Flor-de-Cera: Capítulo 21 - WebTV - Compartilhar leitura está em nosso DNA

O que Procura?

HOT 3!

Flor-de-Cera: Capítulo 21

Novela de Carlos Mota
Compartilhe:




CENAS DO CAPÍTULO ANTERIOR:

Ernestina mede novamente a febre do rapaz, que bate os quarenta e um graus.
– Como ele está? Já bateu as bot... melhorou? – pergunta Paineiras ao delegado daquela comarca.
– Está mais pra lá do que pra cá! Não tenho coragem de expulsar essa dona daqui – aponta para a empregada, ela tem grande apreço pelo meliante, veja, está a lhe molhar a face com uma paciência de mãe...
– ...ou de amante! – zomba Paineiras. – Mas precisa retirá-la daqui, sabe como é, se alguém resolver denunciá-lo à Ouvidoria, poderá ser punido. Hum! O secretário não lhe poupará o fígado, ainda mais que se encontra em estágio probatório². Deixe o infeliz trilhar o seu caminho; que se há de fazer se não há vagas nos hospitais da região?
– Tem razão! Obrigado por me abrir os olhos, como é bom contar com amigos nessas horas.
A empregada resiste às investidas do delegado, quer permanecer ao lado do motorista, mas ele está irredutível, teme infringir as orientações da Secretaria e ser alvo de uma sindicância, como alertara Paineiras. Então era melhor não arriscar, por mais pena que isso lhe causasse.
– Como lhe prometi, prefeito, de hoje esse infeliz não passa! – delicia-se Paineiras ao celular, enquanto a mulher é arrancada à força da enfermaria.
Assim que ela sai, Zelão entra e fecha a porta. Com o pedaço de uma camiseta, ele tapa a boca de Joaquim, que se debate, enquanto a face é tomada pelo sangue.
– Chegou seu fim! Vai estar com os vermes daqui a pouco – afirma, vendo-o revirar os olhos.



