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Flor-de-Cera: Capítulo 20

Novela de Carlos Mota
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CENAS DO CAPÍTULO ANTERIOR:

– Venha comigo! Precisamos resolver um problema.

– Dê-me aqui essa porcaria! – resmunga Rubens, bastante impaciente, vendo o celular tocar novamente.

– Não irá mesmo atender a ligação? – insiste Maria. Contrariado, responde à empregada:

– Já disse que não! Agora me ajude com as malas, o avião para São Paulo partirá dentro de alguns minutos.

– O senhor está sendo negligente! Como pode deixar à deriva uma de suas mais antigas pacientes? Decepciona-me tanto!

Os dois discutem.

– Se não quer me ajudar com a bagagem, tudo bem, mas quando eu voltar, teremos uma boa conversa – diz ele.

Abre a porta e quase grita de espanto. À sua frente está Catharine.




FLOR-DE-CERA - CAPÍTULO 20


Maria acompanha com atenção todos os gestos do patrão.
– Posso entrar, Rubens? Precisamos conversar! – pede Catharine.
– A-agora? Mas... mas estou...quer dizer, bem, tenho de viajar, ministrarei uma palestra aos residentes do Hospital das Clínicas de São Paulo. Infelizmente, nossa conversa ficará para outro momento. Desculpe!
– O senhor não irá para o exterior? – interfere a empregada, para o desespero do homem, que a fuzila com os olhos.
– Como pode viajar, se é a única testemunha do suposto crime? Comunicou as autoridades?
– Isso não vem ao caso, até porque, como você mesma disse, sou a testemunha, não o acusado. E que eu saiba – seu tom de voz é agressivo, apenas quem está sob a custódia da Justiça tem a liberdade cerceada, o que não é meu caso.
– Rubens, o que há? Apenas fiz uma pergunta, não uma acusação! Por que age com tanta violência? Você nunca foi assim.
– Sempre há uma primeira vez! – completa o médico, fugindo dos olhos dela.
– Preciso de você, não me falte nesse momento, por favor!
– Já disse, terei de viajar, aliás, não posso viver em função de sua família... Basta uma dor de cabeça para me tirarem da cama ou mesmo mudarem meus planos. Se precisa de ajuda, aqui está o cartão – retira do bolso – de outro renomado clínico geral da cidade.
– Não compreendo, você é o médico de minha família há décadas, viu-me nascer, crescer, casar, e, em momento algum, negou-me seus préstimos; de repente, sabe-se lá o porquê, deixa de atender minhas ligações, meus pedidos de socorro... O que lhe fiz, homem, para me tratar assim? O que recebe não é o suficiente? Então faça o seu preço que eu o cobrirei.
– Não insista, já disse, tenho de viajar... Se me der licença, tenho de carregar as malas até o carro.
– Rubens?! – espanta-se com a frieza dele. – Deixe-me ao menos entrar, contar-lhe o que está acontecendo.
– É melhor não, meu voo partirá daqui a alguns minutos.
– Entre, dona Catharine! – interfere Maria, importunada com o descaso do patrão. – Ele é de lua, um dia está sorrindo, noutro dando patadas, não é mesmo doutor Rubens Arraia? – pronuncia o nome dele com indignação.
O médico dá um passo para trás, permitindo que a mulher adentre a residência. Antes de fechar a porta, inspira com vontade; o embate com a única filha é inevitável.
– Seja breve, o que a traz aqui? – sua aspereza a inquieta.
– Joaquim! Ele foi esfaqueado e está entre a vida e a morte! Não há quem possa lhe prestar socorro, os hospitais estão sem vagas.
– Esse é o problema de todo pobre nesse país: quando adoece ou sofre alguma agressão inesperada do destino, vai para o C.T. I ou para o cemitério. Hum! Tome o telefone do prefeito daquela comarca e solicite sua intervenção. Use meu nome – se for o caso, ele me deve muitos favores – diz, simulando desinteresse pelo caso.
– Vá atendê-lo, doutor! O que lhe custa? – Maria reforça o pedido.
– Cale a boca! – a ressaca lhe devora os sentidos. – Cale a boca! Já disse que não posso...
– Como me decepciona, Rubens! Pensei que fosse humano, de um coração belo, de uma alma pura. Estava errada! É como todos os outros, incapaz de estender a mão a um semelhante! – confessa a herdeira dos Dumont, com os olhos tomados por lágrimas. – Joaquim morrerá e por negligência sua.
– Minha?!! Não! Em nenhum de meus afazeres consta que devo atender a um reles motoristazinho – a vontade é a de lhe revelar todos os segredos daquela carta; entretanto, contém-se, para o bem dela. E, ao invés de acariciá-la, chamá-la de filha, opta por maltratá-la.
– E ajudar o próximo não faz parte de seus afazeres, aliás, de seu juramento médico? – pergunta Maria, entrando na conversa, para o profundo descontentamento do homem, que pede, uma vez mais, que ela se cale.
– Ele está falando como George! – constata Catharine.
– Tens a audácia de me comparar àquele homem vil? Coitada! Não consegue discernir o belo do rústico, o joio do trigo.
– Por que me ofende? – magoa-se. – Pensei que fosse meu amigo, meu melhor amigo; mas o que está a minha frente é apenas a imagem desmistificada de uma fantasia, que de tão cultuada, às vezes parecia real. Talvez George esteja mesmo certo, você jamais gostou de mim, obteve apenas prestígio com seus préstimos a minha família. Quem não desejaria o status de “médico dos Dumont”?
Um resquício de pena recai sobre os ombros do homem, que ainda assim se mantém firme, porque se esmorecesse, os podres de um passado poderiam condená-la à dor eterna.
– Como é tola, menina! Acha mesmo que a ladeei todo esse tempo para usufruir de seu sobrenome? Não me vendo por tão pouco! Hum! Você não me conhece!
– Não mesmo! – rebate a filha de Franceline, para o espanto dele.
– Você não cresceu, é uma garota mimada, basta estalar os dedos para que tudo lhe caia às mãos como num passe de mágica. Não lhe cansa ser assim tão frágil, tão pedante? – aproxima-se de uma adega. – Você sofre de egocentrismo; é como se tudo girasse ao seu redor e as pessoas só existissem para servi-la. Olhe, vá embora, antes que eu acabe falando mais bobagens! Ah, me esqueça! Destituo-me do cargo de médico de sua família... – pega a garrafa de vinho do Porto, enche o copo até a boca e o entorna de uma vez.
– Doutor, o que faz? – intervém a criada. – O senhor está sendo grosseiro!
– Cale a boca, serviçal, se não a demitirei!
– Pois faça; quero ver! O senhor não merece o nosso apreço.
– Você não é o Rubens que conheço, é outra pessoa, como se quisesse me ver mal, destruída. Cadê todo aquele carinho, aquele afago? – desola-se a esposa de George. – O que o fez mudar tanto?
– Quer mesmo saber? – Maria entra na conversa de novo. – Ele ficou assim depois da visita de Ernestina.
– ERNESTINA? – espanta-se. – Como assim? Ela esteve aqui? O que queria?
Rubens engasga com o segundo copo ao ouvir o nome da criada.
– Maria, já disse, vá para a cozinha... Ela não sabe o que diz, Catharine! É a velhice chegando.
– Sei sim! Ernestina esteve aqui ontem à noite, depois disso, ele virou o capeta, dona Catharine. Acho que vou chamar o padre para exorcizá-lo!
– Está demitida! – sentencia o patrão. – Pegue suas coisas e dê o fora de minha casa. Fora!
– Não faça isso com ela, por favor! A culpa é minha, portanto, desconte em mim o seu nervoso! – pede a herdeira dos Dumont.
Maria sobe a escadaria contrariada. Aquele homem, outrora amável, agora nega socorro aos que mais o prezam, e ainda tem a coragem de mentir para justificar sua atitude.
– O que Ernestina veio fazer aqui?
– Então me fale a verdade, Catharine! – desconversa, aproximando-se, com o olhar dominado pela curiosidade. – O que você tem com Joaquim? Ele é apenas um criado seu ou algo a mais? Seu marido sabe que está aqui, pedindo para que eu salve a vida dele? Sabe?
