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Flor-de-Cera: Capítulo 40

Novela de Carlos Mota
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CENAS DO CAPÍTULO ANTERIOR:


O celular de Rubens toca.

– Como? Ela piorou? Cristo! Já avisou a equipe oncológica? Estou indo, Stela.

E o homem sai correndo, deixando Ernestina para trás.

– O que aconteceu? – pergunta o advogado, vendo-o desesperado.

– Tentará salvar a filha de uma doença que seu Dilermando não foi capaz de antever.

Com o testamento em mãos, retira-se do escritório e se vai pelas ruas de Vila dos Princípios, como se não tivesse rumo...




FLOR-DE-CERA - CAPÍTULO 40

 

A cidade de Vila dos Princípios está desolada, poucos carros correm as avenidas, o rio está ainda mais fétido, sente-se no ar o descaso da política e os arroubos de uma classe dominante, que pouco se preocupa com aqueles que nada têm no estômago. Dois velhinhos, um de uns setenta anos e o outro, de uns oitenta e cinco, tocam gaitas na intenção de ganhar alguns trocados, enquanto o dono do açougue, com o coração endurecido, finge que não os vê, muda o preço do quilo da carne numa lousinha e entra.

É visível a falta de solidariedade, do amor pelo próximo, da preocupação pelos mais velhos, do carinho pelas crianças, como, se de alguma forma, todos fossem um pouco do homem que fundou aquelas terras. Tinham Dilermando e sua sede de vingança nas veias, como uma doença que invade e não tem cura.

Comovida com o que via, Ernestina se aproxima dos idosos, joga-lhes algumas moedas em um chapéu surrado, que está ao chão, abaixa a cabeça, queria dar mais, mas não tinha.

– Não fique assim, dona! Sua ajuda há de ser muita! Quando o coração transborda o amor pelo próximo, qualquer vintém dobra o valor. Vá com Deus e não olhe para trás, porque há de ficarmos bem – diz a velhinha, com os olhos reluzentes, apreciando o seu gesto.

A empregada, mesmo comovida com as doces palavras da criatura, continua sua excursão pelas ruas da cidade. Do outro lado, uma mãe, com dois filhos ao colo, pede ajuda, as crianças têm fome. Muitos passam por eles e os ignoram como se fossem invisíveis. E eram! Como o sofrimento de tantas pessoas poderia passar inerte aos olhos de uma sociedade construída a partir das riquezas da soja? Onde estaria o poder público que não estendia as mãos aos mais humildes, àqueles que mais precisam em tempos de crise econômica? Poder público? Hum! Esqueça! Nesta terra, todo dinheiro aventado havia sido desviado para outros lugares, fazendo de uns poucos tão ricos e de muitos, tão pobres.

Como ela nunca havia reparado tanta maldade? Ernestina estava inconsolável! Sempre convivendo com os Dumont, naquela casa enorme, farta de tudo, nunca se pôs a observar os mais pobres que ela; nunca pensou que Vila dos Princípios havia se tornado a Vila dos Miseráveis. Meu Deus! O fim do mundo chegara e ela nem havia percebido. Cada lágrima que derramava, muitas outras vinham depois e depois. Não conseguia calar o soluço! Alguém precisava parar a dor daquela gente! Quem? Ninguém se importava mais, como se aquelas cenas de miséria extrema fossem apenas partes das fotografias de Sebastião Salgado¹. Como remover do espírito daquele povo o veneno da conformação? Não sabia!

E o mais irônico era que em suas mãos estava o tesouro daquele lugar, a herança dos Dumont, escrita com letras frias num papel registrado. Se todo aquele dinheiro fosse seu, os distribuiria aos mais humildes, sem pestanejar. Com certeza, o rio seria limpo, as calçadas varridas, as pessoas encaminhadas para lares definitivos, as crianças alimentadas com o quê há de melhor... Mas ela era apenas a portadora do dinheiro! Não a sua dona! Tudo pertencia a sua patroa, que como muitos, sempre se importou apenas com as festas de gala da alta sociedade, com os saraus na mansão, os presentes caros de um marido doente, as roupas importadas, como se elas fizessem alguma diferença ou algum sentido àquelas terras. Assim como tantos outros, Catharine também era culpada por toda aquela tragédia social.

Sob o comando de sua família, todos foram manipulados, corrompidos, sugados até a última moeda. Na verdade, seu Dilermando não espalhava dinheiro aos moradores; ele os escravizava. Isso estava nítido. Como se aquelas terras fossem mesmo a expressão-mor de um louco que se pousava de rei. Como isso era possível? E por tanto tempo? Porque o que ele arquitetou não parecia querer ruir. Pudera! Os ricos viviam com suas casas luxuosas, comendo e bebendo do bom e do melhor, curtindo altas noitadas na casa dos maiorais, com vestidos longos e caros, carros de todo gosto, como se ali não chegassem as leis de um Brasil que só haveria de constar na certidão de nascimento de cada novo fruto que viesse ao mundo. Aos pobres...ah, aos pobres, toda a esmola e o desconhecimento – arma poderosa em mãos de déspotas –, porque ao invés deles culparem os poderosos por suas desgraças, limitados na imaginação, atribuíam todo tipo de sorte a um Deus cada vez mais distante. E com o ajuda da igreja, não é que acreditavam em tanta bobagem?

– O que a senhora tem? Posso ajudá-la? – aborda-a Zé dos Cobres, percebendo-a confusa.

– Hã! Como? Sim! Mas... mas onde estou? O que é isso?

– Estamos em Vila dos Princípios, senhora! O que há? Precisa de alguma coisa? Percebo que anda sem rumo.

– O que fizeram com essas pessoas? Parece que estamos em uma guerra? Cadê o poder público que não as ampara?

– Poder público? Corrompido! Empresários? Corrompidos! Igreja? Bem, pergunte ao seu coração.

– Quem é o senhor? – indaga, ao perceber que não se parecia com aquele amontoado de vítimas sem alma, espalhado por todo canto.

– Meu nome é Zé dos Cobres, dona! Como a senhora, sinto-me machucado toda vez que vejo meu povo desse jeito, mas o que há de se fazer? A política, pelo menos aqui, serve para conduzir os poderosos ao topo de uma elite que se delicia da tragédia humana, como se essas criaturas não fossem reais, que habitassem apenas o imaginário de algum autor encarcerado em sua própria indignação.

– Meu Deus! E os Dumont deixaram tudo isso acontecer?

– São como deuses, senhora! Moram em um casarão, comem do bom e do melhor, fazem festas caras, bebem das águas de outro rio – não a do poluído – e agem como monarcas. Fundaram a cidade e a afundaram num lodaçal, de onde retirá-la, certamente, exigirá muito daqueles que ainda guardam algum caráter.

– O senhor é daqui?

– Por que a pergunta?

– Não parece! Está tão inconformado como eu.

– Sou! E assim como a senhora, nada posso fazer para mudar o que vemos.

– Alguém tem que chamar a imprensa...

– Que imprensa? Toda corrompida!

– E a polícia...?

– Corrompida também!

– E o que sobrou?

– Poucos de nós!

– Dona Catharine não sabe disso; teria feito algo.

– Quem? A mulher que traiu o louco do vereador George Dumont? Nunca! Ela só pensava em escapulir do casamento para ter com o motorista.

– Como diz tal coisa?

– Está no jornal! Sou apenas um papagaio.

– E quem está na prefeitura? Não é um tal de Fred Funeral? Ele assumiu depois da queda do prefeito, pelo que soube.

– Mas o que o coitado fará se os cofres da prefeitura estão vazios? Tanaka não deixou nada, nem a verba da merenda escolar. Dizem que todo dinheiro foi usado para custear a viagem de férias de sua mulher, sogra e filhos, aos Alpes Suíços. É a tal farra com o dinheiro público...enquanto alguns compram o mundo, muitos passam fome.

– Meu Deus! E por que o senhor, que fala tão bem, não fez nada?

– Até tentei, mas cortaram minha candidatura.

– E a que seria candidato? Vereador?

– Prefeito! Mas meu próprio partido deu para trás, porque não aceitam um pobre como candidato; o engraçado é que, quando a Polícia Federal baixou aqui, muitos dos filiados ao PRVP foram presos por corrupção, desvio de dinheiro, uso indevido do fundo partidário. Os que sobraram, e são poucos, tentam arrecadar alguma coisa, na intenção de viabilizarem minha campanha. Coitados!

– E quem seriam?

– Doutor Alberto Médici e seu Ricardo.

– Alberto? Doutor Alberto? Não foi aquele que foi atropelado hoje?

– Sim! Ele está vendendo tudo o que tem para tentar bancar minha campanha, mas o empresariado está reticente, querem apenas o candidato dos Dumont, que agora não sabemos mais quem será. E a tal roda da fortuna deve continuar a girar, garantindo prosperidade aos abastados, ainda que à custa da dor e da morte de tantos principienses. Em outras palavras, mudam-se apenas as personagens, mas a encenação é a mesma. Aproveitando, quem é a senhora? É daqui?

Ernestina tem vergonha de responder, pois, de alguma forma, fazia parte daquela ala que se isolou do mundo e se negou a ver a verdade das ruas. Não tinha o dinheiro deles, mas os idolatrava, porque achava que a cidade não se encontrava sem rumo, como agora pôde ver, com os olhos de um atormentado.

– Sabe, do que nos serviu o conhecimento? – pergunta ao homem.

– Pelo menos somos capazes de enxergar o que a plebe nunca conseguirá. Sabemos que a culpa é dos homens, daqueles que estão no poder; não de Deus, como apregoam os mais vis aos quatro ventos.

– O senhor precisa de ajuda, não é? Tem que levar esta candidatura à frente!

Zé dá um sorriso sem graça e não responde.

– Acredite, senhor, ainda há salvação para esta gente.

– A senhora também é beata?

– Não me refiro à salvação divina, mas a que será promovida pelos homens.

E se vai, deixando o rapaz intrigado.

A mulher caminha, caminha e caminha, como se cada recorte de paisagem lhe enchesse a alma de indignação. Certamente, tramava algo, mas o quê? Quando chega ao portão do casarão, para, respira fundo, e entra. Lá está a beleza de que carece a cidade. O jardim, com belas flores-de-cera, exala um perfume doce e inebriante. O pomar, adornado por goiabas de todos os tamanhos e suculentas jabuticabas, é uma tentação. E a fonte de água cristalina, ao fim da propriedade, derrama suas águas em um filete que cruza todo o lugar, espalhando a pureza e alimentando as várias espécies de borboletas que arranham o céu com suas asas coloridas. Ali era o refúgio dos Dumont, o lugar que imaginavam viver como reis. E viveram! E como muitos, acabaram também sem reino e sem glória. É o destino de todo império que se levanta torto e é escorado sob os ombros dos mais fracos.

Assim que adentra a casa, sente um arrepio, como se a morte ainda não estivesse feliz com tantas tragédias. Anda por todo canto, revê os móveis revirados, as frutas no chão, o tapete levantado... Era o preço pelo mal que fizeram a tantas pessoas. Nem ali a vida deixou de lhes cobrar pelo que cometeram. Dá mais alguns passos e reencontra a cristaleira. Nela havia um prato pendurado. Aproxima-se, e a cada passo que dá, novas lágrimas se lançam ao rosto, até que, completamente comovida, chora aliviada. Mesmo tombado, o móvel segurou o último prato.

– Você está salva, minha menina! – diz, passando a mão pelo objeto.

– Você tem de voltar, Catharine! O mundo a espera! – pede Joaquim, envolvido por raios de cores variadas, com um belo sorriso no rosto. – Não é hora de desistir! Vamos!

– Leve-me contigo, meu amado! Não quero mais viver! Desejo estar ao seu lado para sempre!

– Não, meu anjo! As flores do jardim continuarão a viver enquanto estiver lá; se partir, tudo morrerá!

Confusa, implora para que a deixe acompanhá-lo pela nova estrada do tempo.

– Você não pode vir ainda comigo, tem muito a fazer.

– Eu estou morrendo! Me leve! Me leve, Joaquim! Eu lhe imploro!

– Não, minha flor-de-cera! Nenhuma vida pode ser desfeita sem que o tempo dela tenha findado. E a sua, até onde sei, ainda guarda muitos grãos na ampulheta. Seja forte! Estarei sempre em seu coração – passa a mão pelo rosto dela.

– Não! Por favor! Não aguento mais tanta dor!

– Dor? E é apenas de dor que vivem os homens?

– Os homens não sei, mas eu sim...

– Engana-se! A roda da vida está a girar e sua história mudará a partir do momento que aceitar quem você é.

– Do que está falando?

– Pense, minha florzinha! Pense! Precisa limpar sua alma. Não consegue enxergar o óbvio!

– Ela não sobreviverá! Estou na segunda tentativa de reanimação e o coração não responde – grita Stela, tensa, ao segurar o desfibrilador.

– O que faremos, doutor Rubens? Ela está partindo...

– Precisamos salvar minha filha, Stela! Por favor! – Volta-se para Catharine e diz com toda a força de sua alma: – Filha, aguente! Volte! Volte para seu pai, que tanto a ama! Volte! Nunca a tive em meus braços e, quando posso, parte assim? Cristo! Isso não justo! Não é justo! – chora.

– Tire-o daqui – pede a residente, agora fechando o quebra-cabeça. – Dona Catharine, seu pai está aqui, ouça-o... Não lhe tire o direito a um abraço fraterno, a um sorriso de anjo, a uma palavra de amor, eu lhe peço.

– Minha florzinha, chegou a hora, você tem que voltar agora, os anjos tocam as trombetas, é o sinal de que tenho que retornar.

– Não vá, meu amor! Não vá! O que será de mim? Uma alma perdida!

– Nunca estará perdida, pois ao seu lado estarei para sempre. E quando chegar sua hora, às portas da eternidade me encontrará.

– “Creio que quase sempre é preciso um golpe de loucura para se construir um destino”². E o dessa casa foi assim! Quando pensávamos que seria o fim da família, eis que os pássaros voltam a voar e ainda mais alto, as flores cantam, as árvores gemem e as águas espelham as faces dos anjos, anunciando que a pequena permanecerá entre nós. Até o prato resistiu, mesmo com a cristaleira tombada. Que maravilhoso! - comove-se Ernestina.

– Você me promete, Joaquim?

– Claro, minha eterna flor-de-cera! Sempre estarei contigo! Confie em mim!

Os dois se beijam ardentemente. Um estalo é ouvido.

– ELA VOLTOU !! – anuncia Stela. – Ela voltou, doutor Rubens!!! Ela voltou!!!

– Cristo! – geme o homem, com as mãos entrelaçadas.

– O que foi, dona Josefa? Não está se sentindo bem? – pergunta o delegado Chico Santinho, assim que entram no hospital.

– U sinhô podi não querditá nu qui uma muié comu ieu fala, mais arguma coisa aqui cunteceu.

– O corpo de seu filho Joaquim já está pronto para ser levado, avisou-me a recepcionista – adianta o delegado.

– Eli feiz argum milagre aqui! Ieu sinto! O coração di uma mãe ié difícir di inganá. Juaquim feiz arguma coisa boa! – Olha para a estátua e pergunta: – Não ié minha santinha?

– Não estou entendendo!

– Perciso vê a dona, perciso, mi levi lá.

– Ela não está bem! Está no C.T.I, um lugar para onde vão os doentes em estado grave. Parece que...

– Não, seu... seu..., iela intá vivinha da sirva, sintu em minha arma. Essa muié não vai batê as bota, tem muita coisa boa isperanu ela, a vida não vai traí ela logu agora! Num vai!

– Deus a ouça!

– Ieu perciso vê essa muié. Mi ajudi!

– Não podemos entrar.

– Tá lesado, dotô? Usi sua otoridade!

– Mas... mas... está bem, verei o que dá para fazer.

– Meu fio, ocê feiz uma coisa linda, sinto, sarvô a muié qui amava – aperta a santa contra o peito –; o aperreio deu lugar a paiz! Sua mãi intá orguiosa. Chega di sufrimento!

– Rubens, o caso de Catharine é muito grave! Conseguimos, por ora, evitar o seu fenecimento! Mas ela precisará do transplante. Está disposto à doação? Pode não ser compatível – revela a doutora Mirése, uma das integrantes da equipe oncológica.

– Há de ser! – confia o homem.

– Ficamos sabendo que é o pai dela – revela a doutora Josemara.

– Que história, meu Deus! Sempre acompanhei a vida dessa mulher pelos jornais e agora a tenho em minhas mãos.

– Tudo dará certo! Confie! – pede a doutora Elaine, aproximando-se. – Confie, Rubens! Você sempre salvou vidas e há de salvar a de sua filha. Acredite!

– Hoje acordei pensando que algo de bom aconteceria. Agora entendo! Depois de mais de vinte anos, nunca pensei me reencontrar com um caso como esse – conta, comovida, a doutora Maria Helena.

– Como assim? – indaga o médico. – Vinte anos?

– Tivemos uma paciente assim como ela; quando tudo parecia perdido, entra em cena aquilo que alguns abominam, mas que nos acostumamos a chamar de milagre. Aquela mulher de nome estranho, acho que era Venusa, entrou aqui com uma filha no colo, aos berros. Fui atendê-la. A menina era doce, que criatura linda... Flona era o nome dela. E sabe o que aconteceu? A garota, então condenada pela medicina, saiu daqui andando, com projetos para o futuro. Nem o doutor Carlos, que dela cuidou, acreditou. Ele chorou tanto quando a viu de volta à vida, que me sussurrou aos ouvidos: “Como isso é possível”? “Milagre!” – respondi.

– Milagre! – diz doutora Andrea, com os olhos marejados. – Então tenha força, assim como Flona, sua filha há de sair dessa, acredite!

– Com certeza! – concordam as demais.

– Que seja então! Aliado ao tratamento convencional, se tudo correr como determina a literatura médica e havendo a esperada compatibilidade, faremos o referido procedimento – conclui Mirése.

– Dona Catharine? – chama Stela, algumas horas depois. – Tudo bem?

– Onde estou? – pergunta, numa voz bem enfraquecida.

– No C.T.I.

– Já estou ficando sócia deste lugar – dá um leve sorriso.

– Logo estará fora daqui! É uma questão de tempo! Olhe, esta é dona Josefa! Quer muito lhe falar. Insistiu tanto até permitirem sua entrada.

– A senhora é... é... a mãe do Joaquim? Meu Joaquim?

A mulher não responde, pega uma das mãos dela, sorri, com as lágrimas descendo o rosto.

– A sinhora ié memu linda! Meu fio certô!

Catharine está sem forças, apenas demonstra carinho pelas palavras dela.

– Ieu sô uma véia boba, chorona, qui num guentava di ispera pra vê a sinhora. Muito ubrigadu pelu qui feiz prá meu minino, dona!

A herdeira dos Dumont não entende.

– Pedi tantu praqueli num vinse pra Sun Paulo, tinha medu di qui o curação deli se perdesse.

– E... e... se perdeu, minha querida! – fala a mulher, com muita dificuldade. – Não queria que seu filho partisse tão rápido... Perdão! Perdão! Perdão! Sinto-me culpada por tudo que lhe aconteceu.

– Não fali bobage, a dona feiz o qui pôdi pra eli, ieu sei di tudo, niguém aqui é curpado di nada. Nóis erra pruque sômo tudo fio di Deus, né, fia? Qui graça a vida tiria se nóis só fazesse coisa certa? Nóis teim di errá pra acertá. Sabi, eli amava tanto a dona qui mi mandô uma carta cum umas palava difícer. Coitadu! Isqueceu qui sua mãe é burra guar topera, qui num sabi nem lê. Óia! – mostra-lhe o que seria um poema. – Teim tanta palava aqui qui inté o seu Jão da mercearia ficô bobo di vê. Quandu eli leu, ieu chorei. Pru isso qui ieu quis tanto vê ocê, dona! Esta carta é pra sinhora, não pra mim.

A mulher abraça Catharine com o amor de uma mãe e termina o diálogo, dizendo:

– Deus ti guardi, dona! Agora perciso i, meus fio tão isperanu u Juaquim; ele irá com us avós. Já intá tudo perparado! – dá-lhe a carta e se vai.

Quando encontra a primeira letra da carta do amado, as lágrimas descem desordenadas pela face da filha de Franceline.

Encerra com a música: (Now We Are Free Super - Gladiator).

_________________

1. É um fotógrafo brasileiro, nascido em Aimorés, Minas Gerais, em 1944. Sebastião é formado em economia e realiza doutorados nessa área. Durante o período entre 1971 e 1973, trabalhou para a Organização Internacional do Café, em Londres. Já, quando estava em uma viagem na África, onde coordenava um projeto sobre a cultura do café em Angola, Sebastião decidiu tornar-se fotógrafo. Enquanto estava em Paris, documentou perturbados acontecimentos sociais e políticos na Europa e na África. Realizou viagens pela América Latina, entre 1977 e 1984, onde documentou as condições de vida dos camponeses e dos índios, que se encontram no livro Autres Ameriques, de 1986. Trabalhou por 15 meses com o grupo francês Médicos Sem Fronteiras, percorrendo a região do Sahel, na África, e registrando a devastação causada pela seca na década de 1980. Já entre 1986 e 1992, produziu a série Trabalhadores, em que documentou o trabalho manual e as árduas condições de vida dos trabalhadores em várias regiões do mundo.

2. Frase de Marguerite Yourcenar, pseudônimo de Marguerite Cleenewerck de Crayencour, uma escritora francesa. Nasceu em 1903, foi educada de forma privada e de maneira excepcional; seu pai ensinou-lhe o latim aos oito anos e grego aos doze. Em 1929, publicou seu primeiro romance, Alexis ou o Tratado do Vão Combate (Alexis ou le traité du vain combat), inspirado em André Gide, escrito em um estilo preciso, frio e clássico. Morreu em 1987.

 


autor
Carlos Mota

A novela "Flor-de-Cera" é remake de "Venusa Dumont - da memória à ressurreição" de Carlos Mota
 
elenco
Grazi Massafera como Catharine Dumont
Thiago Lacerda como George Dumont
Ricardo Pereira como Joaquim
Elisa Lucinda como Ernestina
Carlos Takeshi como Tanaka Santuku
Miwa Yanagizawa como Houba Santuku
Jesus Luz como Pietro Ferrara
Lucinha Lins como Franceline Legrand Dumont
Lima Duarte como Dilermando Dumont
Herson Capri como Doutor Rubens Arraia
Tonico Pereira como Moacir
Werner Schünemann como Paineiras Ken
Rosi Campos como Adelaide
Humberto Martins como Alberto Médici
Cauã Reymond como Ricardo
César Troncoso como Zé dos Cobres
Ilva Niño como Josefa
Selton Mello como Zelão
Matheus Nachtergaele como Meia-noite
Caio Blat como Delegado de Vila Bonita
Caio Castro como Leandro
Alexandre Borges como Doutor Jaime
Caroline Dallarosa como Carmem
Fernanda Nobre como Stela

participação especial
Stênio Garcia como Doutor Lúcio
Drica Moraes como Desirê
Marco Nanini como Chico Santinho

atores convidados
Ary Fontoura como Doutor Tobias
Alexandre Nero como Júlio Avanzo
Elizangêla como Maria

a criança
Valentina Silva como Alana

trilha sonora
Lágrimas da Mãe do Mundo - Sagrado Coração da Terra (abertura)


desenhos
Andrea Mota

produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela

Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO


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