FLOR-DE-CERA - CAPÍTULO 21


Moacir conduz a patroa ao hospital, sendo obrigado a parar, durante o caminho, quando uma multidão invade a avenida.
– De onde surgiram todas essas pessoas? – pergunta a mulher. – É uma passeata?
– É us amigu du seu Zé dus Cobre, a muié i u filhu deli morrero nu desabamento dus morru... Elis devi tá vortano du cimitério. Coitado du Zé, é um homi tão bão, capaiz de passá fomi para ajudá o próximo.
– E quantos anos tinha o filho deles?
– Tava inda nu buchu da muié...
– Como assim? Ela morreu grávida? É isso que entendi?
– Sim, dona! A muié tava prenha, di barriga...
– Que tragédia, Moacir! – compadece-se. – Ele é querido, não?
– Eli é nossu líder lá no Bairru das Frores... Tá venu essa gentarada toda, dona Catharini? Assim como o Zé, perdero as casa, tão drumindo debaxo de lona e comenu restu dus otros enquanto o prefeito vê o que faiz. O Zé diz que tudo é curpa do prefeito, ele prometeu pra nóis reforçá us barrancu, mai num féis nada, dona! Uns acredita, outros não! Inquanto num si resorvi, ajudamu uns aos zoutros. Nóis é tudo probi, mais nós tem bão coração.
– Você também perdeu sua casa? – inquire, indignada com o sofrimento daquele povo.
– Virge Maria, ieu não! Minha casinha fica bein no começu du bairro, longi dus morru, mai muita gente qui conheçu, sim! O dia qui a sinhora quisé i lá, eu levo, dá dó di vê... É tanta genti passanu fomi, sem ropa, sem tetu!.. Indá inté vontadi di chorá!
Enquanto ouve com atenção os relatos do jardineiro, ela observa cada uma das figuras que cruza a frente do carro; uma pontada lhe inquieta o coração, talvez seja o remorso, porque como herdeira de uma das famílias mais ricas da região, poderia ter ajudado a evitar tanta dor, bastaria custear as obras então exigidas pela comunidade ou provocar os órgãos competentes com o seu sobrenome divino. Mas, encarcerada em uma verdadeira redoma de vidro – assim nomeava a relação matrimonial, fora incapaz de enxergar a dor alheia; o que importava era o seu bem-estar. Era como se aquela gente fosse invisível, peça insignificante do quebra-cabeça humano, como gostava de afirmar George. E onde estava sua consciência social? Não tinha ou perecia em algum canto de sua alma vazia, assim como a de tantos outros abastados.
– Óia, dona, aqueli ali é o Zé – aponta... – Óia! Óia! Óia, intá choranu feito criança.
Em farrapos, com os fios de cabelos embaraçados pela terra, o homem chora. É de causar mesmo pena!
– E o que disse o prefeito sobre isso? – pergunta, acompanhando o ferreiro até sumir de vista. – Por que ele não acionou a Defesa Civil do Estado para auxiliá-los?
O jardineiro não responde, está com o choro preso à garganta.
– Moacir?! – ao vê-lo comovido, pede para prosseguir a viagem. Alguns minutos depois...
A limusine se abre, Catharine passa pelos repórteres sem dizer uma só palavra e se dirige à recepção.
– Como está meu marido? – demonstra ansiedade.
– Senhora Dumont, tenho uma notícia para lhe dar... – responde a recepcionista, consultando o computador.
– E-ele morreu? – Catharine segura-se à bancada.
– Pelo contrário, está bem! Receberá alta no final da tarde.
– Co-como assim? – a face empalidece. – Está bem? Ele... ele te-teve um infarto, está no C.T.I, foi essa a informação que recebi. Como receberá alta hoje? Há algum equívoco! Olhe de novo, por favor! Será que não checou a ficha do paciente errado?
– Acalme-se! Verificarei novamente... – retorna ao computador.
– O vereador George Dumont encontra-se bem; em sua ficha não há qualquer menção a infarto, apenas ao tiro que levara... Não teria entendido errado?
Arfando, Catharine ameaça cair, para desespero da jovem, que pede ajuda ao segurança.
– Joaquim, venha, a senhora Dumont não está passando bem...
– Joaquim??? –pergunta-se em meio à confusão. – Joaquim! Tantos nomes, mas logo esse... Que ironia do destino!
– Senhora? Ei, respire! – o segurança a põe em um sofá.
– Quer uma água, um suco, um café...? Acho que a senhora teve uma queda de pressão – constata a moça.
– Estou melhor! – diz, levantando-se. – Deixem-me, já estou melhor! Preciso ver meu marido.
– Joaquim, acompanhe-a!
– Não é necessário! – corre os olhos assombrados pelo rapaz. – Já estou melhor! Com licença!
Já no elevador, contém as lágrimas. Ainda havia um fio de esperança de que a moça errara o paciente e de que Tanaka não pregara tal maldade. Mentir sobre uma doença tão grave e a troco de quê? Meu Deus! Sua cabeça estava confusa e isso a enfurecia; preferia imaginar que tudo não passava de um engano, seria menos cruel!
O elevador se abre, ela caminha lentamente até o leito. Suas mãos, gélidas como a dos mortos, gotejam em meio à trepidação. Os cabelos esvoaçam com o vento de uma janela no final do corredor.
Está diante da porta, roda a maçaneta, antes de abri-la, suspira fundo e para. E se George estiver bem? Não! Não quer acreditar nisso, solta a maçaneta e se afasta; sua vontade é retornar à recepção, fazer nova consulta; por pior que seja, a dúvida é menos espinhosa que a realidade.
Confusa, estaca no meio do corredor, fecha os olhos e, em seus pensamentos, ouve Ernestina macular o vereador e aconselhá-la para que o deixe. Mas seu coração não acredita que o homem com quem se casara seja um monstro, pelo menos não como os que o cinema está acostumado a retratar em suas tramas mirabolantes.
Enche-se de coragem, volta à maçaneta, gira-a com discrição e abre a porta bem devagar; quando entra no quarto, o choque. Com um belo terno Armani cinza médio acompanhado de um cabelo penteado em estilo clássico, George concede entrevista a um repórter do “Tributo ao Povo”.
– Creio que aquele motorista tenha sido motivado pela oposição... Que partido não me quer fora das eleições, principalmente depois que eu conseguira o tão sonhado Posto de Saúde às famílias principienses? Eles sabem que não me vencerão nas urnas, por isso, instigam figuras insignificantes como a de Joaquim para me tirar a vida.
– Isso é uma acusação séria, vereador! – afirma o jornalista. – Doutor Alberto Médici, o líder local do partido de centro-direita, prestando-se a tal baixeza? Desculpe-me, mas isso me cheira à falácia...
– ...Considera-me um mentiroso? – interrompe o edil, sentindo-se ofendido.
–Longe de mim fazer tal suposição, apenas considero o relato um pouco fantasioso. Que desejem a cadeira de prefeito, não há dúvida! Mas à custa do assassinato de um oponente? Sei lá! Lembra-me a trama de uma das novelas de Lauro César Muniz¹.
– Alberto e sua trupe são capazes de qualquer coisa para abocanhar o poder dessa cidade, inclusive mandar me matar. Ele e seu partido sabem que é praticamente impossível me derrotarem, porque tenho carisma popular e o apoio do prefeito Tanaka Santuku, um homem sério, ético, compromissado com as causas sociais e com o progresso de Vila dos Princípios. Há oito anos no poder, sua administração é considerada uma das melhores do interior. E eu serei a continuidade desse extraordinário trabalho... – vira-se para Catharine, que está apoiada à parede, completamente extasiada e dissimula um carinho que não existe, pelo menos no momento, entre ambos. – Oi, amor! Que bom vê-la, não imagina como estou feliz!
O noticiarista lhe faz um aceno com a cabeça.
“– Não seria melhor confessar ao mundo que ama um chofer a sofrer nas mãos daquele marido psicopata?” – as palavras de Rubens se mesclam às de Ernestina. “... Alguém tem de pará-lo! Se não for a senhora, que seja a polícia. Ainda sonho com aquele traste saindo da mansão dentro de um camburão...”
– Algum problema, senhora Dumont? – investiga o jovem, percebendo-a assustada.
A vontade dela era abrir o coração, dizer tudo o que sabia daquele homem e do que ele era capaz em nome do poder. Uma simples palavra o arruinaria para sempre, o colocaria atrás das grades e o faria perder o tão almejado cargo político. Uma palavra apenas... Mas a coragem lhe foge, a boca resseca, os lábios tremem, a tez esquálida se contorce desorientada, e essa palavra não sai...
– Senhora Dumont? Quer nos falar algo, talvez acrescentar algum detalhe à entrevista? – insiste o rapaz, além de curioso, inebriado pela beleza da mulher.
Se lhe contasse das surras que levara ou de como os criados eram tratados, certamente, as pretensões políticas de George seriam definitivamente enterradas. Bastaria uma simples palavra sua, para destruir aquele castelo de areia, revestido num homem sem caráter, amante do dinheiro e da luxúria. A boca se abre, quer falar, arremessar para longe todos os escombros de uma vida conjugal marcada pela dor e pelo desespero, quando é surpreendida por Tanaka, que às suas costas, despercebido pelos demais, sussurra palavras de ameaça.
– Ela não quer dizer nada, não é querida? – interrompe o vereador, incomodado com a perspicácia do jornalista. – Vamos continuar, tenho muito a dizer...
– E aquela história de que o crime tem motivação passional? – dispara.
– Passional? – debocha. – Olhe para mim, para minha esposa, acredita mesmo que um motoristazinho como aquele, alçado da boca do lixo, abalaria nosso casamento, nossa eterna volúpia? Temos um relacionamento de anos, sólido como a rocha, ancorado na cumplicidade e no respeito de um para com o outro. O que me espanta não são as artimanhas da oposição, isso já era de se esperar, mas a ingenuidade de vocês, jornalistas. Como podem comprar qualquer coisa? Onde está o compromisso com os leitores e eleitores? Não concorda, querida?
Ela se retira do quarto, esquivando-se da resposta.
– Catharine é muito sensível... sabe... está sofrendo muito com tudo isso! – finge tranquilidade, o que atiça o faro investigativo do rapaz.
Apavorada, ela corre, e ao cruzar o corredor, escorrega, sendo arremessada à vidraça. Tanaka a levanta por um dos braços e a arrasta a um consultório vazio.
– Como és fraca! Dá-me nojo só de pensar que George tem de conviver todos os dias com esse resto de mulher que você se tornou – humilha. – Se fosse minha, tomaria uma surra de quebrar as pernas.
Com o juízo a um passo do surto, ela cospe no rosto dele.
– O que está fazendo, sua ordinária? Ave! Que nojo! – limpa o rosto com a manga do paletó. – Vá cuspir nos restos de sua filha, aquela praga que agora os vermes devoram. Vadia!
Levanta a mão para estapeá-la, mas no decorrer do movimento é contido pela mulher, que o segura pelo pulso.
