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As Aventuras de Ed Ronaldo (O Detetive Soberbo): Capítulo 08

Minissérie de Max Rocha
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AS AVENTURAS DE ED RONALDO (O DETETIVE SOBERBO) - CAPÍTULO 08




O LABORATÓRIO QUÍMICO (o caso da sessão de hipnose)


“O mistério da existência humana não está apenas em permanecer vivo, mas em encontrar algo pelo qual viver.”
Fiódor Dostoiévski

   



Imagem de havos123 por Pixabay

 

Ed Ronaldo não estava num bom dia. Quando acordava sem sua habitual fome de leão, e não corria a devorar a enorme porção matinal de farinha láctea, algo só poderia estar errado. Nem sequer chegou a praticar a sessão matinal de alongamentos, aprendida no YouTube: “Como aquecer seus músculos e ativar seu privilegiado cérebro”, em 6 aulas de 15 min. Ao contrário, sentia-se desmotivado, estado de espírito habitual, quando passava mais de 2 semanas sem um bom caso a estimular seu instinto detetivesco. Sua bike andava ociosa...

Virou-se preguiçosamente, e conferiu seu Samsung Galaxy S21 PLUS, presente de sua amada Diana Helena, a biomédica de BH, a qual comiserou-se com a situação de penúria de nosso protagonista: 

— Diana, não posso continuar com este Samsung A7 2017. A plenitude de minhas capacidades cognitivas exige um equipamento de apoio condizente à época atual.

— Mas Ed, não posso sempre financiar seus gastos. Você precisa de um emprego, pois não quer mais estudar. Assim não...

— Já lhe disse Diana! A escola tradicional nada mais tem a me ensinar. Vocês humanos comuns não percebem, mas a vida está acima dessas frivolidades.

— Ok Ed. Mas nossa última conversa ainda está de pé! Ou procura um psicólogo, ou nosso amor não tem futuro! 

Uma semana havia se passado, desde o último encontro de Ed Ronaldo com Diana, quando a ruivinha, numa folga de seus plantões, veio visitar seu excêntrico namorado em Pedra do Monte, município histórico mineiro.

O Samsung Galaxy S21 PLUS tilintou, e Ed Ronaldo se exasperou — 09h27min — mensagem de Diana: Dra. Bertinelli, 15h10min; NÃO SE ATRASE!

O cãozinho fox terrier Bilau, vizinho de nosso detetive ocioso, apareceu correndo e latindo. Conhecia o som do smartphone, e sempre descia a rua íngreme até a praça central, acompanhando seu amigo até o ônibus para BH. Mas desta vez, Ed estava soturno. 

— “Estas questões sentimentais estão afetando minha soberba capacidade dedutiva...” — pensou, já no ônibus, ao retirar de sua inseparável mochila Wilson, o pocket book do mês; pelo menos teria 1h e 50 min para a leitura voraz, até chegar à capital. 

— Senhor Ederson Ronaldo, 23 anos, ensino fundamental incompleto, solteiro, reside em casa dos pais, curso de detetive particular pelo YouTube... hummmm — vejo aqui sua ficha. Como poderia ajudá-lo?

— Dra. Bertinelli, na verdade estou aqui para ajudar minha namorada, coitada... sempre tão insegura!

— Bem, seu questionário sobre interesses valoriza muito as mentes investigativas, estou vendo aqui.

— Pois é doutora, algumas pessoas nascem com habilidades especiais.

— O que parece ser o seu caso, certo?

— Bom, devemos ser honestos. Não posso negar minhas aptidões.

— E você acha... estas... hã... habilidades... interferem no seu relacionamento afetivo?

— Para ser franco, Diana me aborrece com sua falta de visão de mundo. Sempre pensando em trabalho, renda, futuro. Não tenho tempo para essas miudezas.

— Como o Sr. gasta seu tempo, Sr. Ederson?

— Doutora, não se ofenda. Mas como me é de praxe, pesquisei longamente sobre seu trabalho com hipnose. Foi o motivo maior de estar aqui. Concedi até mesmo a Diana a oportunidade de pagar a consulta, pois pretendo aprender um pouco mais sobre esta técnica, e utilizá-la em minhas investigações. 

— Então, passemos à primeira sessão. Deixe sua mochila aí no criado ao lado. Olhe em direção ao relógio de pêndulo, à frente de seu divã. Quando contar 48 movimentos completos à esquerda, você adormecerá, e nos levará aos recônditos de sua mente.

— Estou contando doutora, mas sinto dizer: vai precisar de muito mais, até interromper a convulsiva... atividade... de... minhas... células... cél... cinzentas... cinz... cin... 

— Doutora Bertinelli, aqui está frio! Poderia desligar o ar condicionado... mas, o quê? 

Ed sentiu o corpo umedecido, e se viu deitado a um piso frio e ladrilhado. De uma grande mesa de carvalho, vidrarias com líquidos coloridos e fervilhantes exalavam odores de fumaça química, atiçando suas narinas. 

— Que diabos! Onde estou?

— 15h38min. Meu relógio espião russo nunca falha — Ed sempre recorria ao seu velho amigo de aventuras, em momentos de incerteza.

— Meu Samsung Galaxy S21 PLUS... sumiu! 

Olhou em volta, e divisou inúmeras estantes de madeira, repletas de compêndios, os quais pareciam tratados de química e medicina, dispostas em locais variados do grande cômodo. Tubulações antigas de ferro desciam por sob a mesa central. A atmosfera do lugar era sinistra, mal iluminada por... lampiões?? Ed Ronaldo demonstrava sinais de inquietude: — um laboratório, e parece de outra época... vitoriana talvez? — Observou o atento detetive amador. Pensou em sentir dúvida, mas logo se lembrou das técnicas investigativas, aprendidas no YouTube. Acalmou-se. Tateou seu bolso esquerdo, e lá estava sua lanterna Led alemã Lenser, com bateria para até 18 h. Levantou-se, e começou a explorar o grande salão, totalmente seguro de seus passos, graças ao tênis antiderrapante Reebok Zig Kinetica que calçava, mais uma contribuição da piedosa Diana Helena. 

— Meu gravador espião biônico Bird Watcher! Tenho aqui 18 h de gravação contínua; nada vai me escapar — aliviou-se ao palpar seu bolso direito. 

Foi quando uma voz cavernosa se insinuou, no que parecia ser um antigo gramofone americano Victor — Ed possuía também conhecimentos estereofônicos, sempre autodidata, desde tenra idade. 

— Ed. Ederson Ronaldo! Este é o seu nome correto, confere?

— Mas..., quem fala? Juro já conhecer este tom de voz. Identifique-se!

— Não se lembra de mim Ed? Estou com você desde sua adolescência, dentro de seu baú de imbuia, no criado ao lado de sua cama, ou mesmo em sua mochila, nas viagens de ônibus.

— Jekyll? Dr. Jekyll?

— Jekyll é apenas um disfarce Ed. Estou acima dele. Sou o propósito de uma vida...

— Mr... Mr. Hyde? É mesmo você?

— A seu dispor, meu jovem. 

Ed Ronaldo quase não acreditou, ao apontar sua lanterna alemã para uma pesada porta lateral, para a qual seus aguçados instintos indicavam. Uma sombra enegrecida, esvoaçante, efeito visual da mistura da luz artificial de sua lanterna com a bruxuleante iluminação por candeeiros, contornava um indivíduo pequeno, curvado, de postura incrivelmente ignóbil, sua face entremeada por espasmos asquerosos. Um par de olhos encovados o fitavam, de forma desafiadora. Não fosse sua admirável capacidade adaptativa, nosso jovem investigador teria sofrido um colapso ansioso. 

— Tá certo Hyde... muito reconheço sua influência sobre minha formação literária... mas, sei que você não é real!

— Meu caro Ed Ronaldo, tenho acompanhado suas primeiras missões... seu talento é ímpar — a voz era de uma sonoridade medonha.

— Bem Dr. Jekyll... ou seria o monstro? — Isto tudo é fruto da hipnose, efetivada pela Dra. Bertinelli...

— Ainda não conheço esta jovem. Doutora? Mulher? Ainda há de sentir minha ira! Como se atreve a desempenhar funções masculinas? — A voz trêmula exprimia revolta e incompreensão.

— Aaahh... agora entendo! Fui transportado para o pocket book do mês: “O Médico e o Monstro”; tá aqui na minha... uai! Cadê minha mochila?

— Bem Ed, não tenho muito tempo para divagações. Minha vida é uma dualidade insana. Não a recomendo para ninguém. Na verdade, preciso de sua ajuda — a voz suavizou-se.

— O renomado médico, precisando de ajuda? Compreendo o fato de minha contribuição ser inestimável a quem precisar... mas suas capacidades estão em outro patamar... obviamente ainda o alcançarei, porém...

— Não se subestime Ed. Este erro... pode custar sua vida!

— Ok, Sr. Bifurcado... modéstia à parte, reconheço ser capaz de ajudá-lo. Qual o seu problema?

— Estou tomado por um grande dilema. Como está descrito nesta história em seu poder, divido minha vida entre a essência do bem e do mal. O bem é correto, e também tão seguro, quanto monótono. Me permite uma vida social, e a companhia de mulheres, já que sou bem apessoado. O mal porém, é criminoso, excitante e perigoso; e vem acompanhado de um aspecto odioso, tornando-me solitário. Não sei por qual optar em definitivo, mas sinto que o lado negro está vencendo, me consumindo... logo, logo, sinto que não o poderei controlar! 

Ed imediatamente se pôs a pensar em Diana Helena: “teria ele o mesmo fim?” 

— Tenho dúvidas! O que você faria em meu lugar? Devo renunciar a um lado ou outro? Tenho direito à felicidade? Ou devo seguir meus instintos sórdidos?

— Quem está perguntando? É você Jekill? — Sua excepcional intuição percebeu a mudança, para um tom de voz mais intimista.

— Como já disse, ele é fraco Ed! Já decidi por ele, mas insistiu em lhe trazer aqui — retrucou novamente a voz autoritária de Hyde.

— Senhores, por favor, deixemos de lado as discussões — Ed sempre lia sobre múltiplas personalidades; era sabedor do fato de muitos mistérios se esconderem sob esses comportamentos.

— Me responda Ed. O que você faria? — Novamente a voz insegura... 

O famoso personagem do século XIX tinha sua faceta de fragilidade, afinal. E a revelara sem disfarces, para o promissor aspirante a investigador do interior de Minas. Ed Ronaldo, extremamente hábil em analisar fatos aparentemente desconexos, pôs-se a exercer seu maior talento, o dedutivo: 

— “Isto não é por acaso. Amo Diana e ela a mim. Mas temos vidas muito diferentes. Ela me cobra uma guinada radical, rumo a uma vida monótona e pasteurizada. Por outro lado, não posso desperdiçar meus talentos, com situações banais do cotidiano. A Dra. Bertinelli me jogou numa encruzilhada... mas... como ela sabia? Como saio dessa?” — as pupilas dilatadas, e o frenesi dos movimentos oculares involuntários denunciavam o intenso escrutínio psíquico. 

— Senhor Ed Ronaldo, não tenho o dia todo! — a voz cavernosa interrompeu o transe... 

Ed Ronaldo sempre admirou quem colocava a inteligência em primeiro lugar. Cabeça acima da massa bruta. Para ele, a verdadeira força residia no uso adequado das conexões neuronais, frequentemente deixadas de lado, na profusão de coisas estúpidas com as quais as pessoas costumavam perder seu tempo, no dia-a-dia. Não lhe passava despercebido estar diante de uma das mentes mais brilhantes que já tivera conhecimento, quase a rivalizar com a sua própria. E por isso mesmo, pesou bem suas palavras. Ainda que fictício, o binômio Jekill e Hyde, sempre servira de inspiração e espanto para leitores espalhados por todos os cantos do globo. Sua responsabilidade era enorme. 

— Escutem vocês dois: ainda sou jovem. Minha experiência vêm do conhecimento acumulado de farta leitura, arma tão esquecida pelas novas gerações. Tenho algo a dizer — Ed Ronaldo navegava bem pelos mares da Filosofia — Dr. Jekill, seu comportamento é ético, o que o faz acreditar na premissa de suas atitudes sempre resultarem nas melhores consequências para todos. A figura sob o arco da grande porta imediatamente assumiu uma posição nobre e ereta, assentindo com a cabeça.

— Mr. Hyde, sua angústia vem do fato de suas ideias estarem mais próximas das razões morais hedonistas; ou seja, se preocupa mais com o prazer imediato, ainda que isso, no seu caso de personalidade monstruosa, resulte em provocar sofrimento alheio — a sombra humana converteu-se a uma posição simiesca, deplorável.

— Em resumo, vocês dois se digladiam, mas não percebem: um não existe sem o outro! Antes de agir, devemos sim pensar, de forma a que o resultado final seja o melhor possível, ou até mesmo venha a resultar no menor prejuízo tolerável, se não houver outra opção. A razão da existência de um só de vocês, se fundamenta nisso. Vocês ambos se completam. Não há razão para conflito. As teorias filosóficas não são excludentes, e sim complementares. Os limites para atuação de cada lado, advém da coexistência.

— Mas, mas... — as diferentes vozes se misturavam.

— Concluindo então: — Ed levantou o sobrolho direito, indicando insatisfação por ser interrompido — parem com essa história de definir o objetivo um do outro: vocês dois são um só! Não cabe a vocês optarem pela vida social, ou marginal. “Somos o que podemos ser”. Não uma caricatura do que deveríamos ser. 

Um silêncio entrecortado quando em vez, pelo borbulhar fumegante dos compostos químicos envasilhados, perdurou por um minuto ou mais. Até que uma única voz potente e segura de si, ecoou pelo gramofone Victor: 

— Obrigado Ed Ronaldo — a voz, agora uníssona, primava pela firmeza — tinha conhecimento de seu potencial, mas confesso estar estupefato. Não esperava tanto. Ficará na lembrança aqui em Londres. Pode voltar ao seu mundo... em 48 movimentos... o pêndulo... iniciando agora... 

— Sr. Ederson, pode acordar. Agora, no estalar de meus dedos!

— Onde? Como? — Instintivamente, como sempre o fazia, Ed mirou seu relógio espião russo: 16h12min; Dra. Bertinelli? Preciso urgentemente melhor dominar esta técnica hipnótica. Fui surpreendido. Quando começamos?

— Calma meu rapaz. Ainda não conversamos sobre seu transe hipnótico. O que tem a me dizer?

— Não posso agora doutora. Diana me espera na rodoviária. Mesmo horário, próxima semana?

Em verdade, o que o atraíra, depois da imersiva experiência literária, não era outra coisa, senão o fascínio pelo novo. Nada lhe causava tanta satisfação quanto o desafio, o inusitado, o incompreensível. O futuro o seduzia, e de maneira fascinante. Saiu radiante; sentia saudades de sua amada.

Encerra com a música: (Cargueiro - The Fever (Realizado por THE FEVER / Escrito por CÉSAR AUGUSTO TAVARES FROES).

 ____________ 

Obs: 1) Homenagem a Robert L. Stevenson e sua maravilhosa obra “O Médico e o Monstro”, com título original The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, publicado em 1886. Um clássico da Literatura de Terror e Suspense. Uma espécie de fanfiction...


autor
Max Rocha

elenco
Johnny Massaro como Ed Ronaldo
Anya Taylor-Joy como Diana Helena
Rafael Losso como Uatson
Thiago Martins como Kadu
Marco Ricca como Inspetor Pena
Cãozinho Bilau
Cacatua Baretta

trilha sonora
Extrem Ways - Moby (abertura)
Cargueiro - The Fever (Realizado por THE FEVER / Escrito por CÉSAR AUGUSTO TAVARES FROES)

direção
Carlos Mota

produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela

Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO


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