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Flor-de-Cera: Capítulo 34

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CENAS DO CAPÍTULO ANTERIOR:

– Vilão? Fala como se estivéssemos em uma novela – reclama o homem. – Seja objetivo. Quem mandou matar o motorista e o tal policial? Desembuche!

– O PREFEITO!

Tobias arregala os olhos de susto.

Em seu quarto, com toda a discrição do mundo, Ernestina calça uma sapatilha vermelha bem velhinha, toma um pen-drive em mãos e o guarda numa bolsinha. Ajeita os cabelos com uma escova, fixa-se à sua imagem no espelho e anuncia com todas as forças de sua alma:

– É chegada a hora do acerto de contas! O embate tão esperado entre a “criada” e seu “senhor” tem início! Que vença a verdade!

Ao abrir a porta, dá de frente com o prefeito, que traz o DVR debaixo dos braços.

– Aonde a mocinha pensa que vai?




FLOR-DE-CERA - CAPÍTULO 34


    

 

Ernestina dá um passo para trás, empalidece, respira bem fundo e não consegue responder nada ao prefeito, que lhe dá um empurrãozinho, fecha a porta do quartinho e dispara:

– Não quer me falar? Pense bem! Não tenho o dia todo para suas brincadeiras – diz, levantando a camisa, para que a mulher percebesse a pistola que está presa ao cinto. – Sabe – refere-se à arma –, não sou muito de usá-la, mas, em alguns casos se faz necessária, como agora.

– E o que pretende fazer? Me matar? Olhe as câmeras, estão em todos os lugares.

– Engana-se, tolinha! Aqui onde estamos é o ponto cego do sistema de segurança. O que tem para me entregar? Vamos, fale! Sou todo ouvidos – os olhares do homem são como os dos lobos diante dos cordeiros.

– Na-nada! – responde, segurando a bolsinha com todas as forças do coração. – Se eu entregar – pensa –, será o fim de tudo! Como poderei ajudar dona Catharine? Inocentar o pobre do Joaquim? Pois bem, enfrentemos o inimigo com fé! Seja o que Deus quiser!

– Tem certeza? Senti a falta de um pen-drive, para ser sincero, um que fica acoplado a este DVR. Por acaso está com você?

– Não! Não, claro que não! E por que estaria? Sou uma simples empregada, para que precisaria de um pen-drive? Aliás, prefeito, o que é um pen-drive? Sou completamente leiga em informática.

– Sei! Muito esperta, pelo menos se acha! Pois quero sua bolsinha, alguma coisa me avisa que dentro dela está o que tanto procuro e que alega desconhecer.

– Eu não permito que o senhor mexa em minhas coisas.

– Oxi! E desde quando aquele pen-drive é seu, criatura? Pobre tem uma mania de se apropriar das coisas dos outros. Bando de estúpidos. Claro que você sabe do que estou falando, mas, de fato, tem outras ambições, não é? Entregar-nos todos à polícia? Coitada! São todos nossos! Sei, quer ir à imprensa? Talvez aceitem, mas terão de enfrentar a ira da família Dumont, porque até que se prove o contrário, Catharine permanece com o mesmo brasão de outrora, com os mesmos admiradores. Hum! Ou é burra ou se faz. Vamos, entregue-me o pen-drive, George me contou tudo! – ordena, desfazendo-se do DVR e pulando para cima dela, que tenta, de todas as formas, manter a bolsinha às suas mãos.

– Pare! Pare! Me deixe! Vou gritar! – apavora-se.

– Gritar? E quem vai ouvi-la? O capixaba do Darci, digo, Moacir? Passo-o no mel em três tempos. Vamos, entregue-me já! – exige, sacando-se da arma e apontando-a para ela. – Se não me entregar por bem, meto uma azeitona na sua testa. Não terei piedade alguma. Vamos, bruaca, entregue já! – dá uma golada. – Está acabando meu saquê... Aff! Então vamos encurtar esse lengalenga. Dê-me o que peço e tudo voltará ao normal: eu à prefeitura, e você, à insignificância de sua vida! – gargalha.

O celular dela toca. Trêmula, diz:

– Preciso atender! É importante!

– Oh, minha filha, você está de brincadeira, né? Tá para levar uma bala nos “zóio” e diz que tem de atender o celular? Pois deixe a pessoa esperar, isso aqui não é o programa do Ratinho, onde cada um faz o que quer. Acha? Parar uma cena de suspense para atender uma ligação? É o fim da picada! Ainda se fosse de alguém importante da alta sociedade como o governador, o presidente da República...

– É mais importante que todos eles, garanto; e se eu não atender, a coisa vai sobrar para o senhor.

– Para mim? – dá uma risada fina, que dói até a alma. – Isso é uma ameaça? Quem seria capaz de me afrontar? Sou o prefeito Tanaka Santuku, o homem mais temido de toda a região, e os que duvidaram disso, pagaram com a própria história. Fale! Quem é o indivíduo?

– Não é ele, é ELA! Houba Santuku!

– Pois fale... glup – engasga-se, processando as palavras da mulher. – ... o que disse? Repita!

– Dona Houba Santuku.

– EEEEEEITA! A porta do inferno se abriu. Mas... mas... co-co-como... por que ela está te ligando?

– Porque somos amigas! – Ernestina recupera a cor e a coragem e parte para cima do prefeito, com toda a audácia do mundo. – Somos muito amigas! Nos falamos quase toda semana!

– COMO ASSIM? AFF! – sorve duas ou três goladas de uma só vez. – COMO ASSIM?

– Estou entediada! – reclama a esposa de Tanaka, isolada a um canto do salão, acompanhando as danças que se levantavam. – Não mereço isso! Eu disse para o imprestável do Tanaka que não queria vir a esta festa, Franceline é muito brega. Acha? Em pleno início do século XXI, promover um sarau para esse bando de mortos de fome? Hum! Gente desatualizada mesmo!

– Posso lhe ajudar em alguma coisa, senhora? – aproxima-se Ernestina, com uma bandeja de canapé à mão.

– Se pode me ajudar? E desde quando pobre ajuda alguém? No mínimo, servirá de bobo da corte – gargalha. – Mas fique aqui, prefiro conversar com a criadagem a ter de me submeter a tanto constrangimento. Aff!

A valsa movia a festa, regada a muito uísque e vinho do Porto. Como era de costume, uma vez por mês, a dama de Dilermando promovia uma festa aos abastados da região. A disputa era imensa para se conquistar um convite e o preço variava, como num câmbio negro, de acordo com a oferta e a procura. Pagavam o quanto fosse para desfilar por algumas horas no salão da família mais influente de Vila dos Princípios, cujo brasão, desenhado desde a fundação daquelas terras, adornava cada canto do rico casarão.

Era a maneira que os Dumont encontravam de manter os senhores do dinheiro no cabresto, porque nada ali se fazia, sem que houvesse o consentimento deles. Alguns, com a malícia à boca, comparavam Dilermando a Roberto Marinho¹, porque tanto um como outro, tinha o poder político de mudar a história de uma cidade ou de um país e quem os contrariasse, terminaria relegado à própria sina.

Como num reino de faz de conta, com súditos de toda espécie e sorte, os Dumont mandavam e desmandavam, como se Vila dos Princípios fosse um Vaticano dentro do Brasil, com regramento legal próprio, ajustado às mãos de ferro de um estrangeiro naturalizado brasileiro. Do dono da barbearia ao delegado; do diretor da cadeia de supermercados ao político mais corrupto, todos faziam reverência àquele homem, e o impressionante era que não se incomodavam, como se acreditassem mesmo que aquela cidade fosse um país independente; e talvez acreditassem, porque precisavam. Dilermando os protegia de alguma forma, porque era da família Dumont que se esvaia o dinheiro necessário para girar a economia local e manter o poder daqueles que viviam das aparências. Pobres falidos que beijavam as mãos de um mortal, tratando-o por um filho do Olimpo. Um longo viva aos Dumont, gritavam os bajuladores, durante toda a festa, à exceção de Houba, que odiava esses eventos e só os frequentava por insistência do marido, à época, um simples vereador almejando a cadeira de prefeito.

– E como está, Houba? Gostando da festa? – pergunta Franceline, se aproximando.

– E como você acha que estou? Suas festas são muito bregas! Bote aí um pagode, um rala-bucho, daqueles de fazer a gente rebolar até encostar-se ao chão. Mas não, taca valsa... quem aguenta? Sinto-me no século XIX, numa daquelas festas promovidas por D. Ana, de A Moreninha². Aff! Sou da nova geração. Quem gosta de velharia é asilo ou museu!

– Sempre com este humor peculiar. Adoro o que diz; em partes, concordo! Mas, meu marido, infelizmente, pensa ainda estar na França. E, pelo menos, no quesito bajulação, talvez esteja mesmo.

– Me tire dessa! Tô fora! Só faço reverência ao Buda e olhe lá! Não sei o que Tanaka vê nisso tudo...

– ...O poder, minha cara amiga! Ele vive em função de um poder que ainda não tem, mas que já lhe cega a razão. Dê-me licença, preciso cumprimentar outros amigos; aliás, não deixe de trocar umas palavras com Catharine, ah Catharine, como se vê, está apaixonada por aquele rapaz de Vila Bonita, o tal do Jorge. Tantos pretendentes de nossa estirpe e ela opta por um plebeu. Fazer o quê? O rapaz é muito inteligente, começou como office-boy em uma de nossas empresas e terminou por conquistar os olhos de Dilermando; hoje está no escritório da matriz, cuidando do setor de recebíveis.

– Ela está de caso com um pobre? Foi isso que ouvi? Que herança maldita! Não queria estar no seu lugar!

– Ele me parece um bom rapaz, pena ser sozinho no mundo! A mãe morreu há pouco. Não deve ter mais que 17 anos.

– Mesmo assim! Pelo menos alguma coisa para poder falar de sua festa horrível – solta outro veneno.

A dama dos Dumont se afasta, visivelmente impressionada com a sinceridade da mulher.

– Ô, fia, volta aqui! Traz essa bandeja! Vamos! – pede a Ernestina, que passava outra vez. – Como você aguenta tudo isso? Deve ser terrível ter de fazer às vezes para este bando de passa fome, não é? Senta aí, fia! Gostei de você!

– Eu... eu não posso! Estou trabalhando!

– Pois fique! Se a demitirem, eu a contrato. Fique! Dê-me duas taças de champanha, venha, vamos comemorar a falsidade desta gente, o sorriso amarelo, a roupa emprestada, o bolso vazio, a pose ensaiada, porque se não sabe, metade está arruinada, com nome sujo, e só mantém a pose por conta de Dilermando, que os trata como vassalos, doando-lhes alguns tostões, para que permaneçam com a encenação.

– E seu marido também faz parte dessa metade?

– Pois você é abusada, hein criada? Mas gostei de você! Faz-me rir. Na verdade eu não sei, porque Tanaka é um verme, daquele que bebe até a última gotícula do sangue mais venenoso; um rato subserviente, mas útil aos mais espertos. Com ele em mãos, retirar dinheiro de cofre público é como roubar pirulito de criança. O bicho não presta! Não vale uma pataca! Cruzes! Eu disse pataca? Aff! Voltei às páginas de Machado de Assis – ri.

– A senhora é feliz? – Ernestina sonda o espírito da mulher, que cede aos seus encantos de sereia.

– Feliz? E quem é feliz nessa vida, fia? A última que tentou, morreu afogada, porque o marido resolveu salvar um livro. Revoltante! Dinamene³ não merecia isso! Enfim, histórias! E você, pelo menos sabe ler?

– Eu estou aprendendo, dona Catharine está me ensinando.

– Boa menina, não? Pena que se encostou àquele sujeitinho. Sei lá! Penso que ele dará muito trabalho a esta família. Olhe a cara do bicho! Nos olhos dele há uma maldade incontida, até parece Tanaka... Hum! Talvez lhe seja a outra metade, a tal da alma gêmea!

– A senhora tem filhos?

– Tenho um, que amo demais. Por ele seria capaz de tudo, até mesmo matar. Chama-se Atsushi! Sabe o que significa?

– Nem imagino!

– Sol da manhã! Ele é o meu sol da manhã. Mas estou prenha de novo.

– Prenha... digo, grávida?

– Sim! De três meses. Sabe, sou uma porra-louca dos infernos, mas amo meus filhos; este ainda nem nasceu – passa a mão pela barriga – e já o tenho como meu rei. Lindo da mamãe. Dê-me outra champanha.

– Não é melhor parar de beber, senhora? Poderá fazer mal à criança.

– Que nada! O pai bebe que nem um porco e está vivo; se morresse hoje, não precisaria nem embalsamar. O sangue seria puro saquê – gargalha.

Ernestina dá um sorriso discreto.

– Também gostei da senhora!

– Hum! Que bom! Deve ser a única desta festa horrorosa! Aliás, cadê meu marido? Acho que a bebida “subiu”, me deu uma dorzinha de cabeça.

– Ele está no escritório fazendo às vezes ao seu Dilermando.

– Como sempre! Ô bicho ruim! Por que não me casei com o vigia, como queria a mamãe? Fui logo me entregando a este bebum. Você sabe como é, quem nunca comeu melado, quando come se lambuza. Tá aqui o resultado – acaricia o ventre. – Não é, Kasuki?

– É outro menino?

– Sim! Ele é a “minha esperança harmoniosa”. O pai não vale nada, mas nossos filhos são de dar gosto!

Ernestina ajuda-a a se levantar.

– Bem, Tô indo! Esteja aqui quando eu resolver voltar a uma dessas porcarias que chamam por festa. Aff! Tô com uma dor de cabeça.

– Não quer que eu a ajude?

– Não precisa, eu me ajeito. Avise o Tanaka que estou indo, não aguento mais esse circo dos horrores.

A empregada a acompanha à distância, pressente que algo de ruim possa lhe acontecer. Houba caminha a passos lentos, tem a visão embaçada, o equilíbrio a bambear. Quando chega à escadaria que une o casarão ao estacionamento, prende o sapato no primeiro degrau e só não despenca porque Ernestina, como um anjo, a segura. Se tivesse caído, certamente perderia o bebê.

– MULHER!!! O que você fez??? – pergunta a esposa de Tanaka, ainda atordoada. – Você salvou nossas vidas! Criatura de Deus! Pois fale seu preço, que dobrarei! Você merece!

– Não foi nada!

– Como nada? Você... você... do mesmo modo que sou capaz de matar por um filho, sou capaz também de salvar. Quando precisar de algo, me procure. Não tenha medo! Tem celular? E desde quando pobre tem celular? Desculpe, força do hábito, não quis ofendê-la! Tome meu MSN – diz, anotando-o num guardanapo de papel. – Nunca a esquecerei! Pode me levar até o carro?

– Eeeeita! Então você é a mulher que salvou nosso filho?

– Então, prefeito, é isso mesmo – diz, resgatando-se das memórias –, por isso somos muito amigas. E, antes que o senhor viesse a este quartinho, ela havia ligado para saber se estava aqui. Eu disse que sim! Então, mandou lhe perguntar onde está o dinheiro dela.

O prefeito emudece. Está anestesiado pelo susto.

– Não devo atendê-la? – o telefone voltou a tocar. – Sabe como é, ela é bem capaz de pegar o primeiro avião e baixar aqui, porque está muito brava.

– Coitada da Houbinha! A mãe dela está com chikungunya.

– EEEEEEita!!!!!! Pois agora quem grita sou eu! Chikungunya no Japão? – cai na risada, até perder o fôlego.

– Sniff! Pois é, não sei como o dinheiro ainda não chegou lá, pedi a Adelaide, minha secretária, que sacasse dos cofres da prefeitu... digo, da minha poupança, a quantia de que ela precisa. Como pôde esquecer?

– Largue de mentiras, prefeito, ela me disse que estava indo com as crianças e a mãe para os Alpes Suíços – desmascara-o. – E o dinheiro que iria mandar não seria parte da verba à construção do Posto de Saúde? Fale! Lave essa alma encardida! Aliás, quero só ver quando dona Houba souber que me apontou uma arma... – desdenha. – Hum! Logo para quem lhe salvou um filho! Coitado do senhor!

O celular toca de novo.

– Pelo amor de Deus, não fale nada! Eu prometo...

– Não me prometa nada! Não sou sua eleitora! – atende a ligação.

– Ela quer lhe falar... – diz, entregando-lhe o telefone.

– Houbinha! Amor...

– Cale a boca, estrupício. Cadê meu dinheiro? Cadê? E que história é essa de desmerecer a minha amiga Ernestina? Ela me contou tudo! Ameaçou-lhe, inclusive, de aumentar o IPTU. Perdeu a noção do perigo? Peça desculpas já!

– De-de-descul-pas??? Mas Houbinha...

– Cale a boca! Faça o que estou mandando, Tanaka, se não enviarei um e-mail para a Polícia Federal entregando todas as contas que possui nas ilhas Cayman. Vamos! Fale alto, quero ouvir! Lembre-se, graças a ela, nosso filho está vivo.

– Des-des-cul-pe – diz, numa vozinha quase inaudível.

– Eu não ouvi nada – pisa Ernestina, com os olhos crescendo sobre o político.

– Desculpe! – profere numa rapidez de causar arrepio.

– Assim é melhor. Estou esperando a grana, senão já sabe, tudo vai para o espaço!

– Está acontecendo alguma coisa aqui? – pergunta Rubens, achegando-se, após perceber a movimentação atípica no lugar.

– Não, doutor Rubens! É que o prefeito é muito bom, queria me dar carona até o hospital, imagine! Eu disse que iria com o senhor... Não é, prefeito?

– Sim... Hum! Claro! Com certeza! – responde, desligando o celular, completamente aturdido.

– Eu vou com o doutor Rubens mesmo! A visita é daqui a pouco! Obrigado, prefeito, o senhor é muito gentil!

Rubens estranha a delicadeza da empregada, mas se contém.

– George, a coisa tá lascada ... – anuncia Tanaka, ao chegar à alcova do vereador.

– Pegou o pen-drive?

– Até tentei, mas aquela peste é mais sorrateira do que imaginei.

– Como assim? Você não pegou? E onde ela está?

– Foi com o doutor Rubens para o hospital.

– Mas... mas... o que deu em você? Não estava armado? Que eu saiba, agora só anda com essa pistola à vista.

– Estava, não; estou! Mas ela também estava.

– A Ernestina anda armada? Como assim?

– E com uma arma mais poderosa que a minha.

– E que arma é esta? Fale! Fale, homem!

– HOUBA SANTUKU!

– O quê?

– Ela é amiga da infeliz! Acredita? Depois lhe conto toda a história – vira a garrafa. – Houba sabe de todas as nossas tramoias, se eu não atender aos seus mínimos caprichos, o Titanic afunda! Sniff! Fiquei com cara de retardado! Que vontade de dar uma sova naquela fulaninha, mas a Houbinha me fez até pedir desculpas.

George arregala os olhos.

– Meu Deus! E como ela descobriu as nossas falcatruas?

– Do mesmo modo que eu: lavando a mão de todo mundo! Taí, teve uma escola de primeira, tanto é que o feitiço virou contra o feiticeiro.

– Dê um tiro na cabeça dela, acabe com essa escravidão!

– Sniff! Não consigo!!! Eu a amo!!!

– Então é melhor amar muito mesmo, que daqui a pouco Ernestina vai passar aquele pen-drive para o “Tributo” e eles farão uma arruaça em nossas vidas.

– Mas ela foi para o hospital... ops... a bicha mentiu? Miserável! Nem percebi! Pudera! Quando falo com a Houba, fico anestesiado, os músculos até tremem. Aff!

– Anestesiado ficará quando todos os nossos planos vierem abaixo por conta daquele jornalistazinho, o tal do Pietro.

– Ah. Mas isso não vou deixar, vou retomar as rédeas do jogo e colocar o Tobias contra a parede. Tô indo pra lá agora!

– Eu também vou! – anuncia o vereador, para a repreensão do prefeito.

– Imagine! Tá mais pra lá do que pra cá! Não quero ninguém caindo perto de mim! Fique aqui!

– Mas... mas... Tudo bem! Ah, e cadê o DVR?

– Fique tranquilo, meu filho! Já dei fim! Comigo é assim, quando tão vindo com o fubá, tô voltando com a polenta!

– Ernestina, sei que mentiu, Tanaka não estava lhe oferecendo carona. O que houve de fato? – pergunta o médico, durante a viagem até o hospital.

A mulher não responde, está hipnotizada pela paisagem bucólica.

– Ernestina! – chama-a outra vez. – O que há?

– Sabe, doutor Rubens, às vezes a ajuda vem de onde menos imaginamos – começa a chorar, sentindo-se, enfim, aliviada.

– O que quer dizer?

– Quando a gente faz o bem sem segundas intenções, o céu nos presenteia com um bem ainda maior e inesperado – responde, com a mão sobre a bolsinha. – E hoje eu tive a prova disso!


Tanaka e Houba Santuku, a dupla dinâmica do crime organizado...

 

– Como é? O senhor tem medo de publicar este material? Doutor Tobias, estamos falando de pessoas que foram mortas, por ordem do prefeito, e nada faremos? – cobra Pietro, na redação do “Tributo ao Povo”.

– E se esta fonte estiver blefando?

– Ela não está! Entregou-me as provas.

– Se quer ver sangue, por que então ela não foi à polícia?

– Doutor, o senhor ouviu a história de que lhe contei com toda a atenção do mundo? O delegado Paineiras Ken, titular da delegacia de Vila dos Princípios, está desaparecido desde as mortes dessa madrugada. A fonte me garantiu que quem deveria ter morrido era ele; provavelmente houve alguma confusão, porque o pistoleiro errou o alvo e acabou também assassinado. Assim como o pobre do Joaquim, desta vez, pelas mãos do mesmo delegado, como ele mesmo confessou no áudio que recebi.

– Mas por que Tanaka gostaria de ver morto um simples motorista?

– Ué... deve ter acontecido mesmo algo entre dona Catharine e ele e querem encobrir, não há outra explicação.

– Essa história não fecha. Como o Paineiras vai de autoridade a assassino? Por que se rendeu ao crime? Será que foi mesmo ameaçado por conta de um DVD? E o que ele conteria de tão grave assim?

– Também não sabemos ao certo, mas se cutucarmos, logo a história toda nos será entregue de bandeja e o jornal cumprirá seu papel, que é o de zelar por uma sociedade justa, segura, democrática, bem diferente da que defendem homens como esses. Precisamos ter a audácia de usar as páginas do “Tributo” para iniciar a limpeza moral de Vila dos Princípios. Chega de tanta malvadeza, tanto ódio; almejamos paz. Mas não existe paz antes de uma guerra.

– Mas uma guerra não pode ser detonada por uma história mal contada.

– Tanto pode como deve! Uma história, mesmo mal contada, pode ser o remédio amargo para se pôr fim à crise de caráter de que agoniza essa cidade.

– Vou pensar! Deixe-nos a sós por um minuto – pede, olhando-se para Júlio, o editor-chefe.

– O que faremos? Publicaremos ou não a matéria? Temo pela vida do “Tributo”. Estamos à beira da bancarrota; um erro qualquer, por menor que seja, decretará o nosso fim!

– Vejo esta história com outros olhos... – Júlio solta um risinho maledicente. – Talvez possamos tirar proveito de tudo isso.

– Seja mais claro! Aonde quer chegar?

– A imprensa – quarto poder, como alguns dizem – não se alicerça apenas na sobriedade dos fatos; em algum momento de sua história, há de se fartar também nos mesmos pratos em que comem estas figuras consideradas republicanas.

Percebendo que sua história poderia ser enterrada pelos mandatários da empresa, Pietro abre o arquivo e o dispara para um outro e-mail.

– Covardes! Só pensam em dinheiro! A vida não é moeda de troca; pelo menos, não para mim. Está feito! – diz para si mesmo. – Não me arrependo do que fiz!

– Pois é bom se arrepender! – ameaça-o Tanaka, chegando à redação do jornal. – Aqueles que ousaram me desafiar, hoje alimentam os vermes!

Encerra com a música: (Sinfonia Dos Sonhos - Marcus Viana)

_____________________

1. Roberto Pisani Marinho foi um jornalista e empresário brasileiro. Herdeiro de Irineu Marinho, foi proprietário do Grupo Globo de 1925 a 2003, e foi um dos homens mais poderosos e influentes do país no século XX. Seu empreendedorismo levou à constituição de um dos maiores impérios de comunicação do planeta e o fez figurar diversas vezes entre os homens mais ricos do mundo.

2. A Moreninha é um romance de autoria do escritor Joaquim Manuel de Macedo, publicado em 1844. Essa obra marca o início da ficção do romantismo brasileiro.

3. Dinamene foi a mulher por quem Camões se apaixonou. A lenda diz que numa viagem marítima, eles foram pegos por uma forte tempestade que fez afundar o navio. Em meio às ondas furiosas, Camões viu de um lado a amada se debatendo e de outro, a obra a qual se dedicara meses a fio. Optou por salvar ―Os Lusíadas, a obra; não que isso não lhe tenha causado profunda tristeza.

4. MSN Messenger foi um programa de mensagens instantâneas criado pela Microsoft Corporation. O serviço nasceu a 22 de julho de 1999, anunciando-se como um serviço que permitia falar com uma pessoa através de conversas instantâneas pela internet. O programa permitia que um usuário da internet se relacionasse com outro que tivesse o mesmo programa em tempo real, podendo ter uma lista de amigos “virtuais” e acompanhar quando eles entrassem e saíssem da rede. Ele foi fundido com o Windows Messenger e originou o Windows Live Messenger.



autor
Carlos Mota

A novela "Flor-de-Cera" é remake de "Venusa Dumont - da memória à ressurreição" de Carlos Mota
 
elenco
Grazi Massafera como Catharine Dumont
Thiago Lacerda como George Dumont
Ricardo Pereira como Joaquim
Elisa Lucinda como Ernestina
Carlos Takeshi como Tanaka Santuku
Miwa Yanagizawa como Houba Santuku
Jesus Luz como Pietro Ferrara
Lucinha Lins como Franceline Legrand Dumont
Lima Duarte como Dilermando Dumont
Herson Capri como Doutor Rubens Arraia
Tonico Pereira como Moacir
Werner Schünemann como Paineiras Ken
Rosi Campos como Adelaide
Humberto Martins como Alberto Médici
Cauã Reymond como Ricardo
César Troncoso como Zé dos Cobres
Ilva Niño como Josefa
Selton Mello como Zelão
Matheus Nachtergaele como Meia-noite
Caio Blat como Delegado de Vila Bonita
Caio Castro como Leandro
Alexandre Borges como Doutor Jaime
Caroline Dallarosa como Carmem
Fernanda Nobre como Stela

participação especial
Stênio Garcia como Doutor Lúcio
Drica Moraes como Desirê
Marco Nanini como Chico Santinho

atores convidados
Ary Fontoura como Doutor Tobias
Alexandre Nero como Júlio Avanzo
Elizangêla como Maria

a criança
Valentina Silva como Alana

trilha sonora
Lágrimas da Mãe do Mundo - Sagrado Coração da Terra (abertura)
Sinfonia Dos Sonhos - Marcus Viana

desenhos
Andrea Mota

produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela

Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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