Ela não responde.
– Ah, faça-me o favor, mulher – diz, pegando-a pelos ombros –, quantas humilhações ainda terá de sofrer para perceber que me cansei de você?
– Rubens?!! – lágrimas descem-lhe o rosto, desordenadamente. – O que está fazendo? Solte-me, está me machucando.
– “Se um dia tivermos um filho, dar-lhe-ei tanto amor, Franceline, que nunca sentirá o vazio que ora mora dentro de mim. Farei de tudo para que seja o mais feliz possível! E se tivermos uma menina, então? Acho que deixarei até o emprego para paparicá-la. Sou muito apegado às crianças, quando as vejo, tenho vontade de brincar... É verdade! É como se eu me sentisse VIVO, entende? – sua singeleza é embriagante.
– Jamais deixaria um filho meu sofrer, seria o pai mais perfeito...” – alça do baú do tempo um dos momentos mais íntimos com Franceline. – CRISTO! O que estou fazendo? – cai em si.
– Não tenho nada com Joaquim, se é isso que quer saber – diz, libertando-se.
– Eu o flagrei a beijando no quartinho de Ernestina! Não minta para mim, sei de tudo.
– Tudo o quê? Sou uma mulher casada, respeito meu marido, o brasão de minha família.
– Então o que faz é por pura caridade? Palmas para você, acaba de ganhar o troféu Madre Teresa de Calcutá¹. Poupe-me de seu cinismo, por favor, porque diante de ti está um homem vivido, que aprendeu com a vida todas as traquinagens dos amantes.
– Eu não tenho nada com ele! Apenas não posso deixá-lo entregue própria sorte. Se não ajudá-lo, quem mais ajudará?
– Ó, Catharine, não minta para mim nem para ti, pois o ama, não é isso? Trai seu marido com aquele coitado, não é? Fale! Por isso todo esse interesse em salvá-lo!
– Não!!! – descontrola-se. – Não!!! Nunca traí meu esposo!
– É como sua mãe... Tens um amante!
– Como pode dizer tal coisa? Por acaso era confidente daquela “mulher de rua”? – estranha.
– E quem em Vila dos Princípios não sabe que seu pai tornou-se desgostoso após descobrir a traição de dona Franceline? – encena um deboche típico dos urubus de plantão. – Na época, a cidade pegou fogo!
Catharine abaixa a cabeça, surpresa com a revelação do homem.
– É como ela, Catharine? Traiu George com Joaquim, não foi?
– Como pode fazer tal comparação? Aquela peste desgraçou nossas vidas; meu pai estaria vivo, se ela tivesse contido o cio que lhe corria às veias – há muito rancor em suas palavras.
– Você está se referindo a sua mãe? E com essas palavras? Como pode? Ela a amava mais do que tudo nessa vida, sou testemunha disso. Quantas vezes a socorri depois de ser espancada por Dilermando... E sabe por quê? Ele dizia que você, menina, havia trazido dor àquela casa! E ela nunca aceitou isso!
– Mentiroso!!! – afirma, enraivecida. – Meu pai me amava; já ela, só pensava em se deitar com outros homens, ou Vila dos Princípios também não sabe disso? – desafia. – Ele era e permanece sendo tudo para mim! Aliás, depois de Alana, ele foi a pessoa que mais amei nessa vida.
–Vejo que conhece pouco seu pai! – lamenta-se o doutor.
– Você quer me confundir, deve ser isso!
– Longe de mim!
– Então, por que defende aquela criatura?
Rubens não se contém e faz outra comparação:
– Tens os olhos, os lábios e o modo de ser iguais aos dela; falta-lhe a força arrebatadora que a levou para os braços do homem que tanto a amou nessa vida.
– Do modo como fala, até parece que conheceu esse homem... – insinua, com os olhos reluzentes de curiosidade.
– Está enganada! O nome do infeliz foi para o túmulo com sua mãe, ou se esqueceu? – segura-se outra vez, para não se revelar.
– Quem pensa que é para falar assim comigo?
– O seu melhor amigo ou não foi assim que me intitulara?! Não seria melhor confessar ao mundo que ama um chofer a sofrer nas mãos daquele marido psicopata? Pobreza não é doença, querida! Pelo contrário, são os pobres que vivem o verdadeiro amor, porque entre eles não figuram seres ardilosos como a ganância e o poder; apenas a vontade de ser FELIZ!
– Vou-me embora, chega de tanta humilhação.
– Não! – segura-a pelo braço. – Agora você me ouvirá!
– Largue-me, já! Sou uma DUMONT e exijo respeito!
O celular dela toca.
– Dona Catharine, pelo amor de Deus, corra, Joaquim está convulsionando.
Ela desliga o telefone e cai ao sofá, gélida como os mortos. Rubens quer tocá-la, senti-la sua, revelar o seu segredo, mas o receio – ah, o receio, aquele verme que mora na cabeça dos fracos – o impede, até porque, ela já não é mais sua filha... É uma legítima Dumont, com a graça de Franceline e a arrogância de Dilermando. Se lhe dissesse tudo, um terremoto varreria Vila dos Princípios e o escândalo não teria fim. De um sobrenome de que tanto se gaba a uma simples Arraia... Que sina a sua!
– Eu confesso... – diz, cabisbaixa.
– Confessa o quê? – é apanhado de improviso. – O que está me dizendo?
– Eu amo Joaquim! Era isso que queria ouvir, não era? – indaga, com os olhos mergulhados na dor. – Eu o amo! Por favor, agora o salve! Ele está muito mal! Precisa de sua ajuda. Por favor! – suplica. – Por favor!
Ele corre as mãos pelo cabelo encharcado, dá um passo para trás, olha-a com o amor de um pai... Que felicidade ouvir aquilo! Estava enganado, ela não era apenas uma Dumont; sua essência também corria dentro dela! Era visível por meio daquele medo em cujas raízes não havia o horror, mas a eterna vontade de amar e de ser feliz dos Arraia. E isso o esperançava! Quem sabe um dia não poderá chamá-la de filha e ter o prazer de ser chamado de pai.
– O que está me dizendo, Catharine?
– Que amo Joaquim e ele está morrendo... – levanta-se, para cair em seguida, abatida por uma vertigem.
– Querida, acalme-se! Venha cá!
Ao socorrê-la, percebe outra mancha roxa em seu colo.
– O que é isso?
– Não sei, estão aparecendo em todo o corpo – responde a mulher. Pensamentos ruins enchem-no de preocupação.
– Ajude-o, por favor! – suplica mais uma vez.
Ele se refugia dentro de si por alguns segundos, depois sobe as escadarias, onde encontra Maria.
– Isso é do senhor? – diz a mulher, com a carta em mãos.
– Por favor, dê-me isso! – pede, sem responder à pergunta.
– Cuidarei dela, enquanto o senhor socorre o tal criado – os olhos da mulher parecem águias atrás de presas, para o pavor do homem, que teme a revelação de seu segredo.
Estacado ao corredor e de costas para a empregada, ele não diz qualquer palavra.
– Não se preocupe, doutor, não direi uma só palavra; sei o que está sentindo e peço desculpas pelo meu julgamento precipitado! O senhor é um homem de bem, Deus sabe disso, como também sabe que o senhor não poderia ter ficado com dona Franceline. Muito sangue teria sido derramado! Muito mesmo! E ela também sabia disso!
– Se há algo de que me orgulho nessa vida é o de tê-la em meus braços! – recorda o homem, dominado pela emoção.
– Como está romântico, querido! Queria que esse momento não findasse nunca! Como é bom estar com quem amamos, não é?
– Mas esse momento pode ser eterno, deixe Dilermando e venha viver comigo!
– Não posso, Catharine ainda está novinha, como deixá-la distante do pai? Seria crueldade de minha parte.
– E como pode viver com um homem que não ama? Como pode beijá-lo sem sentir náusea? Como pode tocá-lo sem sentir asco?
– Por uma filha, uma mãe é capaz de qualquer coisa, até mesmo de encenar o amor...
– Você me assusta, sabia?
– Por ser tão sincera? É o meu grande defeito!
– E é o que me amedronta!
– Você é uma dádiva celestial – revela a mulher, olhando-o fixo.
– Queria ter a coragem de dizer ao mundo que tu és o meu grande e único amor – sorri, abraçando-o.
– Doutor – chama novamente a empregada, percebendo-o letárgico, tudo bem? Parece tão distante.
– Estou bem, fale!
