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Flor-de-Cera: Capítulo 09

Novela de Carlos Mota
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CENAS DO CAPÍTULO ANTERIOR:

– Onde o senhor quer chegar, doutor Rubens? Pensei que fosse me relatar o estado de minha esposa...
– E irei! – interrompe-o. – Antes, tenho uma pergunta a lhe fazer, senhor... Jorge da Silva, ou esse não é o seu verdadeiro nome?
George se cala, curioso com o desenrolar da conversa.
– Diga-me, esse não é o seu verdadeiro nome?
– Sim! – limita-se.
– Se precisa tanto da família Dumont, mais precisamente da pobre Catharine e de seu sobrenome para se alçar ao poder e vender um status que sua origem não pode lhe proporcionar, por que então se prestou a um ato tão vil como aquele?
– Eu não estou entendendo...
– Não?! – corta-lhe o médico, com a surpresa estampada à face. – Faz  mais de quarenta anos que presto serviços a essa família e é a primeira vez que sou chamado para atender a uma vítima de espancamento – no íntimo, Rubens sabia que isso não era verdade. – Ou Catharine não foi espancada pelo senhor?




FLOR-DE-CERA - CAPÍTULO 09




O vento desce do céu, bate a poeira, formando um vendaval, que corre pelas ruas carregando as folhas e outros dejetos acumulados às margens da sociedade. O relâmpago ilumina o céu enegrecido, aos poucos uma garoa fininha cai sobre Vila dos Princípios. Mulheres com filhos ao colo correm recolher as roupas do varal, enquanto os homens arrebanham o gado. A chuva engrossa, a energia escasseia e parte da cidade fica sem eletricidade. Os geradores da mansão são acionados quando as primeiras quedas de energia vitimam a casa.
Da janela dos aposentos de sua patroa, Ernestina presencia a cidade à meia luz.
– Lágrimas do céu!
– Hã?! O que disse, Ernestina? – pergunta Catharine, um pouco sonolenta.
– Que a chuva é a lágrima de Deus! Veja como o tempo mudou, o vento assopra, as gotas caem... Lembram uma pessoa em desespero! – diz, voltando-se para a herdeira dos Dumont.
– Talvez esteja chorando por mim! O que faz um pai quando um filho é injustiçado? O mínimo que se espera é o choro, talvez porque alivie a alma, tira aquele peso das costas – conclui Catharine, tentando se levantar.
– O que pensa fazer, senhora? Está em repouso! Ordens do doutor Rubens! – alerta a criada.
– Rubens esteve aqui? – pergunta, passando a mão sobre os pontos dados por ele no ferimento. – Então ele me viu dessa maneira? Quanta humilhação! Onde ele está?
– No escritório, com seu esposo, e, pelo andar da carruagem, a conversa não está sendo tão amigável.
– Tenho de impedir que Rubens comente algo com alguém; do jeito que ele é, será bem capaz de denunciar meu marido.
– E qual seria o problema se ele fizesse isso, dona Catharine? Alguém tem de pará-lo! Se não for a senhora, que seja a polícia. Ainda sonho com aquele traste saindo da mansão dentro de um camburão ao som de “Malandro é Malandro e Mané é Mané”, do grande Bezerra  da Silva.
– Não entende, Ernestina! Um escândalo desses acabaria para sempre com o futuro político de George e eu não me perdoaria.
– A... senhora... – remenda as palavras, indignada. – Desculpe- me a franqueza, mas está com dó dele ou... é impressão minha?
– Ele é meu marido! – surpreende Catharine.
– E a espancou! – completa a criada. – Acha isso certo? Não bastasse, aquele malandro foi capaz de atrocidades ainda piores.
Mostra-lhe o pingente. Catharine o recebe e chora de tristeza.
– Ele reparou o colar... – sussurra a mulher.
– E até agora me culpo pelo que aconteceu com a senhora.
– Não se culpe, no fundo, eu queria mesmo usá-lo, mas não tinha coragem. Você apenas me fez acreditar no impossível: que George não se prenderia a um detalhe como esse... E logo o colar, o ornato que adorna com um toque de elegância o colo feminino! Fui tola demais!
– E um homem que é capaz de espancar a mulher, arrebentar    o último presentinho da filha à sua mãe, merece a impunidade? O mundo está cheio de homens como ele, assim como também está cheio de homens que pagam por crimes iguais aos dele.
– Você não entende, minha querida! Ele... ele... bem...
– Não há como perdoar uma agressão dessas. Veja – mostra-lhe um pequeno espelho de bolso–, a senhora está com a face arroxeada, a fronte suturada e, sabe-se lá, poderia ter até morrido.
– Eu ainda o amo! – confessa aos prantos, escondendo-se de sua imagem com uma manta fina de linho.
