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Flor-de-Cera: Capítulo 13

Novela de Carlos Mota
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CENAS DO CAPÍTULO ANTERIOR:


– Nããooooooooo!!!!!!!!!! – grita Catharine, sendo resgatada das lembranças pelas mãos de Joaquim.
– PARE! PARE – implora o rapaz com a voz atropelada. – Por que faz isso? Por quê?
Ela cai a seus pés e chora, mas ele a levanta e diz:
– Não tem do que se envergonhar! A senhora apenas recebeu o beijo de um homem apaixonado... Quem cometeu o crime fui eu, se é que amar seja um crime, não a senhora! Acalme-se! Se alguém deve ir à forca, que seja EU!
Ela geme de causar dó, atordoada pelas lembranças.
– SOU UMA TRAIDORA! – confidencia-se, tentando suportar a dor do coração.
Um prato desaba da cristaleira da mansão, assustando Ernestina, que varria a cozinha.
– O que será que está acontecendo, meu Deus? – indaga, atendo- se aos cacos. – Isso não é bom sinal!
Retira o terço do pescoço e reza. Os pressentimentos que costumam visitá-la não falham. Uma tragédia, assim como uma tempestade é anunciada pelos trovões, se aproxima. E isso a inquieta!
– Onde está minha mulher, criada? – pergunta o vereador, chegando à mansão.



FLOR-DE-CERA - CAPÍTULO 13

Ernestina se vira para responder e não vê o vereador. Curiosa, vai ao escritório, onde também não o encontra. Teria ouvido vozes? Assusta-se! Mas um ruído a atrai à saleta de música, nos fundos da mansão.
George está lá, com uma dose de uísque duplo nas mãos, bastante impaciente. Abre o álbum com as partituras dos gênios da música clássica, verifica obra por obra com desvelo, e ao encontrar “Ária na Corda Sol”, de Bach¹, enche os pulmões, dá um sorriso tímido, fecha o álbum e se dirige ao piano. Fazia tempo que não tocava aquela canção, para falar a verdade, mais de anos.
As mãos delicadas de um príncipe caem sobre as teclas do piano; um gemido é ouvido à distância, como se o autor da ária se apossasse por instantes de seu corpo e presenteasse o mundo com suas notas – dádivas divinas. Sente dificuldades no início, mas aos poucos a mão corre o piano, está completamente entregue à emoção. *(Inserir a canção Ária na corda sol - Bach) Uma alegria brota em seu peito, é tão forte que espanta todas as tristezas, libertando-o das agruras da vida. Seus olhos estão mergulhados em lágrimas, a casa é invadida pela música, até a chuva se rende aos encantos daquela beleza – palavras verdadeiras de um coração perdido.
– Quem tá tocano essa canção, dona Ernestina? – pergunta o jardineiro, entrando na casa, com a roupa molhada e o pé enlameado.
Ernestina não responde, está hipnotizada pela ária. Aliás, a única vez que a ouviu foi pelas mãos de Catharine, quando ela soube da doença de Alana.
*(Finalizar a música) A música é cessada quando o vereador alcança um retratinho da filha, com dois anos de idade, sobre uma mesa lateral. Ele se levanta, caminha a passos lentos – tem medo de sua reação, pega-o entre as mãos e observa a menina, enquanto as memórias lhe saltam aos olhos.
– PA... PA... PAPÁ – ela abre os bracinhos para que ele a pegue.
– Pegue-a, George! Alana o quer... – pede Catharine, estranhando o comportamento do marido. – O que há com você, parece ter medo de amar! Ela é sua filha e o ama, não vê?
Ele se retira, sem dar qualquer explicação.
Um abismo como aquele que separa o céu do inferno se abre dentro dele, porque, ao pôr a mão naquele retrato, percebe que Alana havia partido. E para sempre!
Devolve-o à mesa, abaixa a cabeça por alguns minutos, respira fundo e retorna ao piano, de onde toca com a alma de um nobre. Quanto mais rápido as notas são alçadas ao vento, mais as lembranças o machucam, como se o remorso lhe pusesse uma faca contra o pescoço.
– Alguém ajude minha mãe... está morrendo! – implora George, ainda adolescente.
– Ela tem um plano de saúde?
– Mo-moça, a senhora não entende, minha mãe tem câncer, está morrendo, precisa de ajuda... Cadê os médicos desse hospital? Por que nos negam auxílio?
– Só atendemos a quem tem um plano de saúde; são as normas do hospital.
– Por favor... por favor!!! – implora o garoto à funcionária, que se limita a dizer “O próximo”.
Limpando as lágrimas nas mangas da camisa de chita, ele abraça a mãe pela cintura, enquanto ela vomita na sala de espera.
– Vamos embora! Deve ter um outro hospital aqui perto – está desesperado, vendo-a definhando em vida. – Aqui ninguém nos ouve, até parece que somos invisíveis.
– Todos os que não têm dinheiro são invisíveis, menino! – completa um senhor, ao seu lado, com um lenço à boca para conter a tosse.
Como a mulher não aguenta mais andar, ele a deita em seu colo, num banco de madeira, do lado de fora do hospital, em pleno sereno. Ela o acaricia com as mãos esquálidas e abre um sorriso que alumia aquela escuridão.
– FIQUE COMIGO, MÃE! SÓ TENHO A SENHORA... – suplica, em pranto.
– Oh, meu querido, minha hora está chegando! Vejo os campos, sinto o perfume das flores, os anjos cantam... E como cantam! É lindo, Jorginho! É lindo!
– Ajudem o garoto, a mulher está morrendo! – grita um senhor, inconformado com o descaso.
As funcionárias os ignoram, estão acostumadas com a morte. Um a mais ou a menos, que diferença faria? Para elas, nenhuma; para ele, toda a diferença do mundo, porque a única pessoa que tinha em vida estava partindo, subindo no bonde do tempo, deixando sua marca na história.
Alguns pacientes se achegam, estão emocionados, mas nada podem fazer, a lei do descaso ainda não havia entrado em vigor. George tira a camisa e a pressiona contra a boca da mãe, que jorra muito sangue.
– Deus está vindo me buscar!
– Não me deixe mãe, o que será de mim? Estarei perdido...
– Não, querido! Você é um garoto lindo, o presente de Deus! – engasga-se com o sangue. – Sempre estarei contigo, porque apenas o meu corpo morre; minha essência e meu amor viverão em você para SEMPRE!
Um dos pacientes arranha algumas notas de Bach numa gaita.
– Um dia eu serei rico, mãe, tão rico que ninguém mais pisará em nós. Ninguém mais nos espezinhará. Ninguém! Eu prometo! – ao olhá-la de novo, percebe que ela havia partido, então grita, sendo consolado pelo homem da gaita.
– Posso ajudá-lo, vereador? – pergunta Ernestina, com o âmago tocado pela emoção, ao entrar na saleta. – O que há?
O edil para de tocar, entra em letargia por alguns instantes, depois levanta e se dirige à empregada com serenidade:
– Ninguém pode me ajudar! Deixa a sala e sobe aos aposentos.
– Comu toca bunito o patrão, né, Ernestina? – um sorriso desdentado se abre na boca do jardineiro.
– O que está fazendo aqui, Moacir? – dando-se conta da presença do homem. – Está sujando todo o chão.
A empregada interrompe a conversa ao avistar o vereador descendo a escadaria com um terno preto.
– Aonde o senhor irá? – questiona. – Está chovendo!
– Não importa! Irei ao cemitério, visitar o túmulo de Alana.
– É onde está sua mulher! – diz Ernestina, não acreditando que Deus havia ouvido suas preces, porque aquele homem estava se humanizando, senão como justificar que a conversa de ambos não havia se declinado à agressão verbal, como sempre acontecia? O coração dele estava amolecendo, ela sentia, e os olhos dele, contornados de lágrimas, denunciavam isso.
– Seu George tá chique, né, Ernestina? – diz Moacir, feliz da vida.
– E quando ele não esteve, Moacir? Quando? Só lhe falta amor! George caminha para o hall de entrada, ao abrir a porta, defronta-se com Catharine desfalecida nos braços de Joaquim.
– O que é isso, MATUTO? – cobra o patrão, resgatando de dentro de si o orgulho e a ira de outrora.
_________________________
1. Johann Sebastian Bach foi um organista e compositor alemão do período barroco. Mestre na arte da fuga, do contraponto e da música coral, ele é um dos mais prolíficos compositores da história da música ocidental.

autor
Carlos Mota

A novela "Flor-de-Cera" é remake de "Venusa Dumont - da memória à ressurreição" de Carlos Mota
 
elenco
Grazi Massafera como Catharine Dumont
Thiago Lacerda como George Dumont
Ricardo Pereira como Joaquim
Elisa Lucinda como Ernestina
Carlos Takeshi como Tanaka Santuku
Miwa Yanagizawa como Houba Santuku
Jesus Luz como Pietro Ferrara
Lucinha Lins como Franceline Legrand Dumont
Lima Duarte como Dilermando Dumont
Herson Capri como Doutor Rubens Arraia
Tonico Pereira como Moacir
Werner Schünemann como Paineiras Ken
Rosi Campos como Adelaide
Humberto Martins como Alberto Médici
Cauã Reymond como Ricardo
César Troncoso como Zé dos Cobres
Ilva Niño como Josefa
Selton Mello como Zelão
Matheus Nachtergaele como Meia-noite
Caio Blat como Delegado de Vila Bonita
Caio Castro como Leandro
Alexandre Borges como Doutor Jaime
Caroline Dallarosa como Carmem
Fernanda Nobre como Stela

participação especial
Stênio Garcia como Doutor Lúcio
Drica Moraes como Desirê
Marco Nanini como Chico Santinho

atores convidados
Ary Fontoura como Doutor Tobias
Alexandre Nero como Júlio Avanzo
Elizangêla como Maria

a criança
Valentina Silva como Alana

trilha sonora
Lágrimas da Mãe do Mundo - Sagrado Coração da Terra (abertura)

Ária na corda sol - Bach

desenhos
Andrea Mota

produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela

Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO



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