Flor-de-Cera: Capítulo 10 - WebTV - Compartilhar leitura está em nosso DNA

O que Procura?

HOT 3!

Flor-de-Cera: Capítulo 10

Novela de Carlos Mota
Compartilhe:




CENAS DO CAPÍTULO ANTERIOR:

Abre o guarda-roupa, dele retira uma caixa de sapato empoeirada e de dentro dela um envelope pardo, amassado pelo peso dos pares de rasteirinha. E se o abrisse?

Não! D. Franceline havia sido clara em suas recomendações, apenas doutor Rubens Arraia poderia fazê-lo. Mas se ela o abrisse, lesse o conteúdo e o fechasse com cuidado? Até poderia, mas como justificaria a quebra de juramento à sua consciência?
Com o envelope contra a luz, ela pensa... e pensa! Resiste por um momento, mas acaba completamente hipnotizada pela curiosidade
– o verme impiedoso que encarcera a alma humana, a ponto de se esquecer, por segundos, das restrições da ex-patroa.

Em transe, puxa uma das dobras do envelope, não se atinando às consequências desse ato.






FLOR-DE-CERA - CAPÍTULO 10


O galo ainda canta quando os primeiros raios solares beijam os montes de Vila dos Princípios. As ruas do centro estão tomadas por uma preguiçosa neblina, que não se dissipa. Os faróis da carcaça de um ônibus da década da ditadura se alumiam em meio à escuridão e param numa das esquinas da periferia. Nele entram homens com vestimentas surradas e bonés de todas as cores; alguns magricelas de causar dó, outros desdentados, esquivam-se da prosa por sono ou desdém. O assunto do dia é o empate entre o Corinthians e o Palmeiras. Nas sacolas de supermercado trazem a refeição do dia, que, a julgar pela madrugada, seria úmida e fria.
Aos poucos o comércio reabre. A padaria primeiro, depois a farmácia e, por último, uma lojinha de roupas de chita. O barbeiro é o único que não abre, seu estabelecimento havia inundado com a chuva. Alguns munícipes o ajudam a retirar o que restou. Com a aparência de um septuagenário, o homem com barbas longas e esbranquiçadas pergunta em meio a toda aquela destruição:
– O que será de mim sem meu servicinho, meu Deus?
No casarão, George está à mesa da varanda tomando um suco verde preparado com orgânicos e brotos germinados. Um lado da face está roxeada, resultado da rixa com o doutor Rubens Arraia. Percorre os olhos pelos dois jornais da região enquanto degusta a iguaria. É uma mania sua, acordar com a lua no céu, sentar-se à varanda, pedir à criada o seu desjejum e ler os noticiários com um olhar de leitor instruído.
O clima na mansão estava carregado, a ventania corria solta, a ponto de ele fechar a vidraça e cobrir as pernas com um manto de lã. Ao longe se avistava o ônibus com os boias-frias; parecia sem freio tal como corria. George se atenta ao veículo até ele sumir numa curva.
Cobre-se até a cintura, enquanto folheia o “Tributo ao Povo”. Para sua alegria, a matéria que o outro periódico deixara de publicar, era agora o editorial do principal jornal da cidade. Mário Merlino, um primo distante do jornalista Luiz Eduardo Merlino¹, rendia-se, enfim, aos encantos maquiavélicos do digníssimo vereador George Dumont. Escreve ele:
“... É, meus amigos, leitores de toda região de Vila dos Princípios, pela primeira vez na vida, tive a honra de ver um político de verdade. E trabalhando! E político trabalha? Rouba! E ladrão rouba? Quem sabe trabalha! Milagre, mas é verdade, vi com esses próprios olhos que a terra há de comer...E confesso estar enfeitiçado por isso. Que coisa!
O excelentíssimo vereador George Dumont, estando na Capital com uma ilustre comitiva de empresários principienses, além do prefeito e três outros camaristas, conseguiu tirar do bolso do ‘corrupto’ governador a quantia necessária à construção do tão almejado Centro de Saúde, no alto do Bairro das Flores, um dos lugarejos mais humildes do município. Sem dúvida alguma, essa benfeitoria salvará dezenas de vidas.
Essa foi sua promessa de campanha e está cumprida. Que os outros aprendam com o seu gesto, porque de politiqueiros o mundo está cheio; mas de políticos que pensam no povo como se fossem partes dele, está para nascer. Aliás, já nasceu! E seu nome é George Dumont! Ah se os Congressistas de Brasília pudessem fazer um estágio com ele... O Brasil seria melhor!”
A leitura é compartilhada com Rubens, que à frente da tevê, não acredita no que lê. Aquele monstro havia se tornado um ídolo da plebe. Alguma dúvida de que seria eleito prefeito nas próximas eleições? Só se algo muito ruim fosse aventado, como a brutalidade com que trata a mulher ou o descaso com o sofrimento da filha, vítima do câncer. Se Catharine o deixasse denunciá-lo, toda essa farsa cairia por terra.