– Dona  Catharine,  não  consigo  mesmo  entendê-la!  Não  é  a primeira vez que leva uma surra, entretanto, nunca foi capaz de tomar uma atitude para que o senhor George parasse com a violência doméstica. É como se a senhora gostasse... – Enche os pulmões de ar e continua: – A senhora pode até amá-lo, mas ele não a ama; quem ama não é capaz de tal brutalidade. Quem ama vive o ar que o outro respira, não o prende num “tronco” – porque seu casamento é um tronco – e o chicoteia como se estivéssemos nos tempos da Escrava Isaura. Querida, muitas mulheres passaram por humilhação semelhante - ou maior - e foram corajosas a ponto de pedirem ajuda. É para isso que existe a lei Maria da Penha. Para livrar pessoas como nós das mãos de psicopatas como George, que tratam as mulheres como se fossem objetos de uso particular. É isso que quer para sua vida? Ficar deitada em uma cama, escondendo o rosto com uma manta?
– Eu não posso fazer nada, Ernestina!
– E por que não? A senhora é forte, tem uma vontade enlouquecida de viver, mas prefere a dor ao amor; talvez porque não conheça mais esse sentimento! A mulher que vejo à frente não é a que enfrentou o marido no hospital, nem a que o desafiou há pouco, naquela sala de jantar... A mulher que vejo está perturbada pelo medo!
Catharine deixa de lado o cobertor e a abraça.
– O que posso fazer para me livrar desse mal? Como faço para esquecê-lo, ou melhor, contê-lo?
– A senhora deveria olhar para os lados, ouvir mais as pessoas, sair um pouco dessa casa, deixar os problemas de lado e viver a vida com a mesma intensidade da adolescência. Verá que há outros homens melhores, prontos para recebê-la nos braços... E quando isso ocorrer, perceberá que o que sente por George hoje não é amor, mas medo.
– E quem olharia uma mulher acabada como eu, marcada por cicatrizes?
– Homens que estão mais próximos à senhora...
– Quem em especial? – interessa-se a mulher. – Do que está falando, Ernestina?
– De que o dinheiro não é tudo na vida de uma pessoa, que há amor em todos os lugares, desde que esteja preparada para reconhecê-lo. E com certeza, em algum lugar desse planeta, há um homem capaz de amá-la de verdade, de fazê-la feliz como mulher, como ser – diz, com a face contornada por um brilho celestial. – Precisa desfazer-se desse casamento de fachada para ser feliz! Feliz! Sabe o que é isso?
Catharine balança a cabeça, negativando a pergunta.
– Quero apenas o seu bem! – cobre-a até o pescoço. – Pense no que eu disse, certo? Agora tente dormir um pouco...
– E se George resolver me bater de novo? – teme.
– Duvido, pelo menos por hoje ele não será capaz de fazer nada! Está com o rabo preso.
A empregada se retirava da alcova, quando Catharine a chama novamente.
– Feche a porta! Posso lhe confidenciar um segredo, Ernestina?
– Claro, madame! Diga o que quiser, sou um túmulo!
– Lembra-se daquele dia em que você ficou com Alana no hospital para que eu viesse tomar um banho?
– Sim... Continue!
– Estava determinada a pedir a separação, afinal, que casamento era aquele em que o marido abandonava a mulher no momento mais doloroso de sua vida para angariar recursos a uma campanha eleitoral? Ao chegar à mansão, percebi que George estava nesse mesmo quarto e pedi para trocar algumas palavras com ele. Quando se inteirou do assunto, movido por uma ira descomunal, ele me estapeou; caída ao chão, recebi vários chutes... Depois, feito um demônio, ameaçou-me de morte se eu o deixasse.
– E-ELE FEZ ISSO? – pergunta a empregada, horrorizada.
– Por que a senhora não me disse nada? Eu poderia ter chamado a polícia, colocado esse traste atrás das grades.
Catharine lhe mostra as cicatrizes da agressão.
– Meu Deus! – assusta-se a empregada. – Co-como a senhora suportou essa dor sem demonstrar qualquer sintoma?
– Rubens me prescreveu alguns analgésicos. Ele sabe de tudo!
– E como ele soube, senhora?
– Ao retornar ao hospital naquele mesmo dia, eu desfaleci sobre Alana, assim que você partiu. E como todos os funcionários já sabiam que Rubens era o médico particular da família, chamaram-no. Quando me viu, não acreditou! Cobriu o rosto com as mãos, dizendo que esse casamento me levaria à cova. Disse que denunciaria George; mas eu o adverti! E em nome de minha família, pedi sigilo!
– Rubens está certo, a senhora precisa fazer alguma coisa antes que esse homem dê cabo de sua vida!
– Tenho medo dele... – chora. – Muito medo! Ele me ameaçou de morte.
– E morrerá do mesmo jeito se com ele permanecer! Não compreende, senhora? Ele não a ama, vive ao seu lado por causa do dinheiro de sua família.
– O que faço, Ernestina?
– E aquela tal história de que o ama ainda? É verniz?
– Não sei... Estou confusa! Muito confusa!
– Nenhum amor vale a dor que está sentindo agora... Venha cá! – dá-lhe a mão. – Como sofre! Dê-me um abraço!
– Me... me... ajude, por favor! – suplica a patroa.
Ernestina encontra aqueles olhos grandes e azulados tomados pelas lágrimas e se limita apenas a consolá-los com um leve beijo à face.
Retira-se da alcova e para a alguns passos da escadaria, quando é invadida por lembranças.
– Jamais deixe minha filha reviver minha história... Quando as coisas estiverem aparentemente perdidas, lembre-se, Ernestina, dentro desse envelope há a solução para todos os problemas. Guarde-o em um lugar que apenas você tenha acesso; se cair em mãos erradas, muitas vidas inocentes serão condenadas ao vale da morte – implora Dona Franceline Legrand Dumont, a mãe de Catharine, em meio às lágrimas.
– Nunca o abra, Ernestina! NUNCA!!!
– E o que há de tão importante dentro dele, senhora? – pergunta a mucama, num misto de curiosidade e aflição, correndo os olhos ao destinatário. – É para o senhor Rubens, o médico?
– DENTRO DELE ESTÁ O DESTINO DE CATHARINE!
– E por que para o doutor Rubens Arraia?
– Minha boa amiga Ernestina, não lhe posso falar mais nada!  Se o falar, você será a próxima vítima de Dilermando Dumont, o meu esposo. Por favor, não me faça mais perguntas... Apenas prometa-me ser fiel às recomendações de que lhe fiz.
– Eu prometo, senhora!
Ao ouvir a confirmação do pedido, a senhora Dumont se retira em prantos.
– Se voltar a pôr a mão em Catharine, prometo levá-lo aos tribunais, vereador! – ameaça o médico, no escritório, de frente para George.
– Quanto você quer para ficar com a boca calada, doutor?
– Como é que é? – revolta-se Rubens com a proposta indecente.
– REPITA O QUE DISSE!
– Todos têm um preço... Fale o seu, pagarei com prazer!
Um soco desferido pelo doutor joga o camarista contra a parede.
– ESSE É O MEU PREÇO! NÃO MEÇA MEU CARÁTER COM SUA RÉGUA, VEREADORZINHO! BEM SE VÊ O QUE VOCÊ É: UM MORTO EM VIDA!
– Isso terá troco, doutor Rubens! – metralha George com o sangue escorrendo desordenado pelos cantos da boca.
– CURTA UM POUCO DO PRÓPRIO VENENO! – ironiza, apalpando o punho. – SE TOCAR EM UM FIO DE CABELO DE CATHARINE, QUE NÃO SEJA PARA FAZER UM AFAGO, ESTAREI NO TRIBUNAL, À SUA ESPERA, COMO TESTEMUNHA DE ACUSAÇÃO... SERÁ UM ESCÂNDALO INCALCULÁVEL, PORQUE TUDO O QUE FIZERA ÀQUELA DAMA, TUDO MESMO, INCLUSIVE A SURRA QUE LHE DERA POR CAUSA DO PEDIDO DE SEPARAÇÃO, VIRÁ À TONA.
– E o que ganhará com isso? – pergunta o receado vereador, com as mãos pressionando o queixo.
– A CERTEZA DE QUE HOMENS ORDINÁRIOS COMO O SENHOR ESTARÃO ATRÁS DAS GRADES!
– Não posso ser julgado por uma Corte comum, gozo de foro privilegiado! Benesses do cargo, meu querido – debocha o camarista.
– Aí que se engana! O senhor conta com imunidade parlamentar, não com foro privilegiado - corrige-o. – Mas o que isso importa? O escândalo e a fofoca não precisam de foro, estourarão em Vila dos Princípios como rojões desordenados. Tenha certeza de uma coisa: por mais dúbio que seja o caráter de seus eleitores, eles não votarão em quem espanca uma mulher. Será o seu fim político! Pense bem antes de tocá-la novamente! Estou de olho, “honrado” vereador Jorge da Silva... ou melhor, George Dumont.
Retira-se da sala feito um trovão, batendo a porta com gosto. A ira o faz ignorar a empregada, que quase esbarra nele ao descer o último degrau da escadaria. Virando-se para o escritório, Ernestina vê George com a boca e o nariz ensanguentados e, antes que fizesse qualquer pergunta, o vereador leva os dedos à nuca simulando o cano e o gatilho de uma arma, enquanto a boca reproduz o som de um disparo. É uma ameaça escancarada à empregada, que mesmo estarrecida, mantém a pose, afastando-se devagar.
Já no quarto, ela não consegue adormecer, a voz da ex-patroa   a assombra. Sentada na cama, pensa se deveria ou não entregar o envelope ao doutor Rubens Arraia. E se não fosse o momento ideal? Aliás, que revelações guardariam as páginas daquela encomenda?
Abre o guarda-roupa, dele retira uma caixa de sapato empoeirada e de dentro dela um envelope pardo, amassado pelo peso dos pares de rasteirinha. E se o abrisse?
Não! D. Franceline havia sido clara em suas recomendações, apenas doutor Rubens Arraia poderia fazê-lo. Mas se ela o abrisse, lesse o conteúdo e o fechasse com cuidado? Até poderia, mas como justificaria a quebra de juramento à sua consciência?
Com o envelope contra a luz, ela pensa... e pensa! Resiste por um momento, mas acaba completamente hipnotizada pela curiosidade
– o verme impiedoso que encarcera a alma humana, a ponto de se esquecer, por segundos, das restrições da ex-patroa.

Em transe, puxa uma das dobras do envelope, não se atinando às consequências desse ato.




autor
Carlos Mota

A novela "Flor-de-Cera" é remake de "Venusa Dumont - da memória à ressurreição" de Carlos Mota
 
elenco
Grazi Massafera como Catharine Dumont
Thiago Lacerda como George Dumont
Ricardo Pereira como Joaquim
Elisa Lucinda como Ernestina
Carlos Takeshi como Tanaka Santuku
Miwa Yanagizawa como Houba Santuku
Jesus Luz como Pietro Ferrara
Lucinha Lins como Franceline Legrand Dumont
Lima Duarte como Dilermando Dumont
Herson Capri como Doutor Rubens Arraia
Tonico Pereira como Moacir
Werner Schünemann como Paineiras Ken
Rosi Campos como Adelaide
Humberto Martins como Alberto Médici
Cauã Reymond como Ricardo
César Troncoso como Zé dos Cobres
Ilva Niño como Josefa
Selton Mello como Zelão
Matheus Nachtergaele como Meia-noite
Caio Blat como Delegado de Vila Bonita
Caio Castro como Leandro
Alexandre Borges como Doutor Jaime
Caroline Dallarosa como Carmem
Fernanda Nobre como Stela

participação especial
Stênio Garcia como Doutor Lúcio
Drica Moraes como Desirê
Marco Nanini como Chico Santinho

atores convidados
Ary Fontoura como Doutor Tobias
Alexandre Nero como Júlio Avanzo
Elizangêla como Maria

a criança
Valentina Silva como Alana

trilha sonora
Lágrimas da Mãe do Mundo - Sagrado Coração da Terra (abertura)


desenhos
Andrea Mota

produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela

Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO



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