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Laços de Amizade: Capítulo 20

Novela de Diogo de Castro
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LAÇOS DE AMIZADE - CAPÍTULO 20

| CENA 01 | Continuação do capítulo anterior. Noite. Bairro Santa Felícia. Casa de Carlos. Interior da sala principal. Carlos está com um maço de dinheiros nas mãos. Enquanto Luciano passa a mão no queixo, em dúvida.

CARLOS: E então? Tô esperando tua resposta.

LUCIANO: Eu não posso fazer isso. A Janaína já sofreu demais na sua mão. 

CARLOS: Eu só quero falar com ela.

LUCIANO: Falar o quê? Acha que alguma coisa que disser vai fazê-la voltar? Você só pode tá de brincadeira! Depois de tudo que...

Carlos o corta grosseiramente.

CARLOS: O dinheiro tá aqui há poucos centímetros da tua mão. A decisão é tua. E eu acho que eu sei qual vai ser.

Carlos o encara firme. Luciano devolve o olhar, pensa um pouco e aceita o dinheiro.

CARLOS: Garoto esperto!

| CENA 02 | Condomínio Almirante. Apartamento 210. Vindos do quarto, Suzana e Igor caminham até a porta. Ele está contrariado, e ainda está veste sua blusa regata azul.

IGOR: Qual é o seu problema? Vai ser sempre assim? Depois do amor, o dissabor?!

SUZANA: Vocês garotos de hoje são tão dramáticos. O que você sabe do amor?

IGOR: (desconfiado) Você não é casada não né? É a única explicação pra me expulsar da sua casa feito um bandido, toda vez que venho.

Suzana mostra-lhe a mão esquerda.

SUZANA: Está vendo aliança no meu dedo querido? Não. Logo, eu não sou casada. Agora, chispa.

Igor lembra-se de algo.

IGOR: Minha câmera! Esqueci no quarto.

SUZANA: Vai buscar, rápido.

Igor corre até o quarto e rapidamente retorna com a filmadora na mão direita.

SUZANA: Não se esqueça de me fazer uma cópia de nosso filminho. Adorei a brincadeira.

Suzana abre a porta. Do outro lado, Cláudio está em posição de tocar a campainha. Close no rosto dos três, um por vez, Suzana, Igor e Cláudio, ambos surpresos com a situação.

CLÁUDIO: O que esse cara tá fazendo aí?!

IGOR: A pergunta é: o que VOCÊ faz aqui?

SUZANA: Ah não! Vocês que são jovens, que se entendam. Boa noite, rapazes!

Suzana empurra Igor para fora de seu apartamento e se despede deles com um sorriso de leve e um tchauzinho cínico. Fecha a porta logo em seguida. Do lado de fora, Igor e Cláudio estão desconfiados.

CLÁUDIO: E essa câmera na tua mão?

IGOR: Ih qual foi cara! Desde quando eu te devo satisfações?

CLÁUDIO: (tentando deduzir algo) Você e a mãe do Celso... Vocês não tão...

Igor diz que sim com a cabeça e corta a fala de Cláudio.

IGOR: E pelo visto eu não sou o único né.

Igor entra no apartamento 209 batendo a porta na cara de Cláudio, que está frustrado.

| CENA 03 | MÚSICA: “Filosofia de bar – Jovelina e Seu Jorge”. Passagem de tempo. Fim de noite. Nasce um novo dia. Close na fachada do escritório de Darlan. Corta para o interior do local. Recepção. Uma mulher de terninho social escuro fala ao telefone, distraída. Fim da sonoplastia. Carlos adentra ao local sem cerimônia e se dirige até a mulher.

CARLOS: Eu quero falar com esse advogadozinho de porta de cadeia! Ele taí?!

SECRETÁRIA: O senhor marcou hora?

CARLOS: (grosso) Que mané hora!

Carlos ignora a secretária indo em direção a uma porta cuja plaquinha diz “Dr. Darlan Rezende”. Ele invade a sala de Darlan, que se assusta.

DARLAN: Mas o que significa isso?

SECRETÁRIA: Eu tentei impedir, senhor.

CARLOS: Eu vim te mandar ‘a real’ sobre a piranha da Janaína.

Darlan olha para a secretária, que se retira imediatamente.

DARLAN: (intrigado) Quem é você?

CARLOS: Não interessa quem eu sou. Eu só vim abrir teu olho granfino. A Janaína é não é quem tu pensa. (ele enfatiza) Ela é uma prostituta!

Close em Darlan, horrorizado com a revelação de Carlos.