– Assim que o senhor voltar, eu arrumarei minhas coisas.
– Esqueça tudo o que lhe disse, você não é minha empregada; é minha amiga. Aqui não é o seu local de trabalho; é a sua casa.
– Como é? Catharine está providenciando auxílio médico ao motorista? – berra o vereador, ainda no hospital, ao prefeito, que acabara de chegar.
– É o que o doutor Paineiras me disse! Ele acabou de chegar à delegacia de Vila Bonita e soube dos fatos pelo delegado de lá. Coisa de louco essa sua mulher, né, George? Eu lhe disse, aplique-lhe um bom corretivo, aquilo lá tem sangue ruim... – esbraveja o prefeito. – Mas não, só sabe dar aquelas surrinhas que nem marcas deixam!
– Isso atrapalhará novamente os nossos planos. Droga!
– E tudo por causa daquela empregadazinha dos infernos, a tal da Ernestina! Essa é outra que temos de apagar logo, parece um cão de guarda! Ave! – retira uma pequena garrafa do bolso e a vira na boca. – Esse saquê está divino! Quer um pouco?
– Como pode pensar em bebida numa hora dessas, Tanaka?
– Meu filho, cada um se apega ao que tem... Uns se apegam a Deus, outros aos santos e eu ao saquê! Quer algo mais relaxante? É graças a ele que estou aqui agora...
– Como assim? Do que você está falando? – estranha o vereador.
– Passei por uma agora há pouco, mas dei a volta por cima. Sabia que aquela gentalha não se recusaria a provar do meu saquê – ri. É, não foi fácil, mas dobrei a todos com mais promessas. Também, bêbados daquele jeito, tudo o que eu dissesse viraria gol do Corinthians. Pobre é tão previsível!
– Está louco, homem? Não estou entendendo nada do que está dizendo!
– O que seria do político se ele não tivesse o dom da mentira, George? Estaria arruinado! Mas algo me intriga, aquele Zé dos Cobres um bicho rasteiro. Hum! E bicho rasteiro se mata a porretada.
– Zé dos Cobres? Quem é esse? Ah, Tanaka, poupe-me dessas histórias provincianas! O que quero é ir a Vila Bonita, flagrar Catharine prestando socorro ao motorista.
– E para quê? Aí sim dirão que é um corno! – percebe ter falado demais.
– Corno, EU? – o sentimento mescla fúria e admiração.
– Até agora a mídia não entendeu o que se passou naquele quartinho! Supõe uma traição, daí a afirmá-la é outra coisa! Temos que ter cuidado, George, pois a campanha à prefeitura se iniciará dentro de algumas semanas, e não quero vê-lo desenhado com chifres por aí.
– E o que sugere? Que eu fique quieto enquanto ela me humilha? Porque isso é uma humilhação! Como pode estender as mãos ao homem que pretendia me matar?
– Estamos num fogo cruzado! – dá outro gole na garrafa. – Mas, pelo o que o doutor Paineiras falou, ela ainda não chegou à delegacia; então, que tal simularmos uma crise, dessas de apavorar até centro de macumba?
– Como assim? – pergunta o curioso vereador. – Não entendi!
– Mas logo vai entender – diz, sorvendo outra dose da bebida. – Espere e verá! – gargalha.
– Se percisá de arguma coisa, é só pidí, Zé! Nóis é probi, mais tem bão coração! Ondi comi deiz, comi onzi – o alcoolizado ancião presta solidariedade ao ferreiro Zé dos Cobres, durante o enterro da esposa dele.
– Obrigado, seu Juca! Deus lhe pague por tanta bondade! Abraçado a mais dois amigos, Zé acompanha o caixão ser engolido pela terra. O silêncio do lugar é de arrepiar... A alguns metros, os dois homens de outrora o acompanham com discrição.
– Será que dará certo? Acho-o pacato demais!
– Pacato? Ele é um pedacinho de carvão a ser lapidado... – responde Alberto, o líder da oposição, ainda encantado com a postura insurreta do ferreiro.
– Não sei! Apesar dele falar bem, parece muito honesto para entrar para a política – responde Ricardo, seu assessor.
– Ele me lembra alguém, mas quem? Já sei – estala os dedos, Paul Potts!
– O vendedor de celulares, de olhar melancólico, com defeito nos dentes, que emocionou o mundo ao cantar ópera naquele programa inglês?
– Exatamente! Assim como Potts, alguém daria alguma coisa por esse coitado? No entanto, ao peitar o prefeito parecia um leão, fazendo das palavras o seu urro. E que urro! Tanaka quase caiu do caixote. Não havia quem não se impressionasse com sua braveza, palmas foram ouvidas... Zé dos Cobres é o nosso Paul Potts, homem ideal para derrotar nas urnas o petulante vereador George Dumont e seu fiel escudeiro, o prefeito.
– Mas... mas...não sei, esse coitado? – hesita.
– Cuidado com o preconceito, Ricardo! Não são as roupas nem as contas bancárias que fazem um Homem, mas o seu caráter. E isso ele tem de sobra! – coça o cavanhaque, imaginando o futuro político do rapaz. – “Para enxergar claro, bastar mudar a direção do olhar”, como diria Exupéry².
O coveiro joga duas ou três pás no buraco, quando se ouve um estouro; a tampa do caixão, de papelão, rompe com o peso, deixando mostra os enfeites mortuários, para o desespero do marido, que se ampara nos ombros amigos.
– Ajudarei Joaquim! – diz Rubens, retornando à sala de estar. – Pensei bem, devo-lhe isso!
Catharine alumia a face entristecida com um enorme sorriso.
– Eu sabia, você jamais deixaria de atender a um pedido meu! Obrigado, meu amigo!
– Antes de qualquer coisa, precisamos de um bom advogado, alguém com experiência suficiente para burlar todos os entraves burocráticos e conseguir um habeas corpus em curto espaço de tempo. Temos de retirar Joaquim daquela cadeia, caso contrário...
– Falarei com o doutor Jaime, o advogado de minha família, ele saberá como proceder.
– Tomara! Estou indo para Vila Bonita.
– Vou com você!
O celular dela os interrompe.
– O que aconteceu com George? Meu Deus! Ele foi levado para o C.T.I? Como foi isso? De repente? Tanaka, me explique direito, não estou entendendo nada! Fale devagar!
– O que aconteceu? – indaga o médico, num misto de estranhamento e desconfiança.
– George teve um infarto! Como pode uma coisa dessa, Rubens? Estava tão bem ontem à noite... – abraça-o, para o espanto dele, que se limita a alisar os cabelos dela. Como é difícil estar diante da própria filha e não poder se assumir como pai. A dor é fina, mas perfura o coração com a força de uma estaca.
Ernestina mede novamente a febre do rapaz, que bate os quarenta e um graus.
– Como ele está? Já bateu as bot... melhorou? – pergunta Paineiras ao delegado daquela comarca.
– Está mais pra lá do que pra cá! Não tenho coragem de expulsar essa dona daqui – aponta para a empregada, ela tem grande apreço pelo meliante, veja, está a lhe molhar a face com uma paciência de mãe...
– ...ou de amante! – zomba Paineiras. – Mas precisa retirá-la daqui, sabe como é, se alguém resolver denunciá-lo à Ouvidoria, poderá ser punido. Hum! O secretário não lhe poupará o fígado, ainda mais que se encontra em estágio probatório². Deixe o infeliz trilhar o seu caminho; que se há de fazer se não há vagas nos hospitais da região?
– Tem razão! Obrigado por me abrir os olhos, como é bom contar com amigos nessas horas.
A empregada resiste às investidas do delegado, quer permanecer ao lado do motorista, mas ele está irredutível, teme infringir as orientações da Secretaria e ser alvo de uma sindicância, como alertara Paineiras. Então era melhor não arriscar, por mais pena que isso lhe causasse.
– Como lhe prometi, prefeito, de hoje esse infeliz não passa! – delicia-se Paineiras ao celular, enquanto a mulher é arrancada à força da enfermaria.
Assim que ela sai, Zelão entra e fecha a porta. Com o pedaço de uma camiseta, ele tapa a boca de Joaquim, que se debate, enquanto a face é tomada pelo sangue.
– Chegou seu fim! Vai estar com os vermes daqui a pouco – afirma, vendo-o revirar os olhos.
Encerra com a música: (Brasil - Gal Costa).
_______________

1. Missionária católica albanesa, nascida na República da Macedônia e naturalizada indiana, beatificada pela Igreja Católica em 2002. Considerada, por alguns, a missionária do século XX, fundou a congregação “Missionárias da Caridade”, tornando-se conhecida ainda em vida pelo cognome de “Santa das sarjetas”.
2. Antoine de Saint Exupéry (1900-1944) foi um escritor, ilustrador e piloto francês, é o autor de um clássico da literatura ―O Pequeno Príncipe, escrito em 1943. Era o terceiro filho do conde Saint-Exupéry e da condessa Marie Fascolombe, família aristocrática empobrecida.
3. Período em que o servidor público terá seu desempenho avaliado, onde será verificado se ele possui aptidão e capacidade para o desempenho do cargo de provimento efetivo no qual ingressou por força de concurso público.



autor
Carlos Mota

A novela "Flor-de-Cera" é remake de "Venusa Dumont - da memória à ressurreição" de Carlos Mota
 
elenco
Grazi Massafera como Catharine Dumont
Thiago Lacerda como George Dumont
Ricardo Pereira como Joaquim
Elisa Lucinda como Ernestina
Carlos Takeshi como Tanaka Santuku
Miwa Yanagizawa como Houba Santuku
Jesus Luz como Pietro Ferrara
Lucinha Lins como Franceline Legrand Dumont
Lima Duarte como Dilermando Dumont
Herson Capri como Doutor Rubens Arraia
Tonico Pereira como Moacir
Werner Schünemann como Paineiras Ken
Rosi Campos como Adelaide
Humberto Martins como Alberto Médici
Cauã Reymond como Ricardo
César Troncoso como Zé dos Cobres
Ilva Niño como Josefa
Selton Mello como Zelão
Matheus Nachtergaele como Meia-noite
Caio Blat como Delegado de Vila Bonita
Caio Castro como Leandro
Alexandre Borges como Doutor Jaime
Caroline Dallarosa como Carmem
Fernanda Nobre como Stela

participação especial
Stênio Garcia como Doutor Lúcio
Drica Moraes como Desirê
Marco Nanini como Chico Santinho

atores convidados
Ary Fontoura como Doutor Tobias
Alexandre Nero como Júlio Avanzo
Elizangêla como Maria

a criança
Valentina Silva como Alana

trilha sonora
Lágrimas da Mãe do Mundo - Sagrado Coração da Terra (abertura)
Brasil - Gal Costa

desenhos
Andrea Mota

produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela

Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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