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O Dom - Vidas do Árido: 1x02

Série de Vitor Zucolotti
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O DOM - VIDAS DO ÁRIDO



NO PRIMEIRO EPISÓDIO


DOMÊNICO

Tonho, Almeida. Peguem o Chiquinho. Passem os braços do menino em volta do pescoço de modo que ele fique e pé

 

OS CAPANGAS OBEDECEM

 

FRANCISCO

Os meus pés não firmam, não moço.

 

DOMÊNICO

Eu sei... Mas hoje a sua vida vai mudar!

 

DOMÊNICO APOIA A MÃO DIREITA NAS COSTAS DO MENINO. A ESQUERDA APOIADA NA PARTE DA FRENTE, NA MESMA ALTURA. DOMÊNICO FECHA OS OLHOS. CLOSE NOS LÁBIOS DE DOMÊNICO FALANDO COISAS QUE NÃO SABEMOS O QUE, UMA REZA, TALVEZ.

 

MULHER (beijando a criança)

Meu filho! Você tá andando meu filho!

 

HOMEM (para Domênico)

Glória, Glórias ao senhor!

 

FRANCISCO (correndo e abraçando Domênico)

Obrigado! Eu vou poder subir na árvore lá do quintal. Eu vou poder correr com meu cachorro...

 

DOMÊNICO

Você vai poder fazer o que quiser nessa vida. Vai cuidar da sua mãe muito bem... O seu pai vai melhorar (em seguida olhando para o homem) ou então vai morrer de uma morte medonha. Mas você vai ser muito feliz meu menino.

 

OS TRÊS SE VOLTAM A DOMÊNICO.

 

DOMÊNICO

O que aconteceu aqui só pode ser dito para três pessoas. Você Chiquinho, a sua mãe e o seu pai só podem falar isso com três pessoas. Escolham bem pra quem vão contar que existe um preto com um dom em Riqueza. Se contarem para mais pessoas você voltar a ficar aleijado e seu pai, provavelmente vai voltar a beber. Beber até morrer ou matar vocês dois. Podem ir. Fiquem com Deus.

***

DANIEL (se ajoelha, pra falar com Alice olho no olho. Ele se apoia nos joelhos da mulher)

Depois de tudo, de todos os problemas que a gente teve, que eu tive, no caso... Eu consegui um emprego! Eu vou ser o médico responsável pela Unidade de Saúde de Riqueza!

 

ALICE (esboça um sorrido e em seguida faz um semblante confuso)

Eu fico feliz, meu amor, eu juro! Mas, aonde fica esse lugar?

 

DANIEL (levanta-se e começa a andar de um lado para o outro)

É uma espécie de vilarejo, nesses cantos aí do sertão, sabe? É uma oportunidade muito boa pra gente conseguir se reerguer! Eu vou comandar tudo lá! Vou atender gente que precisa de cuidados de verdade! E o melhor de tudo (ele ergue a esposa do sofá, segurando seus ombros) Eu vou ganhar bem! Vou poder cuidar de você direitinho! Quem sabe lá... (passa a mão na barriga da esposa) Quem sabe é lá o lugar pra gente ter um filho?


***

AFONSO (fala numa tacada só)

Eu não tenho ereção, eu não fico duro, eu não fico de pau duro com ela...

 

DOMÊNICO

Você quer ‘subir’, não é? Enrijecer? Então tira a roupa.

AFONSO TIRA A CUECA E NU. DOMÊNICO O OBSERVA DE CIMA A BAIXO. DOMÊNICO SE LEVANTA. TIRA A CAMISA QUE USAVA, A CALÇA E A CUECA. FICA DE PÉ, DE FRENTE PARA AFONSO. AFONSO ARREGALA OS OLHOS, ASSUSTADO. A CAM NÃO CONSEGUE FOCAR OS ORGÃOS GENITAIS MAS, A SILHUETA DO CORPO DOS DOIS. DOMÊNICO SE APROXIMA DE AFONSO. PASSOS LENTOS. O HOMEM O OBSERVA PERPLEXO. DOMÊNICO PARA A UM PALMO DE DISTÂNCIA DE AFONSO. NA SEQUÊNCIA, DOMÊNICO LEVA A MÃO ATÉ O PEITO DE AFONSO. ELE SE RETESA, FAZ MENÇÃO DE TIRAR, MAS PARA. DOMÊNICO PASSA A MÃO PELO PEITO DE AFONSO. A OUTRA MÃO, DOMÊNICO LEVA AO SEXO DE AFONSO.

***

O PADRE OBSERVA AS CADEIRAS POSTAS NA SALA DE ESPERA. VÊ QUE NÃO HÁ NINGUÉM NO LOCAL. ELE ANDA UM POUCO MAIS.

MÚSICA DIMINUI DE VOLUME E SE MESCLA COM OS GEMIDOS QUE VEM DA SALA DE CURA. O PADRE CHEGE MAIS PRÓXIMO. A MÚSICA PARA. ELE SÓ ESCUTA O BARULHO DOS GEMIDOS DOS DOIS HOMENS.

PASSA PELA ESPÉCIE DE ESCRITÓRIO E APROXIMA O ROSTO DAS CORTINAS DE CONTAS. CONSEGUE VER DOMÊNICO E AFONSO TRANSANDO. O FALSO PROFETA, CURANDEIRO, EMISSÁRIO DE ALGO QUE O PADRE ACREDITA, SENDO ESTOCADO VIOLENTAMENTE POR TRÁS POR AFONSO.

***

CAMERA EM CLOSE NO ROSTO DE DOMÊNICO QUE SAI DO QUADRO POR CONTA DOS ‘SOLAVANCOS’ DO SEXO. ANTES O ROSTO ERA DE PRAZER E, QUASE QUE IMEDIATAMENTE, ELE ESBOÇA UM SORRISO. ELE SABE O QUE O PADRE ACABA DE VER.

***


1x02


CENA 1 / CASA DE DOMÊNICO – SALA DE CURA / INT. NOITE


AFONSO JÁ ESTÁ VESTIDO. DOMÊNICO ESTÁ SENTADO, VESTIDO, COM A CAMISA DE BOTÃO ABERTA, O PEITO NU. FUMA UM CIGARO

 

AFONSO (um tanto desconfortável)

Eu... Eu to curado?

 

DOMÊNICO (soltando uma baforada)

Curado? Você está de parabéns (sorri)

 

AFONSO

Mas eu vou conseguir, com a minha mulher? Eu vou subir?

 

DOMÊNICO

Pode ficar tranquilo. Tudo vai funcionar. Agora, acredito que já está na sua hora...

 

AFONSO

Como eu posso retribuir essa ajuda?

 

DOMÊNICO

Não tem de quê. Acredito que você não vai contar como foi curado por aqui, mas se for: só conte para três pessoas. Agora, acho que você pode ir.

 

AFONSO ACENA A CABEÇA E VIRA AS COSTAS. ANTES DE ATRAVESSAR A CORTINA DE CONTAS SE VIRA UM POUCO E SORRI. DOMÊNICO RETRIBUI O SORRISO.


CORTA PARA

 

CENA 2 / IGREJA – SACRISTIA / INT. NOITE


MÚSICA ON: O CAVALEIRO E OS MOINHOS – ELIS REGINA


PADRE EMERENCIANO ACENDE UMA VELA. A COLOCA EM UM SUPORTE PRÓXIMO A IMAGEM DE UMA SANTA (FIQUE A VONTADE COM O SANTO OU SANTA DO TEU QUERER). ELE SE AJOELHA. FECHA OS OLHOS E COMEÇA A REZAR. CAM FOCALIZA AS LÁGRIMAS CAINDO. A MÃO SEGUE IMEDIATAMENTE PARA A BOCA SEGURANDO UM CHORO.


CORTA PARA

 

CENA 3 / CASA DE DOMÊNICO – AREA EXTERNA / EXT. NOITE

A CÂMERA FOCALIZA A CASA DE CIMA. VEMOS DOMÊNICO SAINDO. A CÂMERA TOMA CERTA DISTÂNCIA E MOSTRA QUE MAIS A FRENTE HÁ LUZES. AS LUZES DA VILA. A CASA DE DOMÊNICO É UM POUCO MAIS AFASTADA DA REGIÃO. ELE SEGUE ANDANDO EM DIREÇÃO AS LUZES.

CORTA PARA

 

CENA 4 / RIQUEZA – RUA PRINCIPAL / EXT. NOITE


MÚSICA ON: LUA NOVA – EDU LOBO E MARIA BETHÂNIA


DOMÊNICO SEGUE ANDANDO PELA RUA, A PRINCIPAL DE RIQUEZA. DESSA VEZ, CÂMERA NORMAL. PLANO SIMPLES MOSTRANDO AS PESSOAS QUE ESTÃO NA JANELA VENDO O ‘SANTO’ E APONTANDO. ELE SABE QUE ESTÁ SENDO OBSERVADO, MAS NÃO SE PREOCUPA. PASSA PERTO DE UM BAR.

CORTA PARA

 

MÚSICA OFF.


CENA 5 / RIQUEZA – BAR DO DORIANO / INT/EXT.NOITE


NO BAR, PELO MENOS TRÊS PESSOAS ESTÃO SENTADAS, BEBENDO NO BALCÃO, ENTRE ELAS ALMEIDA. SEU DORIANO ESTÁ DO OUTRO LADO LIMPANDO UM PRATO.

 

DORIANO (observando de onde está)

Não é todo dia de Domênico passa por essas bandas. O que será que houve?

 

ALMEIDA

Estranho. Ele atendeu uma pessoa e, normalmente vai dormir...

 

FIGUEIRA (meio bêbado)

Será que foi fazer um atendimento especial? Alguma figura importante que não quer ir até a casa do profeta?

 

ALMEIDA

Não... Ele só atende lá mesmo.

 

DORIANO (indo até a porta do bar. Se vira para Almeida)

Ele tá indo, se continuar em linha reta, sem desviar; para a Igreja. Acho melhor você ver o que tá acontecendo.

 

ALMEIDA VIRA O COPO NUMA GOLADA E SAI.

CORTA PARA

 

CENA 6 / RIQUEZA – RUA PRINCIPAL / EXT. NOITE

ALMEIDA CORRE UM POUCO E CHEGA PERTO DE DOMÊNICO.

 

ALMEIDA

Ei chefe. Tudo certo? Precisa de algo?

 

DOMÊNICO (parando para conversar com Almeida)

Não. Até poderia parar para tomar um trago, mas preciso resolver uma coisa.

 

ALMEIDA

Mas...

 

DOMÊNICO

Não preciso de nada, pode ficar tranquilo. (volta a andar) E vê se tome mais três copos de cachaça, ou três garrafas de cerveja, como quiser... É o limite porque amanhã você tem que estar cedo lá em casa.

 

ALMEIDA

Sim senhor! Mas, o senhor vai pra onde?

 

DOMÊNICO PARA E SE VIRA PARA ALMEIDA. ROSTO SEM NENHUMA EXPRESSÃO.

 

ALMEIDA (engole seco)

Não me interessa, né? Ou melhor: não é da minha conta.

 

ALMEIDA PISCA UM DOS OLHOS E SORRI. DOMÊNICO RI DE VOLTA E CONTINUA SUA CAMINHADA. SIM, ELE VAI ATÉ A IGREJA. ALMEIDA VOLTA PARA O BAR.

CORTA PARA

 

CENA 7 / IGREJA / EXT. NOITE.


DOMÊNICO PARA EM FRENTE A PORTA DA IGREJA. BATE NA PORTA. A MESMA ESTÁ ABERTA. DOMÊNCIO ENTRA.


CORTA PARA

 

CENA 8 / IGREJA / INT. NOITE.

DOMÊNICO PASSA POR ENTRE OS BANCOS. SE APROXIMA ATÉ O ALTAR. EM SEGUIDA, PADRE EMERENCIANO APARECE SAINDO DE UMA PORTA PERTO DO ALTAR.

 

PADRE EMERENCIANO

A igreja está fecha... (vendo que é Domênico) A igreja está fechada! Não sei o que procura aqui, mas a sua urgência pode esperar...

 

DOMÊNICO (debochado)

A benção padre?

 

PADRE EMERENCIANO (mordem os lábios de ódio)

Deixe de zoeira comigo, rapaz!

 

DOMÊNICO

O senhor foi até a minha casa hoje. Queria falar comigo. Viu algo que lhe chocou!

 

PADRE EMERENCIANO EMUDESSE E CONTINUA COM O OLHAR FUZILANTE DE ÓDIO.

 

DOMÊNICO

Aqui estou! O que quer comigo?

 

PADRE EMERENCIANO (balança negativamente a cabeça)

Você na casa de Deus é um pecado. Por favor...

 

DOMÊNICO

Se quiser posso me confessar antes... Não vejo as coisas que fiz na vida como pecado. Na realidade, quando estudávamos juntos naquela escola, lembra? O que faziam com a gente, o que aqueles padres faziam... Aquilo era pecado, né?

 

PADRE EMERENCIANO (está vermelho de ódio. Olhos marejados)

O que você quer?

 

DOMÊNICO

Me diga logo o que você quer comigo. (quase suplicante) Fale e, me poupe do esforço desnecessário de ficar lembrando da nossa juventude, por favor?

 

PADRE EMERENCIANO

Teremos uma unidade, um posto, algo assim, para tratar as pessoas que ficam doentes aqui em Riqueza. Ia te contar essa...

 

DOMÊNICO

Disso eu sabia! Na realidade me contaram que aquela sua beata, meio transloucada, avisou em alto e bons berros que a ciência divina está chegando.

 

PADRE EMERENCIANO (se aproxima de Domênico)

É só para você saber que agora você não será páreo para a medicina verdadeira. Aquela que Deus deu ao homem a possibilidade de exercer. Suas curas, falsas curas, vão cair por terra!

 

DOMÊNICO

Não são falsas. Você lembra muito bem quando eu ressuscitei aquele passarinho no pátio da escola. Você viu com seus olhos, que a terra há de comer.

 

PADRE EMERENCIANO (se aproxima ainda mais de Domênico, fica há um palmo dele. Fala quase sussurrando, mas a vontade é de berrar)

Vá embora daqui! Você é o enviado do Diabo!

 

DOMÊNICO PASSA A LÍNGUAS NOS LÁBIOS E SORRI. DÁ TRÊS PASSAOS PARA TRÁS.

 

DOMÊNICO

Claro! Sim senhor!

 

DOMÊNICO SE VIRA E SEGUE ADIANTE. PADRE EMERENCIANO FICA IMÓVEL. OLHOS VIDRADOS NO HOMEM QUE SAÍ. DOMÊNICO, PERTO DA PORTA, PARA, VIRA O ROSTO DE LADO, SÓ PARA QUE A SUA VOZ SEJA PROJETADA NON ECO DA IGREJA.

 

DOMÊNICO

Você era o preferido do Padre Ângelo. Ele gostava quando você chorava. Ele ficava horrorizado comigo porque eu gostava.

 

DOMÊNICO DÁ UMA GARGALHADA E SAÍ. AO MESMO TEMPO PADRE EMERENCIANO CORRE ATÉ A PORTA E A FECHA BRUSCAMENTE. EM SEGUIDA DÁ UM SOCO NA PORTA E MORDE A OUTRA MÃO, COMO QUEM SEGURA UM GRITO QUE ECOARIA POR TODO O VILAREJO.

CORTA PARA

 

CENA 9 / RIQUEZA – RUA / EXT. NOITE


MÚSICA ON: BORBOLETA – ALCEU VALENÇA


ALMEIDA CAMINHA UM POUCO CAMBALEANTE PELA RUA. A CIDADE JÁ ESTÁ MEIO ADORMECIDA. AS LUZES DA VARANDA APAGADAS. POUCA ILUMINAÇÃO. ALGUNS CACHORROS LATEM, OUTROS FICAM É QUIETOS NA ESCURIDÃO. ELE SE APROXIMA DE UMA CASA VERDE. VAI PARA O LADO DE TRÁS DA CASA. E SE APROXIMA DE UMA ÁRVORE. DORINHA ESTÁ RECOSTADA NO TRONCO. ALMEIDA CHEGA POR TRÁS A FALA EM SUA ORELHA.

 

ALMEIDA

Me esperando?

 

ALMEIDA TAPA A BOCA DE DORINHA ANTES QUE ELA GRITE E DEPOIS SOLTA.

 

DORINHA

Quer me matar do coração?

 

ALMEIDA

Eu quero lhe matar, não. Mas se você quiser me matar, pode ser de prazer. O que acha?

 

DORINHA (fazendo aquele doce)

Para de falar essas coisas...

 

ALMEIDA (abraçando Dorinha. Beijando se pescoço. Passando a mão em suas pernas, em seus seios, fáceis de buscar por conta da camisola)

Eu não quero falar, eu quero é fazer, minha borboleta!

 

DORINHA (como se resistisse as carícias)

Não faça isso! Eu sou uma menina virgem...

 

ALMEIDA (continua as carícias)

E isso é o que me dá mais tesão!

 

ALMEIDA E DORINHA SE BEIJAM. ELE FAZ COM QUE A BEATA ENVOLVA A PERNA EM SUA CINTURA. ALMEIDA LEVA A MÃO ABAIXO DA CAMISOLA. DORINHA REVIRA OS OLHOS. ELE, ACHANDO MÃO AONDE NÃO EXISTE, CONSEGUE DESABOTOAR A BOTÃO DA CALÇA QUE USA, MAS DORINHA LHE EMPURRA.

 

DORINHA

Não! Isso não! Você não vai botar isso aqui!

 

ALMEIDA

Eita, que assim você me enlouquece, mulher!

 

DORINHA

Eu vou casar virgem! Não posso fazer essas coisas.

 

ALMEIDA (indo em direção a Dorinha, mais calmo)

Entendi. Mas deixa então eu beijar a borboleta, deixa?

 

DORINHA FAZ UMA CARA DE SONSA. COMO QUEM NÃO ATENDE. SE APOIA NO TRONCO DA ÁRVORE E MORDE OS LÁBIOS. ABRE AS PERNAS SUTILMENTE. ALMEIDA SE APROXIMA. BEIJA DORINHA E EM SEGUIDA DESCE. A CAM AFASTA MOSTRANDO ALMEIDA AJOELHADO COM A CABEÇA ENTRE AS PERNAS DE DORINHA. A BEATE SE CONTORCE.


CORTA PARA

 

CENA 10 / CASA DE MARINALVA – SALA / INT. NOITE


FIGUEIRA ENTRA EM CASA. SE ATRAPALHA NA HORA DE USAR A CHAVE E COMEÇA FAZENDO BARULHO. ENTRA JÁ CAMBALEANDO. NA HORA DE FECHAR A PORTA. TENTA USAR DE TODA A DELICADEZA DO UNIVERSO. MAS ACABA SE DESEQUILIBRANDO E A PORTA BATE COM FORÇA. UMA LUZ ACENDE, DO QUARTO, ILUMINA PARCIALMENTE A SALA.

 

MARINALVA (V.O.)

Figueira, é você?

 

FIGUEIRA

É eu mesmo!

 

MARINALVA (chega na sala, de camisola)

Homem de Deus, você quer me matar do coração?

 

FIGUEIRA (desaba num sofá)

A porta bateu! Eu segurei ela direitinho pra não acordar as crianças...

 

MARINALVA (olha com reprovação o marido)

Daqui eu to sentindo esse futum de cachaça, seu irresponsável!

 

FIGUEIRA

Fala baixo, vai acordar os meninos!

 

MARINALVA

Falo baixo uma ova! Você está deplorável! Olha seu estado! Agora é todo o dia desse jeito? Você é um homem de política, fica se sujeitando a um papel desses...

 

FIGUEIRA

Exatamente por ser político, eu tenho que estar onde o tá! E onde eles estão? No bar!

 

FIGUEIRA DÁ UMA GARGALHADA ALTA. MARINALVA CHEGA BEM PERTO DELE. QUASE COLANDO NARIZ COM NARIZ.

 

MARINALVA (entre dentes)

Eu me arrependo de ter casado contigo. Você está sendo influenciado pelo demo, só pode! Eu tenho nojo de você!

 

FIGUEIRA

Você tem nojo? (Figueira levanta com dificuldade, segura com força Marinalva pelos ombros) E eu que nem sei mais direito o que é foder com a minha mulher... Você virou uma carola seca. Seca!

 

MARINALVA DÁ UM TAPA NO ROSTO DO MARIDO QUE QUASE CAI.

 

FIGUEIRA (se recuperando do tapa)

Seca e malcriada!

 

FIGUEIRA SEGURA MARINALVA PELO BRAÇO E LHE DÁ UM TAPA. ASSIM QUE VOLTA O ROSTO ASSUTADA COM A ATITUDE DO MARIDO, FIGUEIRA LHE DESFERE MAIS UM TAPA NA OUTRA FACE.

 

FIGUEIRA

É por isso, pelo que você se tornou, uma beata seca, uma carola de quinta; é por isso que eu procura mulher na zona. Lá elas dão até a traseira, sabia? Chifruda dos infernos...

 

FIGUEIRA SAI DA SALA AINDA CAMBALEANDO E VAI PARA O QUARTO.


MÚSICA ON: DRAMA – MARIA BETHÂNIA


MARINALVA COMEÇA A CHORAR, TAPA A BOCA COM AS DUAS MÃOS. DESLIZA NO CHÃO. SEGURA O SOFÁ, APERTANDO O ESTOFADO COM O MÁXIMO DE FORÇA QUE CONSEGUE. AINDA CHORANDO, MERGULHA O ROSTO NO MÓVEL E OUVIMOS O CHORO ABAFADO. CAM MOSTRA O CENÁRIO. A SALA. A LUZ QUE ELA ACENDEU NO QUARTO É APAGADA. DEIXANDO A BEATA NO ESCURO COM SUA TRISTEZA.

MÚSICA OFF.  


CORTA PARA

 

CENA 11 / CASA DE TONHO – SALA / INT. NOITE


UMA BATIDA NA PORTA DA CASA É OUVIDA. TONHO APARECE EM CENA, DE CUECA E QUANDO ATENDE A PORTA, DÁ DE CARA COM DOMÊNICO.

 

DOMÊNICO

Desculpe a hora...

 

TONHO (abrindo a porta e recebendo Domênico)

O que é isso? Venha, entre...

 

DOMÊNICO (antes mesmo de entrar, dá um abraço apertado em Tonho, que retribui)

Tive que falar umas verdades para Emerenciano hoje.

 

TONHO

Imagino que está um caco, né? Aquele homem lhe deixa muito mal. Venha aqui.

 

TONHO DÁ UM BEIJO EM DOMÊNICO E OS DOIS FICAM ALI ALGUNS SEGUNDOS. QUANDO RITINHA CHEGA E OS OBSERVA.

 

DOMÊNICO (percebendo a presença de Ritinha. Desanimado)

Ei!

 

RITINHA (indo na direção de Domênico e Tonho. Dando um abraço e em seguida um beijo em Domênico)

Sentimos sua falta hoje! Né, Tonho?

 

TONHO (abraçando a cintura da mulher)

Com certeza! Sem você a gente fica incompleto, né, meu bem?

 

DOMÊNICO (sorrindo)

Só vocês dois para me fazerem um bem danado.

 

DOMÊNICO É ABRAÇADO POR TONHO E RITINHA. ELES COMEÇAM A BEIJÁ-LO. O ROSTO, A BOCA, O BRAÇO... ELES COMEÇAM A FAZER MENÇÃO DE TIRAR A ROUPA DO CURANDEIRO, MAS ELE IMPEDE DE FORMA BRANDA.

 

DOMÊNICO

Hoje eu preciso só de carinho de vocês. De um cafuné... Preciso muito descansar.

 

RITINHA

Vem comigo, então... Vamos dormir.

 

RITINHA SEGURA DOMÊNICO PELA MÃO E PUXA PARA DENTRO. TONHO AGORA ABRAÇA A CINTURA DE DOMÊNICO E O LEVA PARA O QUARTO. TONHO VOLTA PARA A SALA E FECHA A PORTA. VOLTA PARA O QUARTO E TEMOS A CENA DA SALA VAZIA E NA PENUMBRA.

CORTA PARA

 

PS: SEQUÊNCIAS DE CENAS PARA PASSAGEM DE TEMPO


CENA 12 / VISTA AEREA DE RIQUEZA / EXT. DIA.


MÚSICA ON: PROCISSÃO – GILBERTO GIL


AS IMAGENS MOSTRAM O DIA A DIA DOS MORADORES DE RIQUEZA. MARINALVA E DORINHA, E MAIS OUTRAS BEATAS, SEGUEM PELA RUA EM DIREÇÃO A IGREJA. DORIANO APARECE VARRENDO A CALÇADA DO BAR, ENQUANTO AS PESSOAS VÃO PASSANDO.

CORTA PARA

 

CENA 13 / CASA DE DOMÊNICO – SALA DE CURAS / INT. TARDE


DOMÊNICO ESTÁ NA SALA. UMA MULHER É CURADA POR ELE E AGRADECE, LHE DANDO UM ABRAÇO. DOMÊNICO SORRI. MAIS UMA PESSOA ENTRA, DESSA VEZ UMA CRIANÇA E UM HOMEM. DOMÊNICO SORRI PARA O MENINO. RAIMUNDA OBSERVA DOMÊNICO ATENDER E DEIXA TRANSPARECER SEU SORRISO. SENTIMENTO DE ORGULHO.


CORTA PARA

 

CENA 14 / SALVADOR – CASA DE DANIEL E ALICE / INT. NOITE

DANIEL APARECE SEGURANDO ALGUMAS CAIXAS. ALICE ESTÁ NO CHÃO EMPACOTANDO ALGUMAS COISAS. DANIEL OBSERVA A MULHER E LHE MANDA UM BEIJO. ALICE PARA O QUE ESTÁ FAZENDO E DÁ UM BEIJO NO MARIDO. VOLTA A ARRUMAÇÃO. ESTÃO DE MUDANÇA.

CORTA PARA

 

CENA 15 / RIQUEZA – RUA ESCONDIDA / EXT. NOITE.


ALMEIDA ESTÁ APOIADO NA PAREDE, COM O ROSTO VIRADO PRA CIMA. AFEGANTE. A CÂMERA ABRE MOSTRANDO DORINHA COM A CABEÇA ‘LÁ’. OS MOVIMENTOS DENUNCIAM O SEXO ORAL.


CORTA PARA

 

CENA 16 / CASA DE TONHO E RITINHA – QUARTO / EXT. NOITE.

DOMÊNCIO ESTÁ DEITADO NA CAMA. RITINHA POR CIMA DELE, MOVIMENTOS SEXUAIS. TONHO ESTÁ ATRÁS DE RITINHA, SEGURANDO SEUS SEIOS. EM SEGUIDA, DOMÊNICO VIRA RITINHA, A DEITANDO NA CAMA E DEITA SOBRE ELA. TONHO, SE POSICIONA ATRÁS DE DOMÊNICO E LHE PENETRA.


CORTA PARA

 

CENA 17 / RIQUEZA – RUA PRINCIPAL / EXT. NOITE

RAIMUNDA ANDA PELA RUA, ESTÁ COM UMA BOLSA NO OMBRO E UMA SACOLA NA MÃO. ELA PASSA EM FRENTE A IGREJA. O PADRE ESTÁ NA CALÇADA. OS DOIS SE OLHAM. EMERENCIANO ENCARA A MULHER POR POUCOS SEGUNDOS, FAZ UMA CARA DE DESPREZO E ENTRA NA IGREJA.


CORTA PARA

 

CENA 18 / RIQUEZA – RUA EM FRENTE A UNIDADE DE SAÚDE / EXT. DIA


LETREIRO INDICA “ALGUNS DIAS DEPOIS”.


MÚSICA OFF.


UM CARRO CHEGA, ESTACIONA NA FRENTE DO POSTO. DANIEL E ALICE DESCEM. ALICE, ANTES DE ENTRAR NA UNIDADE, OBSERVA A CIDADE.

 

ALICE

Aqui é no meio do nada...

 

DANIEL

É meu amor. O lugar é um pouco paradisíaco, né?

 

ALICE

Só não é abandonado porque tem gente zanzando por aí...

 

DO OUTRO LADO DA RUA, MARINALVA E DORINHA SURGEM, INDO EM DIREÇÃO AO POSTO. FIGUEIRA TAMBÉM ACOMPANHA A ESPOSA E A BEATA MAIS JOVEM. MAIS ATRÁS, O PADRE EMERENCIANO SEGUE INDO EM DIREÇÃO AO MÉDICO E SUA ESPOSA.

 

ALICE

Será que é um comitê de boas-vindas?

 

DANIEL

Provavelmente.

 

INOCÊNCIA SAÍ DO POSTO E CHEGA A RUA.

 

INOCÊNCIA

Doutor?

 

DANIEL (se virando para Inocência)

Bom dia. Sou o Doutor Daniel Santana. Você é...

 

INOCÊNCIA (cumprimentando)

Sou Inocência do Amparo. Vou ser assistente, secretária, quase uma faz tudo, porque faço muitas coisas... Tenho alguma experiência com enfermagem, troca de curativos...

 

DANIEL

Que bom! Vai ser útil. Essa é minha esposa.

 

ALICE (cumprimenta)

Prazer, meu nome é Alice.

 

INOCÊNCIA

O prazer é todo meu. Vamos entrar? Vocês querem conhecer o posto, acredito...

 

ALICE

Queremos sim, mas acho que temos visitas antes...

 

ALICE APONTA PARA A VERDADEIRA COMITIVA QUE CHEGA.

 

INOCÊNCIA

Nossa, eles foram rápidos!

 

DANIEL

A gente precisa se preocupar? Acredito que eles não mordem, né?

 

TODOS RIEM. QUASE QUE AO MESMO TEMPO QUE MARINALVA, DORINHA, FIGUEIRA E PADRE EMERENCIANO CHEGAM.

 

PADRE EMERENCIANO

Bem-vindos! Sou o padre Emerenciano. A chegada de vocês era muito aguardada pelo nossa comunidade, Doutor... Qual o nome do senhor?

 

DANIEL (cumprimentando o Padre)

Daniel Santana. Esta é a minha esposa Alice. É um prazer estar em Riqueza...

 

MARINALVA (interrompe)

O senhor é médico há muito tempo? Parece tão novo...

 

FIGUEIRA

Fica quieta, mulher! (para Daniel) Eu sou o vereador Figueira. Lutei muito junto ao prefeito, e com o Padre também, claro, para tentarmos abrir a nossa unidade... É muito importante a sua presença aqui.

 

DANIEL

Eu agradeço. Acredito que vou atentar as expectativas de todos daqui, pelo menos é isso que espero.

 

MARINALVA (para Alice)

Nós nos encontramos todos os dias na igreja para rezar.

 

DORINHA

Isso mesmo. Você é nossa convidada para fazer parte dessa corrente de fé.

 

MARINALVA

Somos o exemplo para gente tão mundana, ou (olhado para Inocência) moderna demais, que prefere não frequentar a igreja.

 

ALICE

Então, eu sou católica, pelo menos fui batizada, mas sou moderna. Vou a Deus quando necessário nas minhas orações. Acho que ficar indo a igreja todos os dias é desnecessário, né Padre? Deus está em todos os lugares, não é?

 

PADRE EMERENCIANO (constrangido pela intromissão de Marinalva e Dorinha)

Não ligue pra elas, senhora. De qualquer forma, a presença de vocês, como o vereador deixou bem claro, é importantíssimo. O povo de Riqueza precisa entender que não há santo. A ciência de hoje é a possibilidade que Deus deu ao homem de se curar. Milagres, só vem do Senhor.

 

DANIEL E ALICE SE ENTREOLHAM. UM SILÊNCIO TOMA CONTA DO AMBIENTE. PADRE EMERENCIANO DÁ UM SORRISO AMARELO PARA ALICE. MARINALVA E DORINHA COM AS CARAS AMARRADAS. INOCÊNCIA QUEBRA O SILÊNCIO.

 

INOCÊNCIA (olhando para outra direção)

Eu não acredito, nisso!

 

ALICE

O que foi?

 

INOCÊNCIA (apontando)

É hoje que vocês vão saber o que é viver em Riqueza!

 

DO OUTRO LADO DA RUA, DOMÊNICO ANDA EM DIREÇÃO AO POSTO. JUNTO DELE RAIMUNDA, TONHO E ALMEIDA. PADRE EMERENCIANO OBSERVA NO CURANDEIRO CHEGANDO.

 

PADRE EMERENCIANO

O que é isso? O que esse pecador pensa que está fazendo?

 

MARINALVA

Era só o que nos faltava, Padre!

 

DOMÊNICO E SUA COMITIVA SE APROXIMAM. ELES FICAM PERTO DO PADRE, MARINALVA, DORINHA E FIGUEIRA.

 

DOMÊNICO (para Daniel)

Seja bem-vindo! (Para o Padre e sua comitiva) Parece que uma comitiva já lhe deu as boas-vindas, doutor... Só tome cuidado, eles são interesseiros. Nada dessa cambada é em vão...

 

MARINALVA

Mas que absurdo!

 

DOMÊNICO

Meu nome é Domênico...

 

PADRE EMERENCIANO (completa)

... o falso profeta! O curandeiro que diz curar, mas abusa da fé alheia para interesses esdrúxulos...

 

RAIMUNDA

Quem procura o Domênico, procura porque quer. A gente não obriga ninguém. E todo mundo que procura o Domênico tem fé, muita fé!

 

DORINHA

Que pecado! Que heresia...

 

ALMEIDA (fala baixinho no ouvido dela)

Essa falsidade sua, dá até tesão!

 

DORINHA FICA MUDA. DOMÊNICO EXTENDE A MÃO PARA ALICE, ELA RETRIBUI E, EM VEZ DE UM APERTO, ELE BEIJA A MÃO DE ALICE. OS DOIS SE OLHAM FIXAMENTE. DOMÊNICO LEVA A MÃO ATÉ DANIEL QUE FICA EXTENDIDA.

 

DANIEL (olhando a mão estendida de Domênico)

Você então diz curar as pessoas? Eu já ouvi falar de história de quem é charlatão, mas nunca vi um de perto.

 

A FISIONÔMIA DE DOMÊNICO MUDA. ANTES O SEMBLANTE CONVIDATIVO, SE TORNA PERPLEXO E DURO. ALICE SE INCOMODA. DOMÊNICO RECOLHE A MÃO.

 

INOCÊNCIA (interrompe o momento constrangedor)

Gente, vamos deixar o doutor Daniel e a dona Alice se acomodarem, conhecerem a unidade de...

 

INOCÊNCIA PARA DE FALAR. PARECE FICAR TONTA. TENTA BALBUCIAR ALGO, MAS ACABA DESMAIANDO E, ANTES DE CAIR NO CHÃO, É AMPARADA POR DANIEL. TODOS SE ENTREOLHAM. CÂMERA FOCA EM CLOSE NO ROSTO DE DOMÊNICO.

 

CONTINUA...



autor
VITOR ZUCOLOTTI

elenco
DOMÊNICO (LÁZARO RAMOS)
RAIMUNDA (ZEZÉ MOTTA)
TONHO (TOMÁS AQUINO)
RITINHA (JENNIFER NASCIMENTO)
ALMEIDA (EMÍLIO FARIAS)
MARINALVA (CLAUDIA MISSURA)
DORINHA (BÁRBARA REIS)
PADRE EMERENCIANO (JOÃO MIGUEL)
DANIEL (EMILIANO D´AVILLA)
ALICE (ALICE BORGES)
INOCÊNCIA (LUCY RAMOS)
DORIANO (CLAUDIO JABORANDY)
FIGUEIRA (EDUARDO GALVÃO)


trilha sonora
O CAVALEIRO E OS MOINHOS – ELIS REGINA
LUA NOVA – EDU LOBO E MARIA BETHÂNIA
BORBOLETA – ALCEU VALENÇA
PROCISSÃO – GILBERTO GIL


produção
BRUNO OLSEN
CRISTINA RAVELA


 

Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO




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