– Se eu fosse você, não faria isso, prefeito!
– Eita! – diz, surpreso com a coragem dela.
– Se me tocar, juro, não sairá vivo daqui – ameaça-o, com os olhos incendiados de cólera.
– Se pensa que vai arruinar a carreira de George, está muito enganada! – solta-se das mãos dela. – Antes, tirarei o seu fígado e o darei aos cães! – revida. – Estou de olho em você, um simples passo em falso – simula uma faca cortando o pescoço – não sobrará nada! Poft! Já era a herdeira dos Dumont!
– Onde está o infarto de que me dissera?
– Do que está falando, criatura? – dissimula. – Quem infartou?
– Só queria saber o porquê dessa história... Será que tudo foi planejado para que eu posasse de “esposa feliz” ao lado de George à foto daquele jornaleco?
– Seja clara! – exige. – Não estou entendendo nada...
– Deixe de lado o cinismo, Tanaka, você não está falando com um desses populares incultos; fala com uma Dumont, por sinal, educada num dos principais colégios da Capital. Você me ligou dizendo que George estava indo para o C.T.I... Como fui tola!
– Eu??? Nunca!!! Como pode dizer uma coisa dessas? Eu não liguei para ninguém. Bem se vê, está à beira do caos psíquico.
– Não? – saca-se do celular. – Veja, aqui está a ligação.
O aparelho não guarda número algum, para o delírio do homem, que contra-ataca.
– Mostre-me! Onde está? – saboreia o momento. – Não disse, precisa ser enclausurada o mais breve possível, pois perece de alguma enfermidade mental. Credo! – encena um arrepio. – Será contagioso?
Catharine fica sem palavras, realmente, a ligação não constava na memória do celular. Teria apagado-a por engano? Não! Isso não, ela tão cuidadosa!
– Ainda não se cansou de procurar?
– Não chegue perto de mim!
– Coitada! – escarnece. – Está perdendo o juízo! – entorna a garrafa com gosto. – Não suportou a dor de perder a filha para o câncer e o marido para a carreira política. Como sua vida é desgraçada, não é? Todos se compadecerão da sina de George, que sairá ainda mais fortalecido dessa história, pronto para ser o novo prefeito de Vila dos Princípios... Que alma não se penalizará com o drama de um homem acometido por tantas tragédias familiares? – seus olhos reluzem de alegria. – É! E a você só restará o manicômio!
– Você é um monstro! – profere, em pranto. – O que lhe fiz para receber em troca tanto mal?
– Eu não estou lhe ouvindo... O que está dizendo mesmo? Acho que estou estressado... – diz, arrumando o paletó. – Ah, não se esqueça, eu não estive aqui, tudo não passa de fantasia de sua cabeça... – retira-se vagarosamente do consultório, fazendo sinal com o dedo para que permaneça em silêncio.
Desnorteada, senta em uma cadeira, toma fôlego e retorna ao corredor, quando não mais o encontra. Entra no elevador e tecla o nove ao invés do zero. As portas se fecham e se abrem, segundos depois, para o desespero dela, que se vê diante da pediatria oncológica, onde Alana permanecera até a morte.
Como se estivesse em transe, acessa o andar. Cai em si apenas quando os primeiros gritos lhe chegam como pedidos de socorro. Então corre os olhos pelos desenhos das paredes do lugar, estão intactos, como se a dor dos novos visitantes não fosse suficiente para retirar o sorriso da face do anjinho e da criança de poucos meses. Era estranho voltar àquela ala depois de tanto sofrimento.
O corpinho de Alana – cansado de uma luta desigual contra um inimigo mil vezes mais forte, em cuja essência há as marcas de uma crueldade voraz – estremece, entra em letargia, enquanto os batimentos cardíacos caem, desesperando as enfermeiras, que procuram o doutor Rubens Arraia. A sirene do equipamento que a monitora dispara, o ar não lhe chega mais aos pulmões e o coração para. Catharine é retirada força do leito, os residentes precisam fazer as intervenções necessárias, na esperança de que o médico chegue a tempo.
A primeira carga do desfibrilador é descarregada sobre a garota, que salta alguns palmos. Não volta. Nova tentativa. Os batimentos reagem, mas cessam em seguida. Entrando no leito, Rubens retira o equipamento das mãos dos residentes e o aproxima de Alana. É a última tentativa, se falhar, o óbito será inevitável. Olha para Catharine, que berra do lado de fora, e se volta para a pequena.
– Não nos deixe, querida! Reaja, reaja, a vida há de lhe dar outra chance... Eu confio em você! Vamos!
O pensamento em Deus, as mãos sobre os peitos da menina e o botão pronto para descarregar a última carga. Ouve-se o estrondo e, por milagre, o coração retoma os batimentos e se estabiliza. Alana estava salva! Visivelmente emocionado, ele a beija, dizendo:
– Você não iria me deixar... Eu sabia! Ao sair da sala, ele conforta Catharine.
– Está tudo bem, dona? – pergunta uma funcionária da limpeza, encontrando-a em transe.
– Não sei... – responde, resgatando-se das memórias amargas, numa voz quase inaudível.
– Não teme represália da oposição diante dessas acusações, vereador? – pergunta o repórter a George, no quarto.
