
Sinopse: Um homem começa a escutar vozes, sendo descreditado por sua comunidade, mas e se o que elas têm a dizer é realmente importante?
3x04 - Se Essas Ruas Falassem (Season Finale)
de Luiz Felipe
E lá estava eu, perambulando pelas ruas dessa cidade que tanto atrai quem a conhece e tanto enxota quem a visita. Eu amo esse interior, os campos verdes e férteis dos nossos municípios paulistas nunca serão superados, trazem junto uma paz abundante, mas naquela noite foi diferente. Andava acuado feito um cachorro que acabara de ser chutado, meu pescoço já doía por procurar o que não existia. Era como uma caça noturna entre o mato dançante e as sombras que a lua fazia nas casas. Eu ouvi…
“Manoel… sabe o que fazer…” seria loucura ou uma peça pregada por crianças? Nenhuma criança sairia no meio da noite, sem luminárias ou velas, onde a penumbra atacava o mais corajoso. Quem sussurrava, então? “O inferno está vindo… e eles merecem ir para lá”. Fazer o sinal da cruz não aliviava o clima macabro, afastava os meus pensamentos ao entrar em casa. Na cama, Emília sonhava imóvel, talvez sonhos para o futuro do casal, com plantações fartas e filhos, mas eu não, naquela noite iria para a cama com cansaço e raiva. Talvez devessem todos ir para o inferno mesmo…
“Lembre-se, Manoel: trabalho duro leva ao céu”. Não era prazeroso escutar tal frase novamente, especialmente um dia após sua inauguração, porém o padre era insistente. Nem perguntou sobre minhas olheiras, apenas sorriu e foi logo ao encontro dos fiéis, às portas da igreja. Claro que Emília seguiu-o, as palavras de sabedoria do homem acalmavam corações. Seria eu tolo de falar sobre sussurros que me incomodavam? Aquele homem era tão inteligente, uma luz na nossa cidadezinha, rodeado por insetos admirados, não iria me atender, apenas desfrutar da festa que minhas mãos prepararam.
Seu Zé ajudou também. Lembro que veio falar comigo sobre como estava tudo bonito. Sua esposa reclamou, disse para não gastar tanto na decoração das pinturas de Páscoa, porém, nas palavras dele, oraram muito e Deus mostrou sua razão. Não sabia que preces longas deixavam o sujeito com bafo de cachaça, nem que o olho da mulher ganhava um tom mais roxo ao invés dos joelhos. Segui para a mesa do banquete, e nem lá achei prazer. Foi dor o que Dionísio me trouxe, disse que as pobres crianças do orfanato estavam fazendo serviços para ele, colhendo e plantando, depois choravam por não aguentar a responsabilidade. No entanto, sua fama de bom samaritano só aumentava; desde que adquiriu cabelos brancos, os pequeninos têm sido seus alvos preferidos na filantropia.
Se houvesse um relógio divino, eu estaria atrasado. Não seria lembrado como doador de dinheiro, ou um chefe de orações caseiras. Estava mais para um espectro entre espíritos de luz, Manoel era como um ponto de referência para os moradores da cidade. Até mesmo esse nome me é desagradável.
Depois de três horas de conversação, a multidão já estava mais dispersa. Danças e música sacra animavam os remanescentes. Foi de mansinho, no canto escuro da igreja, onde havia um caminho servindo de acesso aos grandes celeiros da comunidade, que eu vi Emília se retirando com olhos inquietos. Queria evitar alguém ou pegar um caminho alternativo para casa, pensei. Tempo não me faltava para pensar. Eu fiz o mesmo da minha esposa, não causei saudades em ninguém ali presente, senti o medo queimar-me por dentro, como brasas ardentes.
Foi uma caminhada tranquila no início, se é que se pode dizer isso quando via corujas o observando como águias famintas. A sensação era de ser realmente uma presa, mas não delas, e sim de algo maior. Precisava de minha Emília para acalmar-me, do abraço caloroso da minha mulher amada. Os passos até o quarto não eram complicados, pois não havia móveis a enfeitar as paredes de argila. Segui na total ausência de luz até os nossos aposentos. Lá estava a silhueta feminina que tanto almejava, debaixo das cobertas. Me juntei como um faminto procurando comida.