Muito indignado, Rubens pega uma outra xícara de cappuccino e se dirige ao escritório, nos fundos da casa. Lá é o seu refúgio, lugar onde ninguém jamais entraria sem seu  consentimento,  porque  lá  nas gavetas daquela escrivaninha estão guardados todos os seus mais íntimos devaneios. A cabeça apoiada às mãos, não entende o que impede Catharine de pôr fim às cenas de tortura. Seria pela imagem de felicidade que vende à sociedade principiense, o chamado status? Seria por pena daquele miserável, por ainda amá-lo? Seria pelo medo de enterrar o sobrenome da família em um lodaçal de fofocas? Quaisquer que fossem as justificativas, nenhuma delas seria capaz de lhe arrancar as cicatrizes e a depressão em que mergulha.
Abre uma gaveta e dela retira um retrato. Nele estão Franceline e ele, juntos em uma praia do litoral paulista. O ano é o da morte de Tancredo Neves. Olha-o com saudosismo! Com uma das mãos acaricia a face da mulher, como se estivesse ali, à sua frente, e não sepultada para sempre no livro do tempo.
– O que faremos se Dilermando descobrir? – pergunta Franceline, num modelito de praia à la Brigitte Bardot.
– Cristo! O que importa Dilermando? Se descobrir, hei de me tornar o homem mais feliz desse mundo, porque farei de minha humilde casinha o ninho de nosso amor, se é que você realmente me ama.
– E tem dúvidas disso, tolinho? Não atravessei parte do Estado para encontrá-lo à toa. Você me devolveu a vida, Rubens! Há muito eu não sabia o que era um beijo, uma carícia, um abraço apertado; como se eu não fosse casada, não é? O prazer de Dilermando é me humilhar ante as criadas, me espancar por qualquer coisa naquela alcova em silêncio. Se meus pais estivessem vivos, jamais me deixariam na companhia de um louco como ele.
– Esqueça-o! O que importa é que estamos juntos... E para SEMPRE!
– Não existe o SEMPRE! – sentencia a dama dos Dumont. – Vivemos o presente enquanto o destino prepara o futuro.
– Por que toda essa descrença...? – incomoda-se o médico. – Quer me deixar?
– Não é isso meu querido – rouba-lhe um beijo. – Estou cansada de esperar... esperar... e nada! Talvez os Céus estejam magoados comigo – sorri. – Devo não ser uma boa menina!
Rubens não entende as palavras da mulher; como enigmas, inquietam-no o humor.
– Senhor, posso entrar? – pergunta Maria, a governanta do médico, à porta. – É o secretário da saúde no telefone.
– Obrigado, Maria! Vou atendê-lo! Pode ir! – diz, resgatando-se da letargia.
Antes de aceitar a ligação, guarda o retrato com desvelo numa caixinha de presente dado a ele por Franceline.
Já George, irradiante com o editorial, dança pela varanda feito um louco. Imaginava-se prefeito e com os poderes que ganharia ao ocupar aquela cadeira tão almejada. Que o povo se dane – pensa ele, o importante mesmo era que realizaria todos os seus caprichos mais fúteis, sem se importar com as consequências. Compraria um jatinho, viajaria para o exterior, desviaria as verbas do município para alguma conta num desses paraísos fiscais e viveria a vida numa boa, como diria Manoel Carlos, porque o que estava em voga era o seu próprio prazer, não o da plebe que encena amar por conveniência.
– O que deu nesse homem? – pergunta-se Ernestina, curiosa.
Assim que ele deixa a varanda e sobe as escadarias, ela pega    os jornais e os folheia. Ao encontrar o título “Homem de princípios”, atém-se à leitura. E não é que o tal homem era o seu patrão, aquele demônio em forma de gente.
– Valha-me, Deus! Esse jornalista perdeu o juízo! Desde quando seu George é um homem de princípios?
– O que houve, mulher? Por que está pálida? – indaga o motorista, ao encontrá-la.
– Leia isso... – dá-lhe o jornal e senta. – O mundo está mesmo perdido!
O telefone toca. É o prefeito Tanaka Santuku convocando o vereador para uma reunião extraordinária.
George cobre a vermelhidão da face com uma leve maquilagem, veste um Armani de cem mil e desce as escadarias, relegando a esposa ao esquecimento. Cantarolando “Brasil”, do gênio Cazuza, dispensa os serviços de Joaquim; prefere ir sozinho à Prefeitura, quer curtir a felicidade longe da ralé.
– Brasil!/Mostra a tua cara/Quero ver quem paga/ Pra gente ficar assim/Brasil!/Qual é o teu negócio?/O nome do teu sócio?/ Confia em mim... – exprime com satisfação, espezinhando a empregada com olhos de águia.
Abre a porta do carro e segue para a prefeitura. Ao estacionar, percebe que há alguém à sua espera, atrás do veículo. Imagina ser Tanaka Santuku, o atual prefeito, com uma champanha à mão, pronta para ser bebericada. Mas ao deixar o veículo, fica frente a frente com o doutor Rubens Arraia.
– Está feliz, vereador? – aplaude. – E se sua verdadeira face viesse à tona, o que sobraria dessa fantasia toda? O que não escreveria o editorialista? Talvez “Homem de princípios subvertidos”! O que acha? Diga sua opinião, estou curioso para conhecê-la.
___________________________
1. Jornalista assassinado aos 23 anos, no auge do regime militar, após uma sessão de torturas na sede do DOI-Codi.




