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Flor-de-Cera: Capítulo 36

Novela de Carlos Mota
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CENAS DO CAPÍTULO ANTERIOR:

O editor-chefe vai até a redação, procura por Pietro, mas não o encontra, então pergunta a Leandro, o companheiro dele de reportagem, quando recebe um pequeno envelope. Ao abri-lo, a face se fecha. Ele pedia demissão, alegando não fazer parte da quadrilha que agora se instalava no jornal.

– Droga! O que esse moleque tem na cabeça? É bem capaz de nos ferrar! – profere.

Abre o computador dele e checa os e-mails, quando se depara com um, que o faz saltar da cadeira, aos berros.

– Catharine! Graças a Deus! – dissimula George, vendo-a entrar no quarto da mansão.

– Por que você matou Joaquim? Fale, criatura do demônio! – mostra-lhe o pen-drive, com Rubens e Ernestina às costas.

O homem toma um susto e se engasga com a saliva.




FLOR-DE-CERA - CAPÍTULO 36


Como a fênix¹ que renasce das cinzas ainda mais forte, assim encontrava-se a herdeira dos Dumont. Como a perda de um amor pôde mudar tanto aquela criatura tão frágil? Diante do marido exigia, com uma coragem invejável, resposta a uma pergunta tão comprometedora. George estava confuso, afinal, aquela não era a sua mulher, pelo menos não a que se apresentava todos os dias a ele e a uma sociedade dominada pelo lucro fácil, pela exploração dos mais pobres, pela corrupção em todos os meios. Ela possuía mais do que ódio no olhar; carregava nos ombros a culpa por ter deixado morrer aquele a quem também amou, mas que deixou partir, por fraqueza ou pura ingenuidade.

Da forma como estava, cumpria as palavras da mãe, porque quando se ama, o limite é o céu. Quando se perde a quem ama, o limite é a dor. Quando se almeja corrigir o passado, em muitos casos, o limite é a morte. E estava disposta a morrer por quem tanto lhe gotejou palavras de afeto e esperança.

Diferentemente dos poetas românticos, que à morte declaravam um amor insano, Catharine, da morte cobrava respostas pela partida daquele que nunca ousou ir além de um beijo. Como ela pôde ser tão ingênua? Como pôde se negar ao ato mais lindo, que é o de se entregar ao homem que a faria sentir o céu, beijar as nuvens, tocar o infinito? Como pôde se furtar aos encantos daquele príncipe do sertão, tão vívidos como as flores-de-cera de seu jardim? Como pôde acreditar ser mais fraca que as amarras impostas pela sociedade? E que sociedade era esta que relegava uma dama de sua estirpe ao vale do esquecimento, pelo simples fato de amar uma criatura tão simplória e ingênua como um motorista? Se pudesse voltar no tempo, haveria de corrigir este erro; mas a vida não retroage e o destino se mostra cada vez mais impiedoso; o que está feito, está! O mínimo que se pode fazer é tentar suportar a dor de tantos erros, uma dor tão forte, que respirar ficava difícil. Quase impossível!

Mesmo assim, diante do esposo, não hesitou ser a flor do deserto, aquela que contrariando todas as hipóteses, se mantém viva, forte, serena, espelhando com graça os raios solares. Se tivesse de morrer, que fosse de modo honrado, para que a História lhe fizesse justiça. A mesma história que ora apunhalava os grandes mártires da eternidade.

– Por que você matou Joaquim?

– Do que está falando, criatura? Por acaso sofre de alguma enfermidade? – desafia o vereador.

– Ela já sabe de tudo, seu George! – antecipa-se a empregada, mostrando-lhe o pen-drive. – O senhor simulou um suposto assassinato para que o pobre do Joaquim fosse preso, jogado a uma cela, onde foi esfaqueado, levado ao hospital e... assassinado.

– Co-co-como assim? Mataram o chofer? Meu Deus! Disso eu não sabia!

– Não mesmo, George? – cobra o médico. – Você sempre demonstrou odiá-lo! E por quê? Por ele amar Catharine, a mesma que você sempre espancou e dedicou o maior desprezo. Hum! Nem na morte da própria filha você esteve presente. Isso é demais para o coração de qualquer um, ainda mais para o de uma mãe como ela, que tinha em Alana, a grande estrela do céu.

– O que essas criaturas fazem aqui, Catharine? Precisa de tantos cães de guarda para poder falar comigo? Coitada! Bem se vê, ainda é mais inútil do que imaginava.

– Dobre a língua, meu esposo! Quem está à sua frente não é a mesma mulher que levava tapa na cara, chutes no ventre, desprezo de toda espécie; aqui está uma outra, capaz de levá-lo ao banco dos réus, se o caso assim exigir, para que o nome de um homem inocente seja resgatado das páginas policiais.

– Inocente? Aquele homem era a degradação de nossa casa, ele a esculpia com olhos de um bobo, como se fosse uma daquelas deusas gregas; para mim, seu esposo, era uma afronta, e meu desejo, diferentemente do que imagina, era que ele fosse embora daqui, ficasse distante, por isso, fora de mim, cometi tal barbárie – enfim, assume o que fez. – Mas nunca pensei que morreria! Só queria retirá-lo daqui, porque eu não queria dividi-la com ele. Sabe, Catharine, eu a amei muito mais do que imagina. Eu a desejei mais que os deuses pelos mortais – dissimula –, eu... não sei como dizer, perto de você, sempre me senti diminuído, talvez por conta de nossa origem. Enquanto você veio de um lar adornado pelo luxo, eu nasci em um barraco, jogado às traças, em meio a um bando de pobres. Isso mexia comigo.

– Deixe desse fingimento, George, nada justifica o que fez! Você matou Alana em vida! Nunca se importou com ela ou comigo e suas palavras carecem de fundamento, porque o passado só nos serve para melhorar o presente, preparar o futuro, e não para espalhar o horror. E o que fez, durante todo nosso casamento, foi espalhar o medo! Quando eu o via, temia apanhar, porque a qualquer momento, algo o possuía, e partia para a agressão, sem que eu tivesse feito nada ou pudesse me defender. E o pior? Ter de esconder tudo da sociedade! Enquanto para o povo era um Deus; dentro de casa, para mim e sua filha, era o próprio demônio. Como fui tola! Hoje percebo, se um dia tentei amá-lo, foi por dó. Dó de uma criatura que nunca soube, de fato, o que era amar! Dó! – limpa uma lágrima.

– Dó? Não sou digno de dó. Apenas os fracos a merecem.

– E o que você é? Não passa de um ser rancoroso, ancorado a um passado doentio. Nunca o amei, assim como você também nunca me amou; fomos apenas marionetes nas mãos de meu pai, que o queria como o genro ideal. Confesso, de início fiquei empolgada, pois você é lindo, o desejo de toda mulher, mas apenas for fora; por dentro, infelizmente, sofre de uma anomalia de caráter, de uma podridão que não encontra explicação na literatura médica, ou estaria errada, Rubens?

– Não mesmo! – confirma o médico.

– Limpe sua boca antes de falar de mim, criatura medíocre! – ira-se, como se estivesse sendo revisitado por um gênio ruim. – Limpe essa boca. Pois tem razão! Nunca a desejei! Nunca! Por mais bonita que seja, sempre a vi como o grande cofre da família Dumont, aquele que eu deveria possuir e me fartar. Somente!

– Nojento! – xinga-o a empregada.

– Se aqui estou é pelo dinheiro, simplesmente por ele; ao invés de você, eu sempre senti as maiores agruras do destino. Enquanto era paparicada pelos pais, eu era encaminhado a vários abrigos, a várias famílias, em que sofri toda sorte de maus-tratos e humilhações. Enquanto recebia os maiores afagos dessa gentalha travestida de amigos, lá estava eu, a um canto, sendo surrado como um animal, como se parte dos erros do mundo fosse minha culpa.

– E para se blindar desse passado tão abjeto, optou por me usar? Seria eu o seu escudo?

– Escudo, não! A salvação! Por meio de você, dei a volta por cima, enfrentei todos os meus antigos algozes, dando a eles o que tanto mereciam: a miséria. Enquanto ficava aqui a contemplar as flores na companhia de um subalterno, eu estava lá, movendo a máquina do poder para acabar com todos que, por algum motivo, ousaram me conduzir à sala da tortura. Ninguém foi poupado. Ninguém! Nem você!

– E o que eu fiz para que me tratasse igual aos seus desafetos?

– Você me enojava. Seus gestos me causavam asco. Como uma menina tão rica poderia ser tão frágil? Como uma Dumont, acostumada a tantos bajuladores, poderia ser tão... tão...

– ...Tão... tão o quê? Fale! – agora as lágrimas escorrem pelo rosto empalidecido da mulher.

– Tão medíocre! Você me causava vergonha, porque o que todos esperavam de você era a altivez de seu pai, não a fraqueza de sua mãe.

– George... Pare!

– Você não merece o que tem! Nunca mereceu! E se eu pudesse fazer mais para vê-la debaixo do sapato, faria, porque a vida só premia os inúteis como você! – seus olhos reluzem um ódio descomunal, dificilmente visto em alguém que tenha controle do próprio juízo. – Uma flor-de-cera! – debocha. – Pensa que não sei que aquele infeliz a tratou por “sua flor-de-cera”? Moacir, em sua ingenuidade mais tosca, me contou tudo. Coitado! Mal sabia que era usado por mim.

– Por isso matou Joaquim, não foi? Porque ele me amava de verdade!

– Eu já disse, não matei o motorista, por mais que quisesse; aliás, tive a oportunidade, mas me furtei a tal desejo.

– Então, criatura dos infernos, por que ele se foi? Por que fez tudo aquilo com ele?

– Como é mesmo ingênua, mulher! Você não percebe? Não foi por você! Nunca foi! Mas pelo dinheiro que possui. Você não é nada sem sua herança.

– Co-co-mo assim?

– Ama mesmo seu pai? Pai? Hoje entendo! Ele nunca foi seu pai, até quis, mas não conseguiu.

Rubens entra na conversa:

– Vamos embora, menina! Não dê ouvidos a ele, está fora de si! – tenta retirá-la, antes que a caixa de Pandora se abra, trazendo consigo todos os males do mundo.

– Deixe-a... – pede a serviçal, intrometendo-se. – Fale, seu George! Solte o que está em sua alma; está na hora de mostrar alguma coerência, a menor que seja, não é mesmo?

– Ele até a desejou como filha...

–Ele quem? Do que está falando? – grita a mulher, sem compreender.

– Daquele que dizia ser seu pai.

– Refere-se a Dilermando? Ele era meu pai. Está louco?

– Quer que eu conte ou o senhor mesmo contará, doutor Rubens Arraia? – o edil o envolve como uma cobra a sua caça.

O médico não se pronuncia, teme o peso da revelação.

– É um covarde mesmo! Hum!

– Quero apenas evitar mais lágrimas, mais sangue – responde, libertando-se do medo. – Catharine, minha filha...

– Até que enfim tomou coragem. Já não era sem tempo! – ironiza o vereador, batendo no antebraço engessado, em movimentos de aplauso.

– Do que ele está falando, Rubens? Não entendo!

– Pois eu sim! – rebate George. – Liguei os fatos assim que soube do testamento e agora entendo a conversa que tive com Dilermando horas antes dele vir a óbito.

– George, meu rapaz, nunca tenha medo de enfrentar seus medos, porque o destino é seu. Olhe para frente, no fim do túnel haverá sempre uma luz, por pior que seja o problema; talvez não como a queiramos, mas como precisamos. Quando estiver enfastiado da vida monótona proposta por sua mulher, a minha filha, saia de casa, vá ter com as donzelas da Capital, use de todos os recursos para alcançar a felicidade que aqui nunca encontrará, porque Catharine, assim como a mãe, é uma criatura adocicada, frágil, mas capaz das maiores armadilhas, em nome de um verme chamado de amor.

– O senhor me diz que ela... não entendo!

– Assim como a mãe, não pensará duas vezes em trai-lo; está no sangue! E agora que sei que Franceline “distribuiu” as flores de meu jardim, repudio-a com veemência.

– Ela é sua filha, o que tem a ver com os desatinos da mãe?

– Filha? Hum! Sim, ela é minha filha, por isso, a ela darei o maior presente de todos: a destruição.

– Doutor Dilermando, o senhor não está bem, diz coisa de que não entendo. De onde vem toda essa dor? De onde incorre tanto ódio?

– Não foi fácil quando descobri, mas é a vida, todos nós um dia nos deparamos com o inimaginável e nos indagamos do porquê de tudo aquilo...

