderneta e uma caneta)
pronto! Já anotei...
O homem desliga, pega a chave sobre o
móvel e vira. É Camilo.
É um rapaz de uns 28 anos, barba por
fazer, moreno e físico malhado.
Abre a porta e sai batendo.
CASA Nº 1210 [EXT./NOITE]
Alguém observa Camilo abrir o portão
de dentro de um carro. O rapaz caminha pela calçada na rua deserta e olha para
trás rapidamente.
CARRO [INT.]
Há um celular na mão do motorista e
logo o guarda no bolso da camisa. Sua outra mão está na marcha e pelo
retrovisor vemos os óculos escuros da pessoa.
Camilo coloca o pé para fora da
calçada, o sujeito do carro engata a marcha e Camilo faz que vai atravessar.
O sujeito acelera, os pneus cantam.
Camilo olha de súbito para trás, tenta recuar, mas o carro bate do seu lado o
fazendo girar. Camilo cai no chão.
O carro pára, o sujeito abre a porta,
sai e caminha até Camilo.
Além dos óculos escuros, ele usa
sobretudo, tem cavanhaque preto, é magro e franzino.
Camilo está de bruços e começa a se
mexer. Quando se vira, vê a imagem de um homem embaçada e em seguida, recebe um
soco.
FADE OUT
FADE IN
CENA 11 SHOPPING [EXT./NOITE]
Raíza anda de um lado e de outro.
Numa de suas idas e vindas pára diante de Dcr.
RAÍZA: Não aguento mais!...Meu pai deve tá
uma pilha e a gente não consegue uma (ela enfatiza) condução.
DCR: O jeito é ir a pé ou tentar um táxi
lá trás.
Ele põe a mão nos bolsos da calça e
apanha uns trocados.
RAÍZA: Maldita hora que meu pai foi
esquecer esse vinho viu...
Dcr conta o dinheiro que tem nas
mãos.
DCR: Não adianta, Raíza; Virar o ano
aqui é que não vou ‘né’.
Dcr a puxa pelo braço.
DCR: ...’Vambora!’
Eles correm, atravessam a rua e Dcr
olha à direita, puxa a amiga em seguida.
Raíza estaca.
RAÍZA (Em OFF): Essa viela...Essa
viela...Ai meu Deus...
DCR: O que foi, garota?...Vamos logo!
Dcr a puxa novamente a arrastando
pela viela. Atenta, vê um muro decadente e aperta o passo.
Ouve-se o som de algo queimando. A
garota não consegue ignorar.
DCR: Tá ouvindo isso, Raíza?
A garota nada responde. Dcr vai até o
canto do muro onde tem um vão e volta-se assustado.
DCR: Tem um carro pegando fogo! (ele
olha novamente)...E tem gente viva lá dentro!
A garota vê Dcr passar pelo vão e
mesmo confusa, corre.
RAÍZA: ‘Peraí!’...
Assim que atravessa o vão, ela pára e
olha pro chão. Consegue enxergar um caco de vidro.
DCR: Vamos, Raíza! Vamos pedir ajuda!
Sei lá...(ele tosse).
A garota desvia do caco de vidro e
avança em uma barra de ferro.
RAÍZA: Olha aqui!
CORTA PARA
CENA 12 TOYOTA [INT.]
Cael dirige com dificuldade. Um grupo
de pessoas se junta próximo ao terreno e acontece um engarrafamento.
Cael pára o carro. Impaciente, abre a
porta, desce e com a porta aberta observa o grupo excitado. Fecha a porta e
caminha na direção deles tentando ver o outro lado.
CORTA PARA
CENA 13 TERRENO [INT.]
Raíza faz um sinal para que a pessoa
de dentro do carro se afaste.
Olha adiante. Nem sinal da polícia.
Somente o aglomerado de gente na porta do terreno.
Dá o primeiro soco com a barra.
DCR: Vamos, Raíza! Você consegue!
A garota tenta de novo, sem sucesso.
VOZ MASCULINA: EI! O QUE ESTÃO FAZENDO?
RAÍZA (murmura): Rápido Dc! Não deixa ele
chegar perto!
Dcr olha confuso para ela e para o
carro, mas vai até o policial.
A garota toma impulso, (efeito câmera
lenta) leva o braço para trás (fim do efeito)e manda mais um soco quebrando,
enfim a janela.
RAÍZA (grita): Tente socar com o pé, moço!
O homem bate o pé na janela e
desiste, vencido pelo calor.
Raíza, no impulso, mete a mão na
porta ardida em chamas. Ela geme de dor ou de calor, fecha os olhos com força,
mas abre.
O policial, Dcr e o grupo de pessoas
se aproximam. Cael faz o mesmo e olha estagnado para a cena.
A moça, ofegante, abaixa-se e estende
sua mão para o rapaz.
RAÍZA (tosse): Vem! Eu vim te ajudar.
Ele sai do carro e se agarra na moça,
cambaleando. Ela, atônita, o reconhece. É Camilo.
O rapaz a olha, incrédulo. A
ambulância chega logo.
CAMILO (espavorido):
Obrigado...(pausa)...Obrigado...Eu pensei que eu fosse morrer...
A garota não fala nada, ainda
atônita.
O policial olha aquela cena,
surpreso:
POLICIAL: Esse carro é blindado...É preciso
,mais ou menos, três homens pra arrebentar uma janela dessa...
DCR: Deve ter sido a emoção...Nessas
horas qualquer um se supera em forças.
Cael corre até ela.
RAÍZA: Cael? (ela ainda está sob efeito do
susto)
CAEL (mais atônito ainda): Como é que
você fez isso?!
DCR: Raíza, você precisa ir pro
hospital, olha suas mãos!
Raíza olha e vê, não só suas mãos,
mas também seu pulso esquerdo vermelhos.
Cael a olha, admirado. Muito
admirado.
A garota o olha também com ar
medonho.
FADE TO BLACK
FADE IN
CENA 14 APTº 403 [INT./NOITE]
A porta é aberta. Josué e João
Batista recebem Raíza, de mãos enfaixadas, Bruno e Cael.
O primo olha as mãos da prima de
forma estranha.
JOÃO: Nossa Raíza!... Você se machucou
muito?...As suas mãos...
BRUNO: Ela se queimou, mas logo ficarão
boas.
CAEL (olha para a moça que desvia o
olhar): Foi a coisa mais surpreendente que já vi.
JOÃO: Deve ter sido mesmo...
Josué troca um olhar com Bruno que
faz o mesmo para com o sobrinho.
JOSUÉ: Bom, vou ver como tá o assado...
BRUNO: Vou com você!
Os três saem da sala e vão para a
cozinha.
Ela se volta e fica de frente para
ele.
Ouve-se o barulho dos fogos lá fora.
CAEL: Eu não sei, mas...Tenho a impressão
de que você não está feliz pelo feito de hoje...
RAÍZA: Não, que isso...
CAEL: Modéstia? Se for isso juro que não
conto pra ninguém...Fica entre mim, você, o Camilo...E também sua família, seus
amigos, o policial...
RAÍZA (ri): Não é por isso, é que...É
que...A gente nunca imagina que vai passar por isso...
CAEL: De novo?...
Ela não entende.
CAEL: Não é o primeiro que você salva...
RAÍZA: O mérito é todo do Dcr...Se ele não
tivesse visto aquele carro pegando fogo...
CAEL: ...Você tirou o Camilo lá de
dentro...Arriscou a própria vida. Quem hoje em dia faria isso?
RAÍZA: Você não faria?
Bate um silêncio. Só se ouve uma
conversaria vindo da cozinha, o som do fogão sendo aberto, pratos na mesa.
CAEL: Talvez não. Eu pensaria se aquilo
não fosse uma armadilha pra mim. Hoje em dia, a mão que se estende acaba nos
levando pro fundo do buraco.
RAÍZA: É o que eu deveria ter pensado
também.
Cael toca suas mãos enfaixadas.
CAEL: Não! Você fez o que todos deveriam
fazer pelos outros. E graças a isso eu pude desfazer uma injustiça.
RAÍZA: Injustiça? Tá falando daquela...
CAEL: É, daquela vez que acusei o Camilo
de roubar a empresa. Acredita que ele quis recusar minha oferta de voltar a
trabalhar na boate?
RAÍZA(preocupada): Você ofereceu o cargo
de volta?
CAEL: Você salvou a vida dele! Melhor que
isso eu não posso fazer.
Os dois sorriem.
RAÍZA: Ele...(hesita) Aceitou?
CAEL: Ele hesitou um pouco, mas...Acabou
aceitando.
RAÍZA (tom frustrante): Ah...Que bom...
RAÍZA (Em OFF): Eu não acredito que por
minha culpa ele vai pôr o inimigo pra dentro da boate de novo...
CAEL: Parece que você não gostou muito...
RAÍZA: Ahn, não...É que...(ela engole a
saliva) Dá um medo sabe...Ele podia ter...
CAEL: Você conseguiu. Isso que importa...
Ela sorri, abaixa a cabeça.
CAEL: Sabe, quando te vi forçando aquela
porta tive a impressão de que você teve medo de não conseguir. Como se algo a
impedisse de parar.
RAÍZA: Eu não tô...
CAEL: Você sonhou? Como daquela vez em
que você sonhou ter visto seu pai...Morto.
Raíza molha os lábios, sem reação.
BRUNO (O.S): Você fica pro reveillon,
Cael?
RAÍZA: Não pai, a família dele deve tá
preocupada...(ela vira para Cael) Não é?
BRUNO: Liga pra eles e manda vir pra cá. O
moço deve tá cansado de ficar dirigindo, não?
Cael e Raíza se olham.
CAEL: Se a Raíza quiser...
A garota sorri e olha pro pai que
disfarça um sorriso também.
CORTA PARA
CENA 15 MANSÃO – SALA [INT./NOITE]
Marco, num canto, fala ao telefone,
nervoso.
MARCO: Como é que você me deixa escapar
aquele homem?
Do outro lado, o tal sujeito dono dos
óculos escuros.
HOMEM: Eu não sei o que aconteceu direito!
Parece que uma moça salvou o desgraçado.
MARCO (V.O): Não subestime a minha
inteligência, Matias! O carro que você arrumou era blindado. Nem com a força de
um só homem poderia arrebentá-lo!
MATIAS: Eu fiz tudo direitinho. Não tenho
culpa se resolveram atrapalhar.
MARCO: Esse é o problema! Você faz tudo
direitinho demais!
E desliga abruptamente.
O celular toca. Marco olha impaciente
para o visor e vê o nome do irmão. Respira fundo e atende.
MARCO (falsa preocupação): Cael? Não me
diga que resolveu ficar na casa da namorada?...(pausa) Como?...Você quer que eu
busque a Valentina e a leve pro apartamento da Raíza? (nítido incômodo) Mas o
que você faz aí?...Ela não vai gostar nem um pouco...Está bem! Vamos ver o que
ela vai achar disso...
Ele desliga, olha pro celular meio
insatisfeito e se vira. A empregada surge no corredor e pára diante dele. Ele
se adianta.
MARCO: Não nos espere para o grande
momento (tom sarcástico) jantem vocês.
Ele dá as costas, guarda o celular no
bolso e pára.
MARCO: Ah...(ele se volta fingindo alguma
importância) Feliz ano novo.
A empregada o vê sair.
CORTA PARA
CENA 16 APTº 403 [INT./NOITE]
Josué mostra para Cael um porta
retrato onde estão os sobrinhos. Cael, com o copo de vinho na mão, observa a
foto com ar criterioso.
CAEL: Eles não mudaram nada nesses
últimos quatro anos...
Bruno passa por perto, pega
educadamente o porta retrato, enquanto olha Cael.
BRUNO: É...Verdade...Essa juventude de
hoje demora a amadurecer...
A campainha toca.
Raíza abre a porta e é encarada por
Marco e Valentina.
RAÍZA: Entrem...
Na porta do lado de fora há uma
guirlanda. Valentina dá um giro com os olhos pela sala; Há duas mesas unidas no
centro no lugar da mesinha. Bolinhos de bacalhau, rabanada e alguns outros
quitutes estão sobre ela.
RAÍZA: Não reparem...A casa é humilde...
MARCO (interrompe e sorri pra ela
cinicamente): Não se preocupe; Não vamos reparar em nada.
A garota fecha a porta, pára, respira
fundo e se volta.
Bruno, com a bandeja de copos de
vinho, oferece às novas visitas a bebida. Marco pega o copo e Valentina também,
com certa delicadeza. Assim que Bruno se afasta ela visualiza o copo.
VALENTINA (tom de desprezo): Pfff...Vinho em
copo de cerveja...
Marco toma um gole, aprecia com
experiência de quem entende do negócio.
MARCO: Pelo menos é de qualidade.
Bruno se aproxima de Raíza, ainda
perto da porta e disfarça.
BRUNO (cochicha): Ainda bem que temos vinho,
hein...
A garota sorri querendo rir.
JOSUÉ (para as novas visitas): Vamos
sentar gente! Querem criar raízes aí?
Os outros riem. Marco se prepara para
sentar quando o som de um celular o assusta. Ele senta e olha para o sofá.
Raíza vai até ele, os dois se encaram
e ela sorri timidamente. Ele não retribui.
A garota pega o celular por detrás da
almofada e vê no visor o nome ‘Dcr’.
RAÍZA: Licença...
MARCO: Toda...
Raíza caminha até a cozinha.
BRUNO: Mal ganha o celular e já deu o
número pra alguém!
JOSUÉ: Aposto como é aquele...Aquele (ele
estala os dedos tentando se lembrar)...Aquele lá!
JOÃO: Dcr! O senhor nunca consegue
acertar o nome dele.
MARCO (tom de desprezo): Dcr é nome?
Os outros se entreolham com cara de
quem não sabe responder.
Valentina cruza as pernas e sorri
para Marco com vontade de rir.
CORTA PARA
CENA 17 APTº 403 – COZINHA [INT.]
RAÍZA (ao telefone): Pra você ver só; Tá
todo mundo aqui...(pausa)...O seu pai ‘né’? Mas...Me diga uma
coisa...Você...Enviou alguma coisa pra ele, digo, algum presente?...(pausa)
Não?...Por quê?...
RAÍZA (flashback):
DCR: Seu polícia...Meu pai tá doente, eu
tô levando uns remédios pra ele (ele abre a bolsa) ele não pode ficar sem
tomar.
O policial estica o olho e vê pacotes
de remédios com tarja preta. Raíza olha, sem entender.
FIM DO FLASHBACK
DCR (V.O): Raíza? Você ta aí?
RAÍZA (desperta da lembrança): Ah...É
que... (João entra na cozinha e a olha meio de lado)
DCR (V.O): Você não me respondeu. Por
que você perguntou isso?
RAÍZA: É que...Como ele não pode estar com
vocês, você enviaria...Algum presente pra ele...
DCR: Ele não tem endereço fixo...’Cê’
sabe...(ele muda de assunto repentinamente) Ah você ligou pra Rafaela?
RAÍZA: Tentei, mas...Só dá ocupado. Amanhã
eu tento de novo...(pausa)...Feliz ano novo pra você e sua família também.
CORTA PARA
CENA 18 APTº 215 – SALA [INT.]
Dcr desliga o celular, pára com o
olhar fixo em alguma coisa.
VOZ FEMININA: O que houve?
Dcr vira o rosto para uma mulher
loira, cabelos curtos na altura do pescoço, diante de uma mesa arrumada para o
reveillon.
DCR: Nada não, mãe...É que às vezes a
Raíza...Me surpreende...
FUSÃO PARA
CENA 19 APTº 303 – QUARTO [INT.]
A cena entra num quarto mal iluminado.
Ouvimos o som de teclado sendo
digitado. O computador de costas esconde alguém.
É Rafaela que esboça um sorriso
contemplativo e a tela é mostrada; Nele, um vídeo em que mostra Raíza salvando
a vida de Camilo...
FUSÃO PARA
CENA 20 HOSPITAL – QUARTO [INT.]
Um médico examina o prontuário e olha
para a cama ao lado.
MÉDICO: Você teve sorte, amigo. Não é
qualquer um que se arrisca pra salvar um desconhecido...
O rosto do paciente é mostrado.
Camilo aparenta medo.
MÉDICO: Você poderia estar morto, rapaz.
O médico se afasta até a porta e logo
volta. Põe a mão no bolso do jaleco e tira um envelope branco.
MÉDICO: Já ia me esquecendo...Mandaram te
entregar...Quem sabe não é de alguém da sua família?
Camilo pega a carta, olha e não vê
remetente.
O médico sai e assim que fecha a
porta, Camilo abre o envelope cuidadosamente.
Puxa a carta e há apenas uma frase
digitada em letras maiúsculas:
‘HOJE VOCÊ
TEVE SORTE...’
Tocando: A kind of Christmas Card – Morten Harket
Camilo se espanta e dobra a carta.
FUSÃO PARA
CENA 21 APTº 403 – SALA - varanda [INT.]
Diante dos risos de alguns e a cara
amarrada de Marco e Valentina, está Raíza e o pai na janela.
Bruno tem em mãos um estojo aberto
com uma caneta prateada. Tem o seu nome.
RAÍZA: Então acertei no presente, ‘né’?
BRUNO: É simples e ao mesmo tempo muito
especial.
Os dois fazem silêncio. Ela olha para
trás e vê Josué admirando uma caneta junto de Cael.
RAÍZA: Acho que meu tio também gostou da
caneta...
Bruno sorri e nota Cael olhando para
o lado dela.
Ela olha para o lado e a luz da
explosão dos fogos de artifício ilumina seu rosto.
SALA...
Josué mexe a caneta e sorri meio sem
graça para Cael. Observa que ele não presta atenção nele e sim, do outro lado.
JOSUÉ: Espero que este não esteja sendo o
pior último dia do ano pra você...
Cael vira para ele e sorri mais sem
graça que Josué.
CAEL: Pelo contrário. É o melhor dos
últimos anos. (Ele faz uma expressão de pesar) A última vez que passei com
tanta gente assim foi com meus pais...E tem muito tempo já.
JOSUÉ: Eles não moram aqui no Brasil, não?
CAEL: Não. Eles moram nos Estados Unidos.
JOSUÉ: Ah...Perguntei por causa do sotaque
do seu irmão.
CAEL (sorrindo): Ele nunca conseguiu
perder esse sotaque nesses oito anos que está no Brasil. Talvez por que ele
nunca quis vir pra cá, quem sabe.
JOSUÉ: Deve ser muito difícil para alguém
se acostumar num país diferente. Ele tem cara de quem adora um país de primeiro
mundo.
Os dois riem.
CAEL: Na verdade ele nasceu na Alemanha
assim como (ele aproxima o rosto e fala baixo) meu pai. Marco não gosta muito
que eu chame o pai dele assim...
Josué se mostra surpreso.
JOSUÉ: São meio irmãos? Isso explica o
porquê de você ser mais sociável que ele.
Eles riem alto e os outros observam.
VARANDA...
RAÍZA (olhando para o tio): Parece que o
Josué tá se dando bem com ele, né?
BRUNO: Tanto quanto você gostaria?
RAÍZA: Hã?
BRUNO: Ahn...O Josué sempre gostou de
receber bem as pessoas...
Raíza vira o rosto para o lado dos
fogos, inquieta-se.
RAÍZA: Pai...(pausa)...Eu sabia o que ia
acontecer com aquele cara...O Camilo...Eu vi tudo...Eu...(pausa)...Vivenciei.
BRUNO: Mas de novo, filha?...(pausa, olhar
preocupado) Você tem certeza que não...
RAÍZA: Não, não foi um sonho!...Mas por
incrível que pareça não foi isso que me chamou atenção. (ela murmura) Eu toquei
no fogo e não sofri nada.