Nossos corpos não se tocaram de imediato, queria deixá-la em paz, se recuperando da festança do nosso Senhor. Eu já não tinha forças para agradecer também, achava que meu esforço era suficiente, tinha um amor precioso em casa. Mesmo de costas, meus dedos se moveram para sentir aquela doce presença, ver se receberia resposta. Não me recordava da noite estar tão gelada lá fora, a pele de Emília denunciava que precisava das cobertas. Ela então gemeu duas vezes, finos e suaves, como uma garotinha, seguido do que parecia ser uma risada abafada. A sucessão de fatos me levou a imaginar que estava sonhando já, foram dias difíceis, e estávamos separados pela escuridão. Eu queria vê-la, saber se estava comigo ali. Nenhuma prece me prepararia para aquilo…
Olhos arregalados, tão brancos como a neve, sem expressão ou sentimentos me encaravam tão perto, e um sorriso, um sorriso maquiavélico transformado em uma risada genuína de prazer, foi o que me fez perceber que as trevas eram reais. Corri feito menino novamente, esbarrei no meu lar e parei junto ao meu coração, ele clamava tanto por misericórdia que precisou de longos minutos para se recuperar. Os que eu chamava de amigos ouviram minha história minutos depois, até que Emília regressou à festança. Nada, porém, fazia-os ter empatia pelo meu sofrimento. “É a falta de fé, homem, não deixa o diabo te abater não, para de andar por aí feito idiota e toma jeito.” Que jeito era esse? Minha alma pertencia a Jesus Cristo desde menino, fui devoto quando não cobrei por serviços prestados aos vizinhos, e quando recusei joias caras em troca de mentirinhas para livrar o coronel da polícia. Nem Emília queria saber dos medos do marido, era mais uma vergonha para alguém bem vestida e linda.
Nos dias seguintes, não vinha comida à mesa sem o sol se pôr junto. Como o diabo teme a cruz, eu andava religiosamente sob a luz. E diante do primeiro raio solar até sua última aparição, minhas mãos agarravam a foice e o garfo com brutalidade. A terra não obedecia com gentileza, então iria por mal. Precisava comer, eu, pobre Manoel. Não é sofrimento em que se alegre em Cristo quando se vira chacota da noite para o dia, e nem o gosto de carne assada para distrair a mente do sujeito. Não podia parar, não importava o quê.
Ela veio, veio para me perturbar. A mulher do vestido estava me observando há um tempo na fatídica sexta-feira, eu sentia meus pelos se arrepiando, no entanto não via exatamente o que espreitava na claridade. Ela se deixou ver então, me atraiu assim que a avistei, adentrando a pequena instalação de materiais da terra. Não era ladra coisa alguma, as roupas surrupiadas de um indigente ainda não mostravam que era uma louca qualquer, não sabia como, ela era inocente, em todos os sentidos. Fui em busca da alma perdida, mas nem corpo me apareceu. Chamei alto, o som ecoou no espaço coberto de feno e enxadas, porém ela não veio. Estava escondida.
“Filho… estou aqui… tire a mão…” era o sussurro, como das noites ventosas. Tão baixo e vivaz, me puxava para o fundo, junto à madeira esburacada. O chão farfalhou, a voz se tornou mais incontestável, eu vi a noiva, e lentamente o pescoço virou como uma coruja; nossos olhares se prenderam pela eternidade. “Quero o meu bebê…” tanta tristeza… “Quero o meu bebê!” tanta raiva. O corpo dela girou rápido como ventania, trazendo sua branquitude para cima de mim. Vi de perto que não tinha cor, os gritos estavam próximos de estourar meus tímpanos e as mãos já me apertavam. Eu corri o mais rápido que pude até a saída, não sem antes escutar: “Dionísio tem que morrer!”.
Os campos ficaram curtos ao meu passar, era uma questão de sobrevivência chegar até outros irmãos na fé. O inferno criou armadilhas para me pegar, e Dionísio devia ser o próximo. Cheguei na entrada das nossas ruas cruzadas, onde cabiam carros e charretes com folga, no entanto estavam vazios todos os cantos. Pensei em ir à feira, talvez esbarrar em minha amada e pedir-lhe para orar comigo, mas foi o andarilho quem me distraiu das coisas ruins. “Por quê essa cara, colega?” A voz calma e os pés descalços pertenciam a uma figura bem posada, foi de todo ouvido para a explicação. “Sabe que o Dionísio tá lá em casa, não é? Preparando as coisas pras crianças, vamos passar lá.” Algo naquele sorriso indicava uma vontade incomum de ver quem pouco se conhecia.