autor
Carlos Mota

A novela "Flor-de-Cera" é remake de "Venusa Dumont - da memória à ressurreição" de Carlos Mota
 
elenco
Grazi Massafera como Catharine Dumont
Thiago Lacerda como George Dumont
Ricardo Pereira como Joaquim
Elisa Lucinda como Ernestina
Carlos Takeshi como Tanaka Santuku
Miwa Yanagizawa como Houba Santuku
Jesus Luz como Pietro Ferrara
Lucinha Lins como Franceline Legrand Dumont
Lima Duarte como Dilermando Dumont
Herson Capri como Doutor Rubens Arraia
Tonico Pereira como Moacir
Werner Schünemann como Paineiras Ken
Rosi Campos como Adelaide
Humberto Martins como Alberto Médici
Cauã Reymond como Ricardo
César Troncoso como Zé dos Cobres
Ilva Niño como Josefa
Selton Mello como Zelão
Matheus Nachtergaele como Meia-noite
Caio Blat como Delegado de Vila Bonita
Caio Castro como Leandro
Alexandre Borges como Doutor Jaime
Caroline Dallarosa como Carmem
Fernanda Nobre como Stela

participação especial
Stênio Garcia como Doutor Lúcio
Drica Moraes como Desirê
Marco Nanini como Chico Santinho

atores convidados
Ary Fontoura como Doutor Tobias
Alexandre Nero como Júlio Avanzo
Elizangêla como Maria

a criança
Valentina Silva como Alana

trilha sonora
Lágrimas da Mãe do Mundo - Sagrado Coração da Terra (abertura)


desenhos
Andrea Mota

produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela

Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO



Copyright © 2020 - WebTV
www.redewtv.com
Todos os direitos reservados
Proibida a cópia ou a reprodução
Compartilhe:

12 anos

Capítulos de Flor-de-Cera

Drama

Flor-de-Cera

No Ar

Novelas

Romance

Comentários:

0 comentários: