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Flor-de-Cera: Capítulo 35

Novela de Carlos Mota
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CENAS DO CAPÍTULO ANTERIOR:

– Vejo esta história com outros olhos... – Júlio solta um risinho maledicente. – Talvez possamos tirar proveito de tudo isso.

– Seja mais claro! Aonde quer chegar?

– A imprensa – quarto poder, como alguns dizem – não se alicerça apenas na sobriedade dos fatos; em algum momento de sua história, há de se fartar também nos mesmos pratos em que comem estas figuras consideradas republicanas.

Percebendo que sua história poderia ser enterrada pelos mandatários da empresa, Pietro abre o arquivo e o dispara para um outro e-mail.

– Covardes! Só pensam em dinheiro! A vida não é moeda de troca; pelo menos, não para mim. Está feito! – diz para si mesmo. – Não me arrependo do que fiz!

– Pois é bom se arrepender! – ameaça-o Tanaka, chegando à redação do jornal. – Aqueles que ousaram me desafiar, hoje alimentam os vermes!




FLOR-DE-CERA - CAPÍTULO 35

 

O chão estava aberto pelas profundas feridas do tempo, as árvores secas, com galhos pendurados por todos os cantos, os animais em pele e osso, agonizando, e os moradores, como Hércules-Quasímodos¹, carregavam nos ombros – a muito custo, o resto de vida que ainda possuíam.

O sol, impiedoso, bebia o resto do riacho, matava as plantas, secava as vidas humildes de um sertão onde os políticos só pisavam apenas no período das campanhas eleitorais. A paisagem era desesperadora! O cachorrinho vira-lata que ora corria, ora se aquietava, procurava em meio à vegetação esturricada um preá para matar a fome dele e dos seus. Coitado! O nome era Tubarão, porque em épocas de fartura, nada sobrevivia ao seu apetite. Em épocas de escassez, ele seria a comida dos vermes, se não lutasse tão bravamente para retirar um pouco de água dos cactos e se alimentar das carcaças dos bichos.

Parte de seus donos – outrora mais de dez, hoje não mais que sete pessoas – sentados à beira do barraco de barro quebradiço, assistiam àquela desgraceira como que sem reação, à exceção da mais velha, que ajoelhada no chão de terra, acendia velas à sua santa, na esperança da chuva que nunca vinha e no milagre que os resgatasse da fome, da seca e da morte. O que seria deles?, perguntava a mulher à sua santinha. O que seria deles? Meu Deus! Chegariam a ponto de comer a carne purulenta dos animais, caídos a todos os cantos, de que se fartavam os urubus? Passariam pelo mesmo desespero dos retirantes de O quinze²? Que vida era aquela?

– Lá vem o Palhoça, mãe! Veja, mãe! – grita uma das filhas, levantando-se do chão, ao avistar um cavalo se aproximando. – Veja, será qui eli conseguiu arguma cumida?

– Ondi, fia? – pergunta, à janela do barraco, ajustando os óculos. – Mais é eli memu? Tomara, fia, as criança tão choranu de fomi. Deus todo misericordioso, olhe pra gente. Não guentamus mais toda essa desgracera.

O vestido de chita, com um rasgo bem próximo do umbigo, cobria a cadavérica mulher, em cujas mãos calejadas, com unhas roídas e pele ressecada, encontrava-se uma vela acesa... Seria o farol daquele lugar? Vendo o cavalo, Tubarão latia como um louco. Ia para lá e para cá, roçava o mato, caminhava para frente e para trás, talvez tivesse a esperança de não acabar com a amiga Baleia, do vizinho Fabiano. Coitado!

– Quem vem lá não é o Palhoça! – anuncia o outro filho, com um dos olhos cegos, dentes saltados para frente, barriga estufada com pernas bem finas. – É outra pessoa! O cavalo do nosso amigo é mais magro.

– Então quem será? Meu Deus! Más notícias?

– Mais, mãe? Nós já tamu no bico du urubu; o qui seria então? Já não resta mais nada, só morrê e sê interrado.

A mulher deixa o casebre, avança alguns passos à frente, sendo castigada pelo sol, aquele se apresenta como o único algoz daquela terra, daquela gente miserável, que não existe; apenas sobrevive!

– Fia, me segure, faz favor!

– O que é mãe? A senhora tá passanu mar?

– Carmi, mia fia, meu coração tá apertadu. Lá vem notícia ruim. Segura eu, menina de Deus.

A moça a pega pelos braços.

– Saia do sol, mãe! Sua pressão deve de ter caído!

– Não é nada disso, arguma coisa está apertanu meu coração; eu sinto, uma disgracera tá cheganu. Aqueli homem vai nos trazê a morte.

– A morte já está aqui – corrige-a o filho.

– Não, fio, aqui está apenas o véu dela, porque a danada ainda não chegou, está vino com aquele indivíduo lá.

O homem chega. Mesmo ressabiado diante daquela família esfomeada, apeia do cavalo e pergunta:

– Quem é dona Josefa Ferreira?

– Sô eu moçu, sô eu! – adianta-se a mulher. – O qui aconteceu? Sinto que o sinhô é o portadô de arguma disgraça. Pois fali, sô mais forte do que seus zóio podem crê.

– Sou o delegado Chico Santinho... – O homem se inquieta com as condições insalubres do lugar e dispara: – Como estão aguentando a tudo isso? Por acaso estão sem comida? Já receberam o Bolsa Família?

– Estamos dois dias sem comê nada e a água que temu tá naquela garrafa de barro; foi tirada hoje cedo do açude ondi também bebem as vacas. Mas é isso ou nada. A genti dá uma golada por dia, só uma golada, pra que o bucho não pare de funcioná.

– Mas não me responderam, já retiraram o Bolsa Família? Não fizeram o cadastro?

– Nóis feiz, homem – adianta-se a filha. – Mais nóis nunca recebeu quarqué vintém. Tamo nesse miserê há quase um mês.

– Quem daqui sabe ler?

Ninguém se manifesta.

– Pois hei de ajudá-los, alguma coisa está errada, pois todas as famílias da região já estão recebendo a ajuda do Governo.

– Pegaram o dedo da mãe e carimbaram num papel há uns tempo atrais. Até uma dentadura a muié que veio aqui prometeu pra ela, pruque, quando tem arguma carne, ela só chupa, não dá pra mordê, sinão machuca a gingiva.

– Meus Deus! – diz o homem consigo mesmo. – Até aqui chegou a corrupção. Estão desviando o dinheiro dessa gente, só pode. Pobres sertanejos de Euclides da Cunha... Como são fortes!

– Mais o sinhô num tá aqui pra falá de Borsa Famía, nem para sabê se nóis come ou bebe todo dia, né, seu delegado? O qui trais a sua otoridade aqui? É arguma desgracera, né? Ieu sinto na arma.

O homem passeia pelo lugar, como que impressionado com a miséria.

– A senhora tem razão, dona Josefa!

Antes que ele pudesse expor os motivos de sua vinda, uma aura atirada do céu invade o casebre, apaga as velas, balança a santinha – que está em um altar –, e a derruba, partindo-a em duas, para o desespero da mulher, que se agarra à filha, aos berros:

* (introduzir música The Cure - Final Themes Soundtrack)

– Fia, minha santinha! Minha santinha! Fia... – chora em desespero. – Minha santinha ! O que será di nóis agora?

O delegado, assim como os filhos, apiedam-se do drama da forte mulher e tentam, em vão, acalmá-la.

– Eu sei o qui foi... Agora eu sei! Aquela santinha ieu ganhei du meu fio Joaquim... Arguma coisa aconteceu com ele, ieu sei, meu coração de mãe fala, grita, geme de dor. Ai, fia, mi sigure! Sua véia tá fraca, molengando das pernas.

– Acalme-se, dona Josefa! – pede o delegado, ajudando a filha a segurá-la.

– Fale, seu doutô, foi com meu fio, não foi? Fali, homi, cale a dor que grita nu peito desta mãe sertaneja.

– Eu sinto muito – diz o homem, retirando o chapéu e abaixando a cabeça.

– NÃÃÃÃÃÃO! Uma mãe suporta tudo nessa vida, menus perdê um fio. Como dói! Como dói! Pega lá minha santinha, Carmi. Pega lá!

A moça obedece, e com as duas partes da estátua na mão, entrega-as para a mãe, que as junta e começa a pedir uma explicação:

– Pru que minha santinha? Pru quê? Ieu num tô sendu boa comu a senhora qué? Me diga, mãe de todas as mães, mãe do fio di Deus, pru que a senhora deixô que levassem minha cria? Pru que num mi levo in seu lugar? Pru quê? Ieu tinha avisado u Juaquim pra qui não fosse pra Sun Paulo, mas eli num mi ouviu; tá aí, perdeu a própria vida. Qui dor! Qui dor! Senhô Deus, me acuda! Venha ao meu socorro.

Até Tubarão, antes irrequieto, agora se cala, refugiando-se à carcaça de uma carroça.

– Acabamos de receber a informação da morte de Joaquim por meio de um hospital da cidade de Vila dos Princípios, no interior do Estado de São Paulo. E tem mais, dona, que seja forte agora, pois precisará. Ele também é acusado de tentar assassinar um vereador, estava preso, antes de vir a óbito.

– Meu Juaquim... um assassino? Não! Não pode sê, doutô, deve de ter argum engano. (finalizar música)

– Não há engano, dona Catharine – responde Ernestina, agora no hospital de Vila dos Princípios, no quarto para onde a herdeira dos Dumont havia sido conduzida. – Joaquim morreu mesmo!

– Oh meu Deus! Como pude deixar que isso acontecesse, como? A culpa foi minha! Eu deveria ter feito mais, defendido-o com todas as minhas forças, mas fui estúpida, tive medo de me expor, de mostrar ao povo que estava a proteger alguém que havia atirado em meu esposo.

– Ele não atirou contra o senhor George.

– O que está me falando, Ernestina? Ele...

– Isso mesmo, dona Catharine. Tudo foi premeditado por aquele que ainda considera seu esposo. Aqui está – retira da bolsinha o pen-drive –, a câmera filmou o momento em que o peste dá um tiro nele mesmo só para que o coitado fosse incriminado. Armação de quinta categoria!

Catharine abraça-a e chora, chora até soluçar.

– Acalme-se... – diz a empregada, também aos prantos. – O que fizeram com aquele rapaz foi monstruoso, por isso estou aqui, não poderia deixar de lhe dizer a verdade. Joaquim, como sabemos, a amava muito, tinha o coração belo como o de um príncipe dos contos de fadas e à senhora amou como se fosse a última donzela do mundo.

– Eu... eu... também o AMEI, Ernestina! Mas tive medo de assumir um romance plebeu, cometer uma traição, desenterrar a imagem de minha mãe... Como sofri tanto tempo calada!

– Agora sente o que dona Franceline passou? Por amar outra pessoa, foi crucificada, inclusive pela senhora, a própria filha. Perceba, quando se ama de verdade, traição deixa de ser um palavrão no livro dos hipócritas para florescer na alma dos amantes.

– A culpa foi minha! Por que sou tão fraca?

– A senhora não é fraca, apenas teve medo... e quem não tem medo nessa vida? Todos nós! Como âncora, ele nos aprisiona ao cais da insegurança! E para se libertar de lá...

– Joaquim... – Catharine revisita um dos momentos mais lindos com o chofer.

– Sim, senhora! O que posso fazer para ajudá-la? – pergunta o rapaz, aproximando-se da mulher, que estava a contemplar as flores-de-cera.

 


Dona Josefa e Tubarão enfrentam a seca de um sertão impiedoso...

 

– Pode me acompanhar pela excursão ao jardim? Ando-me muito só, ultimamente.

Os olhos apaixonados do jovem reluzem com o pedido. Era o momento que mais esperou na vida. Por alguns minutos, ela seria só sua. Era como se estivesse no Olimpo, aos pés de Vênus. O sentimento era mágico. Meu Deus! Que amor era aquele? Era como a ferida que dói e não se sente, a dor que desatina sem doer; é como querer estar preso por vontade, servir a quem vence, o vencedor. E, ali, o vencedor, por assim dizer, era ele, que dela ganhava migalhas de segundos, mais valiosos que os quilates de muitas joias.

– Veja, Joaquim! Esta é a flor-de-cera, está aqui há quase meio século, adornando um jardim construído especialmente para esta casa, a pedido de meu pai.

– Flor-de-cera? Nunca tinha visto.

– É linda, não é? – arranca uma das flores e a entrega ao motorista. – Veja como é cerosa, o que lhe dá essa aparência de porcelana; a delicadeza é a sua maior dádiva. Parece até obra de um artista inspirado que modelou a espécie em cera para formar um arranjo delicado e singular, onde cada inflorescência é uma atração.

– Que lindo!

– Mas não são palavras minhas, são de Janete Tir, se não me engano, uma jornalista. Acho!

– Elas se parecem com a senhora.

– Comigo? – sorri, sem graça, com a face ruborizada.

– Sim! A senhora é tão delicada quanto! Veja, seus olhos são como o céu; a pele, branca, lembra a neve, e os cabelos louros, grandes, são como os raios de sol, iluminando qualquer escuridão, por mais íntima que seja.

– Está me deixando sem graça – ri, abaixando a cabeça, enquanto caminham pelo grandioso lugar. – Não sabia que lia poesias, porque o que fez, foi declamar...

– Estou aprendendo com Ernestina! Me desculpe, não queria ofendê-la!

– E não me ofendeu, é que não estou acostumada a palavras tão lindas e profundas. Como queria que fosse...

– ... Fosse? Diga senhora!

– Nada! Continuemos a caminhar. Olhe as borboletas, Joaquim, correm pelo céu aberto, libertas das amarras da vida. Como eu gostaria de ser uma delas, poder voar para bem longe, distante de tudo isso... – começa a correr e a pular, de um modo todo singular, para o espanto e a comoção do homem, que tem os olhos contornados por um brilho irradiante... – Como queria ser uma borboleta, sentir-me livre das amarras sociais, ainda que uma vez. Como eu queria!

Perde o equilíbrio, sendo resgatada pelo motorista, que encontra nos olhos dela o fogo da paixão e nos grandes lábios o mel de uma Iracema virginal. Olham-se profundamente, mas antes que ele arriscasse quebrar o regramento social, ela se ajeita e se afasta.

– Vamos voltar para o casarão, tenho de ver Alana, acordou meio doentinha, logo o doutor Rubens chegará.

– Flor-de-cera!

– O que disse, Joaquim? – indaga-o, com os olhos reluzindo a paixão.

– A SENHORA É A MINHA FLOR-DE-CERA!

– Flor-de-cera! – diz, em meio aos soluços, resgatando-se das memórias.

– E assim continuou a apreciá-la – anuncia Ernestina. – Como uma flor-de-cera! Sempre me dizia que sua pele era branca como a brancura prepotente das garças pantaneiras de Manoel de Barros³; que seus olhos azuis, como pedras preciosas cravadas em joia rara e seus cabelos, como o sol que toca o mar nas tardes, dourando-o, como que o deixando envaidecido com tanto esplendor. Morreu vendo-a assim!

– E eu não lhe dei o valor que tanto merecia. Agora é debalde! O que me resta, minha boa amiga? Um homem vil feito George, obcecado pelo poder... Somente!

– Eu não diria isso, talvez o destino a presenteie com algo que nem imagine.

– Olá, minha querida! Está melhor? – pergunta doutor Rubens, adentrando o quarto. – Já sabe de Joaquim? Cristo! Se pudesse trocar de lugar com você, não pensaria duas vezes, afinal, nenhum pa... amigo gosta de presenciar o sofrimento do outro.

– Com certeza! Assim como os amigos, os pais também não gostam de ver seus filhos entregues às garras ferinas da dor, não é, doutor Rubens? – provoca a mulher, percebendo que ele ainda guardava o segredo.

– É verdade, Ernestina! – concorda o médico, visivelmente sem graça.

 

– Quero ver Joaquim! – pede Catharine.

– Não é possível, minha querida! Ele está sendo preparado para partir, sua família o aguarda; aliás, talvez o aguarde, porque, pelo que soube, estão catando moedinhas emprestadas da vizinhança para poderem pagar o traslado do corpo. Coitados! Muito humildes! O delegado da pequena cidade disse que lhe cortou o coração a situação da família de Joaquim, principalmente da mãe, que não acredita até agora que ele tenha morrido, ainda mais, acusado de assassinato.

– Ajude-os, dona Catharine! – implora Ernestina. – Eles precisam da senhora! Como irão levar o corpo de Joaquim até lá?

– E se não conseguirem os recursos até amanhã, o pobre será enterrado como indigente em um cemitério de Vila Bonita – anuncia o médico.

– NUNCA! – sentencia a mulher. – Até porque, ele não assassinou ninguém.

– George está vivo, tem razão...

– Doutor – interrompe-o –, George premeditou tudo, está neste pen-drive.

– Pois acredito! E tenho mais a lhes dizer.

– E o que seria?

– Joaquim não morreu pelas complicações; foi assassinado.

– Co-co-como assim ? – exigem as duas.

– Os exames constataram o que eu pensava: alguém invadiu este hospital e o sufocou. A pele, da cor como estava, entregou-nos todas as pistas.

– Isso é grave! Checaram todas as câmeras? Foi assim que Moacir e eu pegamos o safado do vereador no pulo – diz Ernestina.

– Tudo! Não há nenhum registro; para falar a verdade, o assassino foi esperto, cortou o fio da energia antes de entrar.

– E quem poderia ser? – pergunta Catharine.

– E tem dúvidas, dona Catharine? Quem desejava a morte do pobre? Seu marido! Tenho certeza! Simulou um suposto crime e terminou por praticá-lo. Tinha de apagar as provas antes que descobrissem a farsa que criou. Ainda bem que temos o pen-drive! – responde a empregada.

– Vamos com calma! – pede o médico. – Não temos como provar isso; ainda que tivéssemos, qual autoridade nos ouviria? Aqui só os Dumont são ouvi...

– EU SOU UMA DUMONT! – anuncia a mulher, levantando-se da cama, para a surpresa de todos. – Se George estiver metido nisso, nada me segurará; hei de ir ao inferno, se preciso for, para limpar a honra do homem que tanto amei e, que por um capricho meu, terminou sendo levado pelo tempo.

– Catharine... – assombra-se, Rubens. – O que pensa fazer?

– O que eu já deveria ter feito há muito tempo. Espere e verá!

– Mas... mas... está se recuperando, não pode sair agora. Poderá ter uma recaída.

– Que seja, Rubens! Se isso acontecer, morrerei feliz por saber que a memória de um jovem humilde, vindo do sertão, que ousou amar uma mulher tão covarde como eu, estará em paz com os fortes; não relegado à cova do esquecimento, acusado por algo que não fizera. E quanto à família de Joaquim, informe, tudo será pago por mim – os olhos reluzem como faróis em alto-mar. – E quanto à mãe dele, traga-a até aqui, tenho algumas palavras a lhe dizer, a começar por perdão. Ninguém sabe o que é perder um filho; aliás, eu sei! Até hoje choro às sombras a perda de minha criança. E como dói. É uma ferida que ameniza com o tempo; mas não encontra cura.

– U qui u sinhô tá dizeno, delegado?

– A patroa de seu filho pagará todas as despesas, pelo que percebi, ela tinha grande apreço pelo rapaz.

– Minha santinha mi ouviu! Veja, Carmi, vão trazê o corpo do irmão docêis.

– Trazer não...

A mulher se cala.

– A senhora vai buscar. Dona Catharine faz questão de que vá até ela, tem muito a lhe dizer.

– Mas... mas... como..? Ieu não tenhu ropa.

– Pegui minha saia, mãe, aquela qui a senhora custurô pra missa.

– Não se preocupe com isso, o doutor com quem conversei, um tal de Rubens, garantiu que todo o processo será o menos penoso para a senhora. Fique tranquila! Roupas não fazem pessoas; caráter constrói ídolos! E isso, pelo que ouvi, o jovem tinha demais, por isso recebe todas as honras póstumas, ainda que a acusação de tentativa de homicídio permaneça no sistema.

– Como é que é? Os senhores estão me ameaçando? – pergunta o prefeito, na sala com Tobias e Júlio. – É isso que entendi?

– Imagine, prefeito! Nunca faríamos uma coisa dessas, isso não faz parte de nossa índole.

– Pois então, o que possuem de verdade?

– Ouça e verá.

Toda a conversa dele com Paineiras é revelada, para o espanto do homem, que cai sentado a uma cadeira.

– Co-co-como? Quem fez isso? Imitaram minha voz direitinho.

– Prefeito, vamos tratar o assunto como profissionais, pois já fizemos a perícia no material, e o áudio é legítimo. Negar seria pior. Amanhã, ao invés de escora à campanha do vereador ao cargo de prefeito, será o senhor o próprio cupim que a devorará. Até imaginamos a manchete, não é, doutor Tobias?

– Claro! – tosse o idoso. – Pensamos em “Prefeito manda matar chofer dos Dumont” ou “Prefeito e delegado confessam crime hediondo”; melhor “Cadeia aguarda prefeito Tanaka Santuku”. Qual o senhor prefere? Queremos ouvir sua opinião, porque aqui, como numa novela literária interativa, o senhor poderá escolher o fim que melhor servir aos seus propósitos.

– Quanto? – parte para cima dos representantes da imprensa. – Quanto querem por isso?

– Nossa, prefeito, como o senhor é direto. Não quer primeiro virar a garrafa, como sempre faz? Sentimos falta de seu bafo de pinga.

– Saquê, meu filho! – corrige-o com ira. – Pinga é coisa de pobre! E não me misturo com essa raça.

– Ué, então quem diz que ama o povo não é o senhor? Quantos comícios eu participei em que disse até mesmo ter vindo do povo? Então aquela história de que era pobre, que foi alfabetizado por meio de gibis, que sua mãe foi uma operária incansável, foi tudo balela? – cobra Júlio, deliciando-se com o próprio veneno.

– Bem... hum! – desconversa. – Quanto é? Fale o preço de vocês e eu pagarei cada vintém, desde que...

– O que quer além da gravação? – inquire Tobias.

– O nome da fonte.

– Impossível! A Constituição nos proíbe.

– Não venham dar um de bons samaritanos aqui; se resolveram entrar no meu jogo, que entrem para ganhar ou serão engolidos, porque no campo onde se arriscam, nunca perdi uma partida.

Tobias e Júlio se olham assustados, percebendo que o prefeito sabia lidar muito bem com qualquer situação que o ameaçasse. Era cobra criada no assunto.

– Quero a fonte... Sei que o jornal de vocês tá a um passo da falência, pensa que não acompanho os pedidos de recuperação judicial publicados na coluna dedicada ao comércio? Sei que vocês têm uma dívida de oito milhões, basta um credor não receber uma das parcelas, para que vocês encontrem a sarjeta, seus miseráveis. Mas serei bom, entreguem a cabeça desse traidor e receberão, ainda hoje, dez milhões.

– DEZ MILHÕES??? – dizem os dois, ao mesmo tempo.

– A fonte não temos, mas é uma mulher muito feia, que esteve aqui, à procura do Pietro.

– A bicha é toda colorida, com pelos no buço que mais parecem bigodes de uma coruja-diabo?

– É essa mesma! – confirma o editor-chefe.

– EEEEEita! A infeliz só pode ser a Dona Adelaide! Por isso ela não fez o depósito para a Houba. Hum! Como não pude imaginar? Estava mancomunada todo esse tempo com o delegado. Traidora de uma figa! Deixe-a comigo! Ainda hoje vai receber uma azeitona na testa... ops, quer dizer, vou bater uma prosa com aquela ingrata – desconversa, ao perceber ter falado demais. – Pois bem, senhores, outra exigência.

– Fale, prefeito.

– Mandem embora o jornalistazinho; nada poderei fazer com ele se estiver sob as asas de vocês.

– Isso é fácil! Vá chamá-lo, Júlio.

 


Catharine passeia pelo jardim na companhia de Joaquim...

 

– Certamente!

O editor-chefe vai até a redação, procura por Pietro, mas não o encontra, então pergunta a Leandro, o companheiro dele de reportagem, quando recebe um pequeno envelope. Ao abri-lo, a face se fecha. Ele pedia demissão, alegando não fazer parte da quadrilha que agora se instalava no jornal.

– Droga! O que esse moleque tem na cabeça? É bem capaz de nos ferrar! – profere.

Abre o computador dele e checa os e-mails, quando se depara com um, que o faz saltar da cadeira, aos berros.

– Catharine! Graças a Deus! – dissimula George, vendo-a entrar no quarto da mansão.

– Por que você matou Joaquim? Fale, criatura do demônio! – mostra-lhe o pen-drive, com Rubens e Ernestina às costas.

O homem toma um susto e se engasga com a saliva.

Encerra com a música (Sagrado Coração da Terra - Marcus Viana).

_____________________

1. Euclides da Cunha em sua obra Os Sertões traçou a imagem do sertanejo como um homem forte, apesar da fisionomia fraca. Só um homem forte consegue resistir às adversidades do sertão. O sertanejo é caracterizado por Euclides da Cunha como um “Hércules-Quasímodo, referências a dois importantes personagens (Hércules – semideus latino, encarnação de força e valentia; e Quasímodo – o famoso ―Corcunda de Notre-Dame, pessoa disforme que cuidava do sino da Catedral de Notre-Dame, no romance Nossa Senhora de Paris, de Victor Hugo), mostrando a oposição entre a força física e a fragilidade da imagem.

2. O Quinze é o primeiro romance da escritora modernista Rachel de Queiroz. Publicada em 1930, a obra regionalista e social apresenta como tema central a seca de 1915 que assolou o nordeste do país.

3. Manoel Wenceslau Leite de Barros foi um poeta brasileiro do século XX, pertencente, cronologicamente à Geração de 45, mas formalmente ao pós-Modernismo brasileiro, se situando mais próximo das vanguardas europeias do início do século e da Poesia Pau-Brasil e da Antropofagia de Oswald de Andrade.


autor
Carlos Mota

A novela "Flor-de-Cera" é remake de "Venusa Dumont - da memória à ressurreição" de Carlos Mota
 
elenco
Grazi Massafera como Catharine Dumont
Thiago Lacerda como George Dumont
Ricardo Pereira como Joaquim
Elisa Lucinda como Ernestina
Carlos Takeshi como Tanaka Santuku
Miwa Yanagizawa como Houba Santuku
Jesus Luz como Pietro Ferrara
Lucinha Lins como Franceline Legrand Dumont
Lima Duarte como Dilermando Dumont
Herson Capri como Doutor Rubens Arraia
Tonico Pereira como Moacir
Werner Schünemann como Paineiras Ken
Rosi Campos como Adelaide
Humberto Martins como Alberto Médici
Cauã Reymond como Ricardo
César Troncoso como Zé dos Cobres
Ilva Niño como Josefa
Selton Mello como Zelão
Matheus Nachtergaele como Meia-noite
Caio Blat como Delegado de Vila Bonita
Caio Castro como Leandro
Alexandre Borges como Doutor Jaime
Caroline Dallarosa como Carmem
Fernanda Nobre como Stela

participação especial
Stênio Garcia como Doutor Lúcio
Drica Moraes como Desirê
Marco Nanini como Chico Santinho

atores convidados
Ary Fontoura como Doutor Tobias
Alexandre Nero como Júlio Avanzo
Elizangêla como Maria

a criança
Valentina Silva como Alana

trilha sonora
Lágrimas da Mãe do Mundo - Sagrado Coração da Terra (abertura)
The Cure - Final Themes
Sagrado Coração da Terra - Marcus Viana


desenhos
Andrea Mota

produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela

Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO


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