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Flor-de-Cera: Capítulo 39

Novela de Carlos Mota
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CENAS DO CAPÍTULO ANTERIOR:

– Dizer o quê? E quem você pensa que é, Rubens, para entrar em meu escritório e exigir alguma coisa?

– EU SOU O PAI DE CATHARINE DUMONT, OU MELHOR, CATHARINE ARRAIA!

– Não pode ser! – o homem cai sobre a cadeira. – Você descobriu a verdade?

– Se não quer parar atrás das grades, cúmplice de um homem doente, que premeditou o fim da própria filha, há de nos contar tudo agora, porque depois que esta história vazar, ninguém lhe dará qualquer crédito. A notícia estará estampada em todos os jornais, as fofoqueiras levarão os fatos a todos os cantos da cidade e os empresários, aqueles que alimentam a sua roda financeira, também sumirão, porque ninguém gostará de ver seu nome ou o de sua empresa associado a um escândalo como esse. Por isso, pense bem! Diga-nos tudo! Por que Dilermando tramou contra a vida de sua, então, filha? Que prazer insano era esse?

– Ele nunca tramou contra a filha.

– Espere aí, se Catharine não era o seu alvo, quem o seria?

– O bastardo.

– Seu George Dumont? – espantam-se a empregada e o médico.

– Corrigindo, Jorge da Silva, porque George Dumont foi uma invenção de Dilermando, querendo esquecer-se do passado a qualquer custo – revela o advogado.




FLOR-DE-CERA - CAPÍTULO 39

  

A porta do escritório se abre e, bem lá no fundo, em uma mesa suntuosa, com um quadro dele às costas, encontra-se Dilermando Dumont, aguardando o amigo que agora chegava, com alguns minutos de atraso.

– O que aconteceu, doutor Jaime? Está atrasado dois minutos.

– Desculpe-me, senhor! Meu carro deu um probleminha, mas aqui estou, pronto para auxiliá-lo.

– Feche a porta! Melhor, tranque-a! Nossa conversa será longa e completamente confidencial.

Assim faz o advogado.

– Jaime, há quanto tempo nos conhecemos?

– Não sei ao certo, senhor! Talvez uns trinta, quarenta anos ou mais... Por que a pergunta?

– O que vou lhe dizer tem a ver com o tempo que nos conhecemos e com a confiança que deposito em você. Não me traia! Bem, sabe, os que se atreveram, perderam o direito de ver a luz do dia de novo – para um minuto para tossir. – Tenho pouco tempo de vida, preciso que faça um pequeno favor.

– E o que seria? – inquire com olhos de uma águia afoita.

– Precisa me ajudar a alterar o futuro...

– Seja mais claro! – diz, ajeitando a maleta azul no meio das pernas.

– Você sabe de meu envolvimento com Neuza... isso foi há muito tempo, ainda morávamos em Vila Bonita. Nosso romance, de início, pelo menos para mim, foi algo passageiro. Quando a vi naquele banco, limpando os vidros do saguão, fiquei louco de desejo e quis logo tocar-lhe o corpo, roçar seus cabelos, beijar aqueles lábios inquietantes e sugar-lhe toda a essência. Que homem não desejaria isso? Não fui o único, mas tive coragem para tal atrevimento. Ela era como uma deusa, no pedestal errado. Com ela fui ter, disse algumas palavras de amor – todas decoradas de vários autores de nosso tempo – e o que parecia, a princípio, ser difícil de ser alcançado, consegui-o tão logo, assim como o sol, que não hesita em surgir quando o céu está limpo. Sem pensar duas vezes, contratei-a para que trabalhasse em minha casa. Minha mãe já estava acamada e pouco falava. Aproveitei-me dessa deixa e...

– Aonde quer chegar com esse assunto? É algo totalmente íntimo, que só ao senhor interessa, pelo menos imagino.

– Cale-se, homem! E me deixe terminar, logo entenderá!

– Desculpe-me!

– Basta! – determina com certa impaciência. – Neuza e eu, diferentemente do que pensava, tivemos um caso longo. Para preservar minha identidade, inventei outro nome e passei a ser chamado de Jean. Acredita? Queria aquela mulher, mas ela era pobre demais, de pouca cultura, alguém que estava aquém de meus ideais. Alguém que jamais poderia sentar-se à mesa com meus amigos, porque, fútil com as palavras, ignorante nos costumes, não despertaria qualquer sentimento de apreço; pelo contrário, seria motivo de zombaria entre os membros da alta sociedade que frequentava. Como poderia ficar com uma mulher daquelas? Do mesmo modo que me saciava a carne, afastava-me. Era um verdadeiro inferno. Para cada passeio que me pedia, eu inventava uma desculpa. Nosso caso foi mantido às escondidas, como se estivéssemos revivendo as personagens de O primo Basílio¹, ainda que em outro contexto. Quando minha mãe percebeu nosso envolvimento, chamou-me ao seu lado e sussurrou em meus ouvidos que se quisesse mesmo abraçar o mundo, que da empregada me desfizesse. Não seria fácil, porque, por mais que não a amasse, meu corpo pedia o dela. Que coisa louca! Não era amor, isso eu sei, mas uma paixão avassaladora dos corpos, que se atraíam com força. Levei o caso um pouco mais adiante e depois, quando recebi o chamado do pai de Franceline e soube do acordo, acabei com tudo, inventando novas desculpas, com novas mentiras, que seriam sucedidas por outras mentiras e mais outras. Quando conheci Franceline, fiquei fora de mim, pois aquela era a mulher que eu sempre desejara. Uma deusa enclausurada pelo pai, que agora, após o casamento, seria apenas minha. Como isso alegrava meu coração. Casamos. Com a morte de minha mãe e do pai dela, comprei novas terras e aglutinei outras; assim nascia Vila dos Princípios. Não pensei duas vezes em esquecer-me de Neuza. Coitada! Mas ela se dizia apaixonada e, sabe-se lá por qual motivo, também acreditava que eu o fosse. Mentira! Eu apenas fingia!

– Então por que insistia com esse amor?

– Porque sempre que precisava, ela me era útil, se é que me entende, doutor! Em uma das inúmeras brigas que tive com Franceline, voltei a Vila Bonita, despi-me das roupas caras e dos sapatos franceses e fui à procura dela, naquele barraco fétido, onde morava. Por horas, a vida real cedia à fantasia; por mais que não a amasse, ela era uma brasa, completamente insana na arte de amar. Reatamos. Porém, disse que estava falido, que morava em Vila dos Princípios, em um casebre para lá de horrendo, que teria vergonha de que me visse assim, uma vez que, num passado não tão remoto, eu possuía bens, dos quais ela mesma tomou conta, limpou, encerou. Acreditou, como sempre! Daí se percebia a sua ingenuidade.

– Será, senhor?

– Fiz diversos testes, e ela respeitava a todos, como um animalzinho domesticado – tosse de novo. – Mas o que me causava espanto era que, mesmo após tanto tempo de amor intenso, ela não engravidava. De início, pensei que fosse uma árvore seca, deliciei-me da ideia, confesso, porque nunca me cobraria além do que estava disposto a pagar. Todavia, para minha tristeza, o mesmo acontecia com Franceline. Por mais que dela eu desejasse um filho, não conseguia. Era estranho demais. Foram anos de tentativas, até que, numa das viagens à Capital, procurei por um especialista, fizemos alguns exames, mas antes que pudesse saber do resultado, retornei a Vila dos Princípios, pois uma das empresas apresentava problemas. Tive de demitir quase toda a diretoria, tal a gravidade do fato, o que me fez esquecer do exame. Passaram-se mais alguns anos, não tenho precisão de quanto, quando Franceline me disse estar grávida. Foi uma festa. Reuni toda a sociedade principiense em nossa sala. Muito champanha, caviar, canapés, valsas, árias... Como eu estava feliz. Dilermando Dumont agora possuía um herdeiro. Nossa! A cidade me reverenciava como um rei, porque, do alto de meu poder, eu observava a todos e corria socorrer àqueles incapazes de garantir o sucesso dos negócios. Não que eu fosse o bom, como possa imaginar, não é? Apenas queria todos em minhas mãos. Não percebiam, eram marionetes que se moveriam pela marca do tempo conforme minhas intenções e caprichos, mas nada os inquietava, porque sempre tinham dinheiro à mão, bastava o primeiro problema, para que me procurassem e de meus bens se servissem. Hienas... assim eu os chamava! – gargalha.

– Hienas... – repete o homem, com os olhos arregalados.

– E o que seriam, Jaime? – tosse.

– Retorne à história... – pede o homem, visivelmente inquieto.

– Antes que nascesse Catharine, tive de ir a Vila Bonita para resolver a compra de novas propriedades, quando, uma vez mais, encontrei Neuza numa fila de emprego. Desci do carro, troquei as roupas – porque sempre mantinha uma peça bem calejada no porta-malas – e fui ter com ela. Nosso caso não era de amor, mas de pele. Não podia tocá-la, que perdia os sentidos. Que loucura! Nem mesmo a alegria por estar esperando um filho me mantinha fiel à mulher que havia recebido a partir de um contrato. Foram mais e mais encontros, até que ela também disse estar grávida. Na hora fiquei sem reação, meu medo era o de que a sociedade descobrisse que eu era amante de um pobre ser rastejante e que dela nasceria um bastardo. Fiquei em pânico, ofereci dinheiro para que o tirasse, todo dinheiro que pudesse – ela não entendeu nada, afinal, se eu me pousava de pobre, como havia de ter tudo aquilo? Indignada, se afastou, dizendo apenas que não, que era pecado. Pecado era o que fazíamos sem as bênçãos da igreja. Fui rude! Dei-lhe um tapa nas fuças e sumi de novo. Não queria aquela criança. Que inferno! Agora que tudo caminhava como eu havia imaginado? Não! Tinha de dar um fim àquela peste. Mas como? Por mais que tentasse bolar algo, sentia-me incapaz, porque ele também carregava o meu sangue.

– Que história! – diz o advogado, perplexo, acendendo um cigarro. – Ainda não sei aonde quer chegar com isso!

– Je voudrais²...

– Je parle un petit peu de français³.

– Desculpe! Força do hábito! Quando estou tenso, ainda me pego falando em francês.

– Sei muito pouco, para falar a verdade, aprendi algumas palavras ao observá-lo.

– Vamos continuar...

– Fale, sou todo ouvidos – pede Jaime. – O que fez com a criança?

– Quando soube que estava para nascer, procurei-a e me encantei com ela. Poxa! Como havia proposto pôr fim a um filho meu? Nessa época, Catharine estava com poucos meses. Deixei tudo para trás, inventei que tinha uma viagem de negócios e fui ficar com Neuza. Revivemos o calor de outrora. Como eu gostava daquele corpo, daquele sangue pulsando, daquela alma entregue a mim. Tentei manter com ela uma vida simples...

– Foi morar com ela?

– Não! Imagine! Arranjava um jeito de visitar nosso filho todos os dias, mas morar, nunca! Como um homem de minha estirpe poderia condenar-se a um casebre? Vivi feliz por muitos meses, com dois filhos lindos, com duas mulheres distintas: uma que eu amava e outra que desejava demais. Mas tudo que é belo rui com o tempo! Num desses dias que você acorda angustiado, com o coração à boca, como que perseguido por um gênio ruim, ouvi uma de minhas funcionárias dizendo que seu primo tinha cometido o suicídio. Intriguei-me com a conversa, quando, para meu espanto, a mulher revelou que o motivo da morte tinha a ver com o filho que ele tanto amava, que, após alguns embates com a mulher, descobrira ser do amante. Ao ouvir aquilo, alguma coisa me incendiou. Sabe como são as armadilhas do capeta... Espera o melhor momento para atirar a sua rede e fazer de seus capturados, verdadeiras criaturas atormentadas, capazes dos maiores males em nome de uma vingança que, aos descrentes como eu, causaria algum alento. Foi dessa forma que relembrei do exame. Após inventar outra mentira, fui à capital e, no consultório médico, tremendo de medo, ouvi do especialista as palavras que relegariam minha origem à extinção: “Senhor Dumont, sentimos muito, os exames apontaram uma falha genética, o que o impossibilita de ter filhos. Infelizmente, é estéril!” – disse, ressabiado. – Como assim, estéril? Tenho dois filhos! – cobrei dele. Mas o homem nada respondeu. Retirei-me do consultório, pensei em me jogar do andar em que estava, ceifar de vez essa vida inútil, como havia feito o primo da funcionária. Não tive coragem. Chorei. Chorei. Chorei muito. Como o destino havia sido impiedoso comigo.

– Então eles não são seus filhos??? – assusta-se o homem, apagando o cigarro.

– Nunca foram, Jaime! Assim como eu as traí, elas também me traíram. Chumbo trocado não dói, não é? Ledo engano! Dói muito! E para um homem como eu, acostumado a todo tipo de desafio, que nunca se permitiu ficar abaixo de alguém, como encarar aquela dupla derrota? Não havia jeito! Voltei para casa e, ao chegar, dei um beijo frio em Catharine e Franceline, tranquei-me nesta sala e me perdi no desejo de me vingar. Queria, a qualquer custo, que algo acontecesse àquelas crianças, e que aquelas mulheres passassem por um pouco do que eu estava passando, como se isso fosse possível. Franceline tentou se achegar, mas eu não lhe dei ouvidos. Até pensei em acabar com Catharine. Numa dessas noites em que o diabo baixa em você, fui até o quarto dela, peguei o lençol e quando me preparava para sufocá-la, ela acordou, olhou-me bem nos olhos e disse: “Papai, cê aqui? Eu te amo!”. Comecei a chorar, peguei-a no colo e desci até a saleta de música, precisava encontrar algum canto para extravasar minha dor. Ela voltou a dizer que me amava, isso fez com que eu desistisse de tal desatino. A partir daquele dia, criei uma personagem que assumiria, aos poucos, o lugar de seu autor.

– E o que fez? Conte-me tudo!

– Fiz com que Franceline acreditasse em minha paixão! Mas nada que é encenado, dura para sempre. Quando lhe dei uma surra, fui à capital e, ao retornar, algo havia mudado nela. Como se quisesse me enganar sobre um amor que não possuía. Fingi acreditar! Foi difícil!

– E o que fez com Neuza?

– Nunca mais a vi! Deixei-a entregue a sua dor, como eu estava à minha; mas nenhuma desgraça é tão pequena que não encontre um meio de se aflorar. Ela foi presa de repente e o menino, chamado Jorge – disse-me que era em homenagem ao seu pai, mas tenho minhas dúvidas – passou de orfanato em orfanato, de família em família, comendo o pão que o diabo amassou. E pensa que isso mexeu comigo? À distância, eu gargalhava, ensandecido, imaginando que o mundo estava a me vingar. Coitado de mim! Sabe, fui capaz das maiores maldades! A uma das famílias ofereci grana suficiente para que maltratassem a criança, acredita? Eu estava doente, só podia! Mas quanto mais o castigavam, mas eu me impiedava. Meu coração estava duro como uma pedra! Não imagina o que um homem ferido é capaz de fazer... Até matar, se for o caso!

– E sua consciência? Que culpa tinha a criatura, se quem o traiu foi a mãe dele?

– Consciência? Eu a perdi, quando, em São Paulo, recebi aquela notícia.

– Mesmo assim, Jorge não poderia ser o alvo de sua dor.

– Pois foi! Quando Neuza progrediu para o regime aberto, veio atrás de mim, aqui em Vila dos Princípios, imaginando que eu fosse aquele coitado, que morava em um barraco, acha? E, para meu azar, encontrou-me num desses cafés de esquina, na companhia de vários amigos da empresa. Assim que a vi, abaixei o chapéu, mas ela, lá da calçada, continuava a me encarar, ameaçando invadir o lugar e me delatar. Antes que alguma coisa de pior pudesse acontecer, atraí-a para outro lugar, onde conversamos por alguns minutos.

– Quem é você? – perguntou-me, intrigada. – Fale a verdade!

– Jean, minha querida!

– E que roupas caras são essas? Não disse que morava em um casebre?

– São de meus amigos.

– Não minta para mim. Aqui está seu filho, por que não o visita?

– Olá – pus a mão nos cabelos dele e só não vomitei de raiva porque meu lado ator resolvera tomar o lugar de seu criador. Jorge devia ter uns sete ou oito anos.

– Por que nos deixou? Sabia que eu estava presa? Precisei muito de você! Muito!

– Olhando-a, percebi o “quão” morto eu estava. A revelação daquele exame havia mesmo mexido comigo. Eu era outro, por mais que não quisesse.

– Que coragem! – diz o advogado, admirado. – Em seu lugar, não saberia o que fazer, talvez lavaria a roupa ali mesmo.

– Tive sangue frio, Jaime! Sabe o que é isso? É como se olhar no espelho e não encontrar o seu reflexo.

– Por que não nos visitou mais? – perguntou Neuza, com cara de choro.

– Eu tenho trabalhado muito, não sabe o quanto! Estou juntando um dinheirinho para comprarmos uma casa; logo, os trarei para cá, para viverem comigo – dissimulei outra vez.

– Jean, não me deixe! Estou perdida, sem norte. Temo por nosso filho, ele já sofreu bastante. Em uma das casas onde ficou, enquanto eu estava presa, ele era castigado por qualquer coisa. O coitadinho só não morrera de tanto apanhar, porque uma vizinha denunciou a tal família à Promotoria.

– Que coisa! É mesmo, filho? – olhei-o com enorme satisfação. – Como puderam fazer isso com você, meu querido? E por que foi presa?

– Tentaram humilhar nosso filho e não deixei! Olhe, Jean, estamos com fome! Ajude-nos com um pouco!

– Ah, querida, impossível – veja como estava meu coração –, só recebo no final do mês; até lá vivo da caridade dos amigos. Vejam – apontei-os –, eles pagam tudo para mim. São pessoas muito boas.

– Empreste deles alguns vinténs. Seu filho chora de fome.

– Não tenho como emprestar mais; estou devendo até as calças. Desculpe! Vou ver o que faço, até o final do mês, se Deus quiser, hei de ajudá-la com algum. Até lá, veja com as vizinhas. Ninguém há de lhe negar um litro de leite.

– Estamos indo! Pode ao menos pagar nossas passagens?

– Retirei do bolso algumas moedas que só davam para pagar uma passagem e lhes dei, para que se fossem logo. Estavam a me enojar. Trocamos algumas carícias, nada que ultrapassassem a beijos leves no rosto e nos separamos para sempre; todavia, quando o destino resolve ser impiedoso, nada o detém, por mais que queiramos. Soube, logo depois que a deixei, que ela fora abordada por um jornalista do “Tributo ao Povo”, que ao nos ver, perguntou o que tanto conversávamos. Ela estranhou. Mas o homem, de nome Tobias, insistiu, indagando o motivo de ela ter me abordado. Neuza respondeu que era minha mulher, acredita? E a criança, meu filho! Uma bomba! Quando ela soube quem eu era, quis voltar ao café e fazer um escândalo, só não o fez, porque Tobias a segurou e lhe deu alguns vinténs para que revelasse nossa história. Ele não custou a me procurar, com a matéria debaixo do braço, com ameaças veladas. Era um homem maduro, astuto, que sabia jogar no mesmo tabuleiro que eu.

– E o que aconteceu?

– Fui obrigado a ceder e a repassar ao jornal a quantia de que precisavam para a expansão. A partir de então, nunca mais ouvi falar dela, nem fui procurado.

– E não teve medo?

– Com o dinheiro que eu tinha, apagá-la seria o menor dos obstáculos. Voltando a Franceline, coitada, entrou em desespero, quando Catharine caiu do cavalo e precisou receber uma transfusão. Naquele dia, ela não sabia o que dizer, porque sua traição havia vindo à tona. Acho que ela pensou que eu a mataria; tentou se esquivar, ser o que não era, mas como eu a amava, fingi-me de bobo, dei todo amparo a Catharine que, confesso, amo demais, ainda que não seja minha de verdade. Não sei o porquê! Talvez porque tenha acompanhado o seu parto, ter sido o primeiro a pegá-la nos braços ou talvez porque ela dizia me amar o tempo todo. Catharine sempre foi muito amável comigo! Mas minha vingança veio com o tempo. Passei a seguir Franceline, quando a flagrei com o amante em nosso sítio. Nunca tinha visto nada igual. Saber da traição é uma coisa, mas ver... Ver é outra coisa! A cor nos foge, o corpo estremece e a alma, ah, a alma, tenho a impressão de que quisesse deixar este mundo, ir para outro lugar, em que a paz reinasse. De volta ao carro, chorei como quem perde um pai ou uma mãe. E a partir daí, não mais me aguentei. Passei a fazer a cabeça de minha filha contra a mãe, de modo que ela se viu em uma situação difícil: assumir ou não um romance extraconjugal. E não é que ela era mesmo corajosa? Não teve medo e disse à menina, que tinha uns dez ou doze anos, o que era o amor que estava sentindo. Ela sabia que Catharine não era minha, mas isso não revelou.

– Por quê?

– Não sei! Talvez tivesse medo de que ela se entregasse a uma depressão...

– E por que ela não pediu a separação, já que o senhor sabia de tudo?

– E como viveria? Mil vezes viver debaixo de um teto alimentado pelo dinheiro a passar necessidades.

– E por que o senhor não disse o nome do amante a Catharine?

– Por mais que eu quisesse, também não consegui! Para todos os efeitos, ela permaneceria uma Dumont. E para sempre! Era minha. Eu sentia!

– E Neuza, onde estava depois de tudo isso?

– Em uma de nossas brigas, Franceline disse ter recebido uma carta que confessava tudo, do início do romance ao nascimento do nosso filho, mas nunca me deu esta carta. Acho que blefava. Era o meio que encontrou para me manter no cabresto; se eu fizesse algo com ela ou com a menina, a carta viria a público, acabando com tudo. Os Dumont deixariam de ser os maiorais para habitarem as páginas da coluna social do principal jornaleco; não o espaço dos elogios, mas o dos escândalos. E como eu prezava muito pelo sobrenome, pedi que não fizesse nada. Fingiríamos como poetas.

– O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente. – declama o advogado.

– Exatamente! Evocávamos Fernando Pessoa o tempo todo – confirma o patriarca.

– Sua história é muito triste. Mas estou curioso, que fim levou a amante?

– Morreu de câncer! Fiquei sabendo há pouco, quando, ao contratar um rapaz para trabalhar, olhei para seu RG e só continha o nome da mãe. Ele tinha traços familiares, então o indaguei com firmeza e ele se revelou o Jorge da Silva de Neuza da Silva. Disfarcei o meu susto. Ainda que não gostasse dela, nunca lhe teria desejado tal fim.

– Mas não tinha pensado em matá-la?

– Como disse, “pensado”; não teria coragem, por mais que a situação exigisse.

– Então...?

– Contratei o rapaz e o promovi. Por mais que ele não seja meu, tem algo de mim, como a ambição.

– Então a vingança terminou?

– Não! Bastaram alguns dias para que a história de sua mãe me reavivasse os sentimentos mais tenebrosos. Enquanto, no caso de Catharine, eu sabia que Rubens seria seu pai, porque foi com ele que a vi; no de Jorge, não tinha nem ideia. Com quem Neuza teria me traído? Isso me incomodava e toda vez que eu via o garoto, tinha vontade de lhe perguntar, até que, para minha surpresa, o ouvi dizer à secretária que a mãe era uma santa e o pai – que certamente pensava que fosse eu – uma desgraça. Fiquei louco!

– Mas... mas por que se não era o pai? E pelo jeito ele nem o reconheceu!

– Não mesmo! Mas não sei lhe dizer...

– Já pensou que o exame pudesse estar errado? – alerta-o o advogado.

– Não havia como. Eu o repeti anos depois.

– Então por que toda essa raiva?

– Não sei lhe dizer, mas tenho de fazê-lo pagar por tudo que sua mãe me fizera.

– E o que ela fez? Amou-o apenas!

– Ela me traiu!

– O senhor ficou ausente por quanto tempo?

– Não importa! Quem ama não trai.

– Mas o senhor também a traiu; pior, nem a amava!

– Quer me pegar pelas palavras, Jaime?

– Não é minha intenção, apenas estou com dó do menino. Pelo que entendi, agora está sozinho no mundo. Quer maior castigo que esse?

– Pois vou lhe dar tudo o que deseja.

– E o que seria? Vai lhe contar toda a história?

– Não! Vou lhe entregar a mão de Catharine.

– Catharine? Quer oferecê-la ao rapaz?

– Sim! Vou prepará-lo para sentar nessa cadeira, ainda que não seja um legítimo Dumont.

– Mas ela também não é! – afirma Jaime.

– Mas... mas... Ele é ambicioso! Tem um olhar ferino. Por dinheiro seria capaz de qualquer coisa.

– Mas estaria se vingando também de Catharine. Não disse que a amava?

– E amo, mas o que sua mãe me fizera também merece um revide. É a lei da vida: faça e receberás.

– O senhor está bem, doutor Dilermando? Não seria melhor... não sei... talvez repensar tudo...

– Acalme-se, meu rapaz, não cometerei qualquer crime, até porque, não são irmãos.

– E o que pretende fazer?

– Vou fazê-lo minha sombra, tudo o ensinarei, inclusive os bons modos. Será como o filho que não tive. Com a ambição desenfreada, o apresentarei Catharine e nela instigarei o desejo pelo namoro, depois o casamento...

– Mas são jovens ainda...

– Quando completarem a maioridade, já estarão prontos para o epílogo que lhes reservarei. Demore o tempo que for necessário!

– E qual seria?

– Usufruirão de todo o conforto proporcionado por minha herança, mas Jorge desaparecerá...

– Vai matá-lo?

– Pelo contrário. O nome é fútil demais, não combina com nossa estirpe. Será, a partir de então, George. George Dumont. Com certeza, mais refinado.

– E como fará para manipulá-lo?

– Usarei o Tanaka. Aquele pé-rapado, puxa-saco de uma figa, ganhará muito se o ensinar a driblar os pobres que lhe virão aos seus pés, quando já estiver rico.

– E como fará com a Houba? Aquela mulher é o cão e sabe de tudo que o vereador faz.

– Essa eu comprarei pessoalmente; o ideal é que se vá embora, deixando Tanaka focado apenas em meus objetivos.

– Tudo bem! Mas como fará isso?

– Irei lhe oferecer uma mesada semestral, tão vultosa, que não pensará duas vezes; com aquela mãe sovina e exploradora a tiracolo, será fácil demais. E para manter o marido sob controle, lhe entregarei alguns dos podres que ele tem cometido. Ela será a maior arma contra ele, caso eu precise.

– E para onde pretende mandá-las?

– E se elas fossem para o Japão? Assim a mãe dela teria a possibilidade de morrer em sua terra natal.

– Ela está grávida! E tem mais um menino pequeno.

– Melhor ainda, criará os filhos num país civilizado, porque sei, além de não gostar do marido, ela odeia este país assim como Carlota Joaquina. Hum! Não vai ser difícil. E agora vem sua parte.

– O que me reserva?

– Você fará um novo testamento...

– Invalidará o original?

– Pelo contrário, o novo se passará pelo original.

– Mas o que pretende?

– Que Jorge, ou melhor, George, que aparenta não se apegar a ninguém, fique louco pela herança dos Dumont. Você inserirá alguns direitos a ele, caso Catharine enlouqueça.

– Será muito sofrimento, doutor? E ela aguentará?

– Catharine é dispersa, mesmo depois de minha morte, não dará qualquer valia ao documento, porque, para ela, o que interessa são os bons costumes, a farta mesa e as tradições francesas que tão bem desempenha. E caberá ao senhor manter a farsa, assim que eu partir.

– Não posso! Isso é ultrajante, para não dizer criminoso.

– Qual é o seu preço?

– Não me refiro a dinheiro... E meus princípios?

– Você está em Vila dos Princípios, então, receberá o perdão por qualquer erro que vier a cometer – sorri, tossindo em seguida.

– Não posso! O senhor deseja, pelo que percebi, que o homem faça de tudo para enlouquecer sua herdeira, apostando, na verdade, que ele termine assim.

– E acabará! Conheço alguém com faro podre à distância. Antes de ele findar-se atrás de um manicômio, terá todo o dinheiro que o mundo lhe negou; com Tanaka à espreita, será reconhecido na sociedade, talvez seja eleito vereador e, se der tempo, ao cargo de prefeito.

– Me nego a fazer o que está pedindo.

– Pois executarei todas as suas promissórias... Será que possui mais de um milhão, sem contar os juros de quase uma década? Se fizer tudo do modo como imaginei, terá sua dívida perdoada. Elas por elas. O que acha disso? Uma proposta irrecusável!

– Senhor, estaremos condenando duas almas, além de seus descendentes, a um sofrimento inimaginável. Não lhe causa remorso?

– Prazer! Remorso eu teria se nada fizesse para me vingar das duas traições que sofri.

– Mas... mas... deixe Catharine fora disso!

– Não posso! Por mais que a ame, seria injusto de minha parte. Os dois não são meus filhos, apesar de esperar que ela suporte o baque e sobreviva à dor que a espera.

– Isso é monstruoso. O senhor está usando um para destruir o outro.

– Cada um tem o carma que merece, apesar de acreditar que ela sairá ilesa de tudo isso; é como a mãe, a fragilidade apenas é uma capa.

– Então farei outro testamento, o colocarei no lugar onde está... Que lugar seria este?

– Aqui no cofre. Guarde-o em um envelope bem cuidado, mescle-o aos outros documentos e depois que eu partir, dê um jeito de que alguém o encontre.

– Alguém? Quem?

– George!

– Mas ele perceberá quando eu o ler assim que partir.

– Não, você fará a leitura do original, que estará sempre em sua posse; este deverá ser registrado em cartório, para que tenha a valia desejada. Já o outro não, falsifique todos os carimbos, pague o quanto for, desde que engane os olhos de um homem atormentado pela ganância. E para ajudar, deixarei a chave do cofre neste vaso.

– Desculpe-me a pergunta, mas sua casa é enorme, como ele chegará a este vaso?

– Direi que sempre que tiver algum problema, recolha-se a este escritório. Do resto, o destino se encarregará.

– Confia muito no destino.

– Ele me traiu mais de uma vez e não há de repetir o erro. As consequências seriam inevitáveis.

– Santo Deus! – exclama o advogado, muito assustado. – E mesmo sabendo que Catharine não carrega seu sangue, há de lhe deixar tudo mesmo?

– Sim! Não importa a descendência, ela sempre será uma DUMONT. Portanto, caso meu plano dê errado, exerça o poder e traga o verdadeiro testamento à tona.

– E quando Rubens souber que é pai dela, virá para cima de mim.

– Não! Porque jamais revelarei que ele é o pai dela, nem Franceline, que estará enfraquecida diante do ódio da filha. Como a conheço, tentará se justificar, sem entrar em detalhes, porque o que mais ama nesta vida é essa menina. Depois que eu instigar os maus pensamentos em Catharine, ela irá para cima da mãe, deixando-a acuada.

– Não é à toa que chegou aonde chegou. Arquitetou tudo!

– Quase tudo! Porque a pressão será tão grande, que Franceline deixará de tomar os remédios para o coração e sofrerá um baque capaz de levá-la ao mesmo buraco para onde irei. Conto com isso!

– Santo Deus!

O homem gargalha.

– E assim termina a história de Seu Dilermando – confessa o advogado a Rubens e Ernestina.

– Como ele pôde ser tão mau? – indaga a empregada, com as lágrimas contornando os olhos. – Acabou com todo mundo! MONSTRO!

– Com o tempo tentei entendê-lo, Ernestina! Alguém que seja traído duas vezes, por duas mulheres diferentes, não há de guardar qualquer outro sentimento no coração que não seja o da vingança.

– Não fizemos nada proposital. Apenas nos apaixonamos! Que culpa temos disso? – tenta se justificar o médico.

– Infelizmente, o que está feito, está! E tudo aconteceu como ele premeditara. Dona Catharine continua sendo uma Dumont, porque assim ele desejou. Aqui está o testamento original – diz, retirando-o de um cofre. – Ainda bem que esta página de minha história acabou, porque não aguentava mais o que via. George insano; Catharine perdida; e o pai, no caso o senhor, doutor Rubens, sem saber de nada... pelo menos não sabia até então!

– Eu descobri há pouco ser o pai dela.

– É uma longa história – apressa-se a empregada.

– Como eu quis acabar com tudo isso, mas Dilermando armou tudo, tão bem armado, que eu poderia ir para a cadeia. Havia cometido um crime tão letal como o dele. Se quiserem me ver mal, faça o que tiverem de fazer.

O celular de Rubens toca.

– Como? Ela piorou? Cristo! Já avisou a equipe oncológica? Estou indo, Stela.

E o homem sai correndo, deixando Ernestina para trás.

– O que aconteceu? – pergunta o advogado, vendo-o desesperado.

– Tentará salvar a filha de uma doença que seu Dilermando não foi capaz de antever.

Com o testamento em mãos, retira-se do escritório e se vai pelas ruas de Vila dos Princípios, como se não tivesse rumo...

Encerra com a música (Violino Triste e Piano - Secret Garden).

_______________________

1. O Primo Basílio é um romance português de Eça de Queiroz. Publicado em 1878, constitui uma análise da família burguesa urbana no século XIX.

2. Eu gostaria... 

3. Eu falo um pouco francês.

4. Foi um dos mais importantes poetas da língua portuguesa e figura central do Modernismo português. Poeta lírico e nacionalista cultivou uma poesia voltada aos temas tradicionais de Portugal e ao seu lirismo saudosista, que expressa reflexões sobre seu ―eu profundo, suas inquietações, sua solidão e seu tédio. Fernando Pessoa foi vários poetas ao mesmo tempo, criou heterônimos, poetas com personalidades próprias que escreveram sua poesia.

 


autor
Carlos Mota

A novela "Flor-de-Cera" é remake de "Venusa Dumont - da memória à ressurreição" de Carlos Mota
 
elenco
Grazi Massafera como Catharine Dumont
Thiago Lacerda como George Dumont
Ricardo Pereira como Joaquim
Elisa Lucinda como Ernestina
Carlos Takeshi como Tanaka Santuku
Miwa Yanagizawa como Houba Santuku
Jesus Luz como Pietro Ferrara
Lucinha Lins como Franceline Legrand Dumont
Lima Duarte como Dilermando Dumont
Herson Capri como Doutor Rubens Arraia
Tonico Pereira como Moacir
Werner Schünemann como Paineiras Ken
Rosi Campos como Adelaide
Humberto Martins como Alberto Médici
Cauã Reymond como Ricardo
César Troncoso como Zé dos Cobres
Ilva Niño como Josefa
Selton Mello como Zelão
Matheus Nachtergaele como Meia-noite
Caio Blat como Delegado de Vila Bonita
Caio Castro como Leandro
Alexandre Borges como Doutor Jaime
Caroline Dallarosa como Carmem
Fernanda Nobre como Stela

participação especial
Stênio Garcia como Doutor Lúcio
Drica Moraes como Desirê
Marco Nanini como Chico Santinho

atores convidados
Ary Fontoura como Doutor Tobias
Alexandre Nero como Júlio Avanzo
Elizangêla como Maria

a criança
Valentina Silva como Alana

trilha sonora
Lágrimas da Mãe do Mundo - Sagrado Coração da Terra (abertura)


desenhos
Andrea Mota

produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela

Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO


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Proibida a cópia ou a reprodução



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