– E alguém lhe perguntou alguma coisa, jornalistazinho? Pois escreva tudo o que ele disser, sem comer uma palavra; se faltar uma vírgula que seja, ligarei para o doutor Tobias, o proprietário do jornal, e pedirei sua cabeça. Hum! É cada coisa! – descarrega o prefeito, adentrando o quarto com a garrafa à boca. – Ande logo, termine com esse questionário. Amanhã quero manchete para as declarações de George; lembre-se, a maior fonte de recursos de seu jornal é a prefeitura e não quer vê-la secar, não é?
– O senhor está me ameaçando? E desde quando a imprensa se rende a interesses escusos? Acho que o senhor se esqueceu de que o Brasil é um país livre e a imprensa um dos alicerces de sua democracia.
– Ô, figura, o que você quis dizer com “interesses escusos”? – afronta-o o prefeito. – Pois sou um homem honesto, cumpridor de meu papel como cidadão. Era só o que me faltava! Um sujeitinho qualquer me chamar de... de...de safado, e na minha cara!
– Eu não disse isso – intervém o repórter. – Eu apenas...
– Vá ser xarope lá na Cochinchina... Caia fora daqui! Como eu odeio jornalista! Hum! Ô raça dos infernos! Se eu pudesse, botaria todos num paredão, de fora a fora, e metralharia sem dó, até a última bala – suga a garrafa outra vez. – Como tô com a goela seca hoje, vou tomar mais um gole de saq... água – disfarça.
– Não seria cachaça o correto? – desafia o rapaz.
– Cachaça quem toma é a velha da sua mãe... Onde já se viu isso? Vou ligar já para o doutor Tobias! Não se respeitam mais autoridades nessa cidade, pois exijo retratação imediata!
– Acalme-se, Tanaka! – George interfere ao perceber que a conversa de ambos terminaria em briga. – O rapaz só está fazendo o serviço dele.
– E muito mal feito, por sinal! Qual é seu nome, meliante?
– Meliante quer dizer malandro; portanto, esse adjetivo não me retrata, já ao senhor...
– Fora daqui, antes que eu lhe desça a mão – é contido pelo vereador.
O rapaz se retira com a face tomada pelo deboche.
– Você está louco? Brigar com a imprensa? Esqueceu-se de que ela é o quarto poder? Se ele escrever tudo o que disse...
– ... não verá o sol do dia seguinte – completa. – Sai pra lá, tô com o diabo no corpo! Ave! Saravá, meu pai!
George não se aguenta e ri.
– Tá rindo de quê?
– De nada! Esqueça! E aí, me conte, como foi com Catharine? Deu tudo certo?
– Como aguenta aquela mulherzinha? Ela se acha! Hum! “Sou uma DUMONT”! Grande porcaria! Não bastasse, ainda cuspiu no meu rosto, acredita? Nem minha mãe fez isso, porque o dia em que ela ousou me tocar, o inferno a recebeu. Ô, raiva!
– Catharine fez isso? – estranha. – Como fez para convencê-la de que não havia ligado para seu celular? Fale!
– Foi como tirar doce de criança! – explode em risos. – A bicha ficou louca! Como pode ser tão burra?
– Mas... mas, me conte, como conseguiu convencê-la?
– Simples! Assim que ela entrou nesse quarto, eu cheguei bem de mansinho, retirei o celular de sua bolsa e apaguei todas as ligações recebidas, depois o devolvi, aproximei-me e lhe fiz ameaças. Para quem assalta os cofres da prefeitura todos os dias sem deixar vestígios, isso é mel na chupeta! Precisava ver a cara da égua...
– O importante é fazê-la acreditar que está enlouquecendo, é a única maneira que temos para abocanhar sua herança. O testamento de Dilermando é claro!
– Ele não estava bom da cabeça quando o redigiu, né? Oh, homem doido!
– Se estava ou não, isso não nos interessa... O importante é o dinheiro! Só!
– E o que vamos fazer com aquela mulherzinha? Se fosse minha, amarraria num tronco e desceria o porrete.
– Por enquanto, nada! Se eu não estiver enganado, a essa hora ela estará indo para casa, onde se deitará e dormirá a base de calmante. É covarde demais para enfrentar qualquer problema, e longe de Ernestina é ainda mais vulnerável! O importante é mantermos a calma agora, porque os nossos objetivos foram alcançados: ela não fora delegacia e está perturbada com uma ligação que não existira. Logo o motoristazinho dará o último suspiro... Será o golpe de misericórdia!
A porta do elevador se abre, o jornalista depara-se Catharine recolhida a um canto, em lágrimas, e se comove.
– Dona Catharine, o que houve? A senhora está bem?
– Me tire daqui... por favor!
– Claro! Só um minuto – aperta a tecla do estacionamento.
– Por que está assim? É por causa de seu esposo? Ele está bem, a senhora mesma viu!
– Estão cometendo uma injustiça!
– Injustiça? Como assim? Seja mais objetiva!
O ar lhe falta e ela cai.
– Senhora? Ei! Venha! Vou ajudá-la... A porta se abre novamente.
– Onde está seu carro? – pergunta, tomando-a no colo.
– Dona Catharini?! Virge Maria! Um tratô passou por cima da sinhora? – pergunta o criado, alvoroçado. – Dexa moçu, eu ajudo ela. Venha! Venha! Venha Dona Catharini, a sinhora num tá bem, né?
– Pegue o celular em minha bolsa, Moacir! Preciso fazer uma ligação.
Ele retira o aparelho e o entrega à patroa, que não consegue ligar para o doutor Jaime, pois está trêmula demais. Percebendo a dificuldade da herdeira dos Dumont, o repórter se dispõe a ajudá-la.
– Doutor? Como está? É Catharine Dumont! Conseguiu o habeas corpus? Certo! – desliga. – Obrigado por sua gentileza, rapaz – volta-se para representante da imprensa, é um verdadeiro cavalheiro! Posso saber seu nome?
– Claro! Pietro... Pietro Ferrara.
– Italiano? Bom! – diz, recompondo-se. – Também preciso me apresentar?
– E quem não a conhece? É uma lenda viva, um mito; cheguei a pensar, inclusive, que não existisse, que não passasse de mera fantasia da cabeça dos principienses – sorri. – Mas como é bom ter me enganado, porque é tão real como eu! Pelo menos eu acho...
Ela o observa com desvelo... está encantada com aqueles olhos de jabuticabas em plena estação, com aqueles fios de cabelo negros, finos, que lhe descem da cabeça em voltas, como as ondas do mar. Por um instante, esquece-se do mundo para apreciar uma beleza da natureza, sim, aquele rapaz era um perfeito exemplar de sua espécie. Que coisa! Tantos problemas para se preocupar e o que agora lhe segurava a atenção era o sorriso largo e reluzente daquele ser. Meu Deus! Estava ficando louca, como dissera Tanaka? Não! Absolutamente! E antes que a apreciação pudesse ser confundida com um flerte, ela se despede, deixando o repórter sem ação.
– Que mulher é essa?!! Sua beleza é surreal! – exclama, completamente extasiado. – Pare de bobagens, Pietro! – diz a si mesmo.
– Ela é casada! E bem casada!
Antes de partir, recorda-se das últimas palavras dela ao celular e se intriga.
– Habeas corpus? Doutor Jaime? Sobre o que ela falava? Tem alguma coisa estranha nessa história! E se meu faro jornalístico não estiver errado, estou a um passo da notícia do ano.
– Nóis vai para a mansão, dona Catharini? – indaga o jardineiro, durante o caminho.
– A senhora deveria olhar para os lados, ouvir mais as pessoas, sair um pouco dessa casa, deixar os problemas de lado e viver a vida com a mesma intensidade da adolescência. Verá que há outros homens melhores, prontos para recebê-la nos braços... E quando isso ocorrer, perceberá que o que sente por George hoje não é amor, mas medo ... – as palavras de Ernestina, assim como as de Rubens, lhe são alçadas à razão o tempo todo, tendo como pano de fundo, o beijo de Joaquim.
– Dona Catharine, nóis vai para a mansão? – insiste.
– Não, para Vila Bonita! Precisamos salvar um inocente.
– A sinhora tem certeza, dona? Seu maridu vai ficá brabo feito toro.
– Nada é tão cansativo quanto à indecisão, nem tão inútil, como diria George Bernard Shaw².
– Seu Georgi disse isso? Num intindi nada du qui eli disse...
Apesar de toda a dor, Catharine ri da ingenuidade do criado. O carro segue para aquela cidade, com Pietro à espreita.
Rubens tenta reanimar Joaquim, que jogado à cama, embrulhado no cobertor, parece querer se entregar à morte.
– Vamos, meu rapaz, tenha força, você é capaz... Volte à vida, volte! Espiando-o por uma fresta, Paineiras comemora.
– Não lhe disse, prefeito, de hoje não passaria. O medicozinho invoca até espírito para trazê-lo à vida. Como é tolo! O bicho já está com os dois pés no inferno.
– Joaquim, não ceda às chantagens do destino, resista... resista! RESISTA! – implora o médico, que rasga a camisa do infeliz com um único puxão e o massageia com força. Gotas de suor lhe caem à face, é quando a razão cede ao desespero.
– Quero vê-lo, doutor! O senhor não me pode negar esse pedido – implora Ernestina, descontrolada.
– O horário de visita é das 13h às 14h, todos os domingos. Não insista! – comunica o delegado da comarca, contrariado com a situação. – Se eu lhe conceder esse direito, terei de ampliá-lo aos amigos e parentes dos outros detentos. O que São Paulo não fará comigo? Estou em estágio probatório! Sabe o que isso significa? Que se eu não cumprir à risca as ordens superiores, serei demitido.
– VAMOS JOAQUIM, RESISTA! VOLTE! VOLTE! VOLLLTE!
– E a grana, doutor Paineiras? – pergunta Zelão ao eufórico oficial. – Quero a bufunfa ainda hoje na minha mão.
– Claro, meu camarada! Você até merece uma gorjeta extra. Joaquim se retorce, na busca desenfreada pelo ar que lhe falta.
– Vamos! Acredite! Vamos! – insiste o médico, agoniado. – VAMOS! Seus pulmões se enchem... É o retorno à vida!
– Graças a Deus! Mande-me uma UTI móvel imediatamente! – pede pelo celular à Central de Vagas da região. – Como é? Está quebrada? Mas... mas...como? E uma unidade comum? Estão todas ocupadas? Há vaga para um paciente meu? É o doutor Rubens... doutor Rubens Arraia, de Vila dos Princípios, que está falando! Preciso de uma ambulância, uma viatura, sei lá... Cristo! Isso não é real!
As palavras do médico atraem a atenção de Paineiras, quebrando-lhe a felicidade.
– DESGRAÇA! O bicho está vivo, Zelão! – desespera-se. – Seu incompetente! Como isso pôde ter acontecido? Você me garantiu que ele havia batido as botas.
O policial não encontra palavras para se justificar.
–  Delegado...  –  chama  o  médico  aos  berros.  –  DE-LE-GAAAAAA-DO!
– O que foi? O que foi? – acode, assustado. – O que aconteceu? Ele está vivo? – os olhos dele se arregalam ao encontrar o chofer. – Ma-ma-mas co-como?
– Preciso que me dê permissão para levá-lo ao hospital mais próximo – interrompe-o. – Se não receber os cuidados necessários, morrerá!
– Isso eu não posso fazer, quem me garante que cumprirá com a palavra?
– O Joaquim está vivo? Graças a Deus! – vibra a criada, quebrando todas as restrições ao adentrar a enfermaria.