BRUNO: Como assim ‘nada’?
RAÍZA: Nada! Quero dizer...Só senti
calor...Mas me queimar...Não me queimei. O que tá acontecendo, pai? Será que eu
tô com alguma doença?
BRUNO (tom de dúvida): Se for é uma doença
que te faz salvar vidas...
Os dois fazem uma longa pausa. Raíza
olha para o céu e torna a olhar pro pai.
RAÍZA: Pai, se o senhor salvasse a vida de
alguém, mas esse alguém não fosse uma boa pessoa? O que faria?
BRUNO: Salvar a vida de alguém é uma
benção, filha. Não há razão no mundo que justifique deixar que alguém morra.
RAÍZA: Nem mesmo a própria vida?
Josué, com um copo de vinho, se
aproxima sorrateiro.
JOSUÉ: Aí depende da pessoa ‘né’?
Eles riem.
SALA...
Marco, sentado e com o copo na mão,
está com ar de curioso e atento para algo que João diz.
MARCO: Quer dizer que a Raíza salvou o
Camilo?
JOÃO: E não é? Eu não entendo como da
noite pro dia ela passou a dar uma de Clark kent, salvando gente desconhecida.
VALENTINA: Ela não era assim?
JOÃO: Não que eu saiba.
MARCO: Todos agora a vêem como a boa
samaritana. Deve estar no sangue essa vontade de ajudar o próximo, não?
JOÃO: É verdade. Meu tio Josué ajuda os
alunos a não serem burros e o outro ajuda a construir um bom lugar garantindo
segurança aos moradores.
Valentina ri, mas Marco não acha
graça. Sorri para não deixar transparecer seu descontentamento e se levanta.
MARCO: Com licença.
Marco põe o copo sobre a mesa, chega
na varanda com um sorriso cínico e olhar imponente.
MARCO: Parabéns Bruno; O jantar estava
maravilhoso.
RAÍZA: Ele é um ótimo cozinheiro.
BRUNO (sorri envergonhado): Que isso,
filha; Eu só faço o que posso.
MARCO (falsa simpatia): Como sua
filha...Ela sempre faz o que pode, não é?
Marco e Raíza se encaram rapidamente,
de novo.
CAEL (com o copo na mão, mira na garota):
Ele deve estar se referindo ao feito dela de hoje. (ele deixa escapar um tímido
sorriso) Foi um grande dia. Aliás, (ele se volta para a direção da namorada e
do João) Vamos fazer um brinde! Já está quase na hora.
Todos se reúnem na varanda. Marco
pega seu copo sobre a mesa e junto aos demais ergue o copo.
BRUNO: Além de saúde, paz e dinheiro
(ouve-se risos) Alguém quer fazer algum pedido especial pra esse ano?
Do silêncio que se faz resta o som
dos fogos de artifício.
CAEL (sorri feliz): Que seja melhor do
que esse que se vai.
MARCO: E você, Raíza? Não vai desejar
continuar salvando vidas com seus super poderes? (sorriso sarcástico).
A garota engole a saliva e os dois se
fitam por alguns segundos. Valentina disfarça um sorriso.
RAÍZA (sorri disfarçando o desconforto):
Espero não ter que usá-los...
O silêncio é geral. Marco faz aquela
cara de quem não entendeu.
RAÍZA (cont.): ...Meus super poderes!
Os outros riem e Valentina ri de
deboche para Marco.
CAEL: Identidade secreta descoberta no
último minuto!
Marco força o riso enquanto os outros
riem com vontade e erguem as taças para brindarem. As taças tilintam ao mesmo
tempo em que se ouve o som dos fogos que explodem a todo vapor.
A cena vai se afastando enquanto
Marco e Raíza se fitam por instantes. Ela, sorrindo, vira-se para o lado de
Cael.
Vistos de longe, a cena sobe e
explosões dos fogos iluminam o céu.
FADE OUT
Participação Especial:
Camilo (Sérgio Marone)
Trilha Sonora:
A kind of Christmas Card – Morten Harket

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