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Flor-de-Cera: Capítulo 14

Novela de Carlos Mota
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CENAS DO CAPÍTULO ANTERIOR:


– Aonde o senhor irá? – questiona. – Está chovendo!
– Não importa! Irei ao cemitério, visitar o túmulo de Alana.
– É onde está sua mulher! – diz Ernestina, não acreditando que Deus havia ouvido suas preces, porque aquele homem estava se humanizando, senão como justificar que a conversa de ambos não havia se declinado à agressão verbal, como sempre acontecia? O coração dele estava amolecendo, ela sentia, e os olhos dele, contornados de lágrimas, denunciavam isso.
– Seu George tá chique, né, Ernestina? – diz Moacir, feliz da vida.
– E quando ele não esteve, Moacir? Quando? Só lhe falta amor! George caminha para o hall de entrada, ao abrir a porta, defronta-se com Catharine desfalecida nos braços de Joaquim.
– O que é isso, MATUTO? – cobra o patrão, resgatando de dentro de si o orgulho e a ira de outrora.



FLOR-DE-CERA - CAPÍTULO 14


O carro entra nas dependências do casarão, freando bruscamente ao encontrar Ernestina.
– Doutor Rubens, que bom que atendeu ao meu telefonema! Eu tinha certeza, quando aquele prato caiu, alguma desgraça se aproximava – fala a mulher, gesticulando muito, em meio à chuva.
– Do que você está falando, criatura? Desgraça? Que desgraça? – empalidece o médico, saltando do carro.
– CORRA... CORRA, ELES VÃO SE MATAR!
Ao chegarem à porta do hall de entrada, eles gemem de medo. Joaquim estava a um passo da morte, engravatado pelo  vereador, cujos olhos cintilavam uma ira descomunal. Já Catharine permanecia inconsciente, atirada a um canto, sob a vigilância cerrada do jardineiro.
– O pau tá cumendo, né Ernestina? – sorri Moacir, como se aquilo fosse algo natural.
Os sofás estavam revirados, algumas poltronas de ponta-cabeça, a mesa redonda de vidro estilhaçada, os vasos rachados, com ramos da folhagem espalhados pelo lugar. A violência de ambos é letal.
Rubens prende-se ao braço de George e o pressiona para que deixe o motorista; em vão! O vereador, cuja gana é matar aquele infeliz, retorce a face, range os dentes, enquanto a saliva lhe salta da boca sem rumo.
O vento iracundo entra na casa, balança o lustre, três lâmpadas se queimam. Um trovão de abrir o chão é ouvido. Vila dos Princípios fica novamente sem luz. Casas são destelhadas na periferia, famílias desabrigadas se alojam embaixo de pontes. O céu está reticente, não poupa ninguém.
O rio que corta a cidade transborda, engole um casebre, leva o berço com um bebê de nove meses; desesperada, a mãe pede socorro, pois a correnteza a impede de chegar ao filho. Ele se afogaria, não fosse uma idosa, com sua bengala, puxar o móvel para o alto. Abraçada à criança viva, a mãe chora, retribuindo a coragem da anciã com um beijo humilde, contornado por lágrimas de felicidade.
– SOLTE-O, GEORGE! SOLTE-O! – berra o médico, enquanto Ernestina destorce os dedos dele para que Joaquim respire. – CHAME A POLÍCIA, ERNESTINA!
A ventania é tão forte que a corrente que segura o lustre se parte, alçando-o a metros contra a parede. O estouro, por milagre, devolve a lucidez ao edil, que solta o chofer.
Joaquim já não respira, exigindo de Rubens todos os procedimentos emergenciais.
George se levanta, a roupa está em farrapos, maculada por um misto de saliva com sangue.
A empregada enfrenta o patrão e o estapeia, atiçada por um desejo súbito de vingança pela suposta morte do amigo. Com um simples golpe, ele a atira longe.
– Ainda bem que num fartei nu sirviço hoji, o negócio tá bão aqui, sô! – continua dizendo o abobalhado jardineiro. – Inté parece com aquelas luta dos firme.
A sirene de uma ambulância é ouvida à distância, um dos morros adjacentes desaba, levando consigo a história de dezenas de famílias principienses.
Com a empáfia de sempre, o honrado vereador corre os olhos embriagados de raiva por Catharine e Joaquim, exprime um leve sorriso e desaparece pelos cômodos da mansão. Joaquim reavê o sopro da vida contrariando as previsões.
– Levante-se... – pede o médico, estafado. – Com cuidado! E você, Ernestina, como está? – volta-se para a empregada.
– Vou sobreviver! – responde, limpando o suor do rosto com o avental.
– O que deu em George para fazer isso? Está louco? Precisamos denunciá-lo já à polícia – olha à destruição do local. Não se conforma.
– O que o fez agir assim? Parecia um bicho mordido... – o médico é acometido por uma recente lembrança. – Isso, por acaso, é ciúmes de Catharine? É o que estou imaginando?
A empregada não responde. Comparando o barro da roupa do serviçal com o que se encontra nos trajes de Catharine, Rubens chega a uma conclusão. George havia percebido o interesse do motorista pela mulher e o revide foi brutal, a ponto de quase acabar em morte.
– Eu vou chamar a polícia – diz, levantando-se.
– Você não vai a lugar algum, doutor Rubens – ordena o vereador, retornando ao hall. – Quer me destruir a qualquer custo, não é? Pois verá do que sou capaz.
– Você não está bem, vereador! Por favor, se acalme! – pede, vendo-o com os punhos se fechando. – Veja o que fez... está tudo destruído! E por quê?
– Se isso cair na boca da imprensa, minha candidatura ao cargo de prefeito estará perdida.
– Certamente! – concorda o médico. – Precisamos de ajuda, ainda que isso possa custar dores ainda maiores. Catharine continua desmaiada, Joaquim machucado, Ernestina assustada e o senhor... bem, bastante confuso, eu diria.
– Está me chamando de LOUCO, doutor?
– Não! Você apenas foi acometido por uma crise emocional e deve se tratar.
George se dirige à mulher, esmiúça-a uma vez mais, não entende o porquê daquele vestido estar sujo de lama e todo rasgado. As possibilidades mais absurdas lhe voam à mente, cada uma mais libertina que a outra; abaixa-se e a toma nos braços.
– Você não chamará a polícia; se o fizer, talvez não a veja mais viva!
– ISSO É UMA AMEAÇA? – pergunta o médico, segurando-se.
– Quero esse canalha – dirige-se ao chofer – fora de minha propriedade; se encontrá-lo de novo, talvez ele não tenha tanta sorte.
Vira-se de costas e segue para a alcova.
– Quando as coisas estiverem aparentemente perdidas, lembre-se, Ernestina, dentro desse envelope há a solução para todos os problemas – relembra a empregada, acuada a um canto, vendo o médico cabisbaixo.
– Eu não tenho coragem de desenterrar o passado! Ele pode ser pior que o presente! Desculpe-me, Dona Franceline – sussurra consigo mesma.
– Como está, Joaquim? – pergunta o médico.
– Melhor, senhor... Bem melhor!
– Faça o que ele disse Joaquim, pegue já suas coisas e dê o fora daqui! Vamos evitar mais problemas – suplica a empregada.
– Eu não fiz nada, Ernestina! Acredite em mim, por favor! – ficar longe de Catharine é pior que receber uma apunhalada no coração.
– É... Ernestina, querdita nele, sô! – repete Moacir.
Com o celular em mãos, Rubens digita o número da polícia, mesmo advertido pelo vereador.
– Não faça isso, doutor Rubens – implora a empregada. – O senhor já o conhece e, nervoso como está, é bem capaz de matar dona Catharine. Vamos deixar a poeira abaixar! E pensar que hoje tive pena desse infeliz...
– Como assim, Ernestina? – pergunta Rubens, desfazendo-se da ligação.
– Ele estava estranho, tocou um tempão a mesma música ao piano, depois subiu à alcova e desceu com o terno preto que o senhor mesmo viu, dizendo que visitaria o túmulo de Alana. Parecia mudado, até me enganou... Mas quando viu dona Catharine atirada ao colo de Joaquim, endoideceu.
– Ele disse que visitaria o túmulo de Alana? – estranha. – E nessa chuva?
– Sim! Nessa chuva. E, olhe, ele nunca ligou para a menina, o senhor sabe, de repente, sabe-se lá o porquê, parecia consternado, como se ela lhe fizesse falta.
– ...Alguma coisa está me apertando o coração! – o doutor recorda as palavras de George Dumont durante a reunião na prefeitura. – Será que ele está mudando? – pergunta-se.
– Eu falhei, mãe! Vim para essas terras para conseguir um bom emprego e buscar a senhora... Eu prometi! – lamenta-se o motorista, com a fotografia dela em mãos.
– Eu irei para São Paulo, mãe, não quero mais passar fome nessa vida. Me entenda, por favor! Quero ir para além dessas terras, conseguir alguma coisa para a gente – os olhos vislumbram o futuro. – Vou pegar uma carona com o seu Dedé, do Armazém; logo voltarei para buscá-la! Tenha certeza disso! A senhora ainda sentirá orgulho de mim, mãe... – promete o franzino rapaz à mulher, uma senhora consumida pelo tempo.
– Você tem certeza que qué dexá sua famía para se aventurá por esse mundão de Deus? – pergunta, numa cadeira de balanço escorada à parede de barro do casebre.
– Vou tentar a sorte, mãe! Aqui não há emprego, não há água, não há o comer, enfim, não há vida. Não aguento mais esse deserto. A senhora me permite fazer tal loucura?
– É locura memu, fio, o que cê tá fazenu! Esse mundão de Deus guarda coisas pior que a fome.
– E o que seria pior do que ouvir todos os dias o estômago roncando, pedindo um prato de comida?
– O AMOR! Cuidado cum esse bicho, pruque eli nasci du nada e, como uma erva daninha, vai se ajeitano; quando a gente percebe, já tá todo roído por eli. Parece aqueles urubu – Deus me livre e guarde, rondando a carniça, só esperanu o momento certu pra dar o boti – olha para a imensidão, perdendo-se na aridez do sertão.
– Ela tentou me avisar! A minha mãezinha tentou me avisar – diz o motorista, deixando para trás as memórias, enquanto arruma a mala.
– MISERÁVEL! – vozeia o vereador, vendo-o da janela de seu aposento. – Esse infeliz quer meu lugar, minha mulher e, acima de tudo, o meu PODER! Aquela cara de coitado é só verniz, debaixo daquela máscara há um jogador astuto, daqueles que não perdem uma partida. Será que ele imaginou que eu fosse um tonto, que daria espaço para ele jogar e ainda assistiria ao seu xeque-mate? Se cheguei até aqui é porque sou competente no que faço, algo que lhe falta, MATUTO! Hum! Essa eu ganhei!
– Joaquim... ó, Joaquim, eu também o amo! – delira Catharine, para a surpresa do marido, que explode de cólera.
– VOU ACABAR COM ESSA HISTÓRIA AGORA... – sentencia.
Desce a escadaria e se refugia no escritório. Ao perceberem que ele havia deixado o quarto, Rubens e Ernestina vão até Catharine. Ao reencontrá-la suja, estirada à cama como um defunto, Ernestina desaba a chorar.
– Acalme-se, logo essa tempestade passará... – pacifica o médico.
– Agora, deixe-me examiná-la!
Manchas arroxeadas na perna da herdeira dos Dumont chamam-no a atenção, entretanto, ele não faz qualquer comentário.
– SEUS MINUTOS ESTÃO CONTADOS, MATUTO! – decreta o alucinado vereador, com uma pistola em mãos, retirada há pouco de um cofre da mansão.
Joaquim separa uma peça de roupa para vestir, e depois de arrumado, respira fundo, senta-se na cama, se despede daquela casa, dos deliciosos beijos da mulher que mais amou na vida. Ao retornar ao sertão, levará consigo aquele hálito ardente, aquela boca... Meu Deus! Os desejos permanecem vivos dentro dele!
– Pensando em minha MULHER, Matuto? Pois você conhecerá a mãe dela agora...
A arma dispara.

  George se entrega à música...



autor
Carlos Mota

A novela "Flor-de-Cera" é remake de "Venusa Dumont - da memória à ressurreição" de Carlos Mota
 
elenco
Grazi Massafera como Catharine Dumont
Thiago Lacerda como George Dumont
Ricardo Pereira como Joaquim
Elisa Lucinda como Ernestina
Carlos Takeshi como Tanaka Santuku
Miwa Yanagizawa como Houba Santuku
Jesus Luz como Pietro Ferrara
Lucinha Lins como Franceline Legrand Dumont
Lima Duarte como Dilermando Dumont
Herson Capri como Doutor Rubens Arraia
Tonico Pereira como Moacir
Werner Schünemann como Paineiras Ken
Rosi Campos como Adelaide
Humberto Martins como Alberto Médici
Cauã Reymond como Ricardo
César Troncoso como Zé dos Cobres
Ilva Niño como Josefa
Selton Mello como Zelão
Matheus Nachtergaele como Meia-noite
Caio Blat como Delegado de Vila Bonita
Caio Castro como Leandro
Alexandre Borges como Doutor Jaime
Caroline Dallarosa como Carmem
Fernanda Nobre como Stela

participação especial
Stênio Garcia como Doutor Lúcio
Drica Moraes como Desirê
Marco Nanini como Chico Santinho

atores convidados
Ary Fontoura como Doutor Tobias
Alexandre Nero como Júlio Avanzo
Elizangêla como Maria

a criança
Valentina Silva como Alana

trilha sonora
Lágrimas da Mãe do Mundo - Sagrado Coração da Terra (abertura)


desenhos
Andrea Mota

produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela

Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO



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