– Tem noção da gravidade do que está fazendo? Nega o direito vida a um homem só porque está sob a custódia do Estado? Isso também é crime, doutor! Quer ser considerado também um assassino?
– Não me entenda mal, sabe como é, estou em estágio probatório... Se a Secretaria da Segurança souber que o autorizei a levá-lo ao hospital, poderei ser demitido.
– Tá...tá... – corre os dedos pelos cabelos encharcados de suor -, então o leve com uma de suas viaturas. Ele não aguentará por muito tempo!
– Ajude-o, senhor delegado – suplica Ernestina, ele é um homem bom!
– Como chegou aqui? Quem a deixou entrar? – inquire o delegado, cientificando-se da irregularidade. – Já não lhe disse que as visitas só são permitidas aos dom...
– O senhor vai deixá-lo morrer? – intervém o médico, percebendo que a conversa mudava de foco.
– Eu não disse isso!
– Então...?
– Não posso levá-lo, das cinco viaturas que tenho, três estão em revisão e as outras duas a quilômetros daqui, numa diligência. Ele só poderá ser retirado daqui em uma ambulância ou em um de nossos veículos. É a lei, meu caro, e não há nada que eu possa fazer.
– É isso mesmo! – confirma Paineiras, achegando-se. – Apenas uma autoridade da Saúde poderá recolhê-lo.
– Recolhê-lo? Como assim? E por acaso ele é algum lixo para ser recolhido?
–Não está contente com o termo? Vá reclamar com os linguistas! – rebate Paineiras.
– Tome aí, meu filho! Encha o pote! – comemora o prefeito, dando uma dose da bebida ao vereador. – Hoje deu tudo certo! Com a morte do criado, Catharine se sentirá culpada, afinal, não é por ela que ele estava lá? Será devorada aos poucos pelo remorso! Serão crises e mais crises de depressão, até que, esgotados todos os recursos, será encaminhada àquele manicômio de Vila Bonita que visitamos. Está tudo esquematizado! E caberá a você o papel principal, porque a fará se sentir um lixo, um monstro, uma ASSASSINA! E quando isso acontecer, abriremos os cofres de sua fortuna aos gritos de alegria.
– Tem certeza de que o infeliz partiu mesmo dessa para melhor?
– George permanece descrente, como se algo o poupasse da decepção.
– Claro! Paineiras acabou de confirmar pelo celular. – Xeque-mate!
– Não sei...
– Quem diria que o delegadozinho conseguiria? Para alguma coisa ele serve, além de se “engraçar” com as menininhas.
– Esse crime eu não levo para o túmulo... – diz o edil.
– Muito menos eu; já ele... – debocha.
– Diz uma coisa, Tanaka, como conseguiu aquele DVD que incrimina o delegado?
– Meu filho, no mercado negro da corrupção e do crime alheio, tudo é possível – gargalha, virando de novo a garrafa. – Bastou oferecer uns trocos a um chegado meu para que me enviasse toda a capivara daquele “Zé Migué”. Hum! O bicho é muito burro. Ele visitava sites da dark web³ com o código do IP à vista, nem para cometer o crime usando o anonimato. Foi só seguir o rastro para logo pegá-lo na botija. E, olhe, além de assistir a vídeos com cenas pavorosas de pedofilia, ele ainda terminou por postar o próprio crime. Estava lá! Tudo lá! Ele não teve qualquer pudor diante daquela pequena.
– E quem ela é?
– Meus contatos fizeram o serviço completo, ela é uma miserável da região, sem pai nem mãe, que mora de favor na casa de uma avó muito “amiga” – esfrega os dedos – do dinheiro.
– E quantos anos ela tem?
– Doze.
– Inacreditável! Jamais imaginei que o Paineiras, aquele delegado tão sério, seria capaz de tal atrocidade.
– Isso é problema dele, porque o que importa mesmo é que agora ele está em nossas mãos; aliás, em minhas mãos – ri, enquanto lhe dá um copo. – À vitória, meu amigo! – deseja Tanaka, antes dos copos anunciarem o brinde macabro.
– Ninguém o levará daqui, a não ser que a Justiça permita! – sentencia o delegado.
– Pois ela já permitiu, delegado – diz o doutor Jaime, adentrando a enfermaria, para o espanto de todos.
– Isso aqui está virando a casa da mãe Joana, todo mundo entra e sai a hora que quer – conclui Paineiras, visivelmente irritado. – O que faz aqui, doutor Jaime? Não me venha dizer que o senhor é o defensor desse margi... cidadão?
– Acertou, doutor! – ironiza. – E aqui está o habeas corpus, concedido pela 1ª Vara Criminal de Vila dos Princípios, ao senhor Joaquim Ferreira, o meu cliente! Portanto, até que esse documento seja cassado – e, isso, garanto, não acontecerá, ele está livre para fazer o que quiser. É a lei, senhores!
– Então posso levá-lo? – os olhos do médico brilham de felicidade.
– Sim! – limita-se o advogado.
– Espere aí, explique-me uma coisa, doutor Jaime – pede Paineiras –, de onde esse pobretão tirou dinheiro para contratá-lo? Que eu saiba, ele não tem onde cair morto! Deve ter cometido outro crime! Fique esperto, Roberto – volta-se para a outra autoridade –, esse documento deve ser falso ou...
– ...Como dizem, a fama faz a pessoa, não é, delegado? – provoca o defensor.
– O que quer dizer com isso?
– Nada, delegado! Nada!
– O senhor está querendo nos levar na conversa. Pois fale, como ele o contratara? Fale!
– Deixe que eu o responda, Jaime! – diz Catharine Dumont, iluminando o local com sua graça.
– DO-DONA CATHA-THA-THA-RINE DUMONT??? – Paineiras se engasga com a saliva.
Encerra com a música: (Nessun Dorma - Aretha Franklin)