DARLAN: Mas que absurdo é esse?! Quem você pensa que é pra entrar no meu escritório e difamar minha mulher desse jeito? Saia daqui imediatamente.

CARLOS: A tua mulher já se deitou com toda a macharada de São Paulo! Inclusive comigo. E eu tenho provas do que eu to falando, bacana.

Carlos oferece o envelope amarelo com as fotos à Darlan, que hesita por um instante.

CARLOS: Vai preferir ser corno sem saber meu chapa?!

Darlan arranca o envelope das mãos de Carlos e o abre imediatamente. As fotos mostram Janaína com um cliente, em momentos de intimidade. Close em Darlan, sua expressão é indecifrável. Uma lágrima escorre pelo seu rosto.

CARLOS: Eu já dei meu recado. Agora tu é que sabe se vai querer dormir com uma mulher que já passou pela mão da cidade toda.

Carlos dá um sorriso debochado, e sai, batendo a porta. Darlan senta na cadeira, limpa as lágrimas do rosto e soca sua mesa de vidro.

| CENA 04 | Condomínio Almirante. Apartamento 209. Interior do quarto de Igor. Ele está vestido com o uniforme da escola, sentado na frente do computador. Jaqueline entra no local.

JAQUELINE: (debochada) Pornografia a essa hora da manhã Igor? Tá realmente complicado pra você hein, meu filho.

Ele fala com a atenção voltada para o computador.

IGOR: Eu não iria te chamar pra ver pornografia comigo né maninha. Se bem que o que tenho pra te mostrar não é recomendado para menores de 17. Mas, como eu prometi que ia te provar. Eis a prova.

Igor clica duas vezes em um arquivo na área de trabalho do PC, que se abre imediatamente. É um vídeo onde aparecem ele e Suzana, na noite anterior, no momento em que ele chega a sua casa.

JAQUELINE: (incrédula) Fala sério...

IGOR: Vai dizer que é montagem agora?!

Close na tela do computador. Suzana e Igor se beijam, ela tira a blusa do rapaz. Jaqueline não acredita no que vê.

JAQUELINE: Meu Deus... Que vaca!

Igor fecha a janela do vídeo.

IGOR: Chega. Como eu disse, o conteúdo é impróprio para menores.

Ele ri debochado. Jaqueline bufa de raiva.

JAQUELINE: Inacreditável. Imagina quando o Celso souber disso...

IGOR: E tem mais maninha, ao que parece, ela também anda de ‘lancinho’ com o Cláudio, que se diz melhor amigo do Celso. Imagina se eles fossem inimigos hein. Abre o olho garota.

JAQUELINE: Vocês homens não prestam mesmo.

IGOR: (incrédulo) Quê?! Garota, sua sogrinha é quem fica tentando caras mais novos, beleza?! E ‘vamo’ combinar que ela tá com tudo em cima. Que cara negaria fogo?! Se tem alguém aqui que não presta, bom, não sou eu. ‘Bora’ pra aula antes que a mãe comece a nos expulsar.

Igor desliga o monitor do PC e pega sua mochila em cima da cama. Jaqueline continua chocada.

| CENA 05 | Universidade Campelo Costa. A movimentação está intensa nos corredores do andar de cima do campus. Luciano e Fabiana estão conversando, tensos, encostados nas grades de proteção. De onde o casal está é possível ver a movimentação no pátio principal do campus, no andar de baixo, onde estão vários alunos.

LUCIANO: Eu já tenho o dinheiro.

FABIANA: Eu ainda não me decidi.

Bravo, ele segura com força no braço dela.

LUCIANO: Como não?! Já está tudo certo. Não tem volta, Fabiana. Você vai tirar essa criança, por bem ou por mal.

FABIANA: Me solta. Que estupidez é essa agora? Quê que tá acontecendo com você?!

Fabiana se solta, e sai quase chorando. Luciano passa mão pelo cabelo, preocupado.

Close em Bruna e Marcelo, que lá do andar de baixo assistiram a cena.

BRUNA: Tá acontecendo alguma coisa entre eles.

MARCELO: Mas a Fabiana não te falou?

BRUNA: Sim, mas acho que não falou tudo. Tem mais coisa aí. Os dois andam muito desconfiados. Você viu como o Luciano foi agressivo com ela?

MARCELO: Sim, exagerado até. Vou ver se arranco alguma coisa dele depois.