– Seja mais claro, senhor! Ainda não o entendo!

– Mas entenderá! Entenderá!

George o segura pelas mãos no leito da morte.

– Sabe, meu rapaz, cheguei a este país fugindo da guerra, viemos em um navio tomado por piolhos, corpos foram arremessados ao mar, até parecia que estávamos em um navio negreiro de Castro Alves, tal a degradação, mas nada calava o meu desejo interior de viver intensamente uma vida regada a muito dinheiro, muito ouro. Nada sufocava minha ambição! Nada! Enquanto meus pais choravam a um canto, eu vislumbrava o futuro, porque não poderia, ainda que naquele inferno, imaginar que minha vida se resumiria a tão insignificante viagem. Assim que chegamos ao Brasil, fomos trazidos para Vila Bonita, um povoado à época, sendo recebidos por um fazendeiro com a laia torpe. Fomos tratados como os negros do século passado, mas nossas senzalas não tinham grades, só os espinhos. Entende? Se não fizéssemos o que ele mandava, perderíamos a ração de todos os dias.

Meu pai adoeceu de tuberculose meses depois e se foi. Minha mãe e eu precisávamos reinventar a roda, se quiséssemos sobreviver, então, num daqueles momentos inexplicáveis, tocada por algo, ela me disse que se eu quisesse dominar o mundo, que dominasse primeiro o português. Precisaria, urgentemente, falar muito bem a língua dessa terra. E assim o fiz! Estudei sozinho, observei como os patrões davam as ordens, busquei sentido às palavras mais estranhas ou mesmo impiedosas. Chegaram até a desconfiar de que eu não fosse francês, porque até o sotaque havia deixado para trás. Um exagero! Sempre me pegava arranhando as palavras. Então, numa das excursões ao centro da cidade, ouvi um senhor dizendo que a soja traria lucro, desde que cultivada com muito amor. Amor? Como dar amor a uma semente? Achei graça da história e passei a ouvi-la, na intenção de caçoar de tanta idiotice. Mas o que parecia fantasia, carregava o grão mágico que substituiria o café, a riqueza engolida nos idos do século.

– Tome um pouco de água, está com a boca seca... E depois descanse um pouco! – pede o jovem.

– Não, preciso falar... me deixe!

Sentando a uma cadeira de madeira, o rapaz segura as mãos dele com alguma comoção.

– Après la pluie vient le beau temps!² – sorri.

– Continuo sem entender aonde quer chegar.

– Meu rapaz, assim como quem compra feijões mágicos, eu comprei aquelas sementes, e com elas em mãos, contrariando a pequenez intelectual de minha mãe, procurei um terreno em que pudesse transformá-las em ouro. Não foi difícil! Em pouco tempo já comercializávamos a colheita, cujos lucros saltavam a cada safra. Meu sócio, outro francês, que não dizia uma só palavra em português, adoentado, procurou-me certa vez, tarde da noite, para me pedir um grande favor. Precisava casar a filha, uma garota linda, em cujos olhos deitava a flâmula de Hera³, pelo menos era o que dizia. Ofereceu-me tudo! Tudo! E sem maiores delongas, fiz como Fernando Seixas, assinei o contrato no escuro, pensando que me casaria com uma desafortunada. Mas ao altar, quando a vi, levei um susto. Que mulher era aquela. Fiquei em transe! Era de uma beleza quase surreal! Perguntei o seu nome e, cabisbaixa, me respondeu. Confesso que não ouvi nada do que disse; estava ainda sob uma hipnose incomum.

– Tome mais água... – pede George. – Descanse um pouco! Por favor! Depois terminamos!

– Não, a ampulheta do tempo é cruel, tenho poucos grãos de areia a meu favor. Deixe-me terminar. O nome dela era Franceline! Percebi por seus olhos que não me amava, mas acreditava que, com o tempo, pudesse ser minha. Como fui tolo! De Hera ela não tinha nada! Logo minha mãe se foi, assim como o pai dela, então herdei todas as propriedades dele e, com capital suficiente, comprei novas terras; no campo dos negócios eu era temido. O receio de todos era que eu acabasse amigo dos generais, afinal, estávamos em uma ditadura; se gostassem de mim como do meu dinheiro, logo eu seria o governador, quem sabe, o presidente da República. Quanto exagero!

– Mas o senhor abocanhou mais terras, muito mais.

– Sim! Com o tempo, com o território beirando o de um município, nascia Vila dos Princípios, nome este dado em homenagem ao caráter de meu pai, cujos princípios reluziam feito ouro. As pessoas foram se achegando, formando o comércio, a indústria e, em pouco tempo, estávamos em uma cidade toda equipada, com os Dumont no topo, reverenciados como reis em uma monarquia inexistente. Alimentei essa roda e injetei o dinheiro necessário para que todos prosperassem, mas o que não prosperava era meu casamento. Cada dia mais infeliz, via em Franceline uma mulher de porcelana, daquelas que servem de enfeite a um casamento de faz de contas. Por mais que eu me achegasse, mais ela se afastava, sufocando o meu instinto de homem, o meu brio de empresário. E foi num desses momentos, que lhe dei uma surra de marcar todo o corpo, e fui para São Paulo, deixando-a caída à cama, sobre os cuidados de nossa empregada Ernestina. Fiquei sabendo que ela chamou um médico da região, um tal de Rubens, para atendê-la.

Quando retornei, duas semanas depois, Franceline estava melhor, mas diferente. Não me negava mais o carinho; era como se o mundo anterior tivesse desabado e um outro, afável, crescesse em seu lugar. Me arrependi de nela bater, mas... foi preciso! Meses depois anunciou uma gravidez tão desejada por mim. Por alguns anos fomos felizes! Dava a ela tudo o que o dinheiro pudesse comprar; ela fingia muito bem, até me enganava os sentidos, mas quando nossa filha Catharine caiu do cavalo, o baque... Bem! Nossas vidas acabaram ali! O sofrimento foi intenso! Descobri que havia sido traído. Ela negou até o último minuto... Hum!

– Ela o traiu mesmo? Já tinha ouvido esta história.

– Le mensonge n’a pas de pieds... A mentira tem perna curta! Fiz de tudo para que me entregasse o nome do infeliz, até uma nova surra ameacei, mas como eu havia dito, Franceline não era mais a mesma. Ela tinha algo de que eu desconhecia: o poder da persuasão. E fez meu coração se aquietar por longo tempo, mas meus pensamentos nunca foram aquietados. Até o dia que fingi ir para São Paulo e os flagrei naquele casebre, em nosso sítio. Sem que me vissem, entregavam-se um ao outro, como se fossem um único ser. Aquilo me enojava!

– E quem era o rapaz, doutor Dilermando? Fale! – insiste George. O homem não responde, parece estar diante de um confessionário, preocupado apenas em se livrar do enorme pecado que carregava às costas.

– Precisava me vingar... Logo, plantei a alienação parental na alma de Catharine, dizendo que eu havia sido traído por sua mãe. Como a menina me amava, não foi difícil manipulá-la. Mas era pouco! E quando o conheci, meu rapaz, percebi o quanto erámos parecidos... Essa ambição desenfreada, esse desejo de vencer na vida a qualquer preço... Nossa! Como você se parecia comigo mais jovem! De início estranhei um pouco, mas com o tempo percebi o quanto poderia ser útil aos meus propósitos, por isso lhe ofereci a mão de minha menina e todo o dinheiro que o mundo pudesse dar a uma pessoa, em troca de...

– Vingar-se? O que fez? Diga! Vingar-se de que forma?

Antes que pudesse finalizar a história, o homem deu uma longa tossida, virou-se de lado, agonizou e partiu, deixando o jovem Jorge da Silva com muitas dúvidas.

– Então, certa vez, ao abrir o cofre, anos depois, entendi tudo. Você já leu o testamento deixado por ele? Claro que não! Era mais prazeroso caminhar pelo jardim, sorrir para o motorista, brincar de namorico de infância, a assumir as responsabilidades. Inútil! Pois eu o encontrei e lá dizia, em letras frias, de um homem possuído pela seiva da vingança, que se você morresse, tudo seria do Estado; caso apresentasse algum desvio físico ou psíquico, o dinheiro seria meu.

– Não! Está mentindo! Meu pai não faria isso!

– Cristo! – exclama, Rubens, apavorado.

– Basta abrir o cofre e conferir. Você foi penalizada pela traição de sua mãe, como almejava Dilermando.

– Você... você... – diz, Catharine chorando, sendo acolhida por Ernestina.

– Quis enlouquecê-la! – lamenta a empregada. – O senhor é pior do que imaginava, seu George.

– Cale a boca, criada dos infernos! E se não fosse por você, teria conseguido. Como sombra de sua senhora, impediu-me de cometer as maiores atrocidades. O que fiz foi pouco, deveria ter sido muito mais violento, mais rude com as palavras, mais ordinário, talvez, assim, ficaria com o prêmio dessa desgraça de casamento: a sua herança!

– Não fale assim com Ernestina! – vocifera a patroa, sentindo os sintomas de sua enfermidade retornarem.

– E o que fará? Fale! É uma pobre coitada, num vestido caro, com seu carro chique e seus subalternos que agem como heróis. Tola! Ainda por cima, é burra como uma porta! Não percebeu que seu pai a usou para se vingar da traidora de sua mãe? Aliás, pai não! Dilermando nunca foi seu pai e isso acabou com ele. Ainda não entendeu a história? Dois mais dois são cinco? Credo! Como diz Tanaka, se juntar você e um asno, ninguém saberá quem é quem – gargalha.

– Isso é mentira! Mentira! Dilermando é meu pai sim! Sempre me amou!

– Amou... amou tanto que premeditou a sua própria loucura. Não vê que nunca foi uma legítima Dumont? Caia na real!

Não ser uma Dumont era a morte para ela, pois servia-se desse sobrenome para abrir caminho por onde quer que fosse.

– Ele está mentindo, não está, Ernestina?

– Infelizmente não, minha querida! – responde a empregada.

– Claro que não! – dispara o edil, voltando-se para o médico. – Não é, Rubens? Responda à mulher!

– E quem é o meu pai? Fale, cretino! – indaga, pegando-o pela gola. – Fale, cretino! Fale!

– É burra ou o quê? Quem é que sempre a socorre ao primeiro assovio, deixando tudo de lado? Acorde! Não quer enxergar... – devolve, libertando-se.

– EU SOU SEU PAI! – Rubens se revela.

Catharine volta-se para ele, abismada, como se quisesse negar o óbvio.

– NÃO... NÃO PODE SER! VOCÊ... VOCÊ É O HOMEM COM QUEM MINHA MÃE SE DEITAVA? NÃO! NÃO! MEU DEUS! NÃO PODE SER!

– E por que não? – zomba o vereador. – Por que ele é pobre? Imagine você saindo à rua, todos a apontarão, dizendo que é o fruto da traição de uma Dumont com um Arraia... Será um deleite às alcoviteiras.

– O senhor é doente! – declara a empregada.

– Desculpe, menina! – diz Rubens. – Eu também não sabia! Quando você sofreu o acidente, eu estava em Brasília, em uma palestra; foi o único momento que não a atendi. Se estivesse aqui, cobraria de Franceline; mas a partir dessa descoberta, antes mesmo que eu pudesse desconfiar de algo, ela desapareceu, deixando-me para sempre. Catharine, filha...

– Não me chame de filha... Eu te odeio! Eu te odeio! Você acabou com minha vida!

– Filha... Catharine, eu não sabia de nada, sua mãe se afastou de mim. Embora nosso amor fosse tão puro, ela preferiu o silêncio a me dizer a verdade, e eu só soube há pouco, por meio de uma carta confiada a Ernestina.

– É verdade! – confirma. – Ela pediu para eu nunca abrir o envelope; que deveria entregá-lo ao doutor Rubens apenas quando as coisas estivessem à deriva. Foi o que fiz!

– Você tinha de estar no rolo, não é, empregadazinha dos infernos? – desdenha George.

– Miserável! Não está contente com a desgraça que já fez a essa família? Você... – perde a paciência e pula para cima dele; contida, é arremessada à parede pelo vereador.

– ERNESTINA!!! – grita Catharine, indo ao seu amparo. – Meu DEUS!

– Eu sempre lhe prometi uma sova. Taí! Mesmo com um braço, dei-lhe conta, verme rastejante.

– Monstro! – grita Rubens, deferindo-lhe um soco no rosto, para a revolta do vereador, que revida, golpeando-o no estômago.

Ao ver o pai sem fôlego, Catharine se levanta e enfrenta o marido. Termina envolvida pelo monstro, com o pescoço prensado à parede.

– Largue minha filha! – sussurra o médico, caído ao chão, tentando recuperar o ar. – Largue!

– Meu Jesuis! O capeta tá sorto! – diz Moacir, chegando ao aposento do casal, com os olhos dilatados, ao deparar-se com a cena de guerra.

– Se eu vou perder tudo, você também irá! Para que quer viver, se perderá para sempre os regozijos de uma vida alimentada por um sobrenome de que não faz jus?

Por mais que tentasse, Rubens não conseguia separá-los, pois aquele ser era de uma força descomunal, como se carregasse o ódio de Hades nas veias.

– Largue-a! Largue-a! – implora o médico. – Me ajude, Moacir – apela, vendo o criado –, este homem está louco.

– Acabou a era dos Dumont. O único fruto daquele casamento de farsa morre aqui.

– Você ainda não percebeu, os Dumont não acabam com ela, ainda vivem, e em você, Jorge da Silva, ou melhor, George DUMONT.

– O quê? O que está me dizendo? – solta-a e se vira para o médico. – O que está me dizendo? Fale! Eu... o quê? É o que estou pensando? Não pode ser! Não! Não!

– Me ajude, Ernesti-ti-tina! – sussurra a ex-herdeira.

A empregada se levanta a muito custo, pega a mulher pelos ombros e, com a ajuda de Moacir, caminha até a porta; quando George percebe, tenta impedi-los, mas Rubens, como um anjo, reluz sua força e o contém. Catharine volta a verter sangue, para o desespero da empregada, que grita pelo jardineiro.

– Me ajude! Temos de levá-la agora para o hospital. Vamos, homem!

– EU VOU MATAR ESSA INFELIZ! – grita o camarista, que se desfaz do médico e parte para cima dos três; antes que pudesse cumprir a promessa, uma força o contém e o atira para longe.

– VOCÊ ESTÁ CONDENADO AO INFERNO! – anunciam as vozes, invadindo sua mente outra vez, em meio a barulhos de correntes e pedidos de socorro. – DAQUI VOCÊ NÃO SAIRÁ MAIS! AGORA É NOSSO!

Criaturas híbridas, de todas as cores, disputam com monstros esquálidos e seres de enormes chifres a saída do Inferno de Hieronymus Bosch63; querem o vereador a qualquer custo. Com o cheiro de pecado por todo lado, devorá-lo seria um deleite às criaturas das trevas. Não havia aquela que não lambesse os beiços por sua alma, desesperando o homem, que se debate todo, como se pudesse pôr fim à dor que agora o levava aos últimos fios do juízo.

– ME DEIXEM! ME DEIXEM – implora o homem. – Quem são vocês? Onde estão? Venham! Não! Não! Não, por favor! NÃÃÃÃÃÃO!

– O que está acontecendo com ele? – pergunta Catharine, vendo-o fora de si.

– A justiça mais feroz que existe é a consciência, como disse certa vez um escritor desconhecido. Ele está sendo devorado pelos próprios males. Que fim!

– Pareci que intá cum a tar da Pomba Gira.

– NÃÃÃÃÃÃÃÃO!!!! Parem!!!!! Rubens, me ajude!!! Não param de falar... – suplica pela ajuda do médico, que lhe estende as mãos, comovido com o que via.

Catharine, Ernestina e Moacir entram no carro, que sai disparado.

– Dona Adelaide, venha até minha sala, por favor! – pede o prefeito, numa educação incomum.

– Sim, senhor! – assusta-se a mulher. – Será que me entregaram? – pergunta-se.

– A senhora mandou o dinheiro da Houba? Não quero problemas para minha cabeça – tranca a porta, para o temor da mulher.

– Acabei de mandar.

– Hum! Melhor assim! E de onde tirou a grana?

– Da verba de combate ao mosquito aedes aegypti.

– Esperta! Sabe, às vezes é necessário deixar que as pragas se espalhem, assim como o tal mosquito, porque ele age como um controlador de população eficaz; se de cada dez que ele picar, cinco morrerem, conseguiremos controlar a quantidade de comida e de água, não sendo necessário dispor de rendas adicionais. Quer controlar a procriação dos pobres? Basta espalhar toda sorte de chagas, diminuir o Bolsa Família e secar os recursos da saúde. Com menos deles, sobrará verba para os que realmente merecem alguma atenção, como a nobreza, em que se encaixam minha família e eu. Não concorda?

– Senhor... tem certeza do que diz?

– Dedetizar é desnecessário, porque quanto mais mosquito, melhor, mais pobres morrerão, mais verbas sobrarão às obras de que pessoas de minha estirpe necessitam.

– Mas... isso é crimino...

– Criminoso? É isso que quer dizer? – entrecorta-a. – Talvez! Depende do ponto de vista – coça o queixo bem devagar. – Como a senhora, se por acaso desaparecesse de repente, faria falta para quem?

– Pre-pre-prefeito? Por que está dizendo isso?

– Sente-se, sente-se, minha filha – manda –, tome uma dose de saquê.

– Eu não bebo.

– Tome! – ordena, visivelmente transtornado, aproximando-se dela. – Vai se sentir melhor!

– Pre-prefeito!

– Tome, sua ordinária – agarra-a pelo pescoço. – Não disse que se sentiria melhor? É assim que dou fim àqueles que ousam atravessar meu caminho.

– Vamos, Moacir! – pede Ernestina, em desespero.

– Istô correnu u mais qui possu! – responde, virando-se para ela, que grita.

– Cuidado!!! Meu Deus! Você pegou um homem!!! Moacir do céu!!!

O jardineiro, trêmulo, sai do carro e se depara com Alberto, caído ao chão.

Encerra com a música (Honor Him - Yvonne S. Moriarty [Orchestrator]).

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1. É um pássaro da mitologia grega que, quando morria, entrava em autocombustão e, passado algum tempo, ressurgia das próprias cinzas. Outra característica da fênix é sua força que lhe permite carregar cargas muito pesadas enquanto voa, lendas havendo nas quais chega a carregar elefantes. Finalmente, pode-se transformar numa ave de fogo.

2. Ditado francês, que traduzido pra o português, quer dizer – depois da tempestade, vem a bonança.

3. É a deusa das bodas, da maternidade, e das esposas, equivalente de Juno no mito romano. Irmã e esposa de Zeus, é a rainha dos deuses, e patrona da fidelidade conjugal.

4. Hades, filho de Cronos e irmão de Poseidon e Zeus, governa o mais sombrio território do mundo. Após uma grande batalha com os titãs, os irmãos saem vitoriosos e dividem a Terra. Zeus passou a dominar os céus, Poseidon os mares, e Hades o submundo.

5. Foi um pintor holandês do século XV à frente do seu tempo que relatou realidades ora fantásticas ora religiosas.



autor
Carlos Mota

A novela "Flor-de-Cera" é remake de "Venusa Dumont - da memória à ressurreição" de Carlos Mota
 
elenco
Grazi Massafera como Catharine Dumont
Thiago Lacerda como George Dumont
Ricardo Pereira como Joaquim
Elisa Lucinda como Ernestina
Carlos Takeshi como Tanaka Santuku
Miwa Yanagizawa como Houba Santuku
Jesus Luz como Pietro Ferrara
Lucinha Lins como Franceline Legrand Dumont
Lima Duarte como Dilermando Dumont
Herson Capri como Doutor Rubens Arraia
Tonico Pereira como Moacir
Werner Schünemann como Paineiras Ken
Rosi Campos como Adelaide
Humberto Martins como Alberto Médici
Cauã Reymond como Ricardo
César Troncoso como Zé dos Cobres
Ilva Niño como Josefa
Selton Mello como Zelão
Matheus Nachtergaele como Meia-noite
Caio Blat como Delegado de Vila Bonita
Caio Castro como Leandro
Alexandre Borges como Doutor Jaime
Caroline Dallarosa como Carmem
Fernanda Nobre como Stela

participação especial
Stênio Garcia como Doutor Lúcio
Drica Moraes como Desirê
Marco Nanini como Chico Santinho

atores convidados
Ary Fontoura como Doutor Tobias
Alexandre Nero como Júlio Avanzo
Elizangêla como Maria

a criança
Valentina Silva como Alana

trilha sonora
Lágrimas da Mãe do Mundo - Sagrado Coração da Terra (abertura)
Honor Him - Yvonne S. Moriarty [Orchestrator]

desenhos
Andrea Mota

produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela

Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO


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