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O Dom - Vidas do Árido: 1x04

Série de Vitor Zucolotti
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O DOM - VIDAS DO ÁRIDO



NO TERCEIRO EPISÓDIO


INOCÊNCIA

Eu, eu acho que eu vou procurar o Domênico. Acho que vou vê-lo e, sei lá: vai que ele consegue me curar? Essa dor é insuportável...

 

ALICE

Mas você acredita nele?

 

INOCÊNCIA

Dona A...

 

ALICE (interrompe Inocência)

Não sou dona! Sou “você”. Me trate por você!

 

INOCÊNCIA

Então, Alice... Eu só quero que essa dor acabe, o mais rápido possível. Estou tentando de tudo. O Domênico é minha última alternativa, ou... Sei lá. Eu sou capaz de bater minha cabeça na parede até ela abrir, meter uma faca no meu crânio... Eu não aguento mais!

 

INOCÊNCIA COMEÇA A CHORAR. ALICE A ABRAÇA

***

PADRE EMERENCIANO (sorri sem mostrar os dentes. Um sorriso de desprezo)

Por que meu pai deixava você e o seu afilhado morar lá em casa? O certo era só você, né? Minha babá... Até hoje, eu desconfio, na realidade, eu tenho certeza: você cuidava dele também, né? Daquele jeito.

 

RAIMUNDA SE LEVANTA DEVAGAR. DA A VOLTA NA MESA E SE APROXIMA DE EMERENCIANO. QUANDO CHEGA AO LADO DELE, ELE VIRA O ROSTO PARA ELA. RAIMUNDA DÁ UM TAPA NA CARA DELE. PADRE EMERENCIANO PARECE DESPERTAR, LEVANTA-SE DA CADEIRA NUM SALTO.

***

MARINALVA

Acorde homem! Vá se lavar, você está imundo!

 

FIGUEIRA (empurrando a mulher violentamente)

Sai daqui, inferno!

 

MARINALVA ACABA BATENDO O ROSTO NUMA PARTE DA CAMA E CAI NO CHÃO.

MARINALVA SE OLHA NO ESPELHO. DESCABELADA. ROSTO SUJO DE SANGUE, A BOCA. ELA OLHA NA MÃO O PEDAÇO DO DENTE QUE QUEBROU. LAVA A BOCA, BOCHECHA E COSPE A ÁGUA TINGIDA DE VERMELHO.

 

MARINALVA (se olhando no espelho)

Eu juro por Deus! Eu juro que isso vai acabar! Mais cedo, ou mais tarde...

***

INOCÊNCIA (abraçando também Tonho e Almeida)

Eu to curada! Eu não sinto mais dor! Ela sumiu, sumiu! (abraçando Raimunda) Dona Raimunda, é verdade! Dona Raimunda...

 

RAIMUNDA (abraçando Inocência)

É verdade minha filha! O dom do Domênico é real!

 

INOCÊNCIA (para Domênico)

Você salvou a minha vida! Você é um santo!

 

DOMÊNICO

Salvei. Se você não viesse pra cá você iria morrer. Você tinha um câncer no cérebro.

 

O SORRISO DE INOCÊNCIA SOME. OS OLHOS ARREGALADOS COM A NOTÍCIA.

***



1x04


CENA 1 / CASA DE DOMÊNICO – SALA DE MILAGRES / INT. NOITE

INOCÊNCIA FICA SEM PALAVRAS. OS OLHOS ARREGALADOS. ELA PARECE RECOBRAR O FÔLEGO.

 

INOCÊNCIA

Eu tinha um câncer?

 

DOMÊNICO

Tinha. Você iria morrer, mais cedo ou mais tarde. O tumor estava crescendo na sua cabeça. Por isso você não aguentava de tanta dor. Se continuasse assim, antes de morrer você iria enlouquecer.

 

OS OLHOS DE INOCÊNCIA SE ENCHEM DE LÁGRIMAS.

 

INOCÊNCIA

E a ciência... Será que nunca eles iam descobrir?

 

DOMÊNICO (observando Inocência com pesar)

Infelizmente seria inevitável

 

INOCÊNCIA COMEÇA A CHORAR. RAIMUNDA A CONSOLA.

 

RAIMUNDA

Filha, pense pelo lado bom!

 

INOCÊNCIA

Que lado bom?

 

RAIMUNDA (ríspida)

Você está viva! Você tinha um câncer, você não o tem mais! Você tem obrigação de aproveitar e viver essa oportunidade que ele lhe deu (apontando para Domênico). Você tem uma nova data de nascimento e quem lhe deu foi Domênico.

 

DOMÊNICO (dá um abraço em Inocência)

Chore de alegria, somente! Você não tem mais motivos para ficar triste.

 

DOMÊNICO ENXUGA AS LÁGRIMAS DE INOCÊNCIA. ELE SORRI E ELA SORRI TAMBÉM.

 

INOCÊNCIA

O que eu posso fazer por você? Depois do que fez comigo, eu serei eternamente grata. Posso deixar da unidade de saúde, ficar a seus serviços...

 

DOMÊNCIO (interrompe)

Não! A unidade de saúde não! (percebe que foi muito enfático e se contém) Preciso que você fique lá. Que faça o seu trabalho.

 

RAIMUNDA OLHA DOMÊNICO DE BANDA, ESBOÇA UM SORRISO SIMPLES, MAS CHEIO DE MÁ INTENÇÃO.

 

DOMÊNICO

Na realidade, além de continuar com o seu trabalho, gostaria muito que você contasse a Alice, a esposa do médico, o que acontece por aqui...

 

INOCÊNCIA

Claro! Pode deixar que eu conto! Eu faço questão de contar a todo mundo...

 

DOMÊNICO

Não! Você pode contar para a dona Alice e para mais duas pessoas. É muito importante que somente três pessoas saibam o que aconteceu aqui. Estamos entendidos?

 

INOCÊNCIA

Sim, estamos sim. Muito obrigado Domênico. Você é um presente de Deus!

 

INOCÊNCIA BEIJA AS MÃOS DE DOMÊNICO E EM SEGUIDA VAI EMBORA. RAIMUNDA OBSERVA DOMÊNICO.

 

DOMÊNICO

Pergunte... Eu sei que você quer falar...

 

RAIMUNDA

Qual a necessidade de falar com a mulher do médico? E, por que manter a menina no posto, se aqui, conosco, ela seria de boa valia?

 

 

DOMÊNICO

Ela no posto pode ser os nossos olhos. Posso saber o que aqueles influenciados pelo Emerenciano estão tramando.

 

RAIMUNDA

E a mulher?

 

DOMÊNICO

Ela? Ela precisa do meu dom (olha para as próprias mãos)

CORTA PARA

 

CENA 2 / RUA DE RIQUEZA – PRÓXIMO A CASA DE DOMÊNICO / EXT. NOITE

MÚSICA ON: PROCISSÃO – GILBERTO GIL

CAM, PERSPECTIVA DE CIMA, MOSTRA INOCÊNCIA SAINDO DA CASA DE DOMÊNICO. A SECRETÁRIA CAMINHA FELIZ.

CORTA PARA

 

CENA 3 / IGREJA – NAVE / INT. NOITE

PADRE EMERENCIANO ESTÁ SENTADO, OLHANDO PARA A IMAGEM DE JESUS NA CRUZ. A CAM DÁ CLOSE NO ROSTO DO PADRE, BALBUCIA O PAI NOSSO SEM PISCAR OS OLHOS.

CORTA PARA 

 

CENA 4 / RIQUEZA / EXT. NOITE-DIA

STOCK SHOTS DA CIDADE. A NOITE CAI E O DIA COMEÇA A NASCER. AS PESSOAS COMEÇAM A SAIR DE SUAS CASAS.

MÚSICA OFF

CORTA PARA

 

CENA 5 / POSTO DE SAÚDE – SALA DE ESPERA / INT. DIA

INOCÊNCIA ARRUMA ALGUMAS COISAS NA SALA DE ESPERA DO POSTO. ALICE CHEGA. INOCÊNCIA ESTÁ CANTAROLANDO.

 

ALICE

Vejo que alguém acordou com o humor nas alturas, né?

 

INOCÊNCIA (se vira rapidamente)

Bom dia, Alice! Bom dia Riqueza! Bom dia Mundo!

 

INOCÊNCIA VAI RÁPIDA ATÉ ALICE, SEGURA SUAS MÃOS E SENTA-SE COM ELA NUM SOFÁ

 

INOCÊNCIA

Preciso lhe falar... Preciso te contar como foi a experiência.

 

ALICE

Pela sua euforia...

 

INOCÊNCIA

Ele me curou, Alice! Ele conseguiu tirar de mim toda a dor, toda o mal, toda a doença.

CORTA PARA

 

CENA 6 / RUA DE RIQUEZA / EXT. DIA.

MARINALVA, DORINHA E MAIS DUAS BEATAS SEGUEM PELAS RUA DA CIDADE. ELAS VÃO PARA A IGREJA, COMO SEMPRE.

 

DORINHA (mais a frente no passo, perto de Marinalva, enquanto as outras duas seguem atrás)

Marinalva, to lhe achando quieta por demais hoje. Aconteceu alguma coisa?

MARINALVA

Estou rezando.

 

DORINHA

Mas de olhos abertos, sem terço, e sem pôr os joelhos no chão? Ainda por cima andando, ou correndo, porque to tendo que acelerar meu passo pra conseguir te acompanhar...

 

MARINALVA PARA E SE VIRA RISPIDAMENTE PARA DORINHA. AS DUAS QUE ESTÃO ATRÁS TAMBÉM PARAM.

 

MARINALVA

Mas será o Benedito?! O que vocês têm com a minha vida? Me digam! Não conseguem me deixar em paz?

 

DORINHA

Eu estou preocupada contigo, minha amiga...

 

MARINALVA

Cuide da sua vida que da minha cuido eu! Agora, vamos deixar de leseira!

 

MARINALVA VOLTA A CAMINHAR, NA REALIDADE QUASE MARCHANDO EM DIREÇÃO A IGREJA. DORINHA CONTINUA MAIS PRÓXIMA DELA QUE AS OUTRAS DUAS. DORINHA FICA ALGUNS SEGUNDOS MAIS AFASTADA, MAS NÃO SE AGUENTA E SE APROXIMA.

 

DORINHA

Você pode não querer se abrir comigo, mas eu vi que a sua boca tá com hematoma! E seu dente, também está quebrado. O que houve?

MARINALVA ESTACA. LEVA A MÃO A BOCA. FLASHBACK DA CENA EM QUE FIGUEIRA A EMPURRA E ELA QUEBRA O DENTE. SE ENCERRA O FLASHBACK.

 

MARINALVA (ainda parada)

Não é nada, não! Eu me machuquei lavando o banheiro de casa. Estou ficando com mais idade... Com o tempo a gente não tem tanto equilíbrio.

CORTA PARA

 

CENA 7 / POSTO – SALA DE ESPERA / INT. DIA.

CENA É A SEQUÊNCIA IMEDIATA DA CENA 5

 

INOCÊNCIA

Você pode não acreditar, mas ele conseguiu!

 

ALICE

Como é que uma pessoa, um curandeiro, pode afirmar que você tinha um câncer?! Você entende o absurdo, Inocência? Dá até para fazer um trocadilho com teu nome ouvir uma história dessas...

 

INOCÊNCIA

Eu só sei que, depois que ele me beijou...

 

ALICE (assustada)

Ele lhe beijou?!

 

INOCÊNCIA (sem se importar com a amiga)

Depois eu abri os meus olhos e a minha cabeça estava boa.

 

ALICE

Você tá me falando a verdade? Ele ainda te beijou? Um beijo na boca? Que aproveitador é esse?!

 

ALICE SE LEVANTA ANDANDO DE UM LADO PARA O OUTRO, IRRITADA.

 

INOCÊNCIA

Eu tomei todos os medicamentos. A dor nunca foi embora de uma vez. Ela sempre ficava ali dentro, anestesiada, latejando... Como se me avisando que só ia dar um tempo, um respiro e depois ia voltar.

 

ALICE (continua de pé)

Ele abusou de você! Você permitiu que ele lhe desse esse beijo...

 

INOCÊNCIA LEVANTA-SE, CONTEM ALICE SEGURANDO SUAS MÃOS.

 

INOCÊNCIA

Eu precisava de te contar e contei. Se você quer acreditar ou não: fica a seu critério. O que eu sei é que você precisava que eu lhe contasse isso.

 

A MÁSCARA DA REVOLTA INICIAL SE DESFAZ DO ROSTO DE ALICE, DANDO ESPAÇO PARA O OLHAR PERDIDO DE ALICE, QUE ENGOLE SECO.

CORTA PARA

 

CENA 8 / CASA DANIEL E ALICE – QUARTO / INT. DIA.

MÚSICA ON: CANÇÃO DA VOLTA – FAFÁ DE BELÉM

A CENA MOSTRA O QUARTO VAZIO, ESCURO. A LUZ SE ACENDE NO CÔMODO ANTERIOR AO QUARTO. ALICE ENTRA NO QUARTO. ACENDE A LUZ DO CÔMODO. ABRE UMA DAS PORTAS DO ARMÁRIO. PEGA UMA CAIXA DE SAPATO ENCAPADA COM MOTIVOS INFANTIS. SENTA-SE NA CAMA, COLOCA A CAIXA EM CIMA E ABRE. A CAM MUDA DE PERSPECTIVA. VEMOS O CONTEÚDO DA CAIXA: SAPATINHOS DE BEBÊ, ROUPINHAS, PANINHOS DIVERSOS... ELA RETIRA DOIS SAPATINHOS, VESTE O DEDO COM ELES. PARECE BRINCAR UM POUCO. ELA RETIRA UMA DAS ROUPINHAS, UMA ROUPINHA AZUL E ESTENDE NA CAMA. ACARICIA O TECIDO. RETIRA OUTRA ROUPINHA, DESSA VEZ AMARELA, FAZ O MESMO QUE FEZ COM A AZUL. ALICE LEVANTA-SE DA CAMA. A PORTA DO ARMÁRIO AINDA ABERTA, NO FUNDO DELA UM ESPELHO. ELA SE OLHA. PASSA A MÃE NA BARRIGA COMO SE ESTIVESSE GRÁVIDA.

CORTA PARA

 

CENA 9 / CASA DE TONHO / INT. DIA.

MÚSICA ON: ACAUA – GAL COSTA

CAM SE APROXIMA DA CASA DE TONHO E RITINHA. A JOVEM ABRE UMA JANELA E A CAM ENTRA, COMO SE MOSTRASSE O QUE ELA ESTÁ FAZENDO. A JOVEM ESTÁ NA SALA, QUE TAMBÉM É USADA COMO SALA DE JANTAR E VAI PARA A COZINHA. MEXE EM ALGUMAS PANELAS. OLHA PELA PORTA DA COZINHA QUE ESTÁ ABERTA, O MARIDO CHEGANDO. ELA CHEGA MAIS PERTO DO BATENTE E SE ESCORA ESPERANDO ELE. TONHO SE APROXIMA E DÁ UM BEIJO APAIXONANTE NA ESPOSA.

 

TONHO (entrando na cozinha)

Eu to varado de fome, mulher!

 

RITINHA

To vendo! Mas nem pense em mexer nas panelas. Seu almoço tá quase pronto. Só te acalma que o feijão tá quase ficando bom.

 

O DIÁLOGO É DITO ENQUANTO TONHO SE ENCAMINHA PARA A SALA, SENTA-SE A MESA, E RITINHA SENTA EM SEU COLO.

 

TONHO

Enquanto você tá de chamego aqui comigo o feijão pode queimar, não?

 

RITINHA (com os braços enlaçando Tonho)

Fique tranquilo que do feijão cuido eu! Eu preciso lhe contar uma coisa...

 

TONHO

E o que é?

 

RITINHA FALA ALGO NO OUVIDO DE TONHO. A CAM FOCALIZA O ROSTO DO RAPAZ. UM SORRISO VAI SURGINDO.

 

TONHO

Você está falando sério?

 

RITINHA (levantando do colo do marido e se pondo de pé)

To sim! Agora, imagina eu de barriga! Será que eu vou ficar muito gorda?

 

TONHO SE LEVANTA. ERGA A ESPOSA PELAS PERNAS RODOPIANDO DE FELICIDADE. RITINHA E ELE COMEÇAM A RIR.

 

RITINHA

Oh paixão, assim você me derruba!

 

TONHO

Você tá grávida minha vida! Eu vou ser pai! Vou ter um guri ou uma princesa. Eu to feliz demais.

 

RITINHA SE DESVENCILHA DO MARIDO. O MOMENTO DE FELICIDADE É CORTADO. ELA SE AFASTA. PREOCUPADA.

 

TONHO

O que houve? Por que tá preocupada?

 

RITINHA

É que eu não sei se você é o pai...

 

TONHO VAI EM DIREÇÃO A ESPOSA E A ABRAÇA.

 

TONHO

É claro que eu sou o pai! Quem mais poderia ser?

 

RITINHA

O Domênico. Ele fica com a gente, quase sempre. Faz tempo que eu não me deito só com você...

 

TONHO

Vai ser como se fosse um filho nosso. Ele ama a gente...

 

RITINHA (sorrindo)

Será que com essa criança, a gente consegue ficar todo mundo junto?

 

TONHO

Eu não sei, mas pode ser. A gente precisa contar pra ele!

 

RITINHA

Precisa sim. E, eu tenho certeza que ele vai ficar muito feliz...

 

RITINHA SORRI E ABRAÇA O MARIDO. A CAM FOCALIZA NO ROSTO DE TONHO FELIZ MAS LOGO O SEU SEMBLANTE MUDA. ELE ESTÁ PREOCUPADO, EM DÚVIDA.

MUSIC OFF.

CORTA PARA

 

CENA 10 / CASA DE DANIEL E ALICE – SALA / INT. TARDE  

ALICE ESTÁ SENTADA NO SOFÁ. DANIEL ACABA DE SAIR DO BANHO, DE TOALHA, ELE PERCEBE QUE A ESPOSA ESTÁ COM O OLHAR PERDIDO, PENSATIVA.

 

DANIEL (brincando com a esposa)

Tiro a toalha em troca dos seus pensamentos.

 

ALICE (sorri)

Fico tentada. O que será que tem por baixo dessa pedaço de pano, hein!

 

DANIEL SENTA-SE AO LADO DA MULHER.

 

DANIEL

Você está preocupada. Desde o almoço. Ia deixar pra lá, mas agora, depois do banho, to vendo que você continua diferente. Quer conversar antes de eu voltar para o posto?

 

ALICE

Não estou preocupada, não. Na realidade eu estava pensando sobre essa situação da cidade com esse moço aí que se diz curandeiro.

 

DANIEL (estranha)

Você nunca foi muito de acreditar nessas baboseiras...

 

ALICE

Ter um pouco mais de estudo e pensar mais cientificamente não me torna uma cética. Eu vejo que muitas pessoas acreditam nesse homem. Elas confiam nele e, parece até que são curadas mesmo...

 

DANIEL (levanta-se com raiva e vai até a cozinha)

Você está de brincadeira, né? Pelo amor de Deus, Alice! Vai ficar com a pulga atrás da orelha sobre esse charlatão?

 

ALICE

Não precisa se exaltar! Ou você acha mesmo que compete com ele? Há um vão imenso entre vocês dois, meu bem.

 

DANIEL (volta da cozinha com um copo de água)

O que tá rolando? Por que disso agora?

 

ALICE

Eu não sei... Eu fico ouvindo as histórias desse povo. Você sabe que eu quero muito um filho, acho que isso me fragiliza. São tantas histórias de cura... Não tem pra quê esse povo mentir.

 

DANIEL (começa a rir)

Me poupe, meu amor! Você é uma mulher estudada, inteligente... Vai acreditar nas histórias desse povo daqui, gente ignorante, sem estudos... (se aproxima mais terno da esposa) Sobre o nosso filho, a gente vai tentando.

 

ALICE

Eu já fiz tudo quanto é exame, Daniel. Já era para termos um filho. Você não acha que tá na hora de tentar ver você também? Saber se há alguma coisa errada?

 

DANIEL SE AFASTA DA MULHER E LANÇA O COPO DE ÁGUA NA PAREDE. O COPO PASSA PELA LATERAL DA CABEÇA DA ESPOSA.

 

DANIEL (enfurecido)

Agora o problema é meu? A gente fode, fode, fode e você não fica grávida e o problema é comigo?

 

ALICE (pasma)

O que é isso? Que porra é essa? Você viu que quase jogou esse copo na minha cara, Daniel?!

 

DANIEL (se exaltando ainda mais)

Que inferno! Você tá ficando maluca? Só pode!

 

ALICE

Você deixa de ser machista! Eu já fiz todos os exames e não há problema algum comigo. O que custa você fazer? Qual o problema?

 

DANIEL

Você quer encontrar um culpado? É isso?

 

ALICE (se descontrola)

A gente fode, fode, fode! O que mais a gente faz é fuder nessa casa. Qualquer folga sua a gente transa, trepa! A tabelinha tá ali, na conta certinha... E eu não engravido! Todos os exames já mostraram que eu, eu (bate no peito) não tenho problema nenhum. Então você, você sim, pode ser o problema!

 

DANIEL AVANÇA PRA CIMA DE ALICE NA INTENÇÃO DE UM TAPA. A MULHER LEVANTA O ROSTO E QUASE COLA NO MARIDO.

 

ALICE

Vai me bater? É isso mesmo? Você vai sentar a mão na minha cara, agora?

 

DANIEL DESPENCA O BRAÇO, ANTES ESTENDIDO PARA O TAPA. A MÁSCARA DE ÓDIO NO ROSTO MUDA DRASTICAMENTE PARA FEIÇÕES DE ARREPENDIMENTO (SE EXISTE UMA FEIÇÃO ASSIM) E DESPENCA NO SOFÁ.

 

ALICE (de pé, perto do marido)

Se o problema não é comigo, ele pode ser com você sim!

 

ALICE SAÍ DE CASA E BATE A PORTA. DANIEL LEVA AS MÃOS A CABEÇA, PRA TENTAR SE ACALMAR DIANTE DA DISCUSSÃO.

CORTA PARA

 

CENA 11 / CASA DE DOMÊNICO – SALA DE MILAGRES / INT. TARDE

RITINHA E TONHO ESTÃO COM DOMÊNICO. UM MOMENTO DE FOLGA ENTRE UM ATENDIMENTO E OUTRO.

 

DOMÊNICO

Então me contem qual é a novidade. Eu sou curandeiro, não sou adivinho.

 

TODOS RIEM. NESSE MOMENTO RAIMUNDA ENTRA NO LOCAL.

 

RAIMUNDA

Desculpe atrapalhar, meu querido. Tem uma pessoa querendo lhe falar.

 

DOMÊNICO

E quem é?

 

RAIMUNDA

A moça esposa do médico.

 

DOMÊNICO OLHA COM ESTRANHEZA PARA TONHO E RITINHA E DEPOIS SORRI PARA RAIMUNDA QUE SAÍ. EM SEGUIDA, ALICE ENTRA.

 

ALICE

Olá!

 

DOMÊNICO

Bem-vinda! Posso lhe ajudar em alguma coisa?

 

ALICE

É que eu preciso falar com você...

 

RITINHA

Mas a gente chegou primeiro, né Tonho? Então, Domênico...

 

DOMÊNICO (interrompendo Ritinha. Sem tirar os olhos em Alice)

Vocês são de casa. A visita é prioridade!

 

RITINHA

Mas o...

 

TONHO (atrás da esposa, a segura pelos ombros)

Meu bem, ouça o que Domênico disse. (saindo, conduzindo Ritinha que está a contra gosto) Nós vamos lhes deixar a sós. Com licença.

 

RITINHA SAÍ BUFANDO E TONHO COXIXA COM ELA.

 

DOMÊNICO

Então, de que maneira posso lhe ajudar?

 

ALICE SUSPIRA FUNDO. CÂMERA FECHA NO ROSTO DE DOMÊNICO.




autor
VITOR ZUCOLOTTI

elenco
DOMÊNICO (LÁZARO RAMOS)
RAIMUNDA (ZEZÉ MOTTA)
TONHO (TOMÁS AQUINO)
MARINALVA (CLAUDIA MISSURA)
DORINHA (BÁRBARA REIS)
PADRE EMERENCIANO (JOÃO MIGUEL)
DANIEL (EMILIANO D´AVILLA)
ALICE (ALICE BORGES)
INOCÊNCIA (LUCY RAMOS)
RITINHA (JENNIFGER NASCIMENTO)

trilha sonora
PROCISSÃO – GILBERTO GIL
CANÇÃO DA VOLTA – FAFÁ DE BELÉM 
ACAUA – GAL COSTA 


produção
BRUNO OLSEN
CRISTINA RAVELA


 

Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO




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