BRUNA: E eu dela. Vamos, a aula já vai começar.

| CENA 06 | Escritório de Darlan. Interior. Desolado, ele está sentado em sua cadeira, pensativo. Lágrimas escorrem pelos seus olhos. As fotos espalhadas pela mesa de vidro, assim como outros objetos que compõem sua escrivaninha. Alguém bate na porta. Lentamente, a secretária abre-a, mas permanece atrás dela. Darlan se faz de forte, e enxuga as lágrimas, discretamente.

SECRETÁRIA: Dr. Darlan... Está tudo bem? Aquele seu cliente está aí fora, posso mandá-lo entrar?

DARLAN: Eu não quero falar com ninguém.

SECRETÁRIA: Mas ele disse que é importante.

DARLAN: Eu não vou receber mais ninguém por hoje. Estou indo pra casa.

SECRETÁRIA: Tudo bem, senhor.

A secretária fecha a porta. O semblante de Darlan é sério.

| CENA 07 | Bela Vista. Mansão Rezende. Interior. Sala de estar. Janaína está entediada, sentada no sofá, zapeando os canais da TV. A empregada surge no local.

EMPREGADA: A senhora deseja alguma coisa dona Janaína?

JANAÍNA: Um serviço qualquer que me distraia. Você tem algum na cozinha pra me oferecer, Zuleide?

ZULEIDE: Não senhora. O doutor Darlan me mata se souber que pus a senhora pra fazer meus serviços domésticos.

JANAÍNA: Essa vida de ‘madame’ não é pra mim, Zuleide. Mas respondendo a sua pergunta, não preciso de nada não. Preocupe-se com o almoço, pra quando o Darlan chegar.

A empregada se retira. Janaína volta a se distrair com a TV. Alguém entra grosseiramente pela porta, assustando Janaína. Ao perceber a presença de Darlan, ela vai animada em direção em sua direção.

JANAÍNA: Meu amor, que bom que veio mais cedo.

Antes que Janaína lhe envolvesse em um abraço, Darlan dispara sua mão no rosto dela, que vira o rosto com a força da pancada.

DARLAN: (bravo) Sai da minha casa.

Close em Janaína, apavorada com a reação do namorado.

| CENA 08 | Universidade Campelo Costa. Intervalo das aulas. No pátio central que dá acesso a saída do campus, muitos estudantes circulam e ocupam o local, aos poucos. Close em Luciano e Cláudio, sentados em um banco. Cláudio fala empolgado de algum assunto. Luciano está com pensamento distante.

CLÁUDIO: Qual foi Luciano?! Eu to te falando do meu dilema amoroso com uma coroa mais velha, e tu tai no mundo da lua cara. Quê que tá pegando?

LUCIANO: Nada não cara. Umas paradas aí que tenho que resolver. Mas fala aí, que história cabeluda é essa?

CLÁUDIO: Tô te falando! E o pior ainda não contei, a coroa é a mãe do Celso.

LUCIANO: (surpreso) Como é que é?

CLÁUDIO: Desde o dia em que a conheci no hospital, ela não parou de investir em mim cara. Eu sei que pegar mãe de amigo é inaceitável, mas na boa, não tem quem resista àquela maravilha de mulher. Eu duvido que tu resistiria.

LUCIANO: Você tem noção do que tá fazendo cara? O Celso é nosso amigo. Ele nunca vai te perdoar por isso. Logo você!

CLÁUDIO: Eu sei, eu sei. Já vacilei tanto com ele. Minha consciência tá pesada. O Celso não merece a mãe gostosa e desnaturada que tem. Eu me sinto mal por isso, mas ela é um pedaço de mau caminho Luciano. Tu sabe, a carne é muito fraca. E pra piorar... Acho que ela tá pegando o ‘zé mané’ do Igor também.

LUCIANO: O quê? Mas que tipo de mulher é essa Suzana?

CLÁUDIO: Do tipo que curte caras mais novos ué.

LUCIANO: Cara, na boa. Se você realmente dá valor a uma amizade na vida, sai fora enquanto é tempo. Escuta o que to te falando. Isso não se faz.

Luciano sai em direção à lanchonete, deixando Cláudio pensativo.

CORTA PARA, lanchonete do campus. Marcelo está sozinho, sentado a uma mesa, tomando suco. Luciano senta-se numa cadeira vazia na mesma mesa.

LUCIANO: Cadê a Bruna?

MARCELO: Deve estar com a Fabi. Queria mesmo falar contigo.

LUCIANO: Sobre?

MARCELO: Você e a Fabiana. Quê que tá rolando?

LUCIANO: (grosso) Não é da sua conta.