O misterioso homem contou que Dionísio havia há muito tempo entregado uma oferta a ele. Coisa básica, apenas carne e bebida pela generosidade do mesmo. Chegamos na parte mais bem cuidada, onde a polícia passava diariamente. Nosso visitante me conduziu logo pelos fundos, dizendo que ali seria apropriado entrar, era assunto de vida ou morte, e então me mostrou a janela do galpão da casa. “A última oferta, haha”. Eu me virei para o movimento interno, e testemunhei somente a maldade. Duas crianças, punidas por Dionísio com severidade, com palmadas e vara, tudo por conta de um trabalho mal feito. “Tem que ser todo dia assim para aprenderem?”. O choque foi grande, o estranho já não observava comigo. Precisava da intervenção do padre, aquilo era diabólico, no que se tornou nossa cidade?
Cada espinho do mato alto não machucou, iria até sem uma perna atrás do refúgio do padre. Lá, perto da capela inacabada, ele orava em silêncio, onde a cachoeira fazia companhia e lembrava-o da majestade de Deus. Precisaríamos mesmo ter mais comunhão com ele se quiséssemos paz entre todos. Eu não iria ter minha fé destruída por aparições, não, não, iria lutar… Os barulhos. Eram os mesmos gemidos da noite de Páscoa? Comecei a escutar tais sons, e fiquei com medo. Tão recluso, poderia estar me colocando em perigo. Era capaz dos planos do padre terem mudado. Fui como um coelho assustado cruzar a parede que se encontrava pela metade. O pó me cegou quando toquei nas pedras, era tudo sombreado demais para eu me assegurar em relação ao chão que pisava, e ainda assim consegui passar meia perna, focando agora no gemido. E isso somente para perceber que eu conhecia aquele tal: era Emília.
Não era insanidade, podiam ser duas massas de carne emboladas sob o altar, mas qualquer retardado distinguiria a própria esposa e seu líder religioso fazendo amor. Oh, Deus, misericórdia, estamos caindo no pecado, o que está acontecendo… só sei que caí de costas para fora. Eles aproveitavam seu frenesi de forma tão acalorada que me restou escutar até acabar. Depois de rirem e se beijarem, meu nome veio à tona. O padre perguntou se eu havia dado um jeito na própria vida, ao que minha Emília respondeu: “Se continuar como tá, eu e você fugimos”. Tentei chorar, porém as lágrimas não desceram, foram como pedras enganchadas em minhas têmporas.
Sentei em minha cama, fitando a tintura manchada à minha frente. Nem me incomodou mais ter a mulher branca como neve me encarando meio escondida no corredor, ou a massa escura no meu teto. Era tudo tão banal, eles não ofereciam perigo, o mal estava ao meu redor há muito tempo, me diminuindo disfarçadamente. E os sussurros voltaram, dizendo para livrar a cidade do pecado, não eram vozes desconhecidas orquestrando ações, era eu quem as desejava.
E quando a noite chegou, nenhum olhar julgador foi capaz de escapar da justiça. Quando Emília entrou pela porta, a primeira coisa que recebeu foi a lambida da faca, tão gostosa. Depois entrei pela janela de Dionísio e trouxe um fim ao miserável. Aproveitei e matei seu Zé também, por bater na esposa e mentir na cara dura. O padre fechou a conta, tão satisfatório que, mesmo sem tempo de comemorar, me deu alívio ver a dor nos seus olhos dilatando. A polícia chegou e me alvejou, mas já era tarde, o sofrimento tem que acabar uma hora. Quem disse que sofro agora? Posso dizer que sou livre, aparecendo quando sou necessário. Se nessas matas você entrar, tome cuidado com quem fornica. Dependendo do parceiro, talvez não saia vivo.
Conto escrito por
Luiz Felipe
CAL - Comissão de Autores Literários
Produção
Bruno OlsenCAL - Comissão de Autores Literários
Agnes Izumi Nagashima
Gisela Lopes Peçanha
Paulo Mendes Guerreiro Filho
Pedro Panhoca
Rossidê Rodrigues Machado
Telma Marya
Telma Marya
Produção
Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.
REALIZAÇÃO

Copyright © 2023 - WebTV
www.redewtv.com
Todos os direitos reservados
Proibida a cópia ou a reprodução





Comentários:
0 comentários: