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Flor-de-Cera: Capítulo 27

Novela de Carlos Mota
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CENAS DO CAPÍTULO ANTERIOR:

– Moça... moça... – ele tenta contê-la, mas é em vão.

– Catharine sofreu diante de Alana, a filha, também nesse corredor, há algum tempo. Enquanto o esposo buscava apoio político, ela chorava diante do corpo frágil da filha, sob olhares de todos, pedindo a Deus que salvasse sua menina. E quando Alana parecia perder o vigor, eis que ela surgia, com uma força deveras maior, que a elevava à condição de uma semideusa, como se isso fosse possível. Era comovente! Não havia quem não se penalizasse! Aliás, havia! O vereador não sentia nada ao visitar a filha, era como se ela nada fosse dele... Imagine o ser mais frio que já tenha entrevistado e multiplique-o por milhões de vezes, este era George Dumont – a ira de Stela é descomunal. – Assistíamos indignados aquilo...

– Moça... moça... – pega-a pelos braços – pare! PARE! Aonde quer chegar com tudo isso?

– À JUSTIÇA! – responde doutor Rubens, ao abrir a porta, para a surpresa de Pietro.




FLOR-DE-CERA - CAPÍTULO 27



Tanaka chega à prefeitura, passa pela secretária como um furação, abre a porta e não encontra ninguém sentado em sua cadeira, olha por todo o gabinete, até que avista o delegado na sacada, deliciando-se da frisa da noite.

– O que pensa que faz aqui, doutor Paineiras? Por acaso aqui virou a casa da mãe Joana? É melhor o senhor dar meia volta e picar a mula, antes que eu...

– ...Antes que senhor o quê, prefeito? Que me entregue à Justiça? – sorri, com ironia, aproximando-se. – Não se esqueça, se eu o for, o senhor irá junto, afinal, é tão vil como eu.

– Como é que é? Aff! Com quem pensa estar falando, criatura? Pois saiba, jamais irei para a cadeia, sou amigo do Gilmar...

– ...O Mendes? – completa o delegado.

– E quem mais seria? Pois saiba, Gilmar Mendes, o ministro do Supremo Tribunal Federal, é meu amigo, já pescamos juntos muitas vezes, participamos de vários churrascos promovidos pelos principais empresários deste país e viajamos de primeira classe para inúmeros países e tudo à custa da ingenuidade brasileira, que ainda acredita que exista Justiça num país tão injusto como o nosso. Sabe o que isso quer dizer, delegadozinho? Que basta estalar os dedos para que eu saia de qualquer cela em segundos pela mesma porta que entrar – humilha o oficial. – Vocês, pobres, são de uma simplicidade cativante, por vezes, previsíveis; também, o que mais sabem fazer além de se procriarem feito coelhos e nos garantirem os votos da nova geração? Hum! Gentalha!

– Limpe essa boca antes de falar de mim, seu... seu... beberrão.

– Beberrão? Tá aí, gostei! Melhor beberrão que... quer mesmo que eu diga? Oh, meu rapaz, não me desafie, se não um DVD parará nas mãos da imprensa e da Secretaria de Estado da Segurança Pública e todo o lodo em que está atolado virá à tona, para o seu fim e de todos os que estiverem por trás de você.

– Eu cumpri nosso acordo!

– Verdade? Matou o motoristazinho? Que bom! Já não era sem tempo! – Achega-se à adega, retira uma garrafa de saquê e a vira quase toda, dizendo: – Quer um pouco? Essa é das boas! Também, envelhecida quase 10 anos! Só tá faltando aqui uma porção de azeitona! Hum, delícia!

O delegado não acredita na indiferença do homem.

– Adelaaaaide! – chama.

– Sim, senhor – diz a mulher, esbaforida, entrando na sala. – Em que posso ajudá-lo, senhor? Precisa de algo?

– Não! Chamei a senhora aqui só para apreciar sua cara de marmota. Claro que quero alguma coisa! Cadê minhas azeitonas? Traga o prato cheio, tô com a goela seca e o estômago no pé. Agora caia fora; espere. Que perfume está usando?

– Um importado, senhor! Ganhei da minha irmã. Gostou?

– Importado... – ironiza. – Desde quando pobre tem dinheiro para comprar perfume importado? Deve ter o rótulo da França e, no verso, “Made in 25 de Março” – dá uma longa risada, para a tristeza da mulher, que se encolhe de vergonha, retirando-se em seguida.

– Eu dei cabo do infeliz, foi difícil, mas entrei naquele C.T.I. e lhe tapei o fôlego; estremeceu-se todo como um cachorro sarnento sacrificado, até bater as botas. Agora preciso do DVD e do que combinamos.

– Combinamos alguma coisa? – simula um esquecimento. – Ando ruim da cabeça!

– Prefeito, preciso do DVD...

– E para que o quer? Pretende fazer uma festinha com ele? Pois cuidado, fiquei sabendo que o doutor Jaime, aquele advogado metido a besta, abriu uma ONG de combate à exploração sexual infantil. Imagine o senhor na capa do “Tributo ao Povo”, estreando o novo xilindró da delegacia? Seria uma ironia do destino... E que ironia!

– Prefeito, chega disso, dê-me o DVD, aliás, preciso também pagar o Zelão, aquele meu “chegado”.

– E eu com isso? Agora terei de pagar pela ineficiência de seu pessoal? Poupe-me!

Adelaide entra, entrega a bandeja com as azeitonas pretas, mas antes que se retire, Tanaka faz outra de suas observações:

– E essa roupa, Adelaide? Parece que saiu da Sapucaí direto para os corredores desta prefeitura... Muito bonita mesmo! Foi sua irmã que lhe deu também? É importada de qual brechó de Punta del Este?

 

Cabisbaixa, a mulher não responde.

– Parabéns – bate algumas palmas –, ela tem um bom gosto de fazer qualquer estilista francês morrer de inveja. Uh! Agora caia fora! Fora!

Ela se retira.

– Por que faz isso com ela? – indaga, indignado, o delegado.

– Isso o quê? – faz-se de bobo.

– O senhor a humilha sem parar... Não tem vergonha?

– E quem é você para me dizer alguma coisa, delegadozinho? Alguém que “alça voos sobre criancinhas inocentes” é capaz de me dar lição de moral? Coloque-se no seu lugar, se não o entrego agora às autoridades.

– Eu sou uma autoridade! – esbraveja Paineiras.

– Só se for do submundo da dark web – caçoa, entornando a garrafa de novo. – Isso aqui tá melhor que as chanchadas do Oscarito¹. Já pensou em trabalhar no Cinema? Tem papel para todos os tipos, inclusive para o seu, o de “pedófilo da corte”.

– Prefeito, preciso do DVD e daquele dinheiro para pagar o Zelão, pensei que teria...

– E desde quando o senhor pensa? Pois caia fora daqui, estou cansado de seu nhem-nhem-nhem. Aff! Trabalhei muito hoje e não estou a fim de ouvir mais tanta besteira.

– O senhor não vai fazer isso comigo...

– E o que fará? Diga! Vai procurar a ajuda da polícia? – desafia, com os olhos destilando veneno. – O senhor é da polícia e ainda não enxergou que basta uma ligação minha para parar na cela mais imunda, do pior presídio deste país, à sombra de “gente boa” como Fernandinho Beira-Mar, Suzane Richthofen, Daniel Cravinhos e tantas outras figuras ilustres do submundo do crime?

Paineiras ameaça retirar a arma do cinturão, sendo arguido com avidez pelo mandatário do poder executivo local:

– Se eu fosse o senhor, não faria isso...

Solta a arma, fita-o com desprezo, depois caminha até a porta, abre-a bem devagar, e antes de se retirar, dispara, sem perdão:

 

– Não me resta outra alternativa a não ser procurar a imprensa para dizer que Dona Catharine, a esposa do nobre vereador George Dumont, não é filha de Dilermando, como sempre propagaram à boca miúda, mas de Rubens... o doutor Rubens Arraia.

Tanaka, que apreciava as azeitonas, termina por engasgar-se com um dos caroços; só não perde o ar de vez por conta de Adelaide, que ao ouvi-lo se debater em soluços, corre ao seu encontro e o desentala com algumas batidas nas costas.

– Que mão pesada, mulher, parece um trator! Aff! Se não morrer engasgado, morre com o pulmão esmagado – reclama, depois vira-se para o delegado, com todo o cinismo que pudesse arrancar de seu âmago, dizendo: – Grande amigo Paineiras, pois volte aqui, meu filho, temos muito a conversar. E quanto a você – diz à assessora –, agora circula! Fora! Xispa!

– Então, prefeito, o que fará? Com uma bomba dessas, a símbolo-mor dos saraus principienses cairá por terra, assim como seu esposo, que destituído do invejável sobrenome, tornar-se-á um reles concorrente à prefeitura; coitado do vereador, perderá todo o apoio dos grandes empresários da região, afinal, quem apostará num... num Arraia? George Arraia! Hum! Nem combina! – agora quem sorri é o delegado, para o desespero de Tanaka, que calado, apenas o observa.

– Vamos mudar nosso contrato, agora quero o DVD, o dinheiro do Zelão e algumas pratas para viajar à Europa e curtir umas boas férias, daquelas para nunca mais se esquecer.

– De onde tirou que a bruaca da mulher do George não é uma Dumont? Pode estar blefando!

– Ouvi o médico se confidenciando com a empregada da família, a tal Ernestina.

– Eles poderiam estar brincando...

– Para isso existe o exame de sangue... Quer fazer o teste? No mínimo, será um escândalo daqueles. Imagine a capa do jornaleco local: “Catharine, falsa DUMONT?”, ou “De uma nobre DUMONT a uma reles Arraia, que sina a de Catharine” – detona, sem piedade. – Mas essa será a melhor de todas: “Os DUMONT viram pó, assim como a campanha do vereador George”. Mesmo que depois se confirme que ela ainda seja a única herdeira dos pioneiros, o estrago já estará feito, com consequências irreversíveis.

– Quem me garante, que depois de entregar o que pediu, não abrirá essa boca de caçapa?

– Do mesmo modo que confiei no senhor até agora... Com licença, posso pegar uma azeitona? Me deu uma fome daquelas. Ah, também tô louco para molhar a goela – pega a garrafa e a vira, não deixando uma gota. – Muito bom esse saquê, agora entendo porque enche tanto o pote. Hum! Acho que vou aderir à moda – seu sarcasmo é brutal.

– Quanto precisa? – exige, roçando a barba rala que nascia naquele rosto rechonchudo.

– Que tal um milhão?

– EEEEEEita! – dá um pulo para trás. – Tudo isso? De onde tirarei tanto recurso?

– Simples! Da verba enviada à construção do Posto de Saúde. Tenho até meia-noite para pagar o Zelão, dê seus pulos, VAGABUNDO.

A palavra “meia-noite” reaviva um pensamento macabro no prefeito, que, como o tamboril², simula uma isca a sua presa, que não percebe estar sendo arrastada para os perigos da profundeza do oceano.

– Pois bem! Receberá seu dinheiro!

– Esse prefeito é dos meus! – espezinha. – Quero-o agora!

– Dê-me algumas horas...

– Não tenho tanto tempo.

– Duas horas no máximo e terá seu DVD e seu dinheiro.

– Até daqui a pouco, prefeito Tanaka Santuku, grande personalidade da comunidade principiense. Como é bom fazer acordo com gente honesta! Se todos os políticos fossem assim... – E antes de se retirar, dá o golpe de misericórdia: – Sabe, pensando bem, não precisa me devolver o DVD, sei que já deve ter feito cópias a perder de vista, assim, combinemos, calo minha boca e o senhor o mantém escondido.

Assim que se retira, Tanaka pega o telefone, e com uma agenda na mão, diz a outra voz, cuja tom, grave e arrastado, parece a de um homem de meia idade.

– Preciso de seus serviços, agora! AGORA! – desliga. – Filha do doutor Rubens? Hum! O corno do Dilermando tinha o amante da mulher o tempo todo dentro de casa e nunca soube. Burro! De qualquer forma, essa história, se nas capas dos jornais e nas bocas alheias, poderá ruir com todos os nossos planos. Se Catharine não for mesma uma Dumont, de que servirá tanto esforço? Mas vamos agir antes que a praga se espalhe.

– Como assim? – indaga Pietro, horrorizado com as histórias de espancamento promovidas pelo vereador e o abandono à filha, no leito de morte. – Alguém deveria tê-lo denunciado.

– Rapaz, preste atenção, você não conhece a fúria deste ser.

– Acabei de conhecer – aponta às marcas no corpo de Catharine – e não vejo outra solução senão ir à polícia.

– Falar com quem? Com o delegado Paineiras? São todos farinha do mesmo saco.

– Imagino! – confessa o redator. – Mas temos de encontrar um modo de quebrar esse bloqueio e levar ao povo o que de fato acontece na mansão dos Dumont.

– Use seu jornal – sugere Stela.

– Impossível! O periódico está à beira da falência e depende quase que totalmente das verbas publicitárias advindas da prefeitura, desse modo, não acredito que seu Tobias, o proprietário, irá publicar qualquer matéria com esse tema. Na certa, fará cara de paisagem diante dos fatos, enquanto os recursos públicos continuam a pingar em seu caixa.

Sorrateiro feito uma hiena, George se aproxima, sem que percebam.

– Vila dos Princípios é como a Atlântida, submersa em seus próprios pecados. E olha que são muitos! A inocência de outrora deu lugar ao orgulho, à vaidade, ao luxo, por fim, à corrupção ou você acredita que estes homens se preocupam mesmo com o povo? Apenas encenam e de encenação carregam o mundo nas costas, roubando tudo o que lhes for possível. Portanto, preciso de sua ajuda! Como representante do quatro poder, encontre uma forma de levar o que viu e ouviu às pessoas, e que a lei possa, de fato, ser cumprida.

– E as consequências? – pergunta o repórter.

– Teremos de pagá-las, se necessário, com a própria vida! Está disposto a isso, meu jovem? Eu estou! – confirma o médico, acariciando a face da filha, em coma induzido, na esperança de vê-la bem outra vez, para o estranhamento do jovem, que percebe um carinho além de uma amizade.

– O que o senhor é dela?

– Pa... – enche o pulmão de ar – ... A-AMIGO! Amigo da família há muito. Poderia tê-la ajudado antes, mas, de alguma forma, fui um covarde.

– Doutor Rubens, preciso que me conceda uma entrevista, é possível? E que delate todas as agruras vividas dentro daquela casa, sem esconder sequer um detalhe. As minúcias nos serão úteis para que a história a ser contada ganhe a simpatia do público e a credibilidade das autoridades.

– Claro! Quando quiser! Está na hora dos abusos matrimoniais cometidos por esse vereador encontrar o seu fim. Juro, vou contar tudo! Chega de mentiras, esse calhorda vai para trás das grades ou não me chamo RUBENS ARRAIA!

– Enfim, encontrei minha mulher! – diz o vereador, entrando no leito, para o espanto de todos. – Foi difícil, mas consegui! Ufa! Ah, desculpem a indiscrição, mas sobre o que estavam conversando? Tive a impressão de que falavam de minha família, é isso mesmo? – indaga, com os olhos agigantados. – Aliás – volta-se para o médico –, o que acha de mudar de nome, doutor?

Encerra com a música: (Bach - Ária da Corda Sol)

_____________________ 

1. Oscarito – nome artístico de Oscar Lorenzo Jacinto de la Inmaculada Concepción Teresa Díaz – foi um ator hispano-brasileiro, considerado um dos mais populares cômicos do Brasil. Fez dupla de sucesso com Grande Otelo.

2. As presas do peixe tamboril são atraídas por uma luz que ele reflete na escuridão do oceano, enquanto seu corpo fica escondido. Isso o faz ser conhecido como um animal trapaceiro, já que pode engolir facilmente outras criaturas até duas vezes o seu tamanho com esse trunfo.



autor
Carlos Mota

A novela "Flor-de-Cera" é remake de "Venusa Dumont - da memória à ressurreição" de Carlos Mota
 
elenco
Grazi Massafera como Catharine Dumont
Thiago Lacerda como George Dumont
Ricardo Pereira como Joaquim
Elisa Lucinda como Ernestina
Carlos Takeshi como Tanaka Santuku
Miwa Yanagizawa como Houba Santuku
Jesus Luz como Pietro Ferrara
Lucinha Lins como Franceline Legrand Dumont
Lima Duarte como Dilermando Dumont
Herson Capri como Doutor Rubens Arraia
Tonico Pereira como Moacir
Werner Schünemann como Paineiras Ken
Rosi Campos como Adelaide
Humberto Martins como Alberto Médici
Cauã Reymond como Ricardo
César Troncoso como Zé dos Cobres
Ilva Niño como Josefa
Selton Mello como Zelão
Matheus Nachtergaele como Meia-noite
Caio Blat como Delegado de Vila Bonita
Caio Castro como Leandro
Alexandre Borges como Doutor Jaime
Caroline Dallarosa como Carmem
Fernanda Nobre como Stela

participação especial
Stênio Garcia como Doutor Lúcio
Drica Moraes como Desirê
Marco Nanini como Chico Santinho

atores convidados
Ary Fontoura como Doutor Tobias
Alexandre Nero como Júlio Avanzo
Elizangêla como Maria

a criança
Valentina Silva como Alana

trilha sonora
Lágrimas da Mãe do Mundo - Sagrado Coração da Terra (abertura)
Bach - Ária da Corda Sol


desenhos
Andrea Mota

produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela

Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO



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