MARCELO: Não precisa atirar pedras, Luciano. Sou teu amigo cara. Só quero te ajudar.

LUCIANO: (nervoso) Ajudar? Ninguém pode me ajudar agora, Marcelo. Ninguém!

Luciano deixa Marcelo falando sozinho.

MARCELO: Quê que deu nele?!

| CENA 09 | Universidade Campelo Costa. Em algum local do campus. O ambiente parece um jardim, poucas pessoas transitam por ali. Fabiana está sentada na grama verde, encostada em uma árvore grande. Bruna avista a amiga e demonstra uma expressão de “até que enfim de encontrei”. Ela caminha até Fabiana.

BRUNA: Oi. Posso me sentar?!

Fabiana dispara a fala.

FABIANA: (desequilibrada) Por que tem que ser assim Bruna? Por que isso tinha que acontecer? Eu não sei o que fazer. Eu não quero me arrepender depois. Eu to desesperada...

BRUNA: Calma amiga. Me fala o que está acontecendo? Eu quero te ajudar.

FABIANA: Eu...

BRUNA: Você...?

Fabiana desconversa.

FABIANA: Eu e o Luciano. A gente tá brigando demais...

BRUNA: Você tem certeza que é só isso Fabi?

FABIANA: Claro Bruna. O Luciano não é o mesmo de antes. Eu to confusa, com medo, sei saber o que fazer...

Bruna está desconfiada.

BRUNA: Você sabe que pode contar comigo pra tudo né? Tudo MESMO.

Fabiana olha para Bruna, mas desvia rapidamente o olhar, assentindo com a cabeça.

| CENA 10 | Bela Vista. Mansão dos Rezende. Interior da sala principal. Janaína aparentemente recomposta do tapa que levara está horrorizada com a atitude inesperada de Darlan, que por sua vez, permanece frio como uma pedra de gelo.

DARLAN: Até quando você pretendia esconder de mim suas sujeiras?!

JANAÍNA: (chocada) Do que você tá falando?

DARLAN: (grita) Eu estou falando disso!

Ele joga o envelope em cima da mesinha de centro. Janaína o observa, receosa, mas o abre. Ao ver o conteúdo das fotos, seu semblante amedrontado se transforma em tristeza. Ela geme a fala.

JANAÍNA: Eu... Eu ia te contar.

DARLAN: (agressivo/grita) Quando? Hein Janaína?! Quando você ia me contar? Quando a imprensa inteira descobrisse e deixasse o país todo a par do tipo de mulher com qual eu estou me relacionando? Uma prostituta!

JANAÍNA: (grita) Não fala assim comigo! (normal) Eu ia te contar...

Janaína tenta se aproximar dele.

DARLAN: Não chega perto de mim.

JANAÍNA: Eu tive medo Darlan. Tive medo da sua reação.

DARLAN: E com toda razão. Como você acha que eu reagiria ao saber que a mulher a quem eu dei tudo, por quem eu me apaixonei perdidamente... Já passou pelas mãos de sabe Deus quantos homens!

JANAÍNA: Me perdoa... Eu sei que errei ao esconder isso de você. Mas o que eu sinto por você é verdadeiro. Eu te amo de verdade. E nunca vou amar outro homem com tanta intensidade.

DARLAN: Você devia ter me contado antes.

JANAÍNA: Eu não tive escolha. Você não sabe o que eu passei quando cheguei a São Paulo...

DARLAN: Nem quero saber. E nada do que você disser será suficiente ‘pra’ me convencer. Nada justifica você vender seu corpo por dinheiro. Pior. Nada justifica você enganar um homem que fez tudo por você... TUDO!... Eu te amava Janaína...

Ela tenta novamente se aproximar dele.

JANAÍNA: (nervosa) Meu amor, escuta... Olha nos meus olhos. Eu sei que errei em não contar desde o início, mas eu sou um ser humano como outro qualquer, tenho defeitos. A vida não foi generosa comigo, meu amor... Vamos esquecer isso, vamos recomeçar. Por favor.

DARLAN: Com certeza vou esquecer. Assim como um dia esquecerei que você passou pela minha vida. E francamente Janaína, você acha que um advogado de prestígio nacional como eu vou ter minha imagem associada a alguém como você?

JANAÍNA: O que você quer dizer com isso?

DARLAN: Eu quero dizer que acabou. Vou sair, e quando voltar, não quero te encontrar por aqui. Quero você fora da minha casa, o quanto antes.

Darlan se retira friamente dali. Close em Janaína, arrasada e com um mar de lágrimas no olhar.


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