Jornalista Pietro Ferrara conquista a atenção de Catharine Dumont...
_____________

1. Lauro César Muniz é um escritor brasileiro, famoso autor de telenovelas, roteiros cinematográficos e peças teatrais.
2. Foi um escritor, jornalista e dramaturgo irlandês, autor de comédias satíricas que o tornaram espírito irreverente e inconformista.
3. Uma pequena parte da Internet, considerada infame por ser utilizada por visitantes do mercado negro on-line, onde se é possível comprar desde drogas, documentos ilegais, serviços de assassinato a pornografia infantil.



autor
Carlos Mota

A novela "Flor-de-Cera" é remake de "Venusa Dumont - da memória à ressurreição" de Carlos Mota
 
elenco
Grazi Massafera como Catharine Dumont
Thiago Lacerda como George Dumont
Ricardo Pereira como Joaquim
Elisa Lucinda como Ernestina
Carlos Takeshi como Tanaka Santuku
Miwa Yanagizawa como Houba Santuku
Jesus Luz como Pietro Ferrara
Lucinha Lins como Franceline Legrand Dumont
Lima Duarte como Dilermando Dumont
Herson Capri como Doutor Rubens Arraia
Tonico Pereira como Moacir
Werner Schünemann como Paineiras Ken
Rosi Campos como Adelaide
Humberto Martins como Alberto Médici
Cauã Reymond como Ricardo
César Troncoso como Zé dos Cobres
Ilva Niño como Josefa
Selton Mello como Zelão
Matheus Nachtergaele como Meia-noite
Caio Blat como Delegado de Vila Bonita
Caio Castro como Leandro
Alexandre Borges como Doutor Jaime
Caroline Dallarosa como Carmem
Fernanda Nobre como Stela

participação especial
Stênio Garcia como Doutor Lúcio
Drica Moraes como Desirê
Marco Nanini como Chico Santinho

atores convidados
Ary Fontoura como Doutor Tobias
Alexandre Nero como Júlio Avanzo
Elizangêla como Maria

a criança
Valentina Silva como Alana

trilha sonora
Lágrimas da Mãe do Mundo - Sagrado Coração da Terra (abertura)
Nessun Dorma - Aretha Franklin


desenhos
Andrea Mota

produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela

Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO



Copyright © 2020 - WebTV
www.redewtv.com
Todos os direitos reservados
Proibida a cópia ou a reprodução



Compartilhe:

12 anos

Capítulos de Flor-de-Cera

Drama

Flor-de-Cera

No Ar

Novelas

Romance

Comentários:

0 comentários: