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Flor-de-Cera: Capítulo 12

Novela de Carlos Mota
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CENAS DO CAPÍTULO ANTERIOR:


A chuva se avoluma e faz com que Joaquim se aproxime ainda mais dela. Aos poucos, está ao seu lado, roupa com roupa, pele com pele. O perfume dela o inebria, é uma dádiva do céu, um beijo de Deus. As chamas do desejo se reacendem no coração do homem simples cujo único intento em vida é amar... Amar aquela mulher com o corpo e a ALMA.
Desolada, deita a cabeça nos ombros dele; está mais frágil que outrora, com a respiração ofegante e as mãos gélidas como a dos mortos; diferentemente dele, que suspira agitado, não um suspiro qualquer, mas o de um homem que enfrentou todas as intempéries do mundo para viver um grande amor. Um amor tão lindo que beira à surrealidade!
E aos poucos ele se solta, vira-se para ela, limpa-lhe as lágrimas, uma a uma, e sem pensar nas consequências, aproxima sutilmente seus lábios aos dela e, como que instado pelas faíscas da volúpia, beija-a... Beija-a tão profundamente como nunca beijou outra mulher!



FLOR-DE-CERA - CAPÍTULO 12



* (Inserir a canção Lágrimas da mãe do mundo)

Catharine cede aos encantos do motorista e o abraça com força, retribuindo o beijo. Sente-se a pombinha livre do cativeiro, sobrevoando o céu infinito... Com os ponteiros parados, o tempo parece ser a única testemunha daquele momento ímpar, cuja felicidade transcende a qualquer lógica humana. Era um beijo diferente, com um toque angelical, para não dizer mítico, dado por um homem humilde a uma mulher de classe, como aquele que Donald O’ Connor deu em Gene Kelly, em Cantando na Chuva¹. Talvez, comovente seria a palavra correta. *(Finalizar a música) 
A chuva intensifica, as árvores balançam, folhas voam para todos os cantos, perdem-se no temporal, mas o beijo não finda, ferve o sangue daqueles corpos, elevando-os ao êxtase da paixão.
– O que há, George? Por que está amuado? – pergunta o prefeito, durante a reunião com os membros da sociedade principiense. – Parece que viu um fantasma?
– Alguma coisa está me apertando o coração! – responde, visivelmente desconfortável.
– Lá vem você com essa história... Ave! Deve ser macumba! Já procurou um centro para limpar o espírito, sinto que está carregado – escarnece Tanaka, gargalhando. – Olhem para esse indivíduo – pede aos presentes–, não parece que viu fantasma?
– Deve ter mesmo visto, não é vereador? – incita Rubens, bebericando uma xícara de café. – Aliás, seu rosto está roxo... O que lhe aconteceu?
Os olhos de George faíscam de ódio ao se encontrarem aos do médico.
– Não foi nada, apenas bati a cabeça no guarda-roupa...
– No guarda-roupa? – interrompe o médico. – Fez como a Perpétua de Jorge Amado? Que coisa!
– Perpétua? Quem é essa? É alguma eleitora nova? Se for, vou mandar um santinho já... Adelaide, Adelaide, anote aí, minha filha – determina o prefeito, afoito, à assessora, desconversando em seguida, ao perceber a gafe.
– Perpétua é a irmã de Tieta do Agreste – esclarece Adelaide.
– Não se lembra, prefeito? Teve até uma novela com ela e, se não me falhe a memória, sua intérprete era Joana Fomm.
– Sim... claro! Claro! E quem não se lembra da Perpétua? Imagine! Teve lá em casa esses dias... quer dizer, o Jorge.
– Quem? Jorge Amado esteve em sua casa? – desdenha o médico.
– Só se for em espírito, meu caro prefeito, porque o homem já bateu com as botas... E faz tempo! Acho que o senhor e o ilustríssimo vereador George Dumont deveriam mesmo procurar um centro, tomar um banho de sal grosso, porque a coisa está feia aqui.
Todos riem.
– A gente não veio a essa reunião para falar dessa tal de Tieta...
– ... Perpétua, prefeito! – corrige a assessora. – Tieta era a irmã dela.
– Que seja! – mostra-se contrariado com a brincadeira do médico.
– É tudo farinha do mesmo saco. O que a gente está fazendo aqui? Não é para discutir onde será o postinho? Então? Dê sugestões, meu povo! Hum! Cada coisa! – Volta-se para a secretária: – Ô, Adelaide, vê se faz alguma coisa de útil, enche o meu caneco com saquê¹.
Tanaka encara George e dispara:
– É mesmo, o que é isso na sua testa? Até parece marca de um soco; por acaso apanhou da mulher, vereador?
– É... fale, vereador, apanhou da mulher? – desafia Rubens, fitando-o com asco.
– Cadê meu saquê, Adelaide? Ô mulher lenta, devia mandar a senhora embora! Nem para me servir uma bebida, presta! Ave!
– A braveza de Tanaka desvia o foco da conversa.
– O QUE ESTOU FAZENDO AQUI? – inquire Catharine, como se tivesse acordado de um sonho mágico, vendo-se atirada aos braços de Joaquim. – O que pensa estar fazendo comigo, cri-CRIADO?
Afasta-se dele, demonstrando incompreensão.
– Quem você pensa que é para tocar em mim desse jeito? Sou uma mulher casada! Exijo respeito, entendeu?
– Senhora... senhora... – hesita o empregado. – Eu... bem, nós....
– Como pôde fazer isso comigo, Joaquim? Eu confiava em você! Como fui tola!
Ele a pega pelo braço e tenta se explicar.
– Largue-me, cretino! – grita. – Aproveitou-se de um momento de carência para me roubar um beijo. Isso não se faz com ninguém, aliás, o que esperar de pessoas como você?
– SENHORA. diz, soltando-a.
– Esse título já pertence à Aurélia Camargo, a dama imponente de José de Alencar – o motorista não alcança a ironia. – Chamo-me Catharine Dumont! Entendeu? Sinto-me enojada com o seu hálito infecto – limpa os lábios em desespero.
O homem assiste à agressão sem retribuir uma só palavra.
– A senhora deveria olhar para os lados, ouvir mais as pessoas, sair um pouco dessa casa, deixar os problemas de lado e viver a vida com a mesma intensidade da adolescência. Verá que há outros homens melhores,  prontos  para recebê-la nos  braços E  quando  isso  ocorrer, perceberá que o que sente por George hoje não é amor, mas MEDO –   batem-lhe à consciência as palavras de Ernestina, pronunciadas algumas horas antes. – Então era de você que ela falava? – constata Catharine. – Meu Deus! Como eu estava cega.
Mesmo assistindo-a com toda aquela ira, Joaquim não se aguenta e arrisca outro beijo, mil vezes mais caliente, o que faz as pernas da mulher trepidarem. Que amor era aquele que nutria pela herdeira dos Dumont? Parecia até alçado de um romance shakesperiano para a vida real.
– PAAAAAAAAAAAAAAARE!!!!!!!!!!!!! – ela o empurra e corre até sumir entre as sepulturas.

Catharine e Joaquim se beijam...

Completamente enfeitiçado pelos lábios da mulher, Joaquim não distingue o esmero do grotesco e acaba violando todos os mandamentos dos apaixonados. Quando cai em si, percebe o silêncio do lugar – vez ou outra quebrado pelo assoviar da ventania, olha para os lados e se defronta com a fotografia de Alana. Os olhos dela são de repreensão. Aturdido, solta o guarda-chuva, que voa para bem longe, inspira fundo e vai à procura dela.
Do lado de fora do cemitério há apenas o vigia. Incansável, Joaquim revista de novo todos os cantos, mas a busca é vã. A realidade, nesse momento, penetra sua alma e o faz refém do medo; gemidos são ouvidos.
Desorientado, abre a limusine e percorre alguns metros, quando a avista, sob os efeitos da insanidade, correndo dentro do matagal, à beira da estrada. Deixa o carro e adentra a seara, gritando o nome dela o mais alto que pode.
Catharine continua em surto, como se incorporada por um espírito ruim, com as roupas em frangalhos e respingadas por barro. Convulsiona em pranto, como se o mundo não mais existisse.
– A senhora não vale nada! – Catharine ofende Franceline, ao conhecer sua traição.
– Filha, não fale assim comigo... Eu apenas estou apaixonada! Sabe o que é isso? É como sentir o sopro da vida invadindo um corpo morto; o desejo em sua forma mais pura. Sinto-me assim! Por que me condena se o “meu crime” tem o nome de AMOR? Aliás, desde quando AMAR seria um CRIME?
– Desde o momento em que as alianças foram trocadas de mãos ou se esqueceu de que a que está em sua mão esquerda leva o nome de meu pai?
– Você nunca amou na vida, por isso diz isso. Quando o seu coração bater descompassado por alguém, perceberá que essa aliança é uma farsa e o seu valor insignificante.
– VAGABUNDA! – desfere um tapa contra a face da própria mãe. – VOCÊ NÃO VALE NADA! NADA! AO MENOS RESPEITE O MEU PAI!
Franceline lamenta a agressividade da filha.
– Um dia entenderá o que é o amor de verdade; quando isso ocorrer, o que lhe virá à mente, de súbito e sem qualquer receio, será esse tapa, que levarei comigo para o túmulo. Tens o meu perdão; não minha compreensão! Espero que o seu desejo nunca fuja do ninho do casamento; porque se fugir como o meu, sentirá na pele o que eu sinto e se verá no espelho como uma TRAIDORA, não como uma mulher que ousou se libertar de uma jaula para viver o mais nobre dos sentimentos...
– Nããooooooooo!!!!!!!!!! – grita Catharine, sendo resgatada das lembranças pelas mãos de Joaquim.
– PARE! PARE – implora o rapaz com a voz atropelada. – Por que faz isso? Por quê?
Ela cai a seus pés e chora, mas ele a levanta e diz:
– Não tem do que se envergonhar! A senhora apenas recebeu o beijo de um homem apaixonado... Quem cometeu o crime fui eu, se é que amar seja um crime, não a senhora! Acalme-se! Se alguém deve ir à forca, que seja EU!
Ela geme de causar dó, atordoada pelas lembranças.
– SOU UMA TRAIDORA! – confidencia-se, tentando suportar a dor do coração.
Um prato desaba da cristaleira da mansão, assustando Ernestina, que varria a cozinha.
– O que será que está acontecendo, meu Deus? – indaga, atendo- se aos cacos. – Isso não é bom sinal!
Retira o terço do pescoço e reza. Os pressentimentos que costumam visitá-la não falham. Uma tragédia, assim como uma tempestade é anunciada pelos trovões, se aproxima. E isso a inquieta!
– Onde está minha mulher, criada? – pergunta o vereador, chegando à mansão.

_______________________

1. Um dos maiores sucessos do cinema norte-americano, lançado no ano de 1952, com duas indicações ao Oscar.
2. Bebida tradicional do Japão, fabricada a partir da fermentação do arroz. Sem ser diluído, chega à marca de 20% de teor alcoólico, um dos maiores entre os fermentados do mundo.





autor
Carlos Mota

A novela "Flor-de-Cera" é remake de "Venusa Dumont - da memória à ressurreição" de Carlos Mota
 
elenco
Grazi Massafera como Catharine Dumont
Thiago Lacerda como George Dumont
Ricardo Pereira como Joaquim
Elisa Lucinda como Ernestina
Carlos Takeshi como Tanaka Santuku
Miwa Yanagizawa como Houba Santuku
Jesus Luz como Pietro Ferrara
Lucinha Lins como Franceline Legrand Dumont
Lima Duarte como Dilermando Dumont
Herson Capri como Doutor Rubens Arraia
Tonico Pereira como Moacir
Werner Schünemann como Paineiras Ken
Rosi Campos como Adelaide
Humberto Martins como Alberto Médici
Cauã Reymond como Ricardo
César Troncoso como Zé dos Cobres
Ilva Niño como Josefa
Selton Mello como Zelão
Matheus Nachtergaele como Meia-noite
Caio Blat como Delegado de Vila Bonita
Caio Castro como Leandro
Alexandre Borges como Doutor Jaime
Caroline Dallarosa como Carmem
Fernanda Nobre como Stela

participação especial
Stênio Garcia como Doutor Lúcio
Drica Moraes como Desirê
Marco Nanini como Chico Santinho

atores convidados
Ary Fontoura como Doutor Tobias
Alexandre Nero como Júlio Avanzo
Elizangêla como Maria

a criança
Valentina Silva como Alana

trilha sonora
Lágrimas da Mãe do Mundo - Sagrado Coração da Terra (abertura)


desenhos
Andrea Mota

produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela

Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